Gold Eyes 2
6 Capítulo 5
–Onde você esteve? — Minene veio até mim, feroz, antes de me arrastar para a cantina. Já estavam servindo o almoço.
Naquela manhã, o tempo havia mesmo voado.
De acordo com Gilbert, depois que ele me obrigara a usar um par de lentes castanhas sem grau, eu devia continuar a agir normalmente e, principalmente, me alimentar muitíssimo bem. Ainda precisavam coletar infinitas amostras minhas de sangue e tantas outras coisas que eu não tinha tempo de ficar brincando de passar fome.
Pouco a pouco, eles me explicaram o que eu estava sentindo. Minha transformação e a de Gilbert, que também tivera quase o mesmo contato com um morto-vivo que eu, era mais lenta que o normal. Podíamos levar meses até virarmos um deles, mas nenhum dos dois ainda sabia ao certo o que desencadeava tudo isso e, o mais importante, quando nossa mente não se manteria mais sã: esse era o maior de todos os questionamentos.
–Estava vigiando, desculpe — falei, tentando parecer descontraído, antes de acelerar o passo — Vamos logo comer, estou morrendo de fome.
E então eu me servi de um pouco de tudo, desde o bife acebolado à salada de frutas na sobremesa. De acordo com Jonathan, a "coisa" dentro de mim pouco a pouco estava negligenciando essas comidas porque o que ela quer na verdade é carne humana. Mas ele ainda acrescentou que eu posso enganá-la, saciá-la com carne de outros animais — e era isso o que eu estava fazendo. Em relação às vitaminas e outros elementos, eu os precisava para manter minha mente sã (e não morrer de anemia por causa das tantas outras coletas minhas de sangue que ainda iriam acontecer).
Eu e Gilbert havíamos aceitado ser... cobaias vivas dos experimentos de Jonathan pelo único fato do doutor e Gilbert saberem que a Cura estava em nós dois. Aqueles que iriam salvar o mundo, resgatando a humanidade do caos, éramos nós e somente nós. Agora, o que havia dentro de mim e Gilbert, por mais bizarro e sem sentido que pudesse parecer, era a coisa mais valiosa que tínhamos.
Se não fossem pelas palavras de Misuzu (sim, eu pensava nela com cada vez mais frequência), "sobreviva", eu não sei se teria aceitado a proposta de Gilbert, porque eu não queria salvar o mundo, na verdade nem sei se gostaria de continuar a fazer parte dele, mas eu sabia que não podia abandonar a todos assim. Eu tinha um papel a cumprir e o cumpriria até o fim.
Naquela tarde, enquanto treinava tiro ao alvo com os demais, minha mente estava a mil. Por fora, eu sorria e brincava com todo mundo; por dentro eu lutava contra o monstro que havia em mim. Quando todos estavam cansados demais para continuar o treino, fomos ao refeitório para o café-da-tarde. Outra coisa estranha então aconteceu, quando foi colocado um pedaço de pão de milho e um copo de suco na minha frente: eu não estava sentindo o cheiro de nenhum dos dois. E assim que os coloquei na boca, não senti seus sabores também. Era como se tudo em mim quisesse apenas carne e sangue... humanos. Os outros aromas e gostos não importavam mais.
–Você está pálido, Shiro — Scorpio parara a brincadeira que estava fazendo para me analisar — E quieto demais.
Pisquei, levantando os olhos, antes de abrir um sorriso.
–Estava pensando na próxima caçada — falei, tentando ao máximo esconder deles aquilo que meus amigos ainda não podiam saber.
Só me dei conta da cor fugindo definitivamente de meu rosto quando imaginei que eu podia ser o próximo a ser caçado.
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