O sol brilhava forte naquela tarde de domingo. A primavera acabara de chegar e as flores coloriam os jardins das casas do quarteirão. Duas senhoras caminhavam pela calçada com sacolas cheias de frutas frescas e algumas crianças brincavam correndo pelo meio da rua. Não havia carros passando por lá, a cidade estava, como sempre, tranquila e agradável.

Quase no fim da rua, ao lado da casa do Sr. Johnson, jazia a humilde residência da família Brooks. Um verde intenso e hipnotizante na grama bem aparada no jardim, contrastando com as cores fortes das várias flores deslumbravam os olhos de quem passava por ali. A Sra. Brooks por várias vezes havia ganhado o concurso de jardinagem do bairro.

Estava bem na hora do almoço. Cecilia colocava utensílios na mesa, cinco de cada. Seu marido estava lendo um jornal sentado no sofá da sala. O rádio ligado em um jogo de futebol qualquer, que ele ouvia sem prestar muita atenção.

– O almoço está na mesa – Disse ela, passando por trás do sofá e dando um leve tapinha no ombro de Jerome.

– Já estou indo, querida – Respondeu ele, sem tirar os olhos das notícias.

Ela chegou ao pé da escada e chamou pelas crianças.

– Meninos, o almoço está pronto! – Disse alto.

O primeiro a descer foi Michael, que vinha correndo numa euforia imensa.

– Mãe, eu posso andar de bicicleta com os meninos?

– Já fez a lição de casa?

– Sim.

– Então depois que almoçar pode.

O pai sentou-se à mesa e esfregou as mãos.

– O que temos aqui?

O irmão de Michael, Simon – que tinha 15 anos e era 4 anos mais velho que ele – , chegou à cozinha e sentou-se.

– Onde está a Heather? – Perguntou a mãe.

– Não sei, acho que ela não saiu do quarto – Respondeu ele.

– Eu vou chamá-la.

Cecilia tirou o avental e colocou sobre o balcão da cozinha. Em seguida deixou o cômodo.

***

Alguns minutos depois, quando Michael saiu de casa, andou pela grama do jardim até a lateral da casa, onde, encostada na grande árvore do quintal, estava sua bicicleta. Vermelha e já um pouco velha, com uma pequena buzina presa ao guidão, ela era seu tesouro.

Sem montar, ele conduziu a bicicleta até a calçada. Subiu na sela e olhou para os lados. Sem carros, apenas as crianças brincando de algo que parecia ser amarelinha.

Michael tinha 10 anos, mas já se achava velho o bastante para andar de bicicleta por onde quisesse. Infelizmente, para ele, sua mãe não. Ela deixava no máximo ele andar pelo centro e em dias de domingo, quando o movimento na pequena cidade era ainda menor que o usual.

Apesar do sol estar brilhando forte, ele pilotava sua bicicleta sentindo-se confortável. O vento circulava agradavelmente pela rua.

Ele entrou na primeira rua adjacente à esquerda e parou em frente à uma casa branca. A segunda da sequência.

Colocou a bicicleta deitada no meio fio cuidadosamente e entrou pelo portão da cerca. Caminhou pela passarela de pedra e tocou a campainha. Segundos depois, pela janela de vidro ao lado da porta, ele viu uma mulher vir atender.

Ela abriu a porta e sorriu ao ver que era Michael.

– Ah, oi Michael, Tyler já está descendo – Disse ela.

– Tá bom Sra. Goode – Respondeu ele, simpaticamente.

– Sua mãe está em casa?

– Está sim.

– Ótimo, eu vou dar uma passadinha lá daqui a pouco.

A mãe de seu amigo foi até o pé da escada.

– Tyler, o Michael já está aqui! – Exclamou ela.

– Já estou indo! – Respondeu o garoto, de longe.

Segundos depois, ele desceu as escadas correndo.

– Quero e que volte cedo – Disse ela, para seu filho, ajeitando a gola de sua camisa. Em seguida virou-se para Michael – E não vão muito longe.

– Tá bom – Os dois responderam praticamente ao mesmo tempo.

Ela fechou a porta e Tyler caminhou até o quintal, pela lateral da casa, onde estava sua bicicleta, e Michael foi até a sua bicicleta, se preparar para os dois saírem.

Quando os dois subiram em suas bicicletas, começaram a descer a rua de Tyler. Antes de entrar em outra delas, eles viram dois garotos em suas bicicletas. Andy e Hector.

Ao se encontrar, os quatro pararam.

– Já estávamos na sua casa Hector – Disse Tyler.

– Minha mãe não me deixou ir muito longe – Avisou Andy.

– Nossas mães também não – Falou Michael.

– Então, para onde vamos? – Perguntou Hector.

– Não sei, vamos só andar por aí – Respondeu ele – Me sigam.

Michael saiu pedalando em frente. Os outros o seguiram.

***

Minutos depois, eles haviam comprado balas e chicletes e Hector levava as guloseimas em uma bolsa.

– Para onde vamos agora? – Perguntou Tyler, enquanto os quatro permaneciam parados em frente à praça da cidade.

Andy saiu da bicicleta e sentou-se em uma banco.

– Vamos sentar aqui – Sugeriu ele, aparentemente cansado.

– Não, eu já sei para onde vamos – Respondeu Andy.

– O que? – Perguntou Michael.

– Vamos para a cachoeira.

– Tá louco? Minha mãe me mataria se eu fosse pra lá! – Disse Tyler.

– Não é muito longe daqui...

– Vamos – Falou Hector.

– E as nossas mães? – Perguntou Michael.

– É só não contar, elas não vão descobrir – Respondeu Andy.

Os quatro se entreolharam, até que Michael desfez sua expressão de medo e disse:

– Vamos.

– Só falta você Tyler – Disse Hector, olhando o amigo cansado sentado no banco.

– Eu não sei, tenho medo de ela descobrir.

– Mas não é a primeira vez que a gente vai, da outra vez ela descobriu?

– Não – Respondeu ele, quase convencido.

– Então vamos, a gente não vai demorar lá – Falou Andy.

– Tá bom, vamos.

Os quatro pegaram suas bicicletas e começaram a pedalar rumo à cachoeira.

***

Ao chegar em uma placa que dizia “Rio Springfield”, os garotos pedalaram por uma trilha no meio da floresta. Pouquíssimo tempo depois, estavam lá. Na cachoeira.

Os quatro pararam e colocaram suas bicicletas de lado. Em seguida sentaram na imensa pedra que havia na beira do rio. Hector pegou a sacola de papel e jogou os doces no chão. Cada um pegou o que era seu e depois eles começaram a comê-los.

– O George vai estudar medicina no próximo semestre – Comentou Andy.

– Finalmente ele conseguiu, que bom – Disse Hector – Meu pai disse que quer que eu estude isso também, mas eu não quero.

– E você quer o que? – Perguntou Tyler.

– Eu quero construir aviões e carros – Respondeu ele – Não sei qual profissão faz isso.

– Acho que é mecânico – Falou Andy.

– Deixa de ser burro cara – Disse Michael, dando um leve soco no ombro dele – É engenheiro.

– E você Michael, quer estudar o que? – Questionou Hector.

Michael sempre soube o que queria, desde pequeno. Seu desejo era conhecer os mistérios do corpo humano.

– Medicina – Respondeu ele, com um sorriso no rosto.

– E se nós tivermos que viajar pra longe quando formos pra universidade? – Perguntou Andy.

– Nós nunca podemos deixar de se encontrar... Nunca... Prometam – Disse Hector.

– Eu não quero crescer, não quero sair daqui e nem trabalhar – Falou Andy.

– Não importa o que acontecer, nós vamos se encontrar sempre, até ficarmos velhos.

8 anos depois

Na grama do parque da cidade, rodeados das árvores floridas, Victoria e Michael estavam sentados.

– Meus parabéns pela faculdade – Disse ela.

– Eu não queria falar sobre isso agora – Falou ele.

– Mas vai ter que falar, Michael, você vai ter que partir em poucos dias.

Lá estavam os dois, sentados na grama, olho no olho. Ela tinha um sorriso sincero estampado no rosto. Ele também, um sorriso de admiração ao olhar para o rosto angelical de sua namorada. Apesar de estar sorrindo, no entanto, ele escondia um medo gigantesco. Um medo de mudar sua vida, morar sozinho em outro lugar, ter responsabilidades. Medo de crescer.

– Quando é a partida? – Perguntou Victoria.

– Daqui a uma semana – Respondeu ele – Mas você nem pergunta se eu vou ficar ou não?

– É claro que não, isso foi o que você sempre quis, é o seu sonho, não deve ficar.

Ele segurou a mão dela, um toque quente e suave.

– Você é tudo o que eu sempre quis.

Ela sorriu.

– Michael, eu não posso deixar você ficar por minha causa, não é justo com você... E além disso, sua família me odiaria por isso.

Os dois riram.

– Eu não quero que tudo isso acabe – Disse ele, ficando sério novamente.

– Nem eu, mas você precisa ir.

– Mas...

– Não, não, não – Interrompeu ela – Sem mas... Você pode não estar raciocinando bem agora, mas quando parar pra pensar, saberá que essa é a escolha certa.

Ele ficou em silêncio por um tempo, com um sorriso no rosto.

– Você é perfeita.

Ela sorriu.

– É o que dizem...

– Como pode aceitar tudo numa boa?

– Porque eu me importo com você.

Na verdade, Victoria estava tão aterrorizada com a ideia de se separar de Michael quanto ele, mas não podia deixar tais sentimentos à mostra. Ela sabia que esse era seu sonho. Sempre havia sido.

– Nós vamos continuar nos falando à distância – Disse ele – Eu vou te encher o saco todos os dias.

– Eu conto com isso...