Golpe Baixo

1 Capítulo Único


Izuku não consegue falar “não” para ela. Simplesmente não está na natureza dele, a Uraraka chega com aquele sorriso reluzente e diz “Deku-kun!” em uma voz amistosa, e puf! A palavra “não” some de sua cabeça, é como se ela tivesse mais uma individualidade além da Gravidade Zero.

Não que ele sequer tenha a intenção de dizer “não”, Uraraka raramente pede alguma coisa pra ele e, quando pede, não é nada absurdo. “Posso copiar suas anotações da aula, Deku-kun? O Ectoplasm-sensei apagou a lousa muito rápido!” “Troca de lugar comigo, Deku-kun? Às vezes eu passo mal com movimento e é melhor ficar mais perto do corredor, né?” “Me espera aqui um pouquinho, Deku-kun? Vou ali, mas é rapidinho!” ela pede pequenos favores e sempre se justifica — como se precisasse — visivel e desnecessariamente envergonhada, e Izuku nunca diz “não”, jamais a negaria o que quer que fosse.

Então, quando Uraraka se aproximou dele na academia e pediu pra praticar o sparring com ela, tocando os dedos com cuidado para não encostá-los completamente um contra o outro e explicando que normalmente treinaria com a Tsuyu, mas como ela não estava se sentindo bem, ficou sem sua parceira tradicional. Ele gaguejou um “Claro!”, é raro eles treinarem juntos assim, ela costuma vir em horários diferentes do dele, e Izuku tem que seguir à risca o treinamento que o All Might lhe passou, os desencontros na academia infelizmente são a lei pra eles dois.

Mas hoje não, o All Might o liberou, mas o aspirante a herói optou por não ficar no ócio e ir malhar na academia, onde a encontrou socando e chutando um saco de pancadas, foi… bem difícil não ceder à tentação de ficar ali parado assistindo-a, observando a forma e postura perfeitas, imaginando o quão forte um soco dela pode ser… mesmo depois de quase três anos sendo colega de classe e amigo, Izuku não se cansa de se admirar com as capacidades da Uraraka, mais admirável ainda é como ela consegue sorrir daquele jeito gentil depois de ter torturado o saco de pancadas e cumprimentá-lo com doçura. A palavra “não” imediatamente sumindo da memória dele.

Então ele topou treinar com ela, é só mais uma maneira de manter a forma e pôr suas capacidades à prova contra alguém extremamente habilidoso em combate de curta distância, fora que não saber quando ela está ou não usando a Gravidade Zero para se tornar mais “aerodinâmica” é um ótimo teste de percepção do adversário. É uma pena que isso não seja recorrente… é uma pena que ele esteja sempre tão ocupado e ultimamente tão distante de sua melhor amiga… mas principalmente, é uma pena que Izuku não entende direito o que acontece quando tá perto dela, que não importa o quanto ele amadurece e se desenvolve, ainda cora e gagueja como se estivesse falando com uma menina pela primeira vez quando ela simplesmente o olha. E é uma grande, enorme pena que ele esteja pateticamente distraído a ponto de não perceber um joelho vindo com tudo para acertá-lo bem no estômago, Izuku se esquiva desajeitadamente e não é atingido onde ela pretendia, mas ainda é golpeado… um pouco mais abaixo do estômago.

Olha, ele já viu a Jirou e a Tsuyu batendo no Mineta e o acertando nessa parte específica algumas vezes, o garoto de cabelo grudento chora e se contorce como se tivesse levado um tiro, Izuku até achava ser um pouco de exagero, mas… não é. Realmente dói, dói muito. Claro, não tanto quanto quebrar os ossos dos dois braços ou ter uma individualidade semelhante a um chicote descontrolado tomando posse de seu corpo, mas… dói de modo que sua visão fica preta e ele não consegue ficar de pé sobre o tatame.

— D-Deku-kun? Ei… o que aconteceu? — a voz da Uraraka soa assustada — M-me desculpa, eu... onde tá doendo? Na costela? — Ai não… ela não percebeu onde o acertou de verdade. Com certeza é beeeem mais abaixo da costela.

Mas ele não pode dizer isso pra ela, imagina! Izuku gesticula um “não” e rola pro outro lado para ficar de costas, levando as duas mãos na direção da virilha e estrangulando um grunhido de dor.

— T-tá, tá… tudo bem, Uraraka-san! Você só me pegou de surpresa, mas não tá doendo! Eu só… só vou ficar deitado aqui um pouquinho pra… pra me recuperar da… da surpresa, ok? — ele ouve a própria voz saindo uma oitava mais fina, mas que droga!

— Deku-kun, você tá claramente com dor! — ela se levanta e volta a ficar de frente pra ele — Me deixa ver o estrago, eu posso massagear pra aliviar um pouco antes de — M-ma… massagear?

— NÃO! — ele esbraveja, não sabendo se está mais com dor ou com raiva de si mesmo por gritar com ela. Ah que droga! — N-não precisa, Uraraka-san! Eu tô bem! Não… não precisa se preocupar, nem… nem massagear nada!

— Eita, o que rolou aqui? — essa voz… Kaminari!

— Tudo certo aí, gente? — e essa voz… Kirishima!

— Eu não sei, eu acertei o Deku-kun, mas ele tá com tanta dor que parece estar confuso! Eu juro que não o acertei na cabeça, eu juro!

— E-eu acredito! — o loiro garante enquanto o Kirishima se aproxima. Izuku levanta a cabeça para olhá-lo nos olhos, o ruivo parece se assustar.

— Tudo bem aí, cara? Onde tá doendo? Aqui? — ele o aperta na coxa, o garoto de cabelos verdes balança a cabeça negativamente e lança um olhar cheio de significados na direção da virilha, o Kirishima franze o cenho, obviamente não entendendo. Ah que droga! Ele vai mesmo ter que falar? Izuku olha mais uma vez e tenta se apertar discretamente — Ahhhhhh tá… vish!

— Vish? O que é vish? — Uraraka pergunta num misto de confusão e irritação. Kirishima o olha mais uma vez, como se querendo confirmação que não é pra contar pra ela. LÓGICO QUE NÃO É PRA CONTAR PRA ELA!

— Hã… vish, que… alívio, achei que era coisa pior, mas… não é nada sério! — ele diz bem lentamente e olha para a Uraraka — Relaxa, Uraraka, você não o machucou pra valer!

— Certeza, cara? O moleque tá todo se tremendo! — o Kaminari intervém — O que vocês tavam fazendo?

— A gente só tava treinando, eu tentei acertá-lo no estômago, mas ele pulou e, como eu tô treinando pra tirar a gravidade em algumas partes do meu corpo, não sei onde exatamente foi o impacto do chute, mas… foi sem querer, Deku-kun, eu juro! Eu nunca… te machucaria!

— Eu sei, Uraraka-san! Tá tudo bem! Tá tudo… bem. — ele tenta se levantar de uma vez só, e quase consegue, mas acaba cambaleando um pouco, sendo amparado pelo Kirishima.

— Vem, Midoriya, eu vou te ajudar a ir pra Recovery Girl. — o ruivo diz pacientemente.

— Pra… p-p-pra Recovery Girl? M-mas, ela vai me examinar? — ele arregala os olhos — Você acha que… ela vai ter que me beijar-

— Melhor não pensar nisso, cara, só vâmo!

— Eu ajudo, minha individualidade é feita pra esse tipo de situação. — Uraraka se oferece, e Izuku se afasta, odiando-se ao ver a expressão triste dela.

— Não precisa, Uraraka, a gente se vira. Fora que é melhor o acompanhante ser outro cara, né? Vai que ele precisa fazer uns exames que tem que tirar a roupa e tal. — Kirishima explica de maneira surpreendentemente calma e segura.

— O-oh… é, acho que sim. — ela fica vermelha, o que o faz esquecer momentaneamente da dor… pena que não é por muito tempo e ele se vira pra ela não vê-lo segurando a virilha. Kirishima o ajuda a andar enquanto eles se afastam lentamente.

— Pera, acho que… eu saquei o que rolou aqui… — o Kaminari de repente se manifesta, deixando tanto Izuku quanto seu amigo ruivo mortificados — Viiiiiiish!

— Kaminari-kun! Eu… tá tudo bem!

— É, cara! Não tá vendo que tá de boa? Então… vê se fica de boa, sacou? Numa… boa… — o Kirishima diz vagarosamente.

— Hã… tá. — então ele olha rapidamente pra Uraraka — Ahhhh tá. Ah, fica em paz, Uraraka! Daqui a pouco eles tão de volta! Por que você… não vem treinar comigo?

Izuku respira aliviado ao vê-la ceder e se permitir ser guiada pelo Kaminari, ele dá as costas e anda lentamente com o Kirishima ao lado para ajudá-lo. Ainda tá doendo, mas não é como se não desse pra andar sozinho. Mas então… ele ouve mais uma voz muito familiar ecoando pela academia. Kacchan tá gritando com a Uraraka pra ela sair da frente.

— Bakubro, fica de boa, cara!

— Vai se foder, Pikachu, tô aqui na fila, então vê se não me enche o saco!

— Que fila, mano? Tá doido?

— A fila pra dar um chute nas bolas do Deku! A Cara de Lua aí já teve e vez dela, tô esperando a minha, porra!

— O QUÊÊÊÊ? — a voz chocada dela é a última coisa que ele ouve antes de sair correndo dali.

***

Ochako respira fundo e finalmente junta coragem para bater na porta, sentindo seu peito apertar com a resposta de “Pode entrar!” vinda de lá de dentro. Tão devagar como se estivesse entrando em uma casa mal-assombrada, ela põe um pé dentro do quarto decorado com All Might em todos os tamanhos e poses.

— Ei… tudo bem? Você tem um tempinho pra mim?

— U-Uraraka-san! C-claro! — ela o observa ajeitar a postura na cama e se sentar.

— Ok! — ela finalmente adentra por completo, sorrindo meio desajeitada — Aqui, eu… peguei pra você. — Ochako estende uma bolsa de gelo para ele — O Kirishima-kun me falou que você tava precisando pra… aliviar a dor…

— É, a Recovery Girl deu uma olhada e disse que não precisava de nenhum tratamento intensivo, o-obrigado, Uraraka-san! Vai me ajudar bastante! — ele aceita a bolsa de gelo e, com movimentos robóticos de tão envergonhados, apoia a bolsa de gelo bem por cima dos shorts azuis-escuros, em uma certa região. Ochako limpa a garganta e olha para o lado.

— Deku-kun, me desculpa mesmo! Eu juro que não percebi, eu-

— Tá-tá tudo bem, Uraraka-san! Não tem que se desculpar por vir com tudo pra lutar comigo, eu que fiz besteira! Eu… me distraí e… enfim, você não fez nada de errado!

— Eu… eu sei, é só que… aargh! Eu fiquei tão animada em te ver na academia e foi tão legal você topar treinar comigo! Faz tanto tempo que a gente não faz isso e eu… queria tanto mostrar meu progresso e… olha o que aconteceu! — ela se permite ser completamente honesta, já cansada dessa frustração e vergonha que sente quando fala com ele.

— Eu… eu vi seu progresso, foi isso que aconteceu. — ele dá um de seus sorrisos serenos, o que a alivia por uns segundos, mas um segundo depois a sufoca. Quase três anos, e Ochako ainda não sabe lidar consigo mesma quando ele sorri assim pra ela — Foi um chute muito bom, você faria um bom estrago s-se… se tivesse acertado o lugar certo.

— E-espero… — não, Ochako, nem pensa em dizer isso! Fica quieta! — espero não ter causado nenhum estrago… — droga!

— N-não, tudo bem! A Recovery Girl disse que eu não corro nenhum risco permanente! Tudo vai… continuar funcionando normalmente como de qualquer garoto! — a voz dele soa super fina e o rosto parece ter entrado em uma competição contra o dela para ver qual fica mais corado. Ochako tem certeza que está ganhando por pouco — Q-quer dizer, eu… hã, não que eu… esteja fazendo atividades contínuas que precisem de- eu… quer dizer, eu não… aargh! — ele desiste de se explicar, levando as duas mãos ao rosto enquanto continua murmurando coisas ininteligíveis.

Respirando fundo e retomando coragem, Ochako se aproxima da cama. Seu coração parece estar preso na garganta enquanto ela se recorda da alegria em tê-lo visto na academia. Deku tem estado cada vez mais ausente e, apesar de ela saber que não é nada mais que natural, é impossível não sentir uma saudade agoniante dele, são nos momentos em que ele não está que ela percebe o quão feliz fica quando ele está aqui, perto dela. Ochako aceitou que o ama há muito tempo, e está em paz com sua decisão de dar prioridade à U.A., mas… só por hoje, só por agora… será que é assim tão ruim se permitir ser um pouquinho indulgente?

Ela pega a bolsa de gelo e recoloca no lugar, o que imediatamente chama a atenção dele. Deku está constrangido, mas não inicia outro surto, apenas a observa com olhos gigantes e curiosos, a respiração tão suspensa quanto a dela.

— Se cuida, Deku-kun, eu me sentiria muito mal se alguma coisa acontecesse com você… q-qualquer coisa mesmo…

Ele não diz nada, apenas parece engolir a saliva e balbucia um “tá bom”. Ochako sorri e retira a mão, não acreditando na própria falta de vergonha, ela se afasta, murmurando estar aliviada por ele estar bem e andando em direção à porta.

— Uraraka-san? — ele a chama antes de ela poder sair.

— S-sim?

— A gente precisa marcar uma revanche quando eu estiver melhor, tá bom? — o tom dele é nada mais que amistoso, mas também inabalável.

— Quando você quiser, Deku-kun. Só não esquece de usar protetor genital na próxima.

Notas finais
Olá! Cheguei com essa Izuocha bobinha porque é meu jeito favorito de escrevê-los huahudhjks

Espero que tenham curtido! Nos vemos por aí!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!