Going to Hell
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Eu dei uma super corrigida, mas sempre escapa alguma coisa. Desculpem-me os erros! Muito obrigada por ler, não esqueça de deixar um review, eles fazem mt bem para os escritores. Recomendações são bem vindas também.
- Na próxima, mantenha seu amiguinho dentro de sua calça e talvez isso não aconteça! — Charlie bateu a porta atrás de si, saindo da casa do, agora, ex-namorado, em busca de um pouco de paz. Ela podia escutar a voz de Rick gritando ao longe, pedido que ela esperasse que ela compreendesse. Que havia sido algo de uma noite, não como a o relacionamento que eles tinham. Ha! Se ela, algum dia, aceitasse um homem lhe falando assim era melhor encomendar o velório logo, que a doença não teria cura!
Charlotte se sentia um pouco boba dentro da fantasia de diaba que vestia. Era um vestido de couro vermelho curtíssimo que havia comprado em uma loja de fantasias antigas. Acompanhava junto uma tiara com chifres — que agora parecia algo apropriado para usar — um rabo falso e o tridente. Ela havia colocado uma bota de cano longo e salto agulha que ia até a coxa e, mesmo assim, sentia um pouco de frio ao caminhar na rua aquela noite. Ela escutava as crianças ao redor, rindo e puxando os amigos de um lado ao outro, buscando novas casas para mais doces. Duas garotinhas passaram por ela quando a morena estava para virar a esquina. Uma das meninas, uma ruiva, estava vestida de Sininho. O vestido verde folha contrastava com os cabelos cor de fogo. A outra, uma garota loira, usava um vestido branco e tinha uma maquiagem cadavérica. Charlie chutou que ela deveria ser um fantasma e, olhando bem pra garota, achou que ela estava fazendo bem o trabalho. As duas garotinhas trombaram em Charls e acabaram derrubando todos os doces que carregavam em suas sacolas.
- Não acredito nisso! — Disse a garotinha ruiva. Charlotte se ajoelhou e começou a ajudar as garotas, tentando colocar todos os doces na sacola que carregavam. As duas garotas sorriram para a mulher e, depois que todos os doces estavam devidamente guardados, lhe entregaram uma barra de Twix e abriram um grande sorriso.
- Obrigada moça. — Disse a loira. Charlie sorriu e começou a ir a seu caminho, qual quer que fosse ele.
A morena não sabia para onde ia. Horas antes ela tinha o plano de ir à festa ridícula de Halloween que Rick havia encontrado e acabar a noite na casa dele. Agora... Bem, agora ela era uma pessoa de 23 anos, fantasiada de diaba, caminhando sem rumo em plena Los Angeles na noite de 31 de outubro. Vou acabar atraindo lunáticos, isso sim!
Quando Charlie percebeu, ela se encontrava na praça que brincava quando criança. Não muito longe dali era a casa de seus pais. Mas Charls não morava mais lá há tempos. Desde que começou a faculdade de medicina, cinco anos atrás. Conhecia Rick de antes disso, eram amigos de escola, high school sweethearts, a líder de torcida e o jogador de futebol, o velho casal de sempre. Olhando agora, ela não sabia como foi que ficaram juntos por tantos anos. Rick sempre foi o tipo garanhão que Charlotte sempre odiou. Mesmo assim, ele era o bad boy para sua adolescente interior e, mesmo sabendo que esse dia chegaria, doía saber que ele havia a traído.
Vendo que o lugar estava deserto, sem dinheiro para um táxi e sem telefone celular, Charlie achou que seria uma boa ideia se sentar no banco da praça e pensar qual seria seu próximo passo. Afinal, seria ridículo aparecer na casa dos pais daquela maneira e, para retornar ao flat onde morava no centro, ela teria que caminhar mais de 5 km e aquilo nunca daria certo. Não naquelas botas pelo menos.
- Eu bem que mereci! Felícia me avisou. Ela disse que eu deveria dar um pé na bunda daquele idiota antes que ele acabasse me magoando. — Charlie sentou-se no banco e olhou para a rua. Aquela era uma área cheia de crianças, porém não havia nenhuma ali. Já devem ter limpado essas casas e partido para as próximas, pensou. Ela sentiu um vento frio lhe cortar a pele e olhou para os lados. Sentia-se como se estivesse sendo vigiada. Como se tivesse alguém entre as arvores lhe encarando. Continuou olhando para trás a procura do perseguidor, mas continuava sem ver coisa alguma.
- Procurando alguém? — Uma voz masculina ao seu lado falou. Charlotte deu um salto, quase caindo do banco que estava sentada e indo o mais longe que podia do misterioso homem.
- Como foi que chegou aqui?!
- Tenho a pequena impressão que foi com as minhas pernas. — O homem respondeu. Charls revirou os olhos e sentiu as lentes vermelhas saírem do lugar.
- Droga! — Fechou instintivamente os olhos e colocou as mãos sobre eles, tentando arrumar sem precisar realmente colocar o dedo dentro do olho. Torcendo para que tudo estivesse okay, reabriu o olho esquerdo e sorriu.
- Você está bem? — O homem perguntou.
- Sim, são essas malditas lentes de contato que eu coloquei e... — Então ela parou de falar e voltou a olhar o homem ao seu lado. Ele tinha olhos muito negros e, por um momento, Charlie jurou que ficaram completamente pretos. Ele usava um terno azul petróleo, ou alguma cor assim e tinha um sorriso muito branco.
E muito bonito. Do tipo super beijável.
- Afinal, quem é você? — Ela pediu. O homem sorriu, pegando a mão direita de Charlotte e levando-a aos lábios.
- Este ano me chamo Joseph. Mas eu já tive outros nomes. — Eu sabia: lunático!
- Hum... — Ela não disse mais nada, voltou a olhar para as casas que já tinham suas luzes desligadas e achou que, hora ou outra, o estranho homem chamado Joseph iria desaparecer tão rápido como apareceu.
Engano dela.
Havia se passado mais de quinze minutos e o casal continuava em silêncio. Joseph, é claro, não se sentia incomodado com o silêncio e não iria embora antes de conseguir o que veio buscar. Já Charlotte não conseguia mais se manter em uma posição por mais de dez segundos e finalmente decidiu falar.
- O que você quer comigo? — Ela disse ainda olhando para as casas que tinham a sua frente.
- O que te faz pensar que eu quero alguma coisa com você? — O homem respondeu. Dessa vez ela jurou escutar um leve sotaque inglês, mas não sabia se era mera impressão ou realidade.
- Vejamos... Existem, no mínimo, vinte bancos nesse parque e todos estão vazios. E você decidiu se sentar naquele em que eu estou sentada. É, acho que isso pode servir de indicativo. — Ela encarou os olhos negos do homem, contudo não segurou o olhar por muito tempo. Seus olhos desceram para a boca de Joseph, carnuda e aberta em um sorriso malicioso.
- Eu só achei que você precisava de companhia. — Ele respondeu, dando de ombros. — Podia sentir de longe que alguma coisa estava errada com você. — Charlie não respondeu, soltando um suspiro alto e olhando para o céu estrelado.
- Normalmente eu diria que está tudo bem. Só que hoje não está sendo nada como um dia normal. — Ela continuou encarando as estrelas e percebeu que o companheiro de banco fez o mesmo. — Eu descobri que meu namorado de sete anos me traiu. — E então ela voltou a encara o chão. — Muitas vezes. — E encostou a cabeça no ombro do homem.
- Você não esperava isso dele? — Joseph perguntou. Charls soltou uma gargalhada.
- E essa é a pior parte! Eu sabia que um dia ele iria fazer isso. Sabia que um dia ele ia acabar me machucando. E o que foi que eu fiz? Eu não fiz nada! Deixei que ele me tratasse como uma idiota.
- Eu tenho a impressão que o idiota, como você disse, não é você. — A morena sorriu instintivamente com o elogio.
- Você deve pensar que sou uma maluca. Aqui, sentada em uma praça em pleno Halloween, vestida de diaba e falando sobre meus problemas com um completo estranho. — Ela se virou, descruzando as pernas apenas para voltar a cruzá-las novamente.
- Não. Eu acho que era seu destino me encontrar nessa noite aqui, nesse parque. — A mulher riu.
- Meu destino?! Não seria o seu? Afinal, quem chegou primeiro aqui fui eu. — O homem negou, soltando um riso abafado e olhando para o chão.
- Seu destino. Eu sempre estou nessa praça. Há mais de duzentos anos. É a minha área. Achei que soubesse. — Charls precisou encará-lo seriamente.
- Você disse mais de duzentos anos? Você tem quantos? Quinhentos? — E abriu um sorriso sarcástico. O homem se virou, abrindo um sorriso desafiador.
- Quinhentos? Estou tão mal conservado assim? — Ele disse, fingindo que estava ofendido. — Não, tenho apenas trezentos e quinze.
- Ha! Só trezentos e quinze. Mil desculpas pelo erro, querido. — O homem riu. — Você por acaso não é um Edward Cullen da vida é? Porque se for, já vou lhe avisando que não busco nenhum romance com vampiros que brilham no sol! Sou uma mulher mais para um vampiro como o Drácula mesmo. — Joseph riu e acenou com a cabeça em negação.
- Não, eu sou um demônio. E, se posso deixar meu comentário, você está muito melhor que meu chefe nessa roupa. — Charls não resistiu, caindo na gargalhada ali mesmo, naquela praça deserta.
- Claro. Nada Supernatural sua ideia. Se você esperar um minutinho eu vou ligar para Sam e Dean. — O homem voltou a rir, como se a situação lhe divertisse.
- Você, obviamente, não acredita em mim. — Charlotte, que estava fingindo discar em um telefone invisível, voltou a olhar o companheiro de banco e sorriu.
- Ah, agora você está entendo todo o sarcasmo que gastei com você. Estava começando a achar que havia jogado fora todas aquelas ótimas piadas. — Joseph continuou rindo e então se voltou para as estrelas. Charlie, ao invés de fazer o mesmo, se voltou para Joseph e não pode deixar de perceber que o homem era lindo. Tinha um queixo perfeitamente quadrado e a pele em um tom oliva, como se passasse os dias deitados no sol da quente e úmida LA. Totalmente utilizável para uma pequena vingança. O pensamento mal havia passado na mente da morena e Joseph abriu um sorriso, encarando Charlie com seus grandes e pretos olhos.
- Você não acredita mesmo em mim? — Ele pediu sorrindo.
- Não, eu não acredito em você. Não sei por que você achou que eu cairia em seu papo. Vai ter que inventar coisa melhor que isso para conseguir que eu caía na brincadeira. — O sorriso de Joseph aumentou.
- Então me diga: o que seria seu maior desejo? — A mulher sorriu.
- De demônio passou para gênio da lâmpada? — O demônio riu, abrindo um sorriso e dizendo:
- Vamos, me entretenha com seus desejos. — Charlie começou a rir mais ainda da situação que se encontrava. Pelo menos não estou em casa chorando minha vida para fora.
- Muito bem, se eu tivesse que decidir seria alcançar meu sonho profissional: ser a mais jovem oncologista e, talvez, encontrar o homem da minha vida. É, seria isso. Não é nada de mais. Só uma vida simples e longa.
- Não sei quanto a parte do longa, mas eu posso fazer isso. — Ele disse, sorrindo e girando um anel que tinha no dedo indicador esquerdo. — Existem regras e cláusulas, é claro. Mas sei que você concordaria com todas. Principalmente aquela que envolve me beijar. — Charls abriu um sorriso malicioso e brilhante, aproximando-se mais de Joseph.
Os dois estavam muito próximos e Charlotte podia sentir o hálito de menta que vinha da boca do demônio.
- E qual seriam essas cláusulas e regras? — Disse, arqueando a sobrancelha esquerda e sorrindo.
- Bom, o preço, para começar. Eu não posso lhe dar tudo isso de graça... Meu chefe iria me abrir ao meio. Dez anos. — Ela continuou sorrindo, apenas encarando os lábios do demônio. — Acredito que seja um preço razoável, não é? — A mulher nem ao menos estava escutando o que o homem falava, mas acenou em confirmação as palavras que pareciam esperar algum sinal dela. — E então é isso. Em dez anos, no dia 31 de outubro, eu irei voltar para buscar sua alma e levá-la para conhecer o chefe. — Joseph a olhou de cima a baixo uma última vez. — Sei que ele iria adorar vê-la vestida desse jeito. — A garota mal escutava as palavras que saíam da boca do demônio. A proximidade com o homem era inebriante, ela havia esquecido qualquer bom senso que fosse apenas para sentir aqueles lábios sobre os seus.
- Isso significa que temos um acordo? — Charlotte apenas continuou acenando com a cabeça chegando cada vez mais perto dos lábios de Joseph.
A morena sentiu os braços do castanho lhe puxarem com força para frente, fazendo que os lábios se encontrassem. E, exatamente como Charls havia pensado, aquele beijo era como estar no inferno e no paraíso ao mesmo tempo. Havia certa urgência, um sentimento de um prazer proibido. Um sentimento que parecia dizer a Charlotte que ela podia fazer o que quer que ela deseje. Ela era capaz de qualquer coisa. Ela era capaz de destruir e construir o mundo em apenas um dia. Ela era capaz de se tornar a mais jovem oncologista dos Estados Unidos. Ela era capaz de falar para aquele professor de Cardio que ele era um tarado e ainda sair rindo. Ela era capaz de se vingar de Rick sem sentir pena alguma.
Com o tempo o beijo começou a terminar. Ela sentiu Joseph se afastando cada vez mais até que o beijo fosse quebrado. Contudo, Charlie continuou com os olhos fechados. Ela esperava que o homem a sua frente fosse lhe beijar mais uma vez. Na mente de Charlotte, a ideia de dormir com Joseph lhe agradava, e muito. Quando alguns minutos se passaram, ela decidiu abrir os olhos. Foi quando percebeu que, da mesma maneira que Joseph havia surgido, ele havia desaparecido.
Ele é um demônio afinal. Hoje é dia das bruxas. Garanto que ele tem vários acordos para fazer. E, quem sabe, algumas almas para coletar. Charlie finalmente levantou do banco, dando risadas do pensamento. Ele provavelmente escapou de fininho quando o beijo terminou, correndo para as arvores da mesma maneira que ele chegou ao banco em primeiro lugar.
Charlotte chegou à casa dos pais cinco minutos depois, pegou a chave que se encontrava debaixo do tapete e entrou. Dava graças a Deus que ainda tinha uma cama em seu quarto. Sabia que na manhã seguinte teria que explicar o porquê de estar ali. E da roupa também. Mas isso era assunto para outro dia. Um que incluísse um sol e não um demônio tarado que beija mulheres inocentes em bancos de praças.
• Dez anos depois •
Charlotte estava correndo pelos corredores do Hospital Municipal Holy Mary.
- Doutora Crocker, código vermelho na área pediátrica! ... Doutora Crocker, código vermelho... — Os cabelos morenos de Charls, agora mais curtos e presos em um rabo alto, balançavam de um lado ao outro enquanto a mulher corria em direção ao quarto de seu paciente mais jovem, Seth Parker.
Quando a mulher chegou ao local, já havia enfermeiras tentando reviver o paciente. Seth era um garotinho de oito anos que tinha câncer na medula. Era um caso agressivo e, por mais que Charlie fosse a melhor oncologista dos Estados Unidos, ela ainda era apenas um ser humano, não Deus.
- Hora da morte: 11:30 A.M do dia 31 de outubro de 2023. — Disse a enfermeira, olhando, ao mesmo tempo, o relógio que tinha no pulso e o da parede do quarto de Seth. Charlotte pode escutar um grito agudo da mãe do garoto e viu, de longe, a mulher de cabelos dourados cair ao chão.
Charlie tinha um problema com perder pacientes no geral, mas, quando eram crianças, ela se sentia ainda pior. Foi em direção aos pais para mostrar suas condolências. Seth era um garoto muito amável e querido e teria se tornado um grande homem. Uma pena que Deus tivesse outros planos. Depois de falar com os pais de Seth Parker, Charls foi até sua sala, tirou o jaleco branco e pegou a bolsa. Era hora de almoço e ela tinha um encontro com Duke.
Duke Crocker era um advogado criminal de sucesso dentro do reino jurídico de LA. Charlie o conheceu semanas depois de finalmente terminar com o namorado de sete anos, Rick. Descobriu que Duke, que, na época, era estudante de Direito, estava de olho nela há tempos. Conheceram-se em uma festa da fraternidade de Duke e tudo foi muito rápido depois. Logo, Charlotte estava se tornando uma grande oncologista e Duke tinha um trabalho na melhor firma de advogados de LA e o namoro começou como algo natural. O casamento veio logo depois, tão natural como o namoro. Se a velha Charlotte a olhasse agora diria que todos os seus sonhos haviam se realizado.
- Hey mô! — Disse Charls quando chegou ao restaurante do outro lado da rua do hospital. — Como foi o tribunal hoje? — Duke tinha um caso de homicídio culposo onde ele defendia um homem por ter causado o acidente que matou uma mulher e seus dois filhos.
- Hey. — Ele disse, abrindo um sorriso. Duke se levantou para puxar a cadeira onde Charlie ia sentar. Depois de se beijarem rapidamente, ele voltou ao lugar e chamou o garçom.
O assunto girava entre o caso de Duke e a recente morte de Seth. O marido sabia como Charlotte se tornava obsessiva quando pacientes morriam e tentou desviar o assunto, comentando que haveria uma festa de Halloween naquela noite, na casa de um amigo.
- Você pode usar aquela fantasia de diaba que tem guardada em uma das caixas do flat. Tenho certeza que eu ia adorar tirá-la depois. — Charlotte sorriu, lembrando-se da velha fantasia. Duvidava que fosse lhe servir, mas porque não? Faria qualquer coisa por Duke e sabia que, se fosse ao contrário, ele faria também.
- O que o casal irá querer? — O garçom falou. Foi quando Charls sentiu em sua perna uma lufada de ar quente. Mas quando olhou não havia nada ali a não ser as pernas do garçom.
- Aconteceu alguma coisa Charls? — Duke pediu. A morena balançou os pensamentos para longe, abrindo um sorriso e tirando os olhos do cardápio e os colocando no garçom.
Surpresa a dela quando viu Joseph, o demônio de dez anos atrás, sorrindo de trás de um bloquinho de anotações. E, como Charlotte pode muito bem perceber, nada havia mudado. Nem mesmo uma ruga havia surgido. Ele até usava o mesmo terno! Era como se ele tivesse pulado em uma maquina do tempo e vindo ao futuro.
- Charlotte você está bem? — Ela escutou a voz de Duke e voltou a balançar a cabeça. Não pode ser ele, não mesmo!
- Desculpem-me. Eu estou... Um pouco distraída, apenas isso. — O marido concordou, achando que era apenas sobre Seth e nem imaginando que a esposa conhecia o homem a sua frente.
Que de homem só tinha mesmo a aparência.
- Nós iremos querer uma porção de massa carbonara e outra de quatro queijos. E um vinho, um dos italianos. Um tinto. — Joseph anotou os pedidos e saiu em direção à cozinha. Charlie acompanhou o homem com os olhos e voltou a sentir uma lufada em sua perna.
Estou ficando maluca! Não pode ser ele... Pode?
-... e Julie estará lá também. Sei como vocês se deram bem na primeira janta e... — Duke continuava falando sobre a festa de Halloween, mas a médica só desejava que aquele dia terminasse. Julgou que a visão de Joseph foi causada por estresse de ter perdido Seth naquela manhã. — Charls, você está me escutando? — Os olhos verdes de Duke piscaram-lhe algumas vezes e Charlotte o encarou.
- Eu... Desculpe-me. Fico pensando em Seth. Ele era um garotinho tão adorável. Eu deveria ter conseguido salvá-lo. Sei que se tivesse mais tempo eu... — O marido sorriu carinhosamente e pegou a mão direita da esposa.
- Charlotte! Querida, você fez tudo que pode. Não era o plano de Deus. Era a hora de Seth. Como um dia chegará a minha e a sua. Não pode se culpar por algo que você tentou tanto evitar. A medicina pode ter evoluído, mas acredito que nada ainda bate a morte. — Charlie concordou com o marido e varreu os pensamentos de Seth e o “demônio Joseph” para longe. Não era preciso ficar imaginando coisas, não em plena terça feira do dia das bruxas.
O almoço do casal logo chegou. Charlie agradeceu que não fora o primeiro garçom que trouxera os pratos, não queria ficar paranóica mais uma vez. Depois do almoço, o casal caminhou até o Starbucks que ficava a duas quadras dali para um café e uma sobremesa. Então o celular de Duke tocou e era hora de se despedirem. Duke tinha outro caso na corte e Charlotte ainda tinha algumas consultas naquele dia.
- Vou dizer para Tom que iremos à festa. Vai ser divertido! — A morena concordou, dando um beijo na bochecha do marido e virando-se para o caminho oposto, em direção ao hospital.
As horas passaram rápidas. Dra. Crocker tinha ainda mais um paciente, mas já estava na hora de ir para casa e torcer que a velha fantasia lhe servisse.
- Dra, — disse sua secretária, entrando com o arquivo do novo paciente. — O nome é Joseph Myers. Foi indicado pelo Dr. Singer da cardiologia. — A médica abriu o arquivo para se deparar com o homem de hoje cedo. E de exatos dez anos atrás. Involuntariamente, seu corpo começou a ter calafrios e a voz ficar rouca. Porém, ela ainda precisaria atender o paciente antes de pegar a bolsa e sair daquele hospital o mais rápido o possível.
- Pode... — ela começou a dizer, mas não conseguiu terminar a frase. Charlotte respirou fundo, puxando o ar gélido de seu consultório para seus pulmões e então terminou:
- Pode mandá-lo entrar Grace. — A mulher baixinha de cabelos ruivos sorriu e saiu em direção à sala de espera.
- Joseph, a doutora irá recebê-lo agora. — Charls se ajeitou formalmente em sua cadeira e abriu um sorriso amarelo em direção a porta. O homem entrou e então Grace saiu, fechando a porta atrás de si.
- É um prazer conhecê-lo, Sr. Myers. — Ela começou dizendo, esperando que ele concordasse e todo aquele sentimento ruim que sentia sumisse. O homem não pegou a mão da médica em resposta. Apenas se sentou na poltrona a frente e abriu um sorriso.
- Não se lembra de mim, Charls? Achei que eu havia causado uma boa impressão dez anos atrás.
- Você... — Ela estancou. Então realmente era ele. Com o mesmo terno, sem uma ruga se quer. — É você mesmo?
- E eu no restaurante. Sim. Eu vim buscar o que é meu. — Disse ele, abrindo um sorriso. — O chefe está maluco para te conhecer. Disse que já sabe qual será seu trabalho. — Ele pegou uma foto que havia sobre a mesa de Charlotte e sorriu. — Você tem sorte. A maioria de nós passa duas ou três décadas na área de tortura apenas para divertir os cavaleiros do inferno. — Joseph passava os dedos sobre a fotografia do casamento de Duke e Charlie. Então ele tirou os olhos da foto e encarou a mulher a sua frente. — Cavaleiros do inferno... Eles podem ser realmente idiotas quando querem.
- Eu acho que você está me confundindo com alguém. — Disse a mulher. Sua voz era alta, mas seu tom demonstrava certo medo por de trás. Ela estava apavorada. Queria pegar a bolsa e correr até o carro torcendo que tudo fosse ficar bem.
- Não, eu não estou. — Respondeu o homem, levantando-se e indo em direção a Doutora. — Eu não esqueceria esse rostinho em um milhão de anos. E, muito menos, o que eu fiz por você. Duke parece ter sido um ótimo marido.
- Sido? — Ela perguntou, engolindo o seco.
- Claro. Ele está prestes a se tornar viúvo. — Então ele tirou de dentro do terno uma pequena navalha. Ela era diferente. Como algo que a morena nunca havia visto na vida. Ele foi em direção ao coração de Charls, mas a médica desviou, correndo em busca da bolsa e saindo porta a fora.
No corredor do hospital ela pode ouvir Grace lhe chamando, contudo o que ela fez foi correr para o estacionamento sem nem ao menos olhar para trás. Finalmente, depois que chegou a sua vaga e entrou no carro, a mulher se permitiu tirar um tempo para respirar.
Sabia que ele era um maluco. Lunático, psicopata! E, não esperando que ele viesse atrás dela, deu partida e foi para casa.
- Duke? — Ela perguntou, quando pôs os pés no hall. Não havia ninguém, por mais que já tivesse se passado das oito da noite. Ela colocou as chaves do carro e a bolsa no balcão e foi em direção a sala. Quando ligou a luz, não havia ninguém, apenas uma caixa de presente na mesinha de centro. Charls soltou um longo suspiro e caminhou até a caixa. Sobre ela havia um envelope.
Caso a velha fantasia não sirva. Te pego as nove. Com amor, Duke.
Por mais que Charlotte não desejasse ir à festa, aquela fantasia de diaba seria sua última escolha. Mesmo assim, a morena abriu o pacote, encontrando uma fantasia quase idêntica da que tinha guardada. Olhando no relógio sobre a lareira percebeu que não tinha muito tempo para ficar pronta. Decidiu se trocar ali mesmo, abrindo um sorriso aliviado e pensando que logo o dia terminaria e que aquele maluco de dez anos atrás deveria estar bem longe à procura de uma nova vítima.
Tirando a roupa e colando a fantasia, Charls se sentiu estranhamente familiar. Olhando-se no espelho do hall ela percebeu que parecia ter voltado dez anos no tempo, quase como se ainda fosse a mesma jovem que beijou um estranho no parque.
- Eu sei que você está ai, eu posso sentir! — Aquilo foi uma surpresa. A voz ecoou da porta de entrada e, por mais que a mulher não pudesse ver quem havia falado; a voz lhe era familiar.
Joseph havia lhe encontrado.
- Você tem mais uma chance. Tenho certeza que não vai desejar a segunda opção que tenho guardada para você. — A médica não disse nada, indo em direção a sala e fechando todas as portas e janelas possíveis. — Não? — Ele disse, mais uma vez. — Bom, não diga que eu não avisei. — E então ela escutou a porta da frente ser derrubada.
Tão logo o estrondo passou, houve silêncio. E então ela escutou patas no assoalho. E latidos, e, por fim, um uivo muito alto.
O que são esses barulhos? Ela pensou.
- Cães infernais. — Ela escutou a resposta vinda do hall de entrada. — Eles não são muito agradáveis, mas são muito fiéis.
Charlie estava embolada no canto oposto da sala de estar. Ela não sabia o que fazer. Quando tentou o telefone, para ligar à polícia, ele estava mudo. Seu celular estava na bolsa e, a bolsa, estava com ele no balcão do hall. A única coisa que ela poderia fazer era rezar que tudo daria certo.
- Sério? Rezar? — Ela escutou o homem debochando enquanto o barulho de um cão arranhando a porta de madeira ecoava. — Você sabe que Deus não ajuda aqueles que vendem almas para demônios; certo?
- Eu não vendi minha alma! Você é maluco! — Ela respondeu. E então a porta cedeu. Charlotte não via o cão, mas estranhamente o sentia ali. O que ela via era Joseph e ele tinha seus olhos completamente negros e um sorriso divertido no rosto.
- Jack. — ele disse, ainda sorrindo. — Pega!
Primeiro foi uma mordida na perna. Mas com toda certeza aquilo não foi o pior. Ela sentiu unhas muito afiadas lhe cortarem a pele. Primeiro dos braços e depois do rosto. E, então, finalmente, quase como um golpe de misericórdia, um arranhão fundo no peito. Não demorou muito para que toda a dor, desespero e medo que ela sentia desaparecessem. Logo, tudo ficou negro, calmo e tranquilo.
• 200 anos depois... •
Era uma noite calma de Halloween. O homem entrou em direção ao balcão, pedindo a bebida mais forte que havia. No canto oposto havia uma mulher. Logos cabelos morenos, dentro de um vestido vermelho. Ela sorriu em direção ao homem que havia se sentado no balcão. Levantando-se, a mulher mudou de lugar, sentando-se ao lado do jovem.
- Procurando alguém? — O homem que estava olhando para o lado oposto, virou para encarar a mulher.
- Não... Como foi que chegou aqui tão rápido? — Ele pediu. A mulher abriu um sorriso.
- Tenho a pequena impressão que foi com as minhas pernas. — O homem riu.
- Afinal, quem é você? — Ele pediu. A mulher sorriu, pegando o copo da mão do homem e tomando um demorado gole.
- Este ano me chamo Charlotte. Mas eu já tive outros nomes. — O homem sorriu, pensando que aquela seria uma ótima maneira de dar o troco em sua namorada.
- Um prazer lhe conhecer, Charlotte. — E, apenas por um momento, o homem pode jurar que os olhos da mulher a sua frente se tornaram completamente negros, enquanto ela abria um lindo sorriso.
X Fim X
Notas finais
28/10/13 -> reeditada.
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