Golden College

21 It's football day, baby!


Notas iniciais
Olá, peoples, Eis que trago mais um capítulo dessa fic. E esse está quentinho, acabei de terminar de escrevê-lo e resolvi postar logo. Como eu falei anteriormente, minha prioridade é revisar menos e postar mais, quero concluir logo essa história e ainda falta muito. Então, fiquem ligados que o capítulo NÃO está betado e deve estar cheio de erros. Relevem, please. Quaisquer erros muito grotescos, por favor, não se acanhem em me avisar. Ok? Boa leitura!

CAPÍTULO 21 – GOLDEN COLLEGE

It's football day, baby!

Aquele era um dia importante para os jogadores de futebol da Golden College. Era o dia da final do College football national championships, o principal campeonato nacional de futebol americano universitário nos Estados Unidos. Professores, alunos, familiares, pessoas da cidade, todos estavam reunidos no estádio da Universidade de MIT — onde era sediado o jogo — para verem os Golden Saints enfrentando os Elysius University. Muitas pessoas pintavam o rosto com a cor da bandeira de seus times, enquanto gritavam eufóricas pelos nomes destes.

Os atletas foram todos convidados para um café da manhã especial. O diretor esportivo da Golden College foi até os seus jogadores para parabenizá-los e dizer que já eram vencedores, ainda que fizesse questão de lembrá-los da história de vitórias dos Golden Saints no futebol e do quanto continuar com essa tradição era importante para eles. Ao final do discurso, todos cantaram o hino do time.

Depois disso, os jogadores se prepararam para seguir em direção ao estádio, faltava pouco para o jogo começar. Enquanto os meninos seguiam seu caminho, num bate-papo descontraído, o treinador Kanon chamou Aiolia para uma conversa particular.

— Você sabe que esse jogo é muito importante, não sabe? — Kanon falou, e Aiolia confirmou com a cabeça. Quantas vezes ouviria essa informação naquele dia? — E que a sua posição é um dos pilares da linha ofensiva, e eu sou louco por colocar um calouro nessa posição.

O quarterback de um time de futebol era considerado o cérebro do time, aquele que ditava as táticas e que era responsável por dar as coordenadas durantes o jogo. Por isso, geralmente essa posição era ocupado por um veterano, mas Kanon achou que Aiolia tinha muitas habilidades em campo para serem desperdiçadas no banco de reservas, e resolveu apostar.

— E eu sou muito grato pela confiança, treinador...

— Então não me decepcione...

— Não vou — respondeu confiante, mas não podia negar que se sentiu um pouco pressionado.

— Temo outra coisa que eu gostaria de falar com você. Hoje haverá muitos olheiros da National Football League e todos estarão te observando. Isso é um grande passo para o seu futuro, se quiser seguir a carreira de jogador, como eu acredito que você queira. Então tenha cuidado com o que vai fazer nas comemorações ou falar nas entrevistas... — Kanon fez uma pausa para observar a reação de expectativa de Aiolia. Falar sobre aquilo era tão constrangedor! Mas ele conhecia seu atleta, sabia que o garoto tinha talento e que seria uma lástima se perdesse uma futura carreira profissional por se impulsivo demais e fazer as coisas sem ponderar as possíveis consequências. — Seja discreto na sua vida pessoal, se quiser ter algum futuro como jogador.

— Está com medo de que eu faça alguma declaração para o meu namorado... — Aiolia logo deduziu aonde o treinador queria chegar. Se lembrava de como Kanon não gostara da declaração que fizera para Mu no Starbucks. — Eu não entendo, treinador, o senhor mesmo vive dizendo que devemos ser julgados apenas pelo que fazemos em campo, e não por quem somos. Não se lembra?

— Eu me lembro e não mudei o meu modo de pensar. Nosso time é como uma família. Independentemente de onde você é, quais são suas crenças religiosas, sua orientação sexual, se você for bom o suficiente no time, você faz parte da família. — Kanon reafirmou seu discurso. — E é por você fazer parte da família que eu estou tendo essa conversa com você... o apoio dos colegas de time é uma coisa, Aiolia; avaliar como reagiram os times profissionais que recrutam jogadores é outra.

— Eu não sou o primeiro, nem o único jogador de futebol gay...

— Parece que você não está me entendendo, então serei bastante claro. — Já impaciente, Kanon interrompeu um possível discurso de Aiolia. — Ninguém aqui está se importando com quem você namora, isso não é da minha conta e nem da conta de mais ninguém, você não precisa dar explicações sobre isso. O que não significa que você precise ficar dando shows para esfregar isso na cara de todo mundo. Os olheiros geralmente realizam intensas investigações dos atletas e tenho certeza de que nenhum time vai querer contratar um jogador que faz questão de atrair um circo da mídia desde o início. Ainda que você seja bom, existem muitos outros jogadores muito bons também e, por isso, eles não vão contratar profissionais que apareçam mais em capas de revista de fofoca no que em matérias esportivas. Chame atenção da mídia pelas suas habilidades, garoto, e não pelos seus hormônios aflorados! Agora chega dessa conversa constrangedora, que temos um campeonato para ganharmos hoje. — Dito isso, Kanon se retirou sem esperar resposta. Ela havia feito sua parte em orientar o garoto.

Aiolia respirou fundo, e caminhou para alcançar seus colegas, enquanto refletia sobre aquelas palavras.

* * *

Enquanto isso, na Golden College, os alunos que não tinham viajado para Cambridge assistiam ao jogo pela TV, que era transmitido ao vivo.

Mu estava no quarto de Afrodite, assistindo ao jogo na companhia do amigo e de Shaina.

Seu celular apitou. Era uma mensagem de Camus. Mu havia o convidado para assistirem ao jogo com eles. No entanto, Camus apenas agradeceu o convite e o recusou, dizendo que assistiria com seu colega de quarto e a namorada dele.

De repente, Mu escutou o comentarista falar o nome de Aiolia e a sua a atenção se voltou para a imagem do namorado que aparecia na tela.

Essa é a primeira vez que um calouro concorre ao prestigiado Heisman Trophy, o prêmio para o melhor jogador de futebol americano universitário do país” — dizia o comentarista.

O coração de Mu se apertou. Queria tanto estar lá, torcendo de perto para o namorado!

— Vem, vamos fazer uma selfie. — A voz de Afrodite bastante perto o tirou de suas reflexões. Afrodite e Shaina haviam se aproximado para tirarem uma foto. Mu levantou a plaquinha que fizera para Aiolia com as cores da bandeira do time.

— Vai, Golden Saints! — Eles falaram uníssonos, fazendo caras e bocas para a câmera, enquanto Afrodite batia algumas fotos.

— O jogo já vai começar! — Shaina gritou de repente, e ela e Mu voltaram a atenção para a tela da TV, enquanto Afrodite postava as fotos nas redes sociais.

* * *

Os turnos das tardes de sextas-feiras no Starbucks eram, na maioria das vezes, muito monótonos, principalmente naquele dia em que muitos alunos haviam viajado para Cambridge com o intuito de assistirem à final do jogo de futebol. Já tinha se passado uns dez minutos desde que Ikki atendera algum cliente. Como lugar estava vazio, ele aproveitava para acompanhar pela TV a transmissão do jogo e torcer por Mime e os outros.

De repente, os Golden Saints fizeram uma boa jogada, e Ikki deixou escapar um ligeiro sorriso de satisfação, enquanto via na tela a galera da arquibancada vibrar. Apesar dos garotos estarem jogando fora de casa, o time tinha uma grande torcida e havia gritos de celebração cada vez que os garotos marcavam ponto.

— Até que os seus amiguinhos não jogam mal — Geisty, a colega de trabalho de Ikki, comentou. Enquanto limpava a máquina de descafeinado, ela observava Ikki torcendo discretamente pelos garotos, o que era algo bizarro na opinião dela.

— É... eles são bons! — Ikki se virou na direção da garota. Ela tinha longos cabelos negros e um rosto muito bonito; usava uma maquiagem gótica carregada e tinha mais piercings e tatuagens do que ele já tinha visto antes em uma menina.

Ela deu uma risadinha, sacudindo a cabeça em negação.

— O que foi? — ele quis saber o motivo da atitude dela.

— Sei lá... é meio bizarro te imaginar andando com esses garotos populares.

— Por quê? — Ikki levantou uma sobrancelha, mas, logo em seguida, foi capaz de deduzir a resposta. — Por que você supôs, como a maioria das pessoas fazem, que eu seja uma pessoa antissocial...

— Quem sou eu para chamar alguém de antissocial. — Ela riu de leve. — É só que você é um cara legal, inteligente... eu vejo essas qualidades em você... E, na boa... não consigo pensar o que diabos você tem a ver com esses garotos de fraternidade! Não conheço um garoto de fraternidade que não seja um imbecil querendo bancar o gostosão.

Ikki deu um meio sorriso. Sabia que sua colega não era fã de gregos. Ele só não sabia se havia alguma razão específica para isso.

— Talvez você só tenha conhecido os garotos errados...

Ela deu um meio sorriso, balançando a cabeça novamente.

— Ou talvez você esteja errado em achar que conheceu a pessoa certa.

— Não entendi... — Ikki franziu o cenho.

Ela suspirou, refletindo se não havia sido impulsiva em ter falado aquilo, entretanto, já que tinha começado, iria até o final.

— Deixa eu reformular a frase. Talvez você apenas tenha uma queda por ruivinhos populares... Eu já vi você juntos.

Ikki não pode deixar de notar um certo tom de desdenho na voz da garota, e isso não o agradou.

— Relaxa! Não estou te julgando, só comentando...

Ikki não falou nada, permanecendo com o semblante sério.

— Confesso que fiquei um pouco decepcionada quando vi — Ela deu uma risadinha sem graça. — Mas isso não vem a caso agora.

— Nós somos apenas amigos — ele falou. De fato, não era uma mentira. Ainda que fosse o que eles chamavam de amizade colorida.

— Só toma cuidado para não se machucar com essa “amizade”... — ela fez sinal de aspas. — Esses garotos só são amigos deles mesmo... Você parece ser do tipo que se faz de durão, mas é carente, já esse ruivinho tem cara de ser, como eu posso dizer... do tipo que pega, mas não se apega... deu pra me entender?

Ikki deu uma gargalhada sarcástica.

— Acho que sei me cuidar muito bem em relação a isso, Geisty... E não fala assim de Mime, você nem o conhece...

Superprotetor como era, Ikki não admitiria que alguém falasse mal de seus amigos. Ele poderia criticá-los o quanto quisesse, como sempre fazia; mas, os outros, nunca! Ainda mais um amigo com quem ele dividira alguns momentos tensos de sua vida.

Ikki e Mime se conheceram no Camp Consequence, uma espécie de acampamento militar para crianças indisciplinadas. O pai adotivo de Mime havia o mandado para lá, ao perceber que o garoto, com onze anos de idade, tinha um jeito um pouco afeminado e queria que ele se tornasse um “homem com H”, palavras de seu pai. Já Ikki, um ano mais novo, estava passando por uma fase rebelde por conta da separação de seus pais.

Ikki não aceitava o fato de que seu pai havia ganhado a sua guarda e a de seu irmão caçula na justiça, e os obrigado a se mudarem para a Flórida, nos Estados Unidos, só para ficarem longe da mãe, com o objetivo de afrontá-la por ter se envolvido com outro homem. Ikki, que já não tinha um bom relacionamento com o pai, tentara fazer de tudo para que ele desistisse dessa ideia, mas ao invés de conseguir o que desejava, acabou criando mais conflitos com seu pai, que encontrou no acampamento uma maneira de tentar “domar” a rebeldia do filho.

O acampamento era uma verdadeira prisão, e o comandante, o senhor Guilty, era um ex-fuzileiro naval extremamente rigoroso, que fazia da vida dos garotos um inferno.

Ikki e Mime acabaram se tornando amigos durante esse tempo em que frequentaram juntos o acampamento, que era uma vez por semana a cada mês, e um mês inteiro nas férias.

Para sorte de Mime, com um ano, ele não deixou de frequentar o lugar. Mas Ikki continuava sendo mandando para o acampamento durante quase toda a sua adolescência.

Com o tempo, Ikki até que começara a querer ir para o acampamento, apesar do treinamento militar rigoroso. O motivo disso tinha um nome: Esmeralda, a filha do comandante. Ikki e ela mantinham um namoro às escondidas.

Nesse meio tempo, a mãe de Ikki conseguira na justiça que os filhos escolhessem com quem gostariam de ficar. Shun, o irmão caçula de Ikki voltara para o Japão com a mãe, mas Ikki escolhera viver com o pai, mesmo o detestando, só para poder continuar perto de Esmeralda.

Depois de dois anos, a garota morrera em um trágico acidente de carro, deixando Ikki completamente desolado. Sem motivos para continuar morando com o pai, ele acabou voltando para o Japão para viver com sua mãe e seu irmão. Seu pai já não se importava mais, estava entretido com a nova namorada.

Um tempo depois, quando Ikki já tinha seus dezessete anos, ele viera para os Estados Unidos acompanhando seu irmão que queria passar alguns dias de férias com o pai, e acabou se reencontrando com Mime, em um barzinho. Desde então, eles começaram a sair juntos durante todos os dias das férias. Nesse período, Ikki já havia percebido que também sentia atração por garotos, e ele e Mime iniciaram uma espécie de amizade colorida. Além disso, foi Mime quem o incentivou a não desistir de fazer uma faculdade nos Estados Unidos quando rompeu relações com o pai, depois que ele o pegara com Mime no porão de sua casa.

— Desculpe! — Geisty levantou as mãos, como que se rendendo. — Não está mais aqui quem falou do tal do Mime. Divirta-se com seus amiguinhos de fraternidade...

— Apesar de achar que seria muito agradável passar horas aqui ouvindo a conversa entre vocês, eu realmente optaria por ser atendido... — a voz de um cliente os assustou.

Droga! Como eles não tinham notado aquele garoto se aproximando?

— Desculpe-nos — Ikki se aproximou do balcão. — Qual é o seu pedido?

O cliente suspirou, dando ares de entediado.

— Um americano com creme... como sempre — o cliente respondeu, frisando o “como sempre” sem um pingo de amabilidade. — E, por favor, não exagere no creme, você fez isso da última vez e foi quase impossível beber aquela coisa.

Ikki bufou, registrando o pedido. Filhinho de papai de merda! O que tinha de beleza, tinha em arrogância na mesma proporção. Aquele maldito garoto era o cliente mais chato que ele já atendera nesses meses em que trabalhava no Starbucks. Não havia uma única vez que esse garoto não reclamava de alguma coisa.

Ikki pegou o cartão do cliente para fazer o pagamento, enquanto sua colega preparava a bebida.

— Seu cartão — Entregou de volta.

Geisty deslizou a bebida para o outro lado do balcão.

— Pode deixar, eu atendo o próximo cliente. Vai assistir ao jogo do ruivinho.

Ikki olhou no relógio, agradecendo aos céus que faltava pouco para acabar seu turno.

* * *

Shaka sentou-se numa mesinha não muito distante do balcão, enquanto reclamava consigo mesmo sobre como o atendimento daquele lugar estava ficando cada vez pior. Desde o início do semestre que era atendido por aquele garoto com cara de bad boy e se perguntava por que até hoje o imprestável parecia não ter percebido que seu pedido era sempre o mesmo.

Desde que viera estudar na Golden College, que Shaka estava viciado em café. Culpa do efeito jet lag que que o obrigara a tomar muito café nos seus primeiros dias para se manter de olhos abertos. Agora já estava quase se formando, já havia se adaptado com o horário, mas se recusava a lutar contra esse pequeno vício. Tomar o seu delicioso café com creme era o momento de deleite que ele tinha ali, entre uma atribuição e outra.

Seus amigos e conterrâneos, Shiva e Ágora, se aproximaram da mesa e se sentaram.

— E então, como foi a pesquisa? — Shaka perguntou a eles. Os três estavam fazendo juntos um trabalho de faculdade, do qual Shaka escolhera dissertar sobre o tema. “A segregação nas universidades americanas por conta do sistema de fraternidades e irmandades”. Os dois garotos, Shiva e Ágora, haviam ficado encarregados da tarefa de entrevistarem alguns alunos.

— Fizemos o levantamento que você pediu, Shaka — Ágora o informou.

— E, como você previra, a maioria dos estudantes não concordam com o sistema grego, e muitos até se sentem prejudicados de alguma forma — complementou Shiva.

— Claro que se sentem — disse Shaka, com certeza óbvia. — Apenas vinte por cento dos alunos dessa universidade fazem parte de fraternidades, no entanto, esses poucos vinte por cento levam vantagem em tudo. O sistema de fraternidades é, na verdade, uma espécie de sistema de castas indianas, onde os alunos têm suas categorias, e os jogadores de futebol e as fraternidades mais famosas ficam no topo da pirâmide social.

Shaka aprendera com o seu pai de que era errado categorizar as pessoas por classes ou grupos. Nascido e criado em Mumbai, na Índia, Shaka era filho único e adotivo de Amithab, um indiano digno e sábio, pertencente aos Brâmane, a casta mais alta do país, a dos professores e sacerdotes. Criou Shaka como se fosse filho, sem nunca contar-lhe sua verdadeira origem. Amitab, apesar de rico e bem-sucedido, nunca concordou com o sistema de castas indianas e, por isso, não seguia o hinduísmo, mas sim, o budismo. Por conta disso, Shaka cresceu ouvindo o seu pai falar sobre Buda e sua maravilhosa filosofia iluminista.

— Também conseguimos um depoimento de um ex-candidato de uma fraternidade — Ágora contou.

— E...? — Shaka ficou interessado.

— Ele nos relatou os horrores que teve que passar por conta dos trotes ao ponto de desistir. É um depoimento forte, e ele está disposto a colaborar com nosso trabalho.

— Muito bom!

— Sabe, Shaka... Shiva e eu estávamos pensando que talvez fosse um bom momento para colocarmos aquele seu projeto em prática.

— Eu também estava ponderando sobre isso. — Shaka tomou um gole de seu café. — No entanto, não é viável precipitarmos as coisas. Precisamos ter tudo muito bem planejado para não acontecer o efeito rebote. Além do mais, estamos em final de semestre e, no próximo, teremos um novo presidente na Universidade.

— Tem medo de que ele não nos apoie?

— Não tenho medo. Apenas acredito que seja necessário avaliarmos primeiro como ele lida com conflitos.

— Você tem razão...

— E a garota do jornal? — Shaka quis saber.

— Ela viajou para fazer a cobertura do jogo, mas já está combinado com ela uma reunião para semana que vem.

— Ótimo! — Shaka deu outro gole em seu café. — Isso é tudo por hoje. Preciso terminar um trabalho de outra disciplina.

— Então está tudo certo. Eu vou comprar um café para mim — Ágora informou.

— Eu vou com você — disse Shiva.

Os dois saíram, deixando Shaka sozinho. Depois de terminar o seu café, Shaka saiu do Starbucks em direção ao prédio de Artes.

Ele estava andando tranquilamente pelo Campus, quando ouviu dois garotos dando altas gargalhadas enquanto um deles se gabava por ter transado com uma garota caipira virgem e que aquilo lhe renderia vinte pontos em sua tabela de notas dos candidatos na fraternidade, ou alguma coisa assim. Shaka preferia não atentar aos detalhes.

Garotos idiotas de fraternidades! Não passam de uns macacos tentando chamar atenção. Ele só percebeu que havia pensando alto demais quando esses macacos pararam em sua frente.

— Do que você nos chamou, heim... seu... seu... sua barbie girl? — O garoto abriu um amplo sorriso, achando que havia dito a coisa mais incrível do universo.

Barbie girl! — o outro garoto repetiu, aos risos — Você arrasa em criar apelidos, Travis!

— É, eu sou mesmo bom nisso!

Shaka revirou os olhos. Era só o que faltava!

— Bem, sinto muito não poder compartilhar desse colóquio interessantíssimo sobre alcunhas, mas eu tenho mais o que fazer...

— Não, não vamos deixar você ir, sem uma retaliação. Você nos chamou de macacos...

— É... você nos chamou de macacos...

— Sinto que fui injusto, rapazes, eu não deveria ter ofendido os pobres macacos...

— Você escutou o que ele disse, Travis?

— Eu escutei o que ele disse... e não gostei...

— É, o Travis escutou o que você disse e não gostou...

Shaka suspirou profundamente, tentando manter a serenidade.

— Olha, é melhor saírem da minha frente. Eu não estou interessado em confusão. — Ainda mais com garotos com idade mental de cinco anos. Como esses garotos conseguiram entrar nessa Universidade? Shaka se perguntava, enquanto tentava seguir em frente, sem sucesso.

— Bem, pois tenho uma informação para você, barbie girl... Nós estamos a fim de confusão... — Eles sorriram um para o outro de maneira indolente, compartilhando um momento de estranho prazer.

— Então briguem entre vocês... — Shaka abanou a mão em um gesto de descaso, antes de dar mais um passo à frente. Só que o garoto chamado Travis o puxou pela camisa. Mas que ousadia desse imprestável ignóbil! Shaka pensou, enfurecido, olhando o garoto por cima do ombro. Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de dizer pausadamente: — Tire. Suas. Patas. Imundas. Da. Minha. Camisa.

— E seu eu não tirar...? — Antes mesmo que o garoto pudesse concluir sua frase, Shaka, ágil, segurou a mão do garoto e a girou, fazendo o garoto gritar de dor.

— Seu desgraçado! Você vai quebrar o meu braço...

— Você vai quebrar o braço do Travis!

Shaka soltou o braço do garoto, tendo a convicção de que aquele monte de músculos só poderia ser frutos de esteroides. Era massa demais para força de menos.

Revoltado, o garoto chamado Travis tentou dar um soco no rosto Shaka, mas este se abaixou rapidamente, conseguindo fugir do ataque. Shaka só não esperava receber um chute nas costas do outro garoto. Quando ia ser novamente atingindo por outro chute, conseguiu chutar primeiro as pernas do seu agressor, derrubando-o no chão.

Shaka odiava brigas, isso era coisa de selvagem. No entanto, ele sabia muito bem se defender das feras, quando necessário. Desde criança, quando os garotos do colégio implicavam com ele por ter a língua afiada, ele teve que aprender a se defender.

Os garotos trocaram olhares antes de irem novamente com tudo para cima de Shaka, que conseguia se desviar com uma agilidade invejável. Os garotos tinham mais músculos, mas Shaka era muito mais ágil. O único problema é que era dois contra um, e um dos garotos acabou conseguindo agarrar Shaka pelas costas, com uma chave de braço, para que o outro conseguisse o socar.

O garoto chamado Travis sorriu, satisfeito, mostrando o punho para Shaka antes de tentar acertá-lo. Estava tão concentrado nessa tarefa, que sequer percebeu de onde veio o soco forte e certeiro que o atingiu no nariz, fazendo-o cair no chão.

— Mas o que... ?— Travis segurava o rosto, tentando estancar o sangue.

— Dois contra um é covardia. — Ikki falou, puxando o garoto do chão e o segurando pela gola da camisa. — Acho que as coisas ficariam mais interessantes se eu também participasse da brincadeira...

Ikki havia acabado o seu turno de trabalho e estava indo direto para o seu dormitório quando algumas vozes exaltadas o chamara a atenção. Havia pessoas brigando ali perto, e ele pode identificar rapidamente dois garotos de aparência forte lutando contra um único garoto. O loiro chatinho que era cliente do Starbucks.

Ele ficara surpreso com o quanto aquele garoto de aparência tão delicada conseguia se desviar tão bem dos golpes com uma agilidade invejável. À princípio, decidira que o loiro não precisaria de sua ajuda, e que até merecia uns tabefes. No entanto, quando vira que um garoto segurava o loiro para que o outro batesse, achou muita covardia.

— Isso não é problema seu, cara. Não se meta... — Travis gritou, apontando o dedo para Ikki.

— É... Não se meta — o outro, que segurava Shaka repetiu. Nesse momento, Shaka deu uma cotovelada nas costelas do garoto e se afastou.

Ikki não gostou do tom de autoridade que o tal do Travis havia falado consigo e, muito menos por ele ter apontado o dedo em sua direção, então, como já estava o segurando pela camisa, deu mais algums socos fortes nele só para lhe dar uma liçãozinha. Mas Shaka o pediu que parasse, uma vez que o garoto já estava bem machucado.

Ikki então soltou o garoto, que caiu no chão.

— É melhor vocês darem o fora daqui... — Shaka falou com os garotos, se achando muito generoso naquele momento.

O amigo de Travis o ajudou a se levantar.

— Isso não vai ficar assim! — Travis ainda conseguiu falar para Ikki, com a voz embolada por conta do sangue.

— É... não vai ficar assim... — O outro repetiu, antes de sair arrastando o seu amigo para longe dali.

Shaka revirou os olhos com aquela ameaça patética de tão clichê e então se virou na direção de Ikki.

— Você está bem? — Ikki perguntou.

— O que você achou que estava fazendo? Queria matar o garoto, seu idiota? — Foi a resposta de Shaka.

O quê!? Ikki ficou indignado. Estava tentando proteger o loiro e ele estava o recriminando?!

— Eu estava tentando evitar que você tomasse uma surra...

Shaka deu uma risada irônica.

— Não seja ridículo! Estava tudo sob controle.

— Ah, claro que estava. Tudo sob controle dos caras...

— Não tente bancar o herói comigo. Até porque eu não preciso! — Shaka estava pensando em se soltar do garoto quando o outro fosse socá-lo, pois assim o idiota socaria o amigo e acabaria de vez com aquela palhaçada. — Além disso, espancar as pessoas não é um ato nada heroico, só mostra que você é um tipinho selvagem igual a eles, ou até pior... — Recordava de ter ouvido a conversa de Ikki sobre algo a ver com gostar de andar com garotos de fraternidades. Que tipo de pessoa gosta de andar com bêbados, cujo o único objetivo é fornicar com o máximo de garotas possível? A resposta era simples: gente da mesma índole. Portanto, Ikki não passava de outro macaco idiota querendo se aparecer e bancar o valentão no final das contas. Além do mais, alguma coisa naquele garoto o incomodava desde a primeira vez que o vira no Starbucks. Sua presença sempre deixava Shaka irritado.— Não se meta mais no meu caminho... — Shaka ordenou, dando as costas para Ikki e indo embora.

Ikki bufou, pesando que realmente devia ter deixado o loiro levar uns bons socos... quer dizer... ele é que deveria ter dado uns socos naquele filhinho de papai metido e mal-agradecido.

— Garoto enjoado! — resmungou consigo mesmo, antes de continuar seu caminho. Nem notou um conhecido ali perto, o observando depois de filmar a cena da briga.

* * *

No quarto de Afrodite, a tensão tomava conta de Mu, enquanto ele assistia ao jogo, vidrado na tela.

Mu gritou, no momento em que viu Aiolia caindo no chão, depois de ser derrubado por três jogadores do time adversário. Respirou aliviado, quando o namorado se levantou rapidamente, voltando a correr pelo campo. No entanto, o outro time havia marcado ponto.

— Shaina, passa outra cerveja para mim — Afrodite pediu, enquanto digitava uma mensagem em seu celular. Ele estava sentando em sua cama, ao lado de Mu, enquanto Shaina estava sentada da cama de Ikki.

— Hum... Com quem você tanto troca mensagens, heim, Dite? — Shaina estava curiosa, o amigo não largava o aparelho celular, toda hora trocando mensagens sem nem prestar atenção no jogo.

— Conexões, Shaina... Conexões... — Afrodite sorria amplamente e piscava disfarçadamente para Mu, que nem viu, pois o olhar estava fixo na tela da TV. Só que ele sabia muito bem com quem o amigo trocava mensagens.

— Você e essa suas conexões secretas... — Shaina estalou a língua. Parecia que estava sobrando ali, sem ter com quem conversar, já que Mu não desgrudava o olhar da tela, e Dite não desgrudava do celular.

Foi nesse momento que Ikki chegou ao quarto.

— Opa! Parece que está havendo algum tipo de festinha aqui...

— Ikki, achei que você fosse trabalhar até mais tarde... — Afrodite esperava que o colega de quarto não ficasse bravo por ter levado Mu e Shaina para assistirem ao jogo no quarto deles, sem o avisar.

— Estava vazio hoje, e o gerente me liberou algumas horas mais cedo. — Ele colocou as latinhas de cerveja, que trazia em uma sacola, no frigobar. Depois da chateação que tivera, ele resolvera passar na lanchonete do dormitório para comprar algumas cervejas. Pegou uma e sentou-se na cadeira ao lado.

— Pode sentar na sua cama, eu vou para a cama de Dite... — Shaina falou. Estava sem graça em estar deitada na cama do garoto, enquanto ele ficaria sentando na cadeira desconfortável. Contudo, Ikki apenas fez um sinal com a mão indicando que ela poderia ficar. — Então senta aqui comigo...

Como não dava para ter uma boa visão da TV de onde estava, Ikki se levantou e sentou-se em sua cama, ao lado dela.

Afrodite olhou para Mu e deu uma piscadinha, como que dizendo que ali poderia rolar alguma coisa. Mu não gostou. Será que estava ciumando Ikki por causa de Mime? Ele se fez essa pergunta.

Mas então sua atenção foi roubada novamente por Aiolia que corria no estádio e marcava mais um touchdown, antes do juiz apitar e finalizar o jogo.

* * *

“... E o título é dos Golden Saints” — berrou o comentarista, eufórico, assim que o jogo foi finalizado, enquanto os jogadores se uniam em comemoração no campo, e a torcida vibrava. — “Depois de abrir com o placar com cinco pontos, os Golden Saint fazem uma virada e conquistam o título universitário de maneira espetacular...”

Fogos de artifício explodiam no céu de Cambridge, enquanto havia comemoração de uns, e choro de outros no campo. No telão, os melhores momentos do jogo eram reprisados e comentados, enquanto na arquibancada torcedores faziam a algazarra, gritando o grito de guerra do time vencedor junto com as líderes de torcida.

Jornalistas esportivos invadiram o campo para ter uma entrevista exclusiva com os jogadores. Esportistas, técnicos, todos ligados ao departamento de jogos e até o presidente da Universidade estavam no campo para dar os parabéns aos heróis.

Foi nesse momento de comemoração que o time foi notificado por um oficial da National Football League de que alguns jogadores foram escolhidos para fazerem o exame antidoping. Entre esses jogadores, o quarterback titular do time dos Golden Saints.

A partir desse momento, um oficial começou a acompanhar Aiolia para todos os lugares onde ele ia. Nas entrevistas, em alguns compromissos pós-competição e até para a cerimônia de premiação. O oficial não poderia mais perder o analisado de vista até que ele entrasse na área de coleta de amostras, mas o time também não poderia deixar de cumprir os compromissos pós-competição. Apesar de ser chato, eles já sabiam que tudo isso fazia parte do processo.

Assim que terminaram as comemorações e obrigações, Aiolia e os outros jogadores selecionados foram encaminhados ao lado dos oficiais até à área da coleta de amostras. Depois de preencherem um formulário com o nome das substâncias que teriam consumido, cada um foi acompanhado de um fiscal para o sanitário.

Aiolia não ficou nada satisfeito em ter de urinar na frente de um fiscal e também encher dois frascos. Xixi indiscreto! Pensou.

Logo após fechar os frascos, os recipientes foram identificados por um código de forma que quem fizesse a análise no laboratório não soubesse a quem pertencia a amostra. O material foi acondicionado em local protegido e transportado até o laboratório.

Agora era só esperar pelo resultado.

Contudo, Aiolia estava bem confiante. Muito confiante. Afinal, ele não tinha com o que se preocupar, não ingerira nada que fosse proibido para atletas. Até os calmantes que tomara no período que ficara afastado dos jogos foram naturais, seu irmão garantira isso. E ele confiava segamente no irmão.

* * *

Notas finais
Bem, pessoal, nesse capítulo não tivemos romance dos nossos shipps, mas foi um capítulo necessário para seguir com algumas coisas do enredo. Bem, vimos que alguém filmou a briga de Ikki. Alguma teoria de quem fez isso, e para quê? Dou um doce para quem adivinhar. Hahahaha... Gostaria de dar um doce também e um beijo na bochecha desses leitores lindos que deixaram um comentário no capítulo passado: NiHerondale, CronosTitan, Reneev, Suh Domingues e Nane yagami. Pessoal, muito obrigada pela paciência e por continuarem por aqui. Beijokas e até o próximo capítulo. P.S.: Estou sentindo falta de alguns leitores queridos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.