Gone
9 Capítulo 08 - O Tempo
Naquela semana de janeiro, Michael e Victoria reataram o relacionamento de um modo tão intenso que se viam quase todos os dias e saíam várias noites por semana, às vezes um dormia na casa do outro.
Em um sábado, durante o dia, eles estavam na sorveteria, mas Victoria parecia preocupada.
– O que houve? – Perguntou ele.
– Não foi nada, é só que...
– O que?
Ela relutava em contar.
– Você está assim há algum tempo, o que está te perturbando.
– Eu tenho uma coisa para te falar.
– O que?
– Você lembra do Hector?
– Sim – Respondeu ele, já sabendo sobre o que ela falaria.
– Eu e ele namoramos por quatro meses até ele começar a se envolver com gente da pesada... Bem, esse foi o relacionamento ruim que eu te falei... Enfim, ele foi preso por um assalto.
– Eu soube disso.
– O problema é que eu fiz a denúncia que levou a polícia até ele.
– Mas por que isso é um problema?
– Ele sabe disso.
– Mas ele está preso agora, você não precisa ter medo.
– É aí que entra a minha preocupação... Faltam dois dias para ele sair da prisão.
– E você acha que ele vai voltar?
– Eu não sei, mas tenho medo.
– Quando ele estiver aqui, é melhor você passar alguns dias na minha casa.
– Eu me sentiria mais segura – Ela deu um tímido sorriso.
– Não se preocupe, nós podemos ir à delegacia, pedir alguma ordem de restrição temporária, sei lá.
– Não sei se isso é possível.
– Mas você está esquecendo que talvez ele nem apareça por aqui, talvez ele queira recomeçar a vida em outro lugar... Eu mesmo não pisaria aqui de novo depois de todo mundo me ver sendo preso, sentiria vergonha.
– Você tem razão.
Dois dias depois
Michael estava no carro de sua irmã, chegando à casa de Victoria. Entrou pelo portão aberto e estacionou ao lado do carro dela. Quando saiu do carro, foi até a porta e bateu. Ela atendeu segundos depois.
– Está pronta? – Perguntou ele.
– Estou – Respondeu ela.
Em seguida, Victoria caminhou até a sala e pegou uma mochila branca, onde estavam algumas roupas e outros objetos.
Alguns instantes depois, estavam dentro do carro, voltando para o centro da cidade.
– Eu nunca fiquei tanto tempo assim na sua casa – Comentou ela.
– Que tal ficar a vida toda? Na nossa casa?
– Você ainda pensa nisso?
– Você não?
Ela olhou para a floresta lá fora, pensando em como seria.
– Talvez... Quando era pequena sempre quis ter filhos e um marido, mas isso parece tão longe agora.
– Por que tão longe? Eu estou aqui.
– Não é você, sou eu.
– Que frase clichê, Vic, você pode fazer melhor do que isso – Brincou Michael.
– Estou falando sério, eu não sou a mesma garota de antes, se eu fosse você, iria querer ficar longe de mim.
– Ficar longe de você é a última coisa que eu quero.
Quando chegaram em frente à casa de Michael, ele estacionou o carro e eles desceram. Antes de entrar em casa, ele olhou para o outro lado da rua, havia um carro preto parado e dentro dele estava Hector, quase irreconhecível, com a cabeça raspada e muito mais magro. O ex-namorado de Victoria estava olhando para eles, com um olhar sério.
Victoria ficou aterrorizada quando viu, desviou o olhar e voltou a caminhar até a porta, assim como Michael. Ouviram o som de pneus queimando no chão e olharam para trás, vendo que Hector havia ido embora, em alta velocidade.
***
No quarto de Michael, eles conversavam.
– Não pode ser, não pode ser – Dizia ela, sentada em cima da cama, balançando a perna esquerda sem parar. Estava muito nervosa – Eu não acredito que ele voltou.
– Fique calma – Falou Michael, sentado de frente para ela – Ele deve ter vindo apenas para ver a mãe dele.
– Você não viu como ele me olhou? Ele ainda está com raiva pelo que eu fiz.
– Você fez o que era certo.
– Tente explicar isso a ele.
***
No dia seguinte, Michael e Victoria compravam remédios para a mãe em uma farmácia da cidade. Quando saíram o estabelecimento, ela percebeu que, do outro lado da rua, Hector esperava encostado à porta do seu carro.
– Ele voltou – Disse ela, baixinho.
– Onde?
– Do outro lado da rua.
Michael olhou e viu ele atravessando, vindo em direção a eles.
– Hector – Disse ele, quando seu ex-amigo chegou ao outro lado da rua, bem à frente deles.
– Michael, há quanto tempo...
– Pois é.
Ele olhou para Victoria e ela deu um tímido sorriso.
– Você deve achar que eu estou furioso.
– Eu também estaria.
– Pois é, mas eu não estou, esse tempo que eu passei na cadeia serviu para repensar minha vida.
– Sério?
– Sim, sim, eu não guardo ressentimentos, queria que você soubesse.
O que se seguiu foi um silêncio entre as três partes.
– Err, então, era só isso que eu precisava falar, me desculpa por tudo o que eu já fiz, sou outro homem agora.
Ela sorriu para ele, desta vez de verdade.
– É bom ouvir isso – Disse Victoria.
– Vocês estão juntos novamente?
– Sim – Respondeu Michael.
– Meus parabéns, para os dois, e felicidades também, são perfeitos uns pros outros.
– Obrigado.
– É, então tá, eu preciso ir, tenho algumas coisas para fazer, talvez eu os veja por aí.
– Talvez.
Ele atravessou a rua e voltou para seu carro. Em seguida deu a partida e foi embora, despedindo-se com um aceno e um sorriso.
– Eu não acredito nisso – Disse Victoria.
– Viu? Você estava preocupada por nada.
– Acabei de tirar um peso das minhas costas.
– Então vamos voltar logo, quero chegar ao cinema antes dos trailers.
– Tudo bem.
***
Mais tarde, à noite, os dois estavam deitados na cama de Michael, ela deitava em seu peito enquanto ele passava as mãos pelos cabelos loiros dela.
– Eu acho que amanhã vou dormir em casa – Disse ela.
– Por quê?
– Não tenho mais por que ficar aqui e não quero deixar minha mãe sozinha.
– Não tem mais por que ficar aqui? E eu?
– Você entendeu.
– Eu te levo pela manhã então, mas já que essa é a última noite que você dorme aqui, precisamos de uma programação especial, não?
Ele ficou por cima dela e beijou-lhe, ela beijou de volta.
– E o que seria essa programação?
– Não sei, talvez...
Ele não disse nada, apenas levou sua mão até as coxas dela e subiu pelo vestido, até chegar à sua calcinha. Victoria deu um tapa na mão dele e Michael tirou.
– Agora não.
Ela se levantou e foi até o banheiro.
– Você se lembra do Andy? – Perguntou ele, mudando de assunto.
– Claro – Respondeu ela, através da porta entreaberta.
– Ele ainda vive por aqui?
– Não, ele se mudou para o Japão há dois anos.
– Para o Japão? – Michael ficou surpreso.
– Pois é, foi a trabalho e só volta uma vez por ano, nós sempre conversamos, ele está muito bem lá.
– É tão estranho o que o tempo faz com as pessoas...
– Como assim?
– Eu encontrei o Tyler na semana passada e agora ele tem filhos.
– Ah, é, um garoto e uma garota, não é?
– É... Eu nunca pensei que ele poderia ser do tipo pai, sabe? Ele era tão louco nos tempos do colégio, ficou com tantas garotas, dizia que nunca iria se casar e hoje está aí, casado e com filhos.
– As pessoas mudam – Victoria falou, saindo do banheiro.
– Isso me faz pensar que eu parei no tempo, ainda sou o mesmo garoto que não consegue ter responsabilidades... E ainda não consegui um emprego... Queria ter uma casa, filhos, uma esposa...
– Você terá, não se preocupe.
Ela se deitou novamente, ao lado dele, e os dois permaneceram assistindo TV.
– Terei, é? – Michael sentiu que aquilo era um sinal de que ela queria um futuro com ele.
– Eu tenho certeza disso.
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