Da janela da minha cozinha eu via o pôr-do-sol. Embaixo das nuvens que brincavam de se pintarem de rosa, alguns poucos garotos jogavam futebol. Escuto os gritos, os movimentos da bola se movendo entre eles. No alto daquele apartamento, nenhum dos garotos me vê, nenhum deles sente o par de olhos caindo invejoso sobre eles.

Mas eu continuo imóvel, me recusando a até mesmo piscar. Sei que não posso me aproximar — nunca pude. Eu sou apenas aquele que observa.

Aquele que observa a brincadeira inocente, que é o único que vê a aproximação dos zumbis... Os meninos gritam enquanto são subitamente atacados, enquanto arrancam deles aquilo que eles menos podiam suportar. Seus gritos cessam segundos depois de serem jogados ao chão, e devorados até não sobrarem uma parte intacta de seus corpos.

Preso ali em cima naquele apartamento perdido no tempo, eu tento me mover, tento gritar por socorro. Minha boca se abre, mas não há nenhum som.

Quando consigo levantar os punhos e socar a maculada janela de vidro, já era tarde para salvá-los. Nenhum dos corpos se mexia mais.

Abro meus olhos e percebo que estou coberto de suor. Olho em volta, o corpo agarrado a um terror turvo. Sei que tudo não passara de um pesadelo — a segurança e o silêncio das paredes do meu quarto confirmando isso -, só que mesmo assim demorou até eu conseguir me mexer...

Aqueles sonhos estavam me deixando sem forças. E as mensagens que eles gritavam para mim já não eram captadas por meu cérebro cada vez mais cansado. No fundo, eu sabia que não era ali que eu queria estar...

Mas eu não podia ir embora ainda — não ainda.

Quando saí do quarto e fui me encontrar com os demais, minha cabeça doía, presa numa única porém crucial pergunta: por quanto tempo mais valeria aguentar tudo aquilo?

Notas finais
Apenas o prólogo mas... continua?!