Golden Bird

1 O começo do fim


A garota estava com os olhos baixos, tentando controlar o turbilhão de emoções que lhe passavam pela mente, assim como acalmar o coração que tremia dentro de seu peito. As mãos de Mikeyan Million ainda estavam a caminho do grande globo de vidro, mas a jovem já sabia que seu nome seria o sorteado. Pela segunda vez, ela sentia o gosto da liberdade sendo retirada de suas mãos, mas dessa vez, talvez também perdesse junto a vida. Tudo graças ao ímpeto de controle de seu tio, que lhe aprisionara no Distrito 9, naquele lugar cinzento e totalmente urbano, longe da natureza onde fora criada.

O vento batia em seus longos cachos loiros, fazendo-os voar livremente, contudo o aroma era da fumaça das fábricas misturado ao cheiro de grãos e pães assados. Ela gostaria de estar na floresta, longe das cercas, nadando nos rios e lagos, comendo a planta comestível que sua avó chamava de katniss. A menina queria se esconder em suas memórias de infância, retornar no tempo e nunca ter vindo com seus pais visitar seu tio, mas ela estava ali, ainda aprisionada à Panem.

A garota, então, abriu seus olhos azuis, soltando um suspiro pesado, enquanto Mikeyan abria o envelope e lia o nome:

— Charlotte Lewis — a mulher com lábios roxos, pele lilás e cabelos amarelos neon em um grande coque chamativo, vasculhava a multidão em busca da jovem.

Charlotte sentia os músculos do corpo querendo tremer, mas não ia deixar aquilo acontecer, não iria dar um prato cheio para os pacificadores ou para a Capital. Ela, então, respirou fundo antes de levantar a cabeça, tentando manter um olhar sério e um semblante fechado. A adolescente lembrou-se da história de sua avó, da Colheita dos 10º Jogos Vorazes, de como ela manteve-se firme perante a armação da filha do prefeito. Era irônico como a mesma história poderia se repetir tantos anos depois.

Ela forçou as pernas a caminharem para longe do grupo de meninas, indo até o corredor e sendo logo cercada por pacificadores. No caminho, ela escutou barulho de choro e foi verificar de quem vinha, seus pais derramavam lágrimas dolorosas, tentando segurar os soluços, para eles ela abriu o melhor sorriso que pôde, tentando-lhes transmitir calma. Quem estava mais espalhafatoso era seu tio, que chorava ruidosamente, a ele Charlotte direcionou um olhar seco e gélido de raiva antes de retornar seus olhos para o palco.

A adolescente subiu os degraus, indo até Mikeyan, que apresentava um largo sorriso artificial em meio ao rosto cheio de procedimentos, que claramente lutava para passar uma jovialidade. Ela não aceitou a mão estendida que a mulher da Capital apresentava, pelo contrário, ela manteve seus braços perto do corpo, andando graciosamente, enquanto mantinha contato visual seco com a apresentadora, que se sentiu desconfortável e abriu um sorriso angustiado.

Charlotte assumiu sua posição no palco com um semblante neutro com seus olhos gélidos e afiados, enquanto Mikeyan andava de volta ao microfone:

— Agora os rapazes — a mulher, dramaticamente, remexia sua mão dentro do globo de vidro, mantendo a face em falsa expectativa antes de puxar um papel e ler o nome escrito nele — Dylan Mason — era um garoto alto e forte de 18 anos, um do grupo dos bad boys, que vivia perturbando os mais novos e os menores em tamanho. Charlotte, como não podia deixar isso passar batido, enfrentava-o, defendendo aqueles que não tinham o poder da influência de ser a sobrinha do prefeito.

Ela observou atentamente o choque de Dylan, que, a princípio, não se moveu, até que um de seus amigos sussurrou algo em seu ouvido, fazendo-o, finalmente, se movimentar. O semblante de espanto foi substituído pela costumeira face fechada, mal encarada, o olhar feroz e Mason começou a andar como uma fera caminhando confiantemente para um ataque.

Quando ele subiu as escadas de acesso ao palco, seus olhos cruzaram-se com os de Charlotte e neles faiscou um brilho que a loira reconheceu imediatamente, fazendo um arrepio correr sua espinha. Era um brilho sádico, que foi acompanhado por um sorriso debochado.

Mikeyan, então, segurou as mãos dos dois, um de cada lado, anunciando os tributos do Distrito 9 da 68ª Edição dos Jogos Vorazes.

Enquanto eles eram conduzidos por pacificadores para dentro da Prefeitura, a voz grave de Dylan alcançou os ouvidos da loira em um sussurro gélido: “Bonequinha, você não vai ter mais o titio para te defender naquela arena. E eu vou gostar muito de acertar as contas contigo.”

Charlotte virou-se para encará-lo o garoto no fundo de seus olhos castanhos escuros e com um rosto calmo esculpido em encenação, falou firmemente: “Pois então pode vir, eu não tenho medo de você.”

— Crianças, comportem-se! — reclamou Mikeyan, falando com uma voz excessivamente aguda — Aqui não é o lugar e nem a hora para implicâncias!

Foi, então, que os pacificadores os levaram para cômodos diferentes; quando a porta foi fechada atrás da adolescente, ela soltou um suspiro fundo e sentou-se em uma cadeira. A jovem baixou a cabeça entre as pernas e passou insistentemente as mãos pelos cachos loiros, enquanto o desespero começava a se espalhar por suas veias.

— O que eu vou fazer? O que eu vou fazer? — sussurrava para si mesma, sentindo os olhos começarem a marejar.

Ela foi interrompida de seus pensamentos pelo som da porta de madeira sendo aberta, o que a levou a levantar a cabeça, visualizando seus pais.

— Querida! — a doce voz de sua mãe quebrou o silêncio esmagador, enquanto ela e o pai da garota corriam para abraçá-la. Foi aí que os soluços romperam os lábios de toda a família, que se esmagava em um abraço apertado e cheio de ternura. Após alguns instante, o pai se distanciou, lançando um olhar sério para a filha com seus olhos verdes:

— Você sabe sobreviver, minha filha, passou anos sobrevivendo pelas áreas livres. Não se esqueça disso! — ele segurava firmemente as mãos da adolescente ao dizer essas últimas palavras

— Mas eu não sei lutar, pai! — seus olhos azuis cintilavam medo.

— Você já enfrentou animais perigosos enquanto éramos nômades! — o homem tentava transmitir calma para a jovem.

— Animais, pai!

— Você vai ter que encarar como tudo aquilo fosse nós de volta nas florestas e montanhas. Entendeu? — a loira assentiu, ainda meio anestesiada pela situação, sentindo o peso de suas palavras recaindo em sua mente.

— Minha menina — sua mãe tomou seu campo de visão, com seu cabelo preto ondulado e olhos ternos intensamente azuis — Faça que nem a sua vó.

— Como assim, mãe?

— Você tem carisma e você tem talento. Encante-os, faça-os ficarem magnetizados por você, cante para eles, cative-os na entrevista — a mulher limpou algumas lágrimas que ainda insistiam em sair de seus olhos — Os patrocinadores podem te ajudar a vencer.

— Entendido, mãe — a razão voltava à sua mente, que lembrava do que haviam combinado — Aproveitem hoje, não deixem de fugir para acompanhar os jogos. Se eu vencer, eu dou meu jeito de encontrar vocês. Mesmo se o meu tio não cumprir com o prometido, vocês têm que ir. Ok?

— Ok, filha — respondeu sua mãe, ajeitando os cachos da jovem que estavam bagunçados — E depois voltamos para te buscar na Vila dos Vitoriosos, certo?

— Certo — respondeu Charlotte com um tímido sorriso no rosto.

A porta, então, foi aberta por pacificadores, que tirarem seus pais de lá e trouxeram seu tio.

— Eu sinto muito! — disse o homem com o cabelo preto, outrora elegantemente arrumado com gel, todo despenteado e os olhos castanhos escuros inchados pelo choro — É tudo minha culpa! Eu devia ter pago o que eles pediram! Eu devia! — o seu desespero e sua culpa eram tão grandes que ele nem ousava olhar diretamente para a sobrinha, que o fitava pensativa.

— Agora nada disso adianta alguma coisa, tio — falou a adolescente resignada — Se você realmente me ama e quer me compensar por tudo isso, ajude os meus pais a fugirem como combinamos e vá com eles.

— Eu não vou conseguir sobreviver fora daqui — apontou para as paredes da Prefeitura, como uma criança desamparada — Eu não fui feito para uma vida assim, tão, tão…

— Selvagem? — indaguei sarcasticamente e o prefeito baixou o olhar — Se o senhor ajudá-los e ficar para trás, os pacificadores irão prendê-lo e torturá-lo para obterem informações sobre a fuga — ela viu o homem ficar pálido e o terror consumir seu rosto — O senhor não vai é sobreviver aqui — ela suspirou pesadamente, ajeitando sua postura na cadeira — Por favor, siga o meu conselho e fuja com os meus pais, eles vão cuidar de você e lá fora é bem melhor do que você imagina.

Um silêncio pesado se seguiu, enquanto os dois, finalmente, fitaram-se, ela com profunda mágoa, mas ao mesmo tempo uma certa dose de compaixão, pois ela sabia que o tio era uma pessoa insegura que usava do seu poder para forçar as pessoas a lhe fazerem companhia. Já nos olhos dele havia remorso corrosivo e uma vergonha infantil.

Por fim, a jovem levantou-se e abraçou o tio, que logo após foi retirado da sala. Logo após, Charlotte foi levada para o trem, cujas portas foram rapidamente fechadas atrás dela, de Dylan e Mikeyan, dando a partida em seguida.

A loira, então, foi até a janela, vislumbrar a paisagem do Distrito 9, talvez, pela última vez, enquanto se sentia como um animal sendo levado para o abatedouro.



Notas finais
Olá, pessoal! Espero que gostem da história. A Charlotte é assim: https://images.app.goo.gl/8hn1dTEPXrMwykTf6