Godless Soul
9 Juntos, mas separados
Notas iniciais
Lie parou de andar quando entraram num beco escuro, deixando que os outros avançassem um pouco à frente dela e notassem sua parada. Não caminharam tantos metros, pois Envy dera rapidamente por sua falta. Ele olhou para trás e cutucou Lust e Pandora, que tagarelava sem parar, como uma criança conversadeira.
- O que foi, Lie? – ele perguntou.
Os olhos do homúnculo não paravam de fitar Lust enquanto ela colocou as mãos na cintura e respirou fundo.
- Agora me diga. Como diabos você está viva?
- Eu já disse que é melhor esperar até chegarmos. Só assim vai entender. – ela respondeu.
Lie balançou a cabeça.
- Você morreu na minha frente. Espera que eu deixe isso para lá, simplesmente?
- Você é muito impaciente, pode tentar se acalmar?
- Não – rosnou. – Quero saber agora! E quem é essa garota afinal? – ela apontou para Pandora.
- Ela é outro homúnculo Dela.
- Dela? Dela quem?
- Daquela que me trouxe de volta.
- E quem, droga, te trouxe de volta, sua velhota lerda?!
- Juno-sama! – Pandora respondeu por Lust. – Juno-sama trouxe a mim e a Lust-san de volta de um lugar horrível mesmo depois que morremos, Lie-onee-san!
- Onee-san? – Lie franziu o cenho, mas Pandora limitou-se a sorrir amigavelmente. Ela estava começando a pensar que o homúnculo que acabara de conhecer tinha algum tipo de transtorno bipolar, ou algo do gênero. Num minuto ela faz Alphonse Elric desmaiar sem nem manter contato visual com ele – seu semblante estivera demoníaco naquele momento – e no outro, está sorrindo e chamando-a de onee-san. Não fazia sentido. Ou ela era sádica, ou infantil, precisava se decidir.
- Hm – fez Lust. – Bom que a pequena goste de você, pelo menos terá alguma companhia além do inútil do Envy depois que Juno terminar de trazer os outros de volta.
Lie pretendia se atrever a perguntar quem era Juno, ou como ela terminaria de trazer os outros de volta, ou quem eram os outros, mas preferiu se atrever a puxar as adagas do rosto e partir para cima de Lust por chamar Envy de inútil. Lust defendeu-se como pôde, mas Lie estava segurando aquilo há um bom tempo desde que ela aparecera novamente. “Fora que eu sempre quis chutar o traseiro dessa vadia desde o primeiro momento em que pus os olhos nela”, Lie pensou.
Lust virou-se para esquivar de um ataque, mas Lie chutou-lhe as costas de modo que a outra caiu no chão. Lie girou uma adaga na mão, mas quando pretendia fincá-la no pescoço do homúnculo, foi obrigada a parar, pois Envy entrou bem em sua frente.
- Lie, não. – ele pediu.
Ela parou, arregalando os olhos e então franzindo o cenho.
- O quê?! Não o quê? Prefere defender essa vadia a me defender? Porque você não abriu a boca para dizer uma palavra a meu favor desde que ela apareceu do mundo dos mortos!
- Uh, não é nada disso. E pare de dizer bobagens porque tudo o que eu faço é por você! – ele disse erguendo o dedo indicador para ela.
Ela atirou sua mão para o lado.
- É mesmo? Porque fui eu quem te salvei todo esse tempo, se você não percebeu.
- Percebi sim! Você é que não percebe que eu até agora estive tentando mudar por você!
Lie parou de falar, revendo seus atos. Mudar? Quando ela o obrigou a mudar? Ele não mentia, ela podia sentir, mas o que ele estivera tentando mudar por ela? Não precisava, ela o achava perfeito do jeito que ele era. Do que estava falando?
- Ah, sim, como eu imaginava – ele disse. – Você não notou, não é? Eu não mato ninguém há um ano e você sabe que sou um sádico. Bem, eu falei para você que estava com saudade das coisas como elas eram. Posso eu decidir o que nós vamos fazer pelo menos uma vez?!
Ela ficou apenas encarando-o por um longo momento. E então forçou seu cérebro a sair do estado de choque e mandar mensagens neurológicas para sua cabeça assentir. Envy pareceu satisfeito com a resposta, mas ainda muito incomodado por estar brigando com ela novamente. Ele começou a caminhar na frente, espreguiçando-se, e Lust levantou, lançando um olhar vencedor à Lie antes de acompanhá-lo.
- Lie-onee-san? – Pandora, quase num sussurro, perguntou-lhe quando ela não seguiu em frente. – Você está bem?
Lie sorriu para a garota, sentindo uma onda repentina de afeição por ela e até começando a gostar de ela chamá-la de onee-san.
- Estou sim, obrigada, Pandora. Vamos.
O lugar era um prédio extremamente alto – o mais alto da Central, depois do Quartel General. Havia sido durante muito tempo um hotel, mas passou a ser o depósito da fábrica que ficava ao lado depois que o investimento faliu. O elevador era dos mais velhos, mas ainda tinha uma grade de segurança quando as pessoas entravam. Pandora divertia-se vendo os andares passarem até que chegaram ao último.
- Juno-sama! – ela exclamou, pulando fora do elevador e saltando feliz até uma figura de longos cabelos negros que examinava o lado de fora de uma janela. – Juno-sama! Eu consegui! Eu os trouxe para cá!
“De alguma maneira desagradável ela me lembra do Gluttony”, pensou Envy, franzindo os lábios. A sala era ampla e todas as paredes eram brancas. Havia dois sofás de três lugares e uma poltrona, uma janela mais ao fundo, um piano preto e uma parede com duas portas, ambas abertas. A primeira mostrava um quarto vazio, com somente uma cama e a outra era um banheiro. Havia um espaço enorme entre as duas portas, no qual a parede estava com marcas recentes de alquimia.
- Muito bem, Pan. Posso dizer que isso corrige seu erro de hoje mais cedo. – Juno limitou-se a dizer em resposta, voltando seus olhos lindamente azuis para os visitantes. – Bem vindos.
Juno era baixinha, com cabelos longos até a cintura e olhos azuis. Um tipo comum que poderia ser julgado uma filha de algum militar, mas só caso seus cabelos não estivessem rebeldes como estavam: caindo por todos os lados, inclusive no rosto. Suas vestes consistiam numa calça folgada e uma camiseta grande demais para ela em que a gola expunha um ombro pálido.
Os presentes na sala ficaram se encarando por alguns minutos. Lie não gostava do olhar de Juno fuzilando-a, mas não disse nada. Nem foi necessário.
- Você não gosta de mim. – ela disse, olhando diretamente para Lie.
- Esperta. Como notou?
- Eu sei tudo.
Lie soltou um meio sorriso e arqueou uma sobrancelha.
- Um pensamento um tanto egocêntrico, não acha?
Juno não respondeu, mantendo sua expressão nula.
- Quem é você? – Envy perguntou.
- Eu estava esperando que ela perguntasse isso, já que está mais curiosa quanto a isso do que você, embora menos empolgada para saber.
Envy e Lie se entreolharam.
- Como sabe de tudo isso? – ele perguntou.
- Porque eu sou Deus. – ela disse.
Lie ergueu ambas as sobrancelhas e começou a rir.
- Você é Deus? – repetiu. – Não me faça rir.
Juno caminhou até a poltrona e se sentou de frente para Lie, como se estivessem tendo uma conversa normal.
- Você vai acreditar, mais cedo ou mais tarde. Mas por hora pode ver com seus próprios olhos, homúnculo. Como acha que Pandora e Lust voltaram de suas terríveis e dolorosas mortes?
O sorriso de Lie se esvaiu.
- Exato. – Juno continuou com satisfação. – Eu as trouxe de volta de um modo bem simples... para mim.
- Isso é alquimicamente impossível.
- Nada é impossível. – Envy murmurou ao lado dela. Quando Lie virou-se para ele, recriminando-o com o olhar, ele notou o que falara. – Er, desculpe. Só me lembrei do Greed.
Lie franziu o nariz e voltou a olhar para Juno.
- Só quero saber como você o fez, estou curiosa.
- Para isso você precisa primeiro saber o que eu sou. – um raro sorriso, embora minúsculo, apenas nos cantos dos lábios, surgiu no rosto de Juno. – É uma longa história, não seria melhor sentar-se?
O Führer ergueu seu punho e bateu na mesa, erguendo-se na mesma hora.
- O que está me dizendo?! – perguntou a Fallman, parado à sua frente.
- Desculpe senhor, mas é isso mesmo. – o homem disse, hesitante. Ele estava desconfortável por mentir, ou melhor, omitir o fato de Havoc ter dormido durante o serviço, mas estava recebendo um suborno bom demais para não comentar sobre o assunto. Muito menos na presença de Hawkeye, que estava ao lado de Mustang com uma prancheta. – Os homúnculos fugiram – continuou. – E atacaram uma dúzia de homens no caminho. Apenas cinco sobreviveram, mas estão no hospital.
Mustang cerrou os punhos e voltou a se sentar.
- Eu sabia. Tinham que ter sido aqueles dois!
- Er – Fallman continuou. – Parece que Alphonse Elric também estava presente, mas por incrível que pareça, não o feriram.
- Alphonse? O que ele estava fazendo lá?
- Não tenho ideia, senhor.
O Führer apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou os dedos em frente à boca, pensativo. Soltou um suspiro longo e cansado e disse:
- Isso é tudo, Fallman. Obrigado.
O oficial prestou continência e saiu caminhando da sala, fechando a porta do gabinete atrás de si.
- Creio que foi um pouco duro com aqueles homúnculos – Hawkeye comentou. – Eles acabariam fugindo, afinal, segundo o que diz, eles negaram até o fim.
- Ela tentou te matar, por que está dizendo isso, Primeiro Tenente?
Ela suspirou pelo que pareceu ser a enésima vez.
- Eu já disse que não foi ela. Deve ter sido outro homúnculo, apesar de ela ter a mesma altura da pessoa que me atacou.
- Você não pôde ver o rosto, não é mesmo?
- Estava coberto por uma capa preta e ela parecia estar descalça. Mas posso ter certeza de que era uma mulher. Por que tem tanta certeza de que foram aqueles dois? Lie prometeu que colocaria Envy nos eixos e não duvido dela.
- Não é questão de duvidar. Além de não acreditar em sua palavra, não acho que ele fosse se deixar ser controlado e limitado assim.
Ela olhou pela janela, distraída.
- De qualquer modo, não acho que esses assassinatos se devam a um caso de rebeldia por parte de dois homúnculos.
- O que quer dizer?
Ela deu de ombros.
- Minha intuição me diz que é algo bem maior. Maior até que o senhor, Führer.
Ele se levantou da cadeira e ela o encarou.
- Especulações e intuição não são provas o suficiente para me convencer, Primeiro Tenente. Os principais suspeitos são aqueles homúnculos até que se prove o contrário.
Ela assentiu.
- Como quiser, senhor.
Mustang começou a ir em direção à porta.
- Onde está indo?
- Vou ver se consigo alguma informação por aí – disse simplesmente, deixando bater a porta atrás de si.
Hawkeye fitou a passagem por onde ele saiu durante mais algum tempo, especulando. Não achava bom ele andar sozinho por aí, pois a pessoa que tentara matá-la provavelmente iria atrás dele também. Entretanto, não adiantava discutir, Roy era muito teimoso.
Ela se virou para a janela e voltou a observar a paisagem, contemplativa, e imaginando quem seria o próximo a ser morto com um leve tom de pesar no olhar. Quem estaria por trás de tudo isso?
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