“Love and desire, life after life

Gods can have it all, if you’ll be mine.”

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Piggy era um criado gordo e eficiente, mas Piggy havia sofrido um acidente, caindo de um grande lance de escadas. Ele havia mordido a língua quando rolava pelos degraus como uma bola chutada por uma criança. Quando finalmente posou no chão, estava duro e ensanguentado.

Ninguém viu o que aconteceu e Piggy não se lembrava nada além da dor excruciante de ter quebrado o braço, duas costelas e ter mordido a metade da língua. Felizmente não havia batido a cabeça contra o chão de marfim, mas não poderia falar de novo.

Os sussurros da cozinha eram os mesmos: Rainha Lilith era responsável. Kinsley, a criada de cabelos curtos e crespos, disse que Piggy havia feito um comentário maldoso sobre a rainha. Ela tinha absoluta certeza que o acidente não havia sido um acidente de verdade, e o fato de ninguém saber o que aconteceu ou Piggy não se recordar de um segundo da queda era ainda mais gritante que a magia da rainha estava envolvida.

Snow White foi visitá-lo em seu quarto no cortiço dos criados. Ele costumava contar histórias que a divertiam, mesmo que a probabilidade de serem reais fosse muito baixa. Piggy estava deitado em sua cama – pequena demais para um homem grande como ele –, ataduras brancas apertadas ao redor de suas gorduras, a pele manchada e grosseira coberta por um suor frio. Presenteou-lhe com um gibão de lã castanha e um novo par de botas. Snow suspirou pesadamente quando ele tentou agradecê-la, mas nada saiu de sua boca além de um grunhido por causa de sua língua incompleta. Ela deu um tapinha amigável em seu ombro quando virou-se para ir embora, fazendo um lembrete mental de levar um saco de tâmaras para Piggy, já que a única vez que o gordo havia comido, se apaixonou pelo sabor.

Não era difícil acreditar que Lilith havia feito aquilo. Snow sabia que, por trás de toda aquela beleza estonteante, vivia um monstro sádico e solitário. A magia fazia com que a rainha tivesse ainda mais ânsia em atingir sua perversidade e Snow às vezes se pegava imaginando como Lilith seria sem a mágica em seus poros.

Mas Snow sabia que a magia só acrescentava para que Lilith fosse ainda mais irresistível. Quando ela se vestia em sedas, de negro e vermelho, e usava a coroa de ônix, rubi e ouro, ninguém era capaz de tirar à atenção sobre dela. Os olhos azuis – tão frios, mas tão doces –, os lábios de puro veneno – sempre pintados perfeitamente em carmesim –, o pescoço longo e a clavícula proeminente – perfeitos para serem beijados –, os seios fartos – apertados de maneira deliciosa pelo corpete, afinando ainda mais sua cintura –, os cabelos loiros – ondas de ouro líquido brilhante, intensos enquanto caiam de forma libidinosa por suas costas. Era como olhar para o pecado em forma de mulher, tentador e proibido, mas tão incrivelmente apetitoso que Snow não se controlava e pecava, de novo e de novo.

Lilith fazia de Snow uma traidora. Traia seu pai, o rei, deitando com sua esposa em sua própria cama, em seus próprios lençóis, fazendo sua rainha gemer e se contorcer enquanto tinha a língua provando do sabor mais maravilhoso que algum dia já havia agraciado seu paladar. Seu pai estava na guerra, lutando no frio cortante do Norte para trazer ao reino de Woolridge a paz, enquanto Snow White – sua princesa, sua filha – fodia sua mulher todas as noites. E você acha mesmo que George não levou nenhuma puta para sua tenda? Ele é um homem em batalha. Cansado, ferido, sentindo falta de casa. Rei ou não, pai ou não, bom coração ou não, ainda tem um pau que quer estar dentro da boca de alguma vadia, Lilith havia dito de maneira despreocupada, bebericando vinho branco de sua taça. Ela estava provavelmente certa, Snow sabia disso, mas o fato de George também ser infiel não diminuía a culpa esmagadora que sentia. Ele era seu pai, afinal de contas.

Traia sua mãe, a memória dela. Harriet foi pega pela pneumonia e não suportou mais que dois meses de doença. Nenhum médico foi capaz de curá-la e, em um piscar de olhos, os sinos da catedral do reino de Woolridge tocavam uma melodia fúnebre, anunciando a morte da rainha. Lilith veio pouco mais de um ano depois. Snow não tinha certeza de como seu pai havia a conhecido, às vezes ela achava que até mesmo George não sabia. E em pouco tempo o reino tinha uma nova rainha. Mais jovem, mais bonita, mais perversa. Snow chegou a suspeitar que a morte de sua mãe houvesse sido obra de Lilith, mas quando ela a questionou, Lilith pareceu tão ferida com a acusação que Snow sentiu vontade de abraçá-la e lhe pedir perdão. O trono de Harriet – modesto, simples e elegante – foi substituído pelo o de Lilith – grande, luxuoso, com pedras e metais preciosos – e suas pinturas haviam ficado em segundo plano, ofuscadas pelo requinte banhado de sensualidade de Lilith. Snow evitava lembrar-se de sua mãe, a culpa a correndo de forma impiedosa.

Um dos corvos de Lilith a observava, talvez se perguntando por que ela estava nos aposentos da rainha. Snow também não tinha certeza. Ela só queria vê-la, tocá-la, beijá-la. Os olhos da ave seguiam todos os seus movimentos. Negro e vermelho, assim como Lilith, a morte e o desejo. Os corvos a deixavam desconfortável. Eles eram animais, mas Snow sentia que havia um quê de humano neles. Sabia que eram enfeitiçados, então preferiu não pensar muito nas possibilidades, temendo a coisa terrível que poderia descobrir.

–– Por que você está aqui? – Lilith entrou no quarto, sua voz aborrecida tirando Snow de seus devaneios.

–– Nós duas sabemos por que – Snow se aprumou na poltrona de seu pai.

–– Eu realmente não estou com cabeça pra nada, okay? – A rainha caminhou com passos duros até o sempre cheio jarro de vinho – Tive que ouvir problemas estúpidos de camponeses malcheirosos e fingir que me importo. Meu humor não é um dos melhores.

–– Esses “camponeses malcheirosos” são o seu povo – Snow falou um pouco mais alto, incomodada pelo desprezo de Lilith.

–– Não é o meu povo. É o seu povo, é o povo de seu pai. Mas não o meu.

–– Você é a rainha.

–– Que bom que notou – A ironia veio ácida.

Eram em momentos como aquele que Snow questionava sua própria sanidade. Por que foi se apaixonar por Lilith? Ela era completamente errada. Arrogante, prepotente, fria, inflexível, interesseira, cheia de maldade. Snow poderia dizer que só estava atraída pelo físico de Lilith, aquela beleza inacreditável, mas ela sabia que era muito mais que isso. De alguma maneira, Snow amava o que tinha dentro de Lilith.

E o que Lilith tinha dentro de si não era bonito.

–– Desamarre – Lilith ordenou, colocando-se de costas.

Snow obedeceu no mesmo instante, xingando-se mentalmente por isso. Colocou-se atrás de Lilith, desamarrando os laços apertados de seu corpete de maneira lenta. Quando todos os nós estavam soltos, Snow deslizou os dedos pelas suaves marcas vermelhas que as cordas haviam feito na pele macia de Lilith. Sorriu quando a rainha suspirou profundamente, os lábios pressionados na borda da taça de prata.

–– Ótimo – Ela sussurrou de maneira quase sôfrega, saindo do alcance de Snow.

Observou Lilith despir-se das inúmeras camadas de tecido, jogando as vestes do chão. Snow sentia como se Lilith lhe fizesse um show particular, mesmo que esta parecesse um pouco alheia. Lambeu os lábios quando viu o corpo perfeito. Era incrível como sempre perdia momentaneamente o fôlego quando a via nua, embora já estivesse em seus lençóis diversas vezes. A barriga lisa, os seios fartos de mamilos rosados, as pernas bem definidas e seu paraíso particular entre as coxas firmes. Snow sentou-se na poltrona novamente, afundando na almofada.

A taça de Lilith estava cheia de novo. Ela não se preocupou em vestir alguma roupa. Não se importava com o olhar do corvo sobre seu corpo e muito menos com os olhos violetas de Snow. Foi até sua poltrona, sentando-se com as pernas encolhidas, o queixo apoiado no joelho. Focou sua atenção no chão de mogno escuro, seus cabelos dourados jogados para o lado.

Era como ver uma menina perdida, sem saber o que fazia.

–– Qual o problema? – Snow havia enjoado do silencio.

–– Não há um problema – Foi à resposta imediata de Lilith, que levava a taça aos lábios.

–– Você bebe demais. Acho que nunca vi você terminar uma refeição inteira.

–– Está preocupada com minha saúde?

–– Você por acaso come alguma coisa?

Lilith finalmente olhou para Snow, os olhos azuis pareceram se acender, mas era um brilho gelado, rígido.

–– Você.

Não esperando por essa resposta, Snow piscou um par de vezes, observando o sorriso de pura satisfação que a rainha usava no rosto. Ela achava graça, mas Snow tão entendia o motivo do riso.

–– O que você quer, Lilith? – Seriedade transbordava da voz de Snow, mas isso não apagou o sorriso de Lilith.

–– O que eu quero? – A rainha soltou um risinho embriagado – Eu quero a coroa, eu quero o controle, eu quero o poder, eu quero a magia. Eu quero tudo.

–– Só os deuses têm tudo – Snow custava a entender aquela mudança de humor tão repentina.

–– Então por que eu não posso?

–– Você é um deus?

–– Gosto de fingir que sim, mesmo que eu não me sinta nada como um.

–– Por quê? Você sempre me pareceu bastante confiante do que é.

–– Ah, Snow... – Sua expressão se tornou felina, as maçãs de seu rosto ruborizadas por causa do vinho – Existe tanta coisa que você não faz ideia.

–– Você me quer, Lilith? – Snow decidiu ignorar a atitude enigmática da rainha.

–– Eu não posso te querer.

–– Essa não foi minha pergunta. Você me quer?

Ela se calou. Olhou para o interior da sua taça. Vazia. Para o jarro de vinho. Vazia.

Vazia como Lilith.

Snow sentiu-se subitamente deprimida.

–– Querer você faz de mim alguém fraco – Sua voz era baixa, quase um sussurro – Faz com que eu entre em contradição com aquilo que eu venho tentando ser desde que me entendo por gente. Faz com que eu perca o foco, o raciocínio. Querer você me enfraquece.

–– Então também sou fraca – O coração de Snow começou a martelar em seu peito – Porque eu quero você. Mais do que deveria, mais do que tudo.

–– Por quê?

–– Não sei – Snow respondeu depois de alguns segundos – Eu só quero.

–– Você quer demais – Lilith olhou para seu corvo, que a encarou de volta. Fez um gesto com a mão. A ave se foi imediatamente, gralhando enquanto voava pelo céu cinzento de Woolridge.

–– Eu quero – Uma súbita determinação percorreu seu corpo. Ela se levantou da poltrona, indo de encontro com Lilith, estendendo suas pernas e sentando em seu colo logo em seguida. Não se importou se aquilo a agradaria ou não – Eu quero a sua boca, o seu toque, o seu corpo, os seus cabelos. Eu quero tudo.

Lilith riu, jogando a cabeça para trás. Bebeu mais um gole de vinho, olhando Snow diretamente nos olhos. Mordeu o lábio e passou as unhas pelo próprio pescoço lentamente, sobre sua garganta. Estava bêbada.

–– Só os deuses têm tudo.

–– Os deuses podem ter tudo se você for minha – Snow sorriu e não esperou por uma resposta, beijando-a de forma necessitada.

O gosto de vinho inundou sua boca, mas o sabor de Lilith ainda era predominante. Snow estava agitada, quase desesperada, buscando a língua da rainha com a sua própria. Sentiu seus cabelos serem puxados com violência e não conseguiu evitar um gemido, o seio de Lilith encaixando-se na palma de sua mão, o mamilo sendo beliscado gentilmente.

Mas então Lilith quebrou o beijo de repente, olhando para trás. O corvo estava ali, no parapeito da janela, encarando as duas mulheres com aqueles olhos de escuridão e chamas. A rainha parecia hipnotizada por ele, fitando-o profundamente. Snow jurou sentir sua pele começar a esquentar.

–– A guerra está ganha – Lilith disse assim que saiu de seu transe, o corvo se foi tão subitamente como chegou – Seu pai está voltando.

Snow ignorou e clamou os lábios de Lilith novamente, com ainda mais urgência desta vez.

Naquele momento, Lilith era dela.

E nada mais importava.

Notas finais
Obrigada por ler e comente se puder :) Also, me segue no tumblr mizzdlovato e me avisem (por Mensagem Privada ou ask) que vocês são daqui pra eu dar um follow back
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!