Godless Soul

14 A Escuridão do Paraíso


Saindo do Quartel General da Central, Alphonse parou. Greed e La Fan pararam alguns passos depois, olhando para trás.

- Acho que eu deveria procurar o onii-san – murmurou.

- Uh, é mesmo – Greed falou. – Ele pareceu bem irritado, não é?

O garoto assentiu.

- Er, foi bom vê-los de novo, La Fan, Greed e Ling – ele sorriu e acenou, voltando para dentro da instalação.

- Até mais – Greed acenou. Entretanto, quando o fez, acabou erguendo os olhos para cima e viu no topo do prédio uma figura familiar. Sorriu para si mesmo e se virou para La Fan. – Ei, pode ir indo na frente, eu me lembrei de uma coisa que preciso resolver.

A garota estreitou o olhar, desafiadoramente.

- Não faça nada com o corpo do Jovem Mestre – disse em tom ameaçador.

Greed riu.

- O corpo dele é o meu corpo, por que eu faria algo de ruim?

Ela não respondeu, apenas se virou e seguiu andando. Só permitia que Greed andasse por aí dessa maneira porque Ling confiava nele. O homúnculo olhou para cima novamente e acenou. A pessoa no último andar sorriu também.

- Você deveria subir – ela disse em tom normal. Não se sabe como ele escutou. – Sabe o caminho.

- Se continua o mesmo, acho que sei – ele respondeu.

Alguns poucos minutos depois, ele estava lá em cima.

- Fazia algum tempo que eu não podia ver esses olhos gatunos, hein, mentirosa? – Ele sorriu, parando ao lado dela enquanto observavam o movimento dos carros lá embaixo.

- Como é voltar à vida, Greed? – perguntou Lie, abrindo um sorriso ao olhar para ele.

- Hmm, digamos que é revigorante. Deveria experimentar.

- Prefiro não tentar, morrer não está nos meus planos.

Ele riu um pouco e soltou um suspiro pensativo.

- Ótima escolha. Morrer não é bom.

- Mas parece ter te dado uma boa lição.

- De fato – ele resmungou. – E então, só você e o Envy sobreviveram afinal?

- Dos homúnculos, sim.

- E mais alguém voltou à vida?

Lie lhe lançou um olhar penetrante.

- Não tente extrair informações de mim, Greed. A situação é bem mais perigosa agora – ela olhou para o céu. – E eu sei que o garoto de Xing pode escutar.

“Eu sou o imperador de Xing, Ling Ya...”

- Você a escuta, mas ela não pode te escutar, Ling – Greed reclamou impaciente.

Lie sorriu e olhou para ele.

- Bem, Greed, preciso saber partindo de você. De que lado você está?

Ele ficou sério.

- Se eu ficar do lado dos Elric, vão me mandar de volta?

Lie soltou um suspiro longo.

- Não sei se ela pode fazer isso. Não tenho como saber se isso faz parte de seu poder.

- Entendo... – ele assente. – Por favor, se descobrir me avise. Minha decisão depende disso.

Lie começou a rir.

- Você continua ganancioso como sempre, não é? Não muda nunca!

- Sou um pecado, o que você queria?

Eles riram juntos por um momento e então Greed pegou a mão de Lie, puxando-a para si e abraçando-a, como fazem velhos amigos. Ela ficou por um momento surpresa e sem reação.

- Ei, não faça nenhuma besteira dessa vez, ok? – ele pediu.

Ela sorriu e correspondeu o abraço.

- Não se preocupe comigo. Eu sempre dou um jeito no final, não dou?

- Você mesma disse que isso é bem perigoso. Não facilite – ele se distanciou dela. – Não quero perder uma amiga.

Ela sorriu e assentiu, começando a se afastar.

- Não vai.

Por fim, Lie se virou e tomou rumo do esconderijo. Concluiu, enquanto passava pelas ruas cheias e quentes da Central, que Juno só podia ler a mente dos homúnculos que ela havia trazido de volta. O que era bom, ela não ia querer Juno olhando seus pensamentos, embora Lie não tivesse dificuldade alguma em dizer o que pensa.

Só que Juno também parecia não ter dificuldade alguma para descobrir o que quer quisesse.

Isso foi provado depois da discussão que prosseguiu naquela tarde. Lie chegou ao térreo do prédio, cumprimentou Gluttony – ouviu-o reclamar de fome -, e depois subiu direto para o último andar.

- Bem vinda de volta – disse Lust, encostada à parede e parecendo levemente entediada.

- Oi – Lie disse – Cadê o Envy?

- Lá em cima, suportando a Pandora.

- Não fale como se ela fosse um fardo – questionou, colocando as mãos na cintura.

- Não é como se fosse, ela é um fardo – Lust suspirou. – É mais chata que o Gluttony. Só não supera você, Lie.

Lie lhe lançou um olhar de menosprezo e olhou ao redor. Seus olhos então encontraram Juno, parada junto à janela quase como se não notasse sua presença. Lie soltou um suspiro e deu alguns poucos passos em direção a ela.

- Sei que provavelmente você já sabe disso, mas vou dizer mesmo assim – anunciou. – Greed disse que não sabe, ganancioso como ele é, quer saber primeiro se você tem a capacidade de mandá-lo de volta para o sei-lá-onde da morte antes de tomar uma decisão.

- Tsc – Lust fez. – Bem a cara dele.

- Concordo – dei de ombros. – Mas fazer o quê?

Juno virou-se lentamente para mim, fitando-me sem emoções.

- Não posso simplesmente mandá-lo de volta depois de trazê-lo. Não é como se eu tivesse um preço a pagar, como os humanos, para abrir o Portão, mas a cada vez que o abro é perigoso para mim.

- Perigoso, por quê? – perguntou Lie.

Ela limitou-se a voltar a olhar pela janela, deixando a curiosidade do homúnculo aguçada.

- Eu pensei que você tivesse namorado, Lie – ela murmurou, parecendo querer provocá-la. – Greed pareceu bem confortado com seu abraço.

Lie ergueu uma sobrancelha.

- Eu tenho namorado. E se você prestou bem atenção no que viu, não tenho nada a esconder. Eu e Greed somos amigos. Envy é o único para mim.

Uma risada cética vinda de trás fez com que Lie soltasse um suspiro profundo. Ela cruzou os braços e virou a cabeça na direção do homúnculo.

- Se tem algo a dizer, compartilhe conosco, Pride.

- Com prazer – ele disse, ainda sorrindo de forma provocadora. – Ele é o único. Mas nem sempre foi, não é?

Dessa vez a expressão de Lie tremulou levemente. Nada mais do que isso.

- O que você sabe sobre isso?

Ele deu de ombros.

- Pandora pode descobrir seus medos, ainda que momentâneos. Ela não esconde nada da Juno-sama, e nem poderia. De qualquer forma, acabei sabendo.

Um sorriso cresceu no canto da boca de Lie.

- Nunca pensei que você usaria “sama” com alguém que não fosse você mesmo.

Ele deu de ombros.

- “sama” chega a ser algo vil a ser usado comigo. Não existe nenhum sufixo que se adeque corretamente.

Lie revirou os olhos, irritada e se virou para Juno.

- Pandora te contar, tudo bem. Agora, contar para ele? Não me lembro de ter dado permissão.

- E desde quando eu preciso da sua permissão para fazer alguma coisa, homúnculo? – Juno se virou para Lie outra vez, mas agora com um olhar fulminante.

- Desde que o assunto me diga respeito – a outra retrucou.

Os olhos de Juno pareceram flamejar.

- Um minuto para você sair da minha frente – ela vociferou.

Lie estreitou os olhos, mas não moveu um músculo.

- Ainda me pergunto até onde os seus poderes podem chegar. Você trouxe vários homúnculos de volta da morte, mas o que tem demais nisso, se avaliarmos um mundo de possibilidades, ainda mais envolvendo alquimistas?

- 40 segundos.

- Eu não tenho medo de você, que isso fique bem claro. E pretendo ajudar também até certo ponto – Lie disse. – Um ponto que não me atinja, você sabe.

- 20 segundos, estou perdendo a paciência.

- De qualquer maneira, um dos meus lemas é sempre ter um plano de fuga. E saiba que se as coisas começarem a ficar muito impossíveis, estou pronta para cair fora e vou levar o Envy comi...

- 5 segundos.

- Eu te aconselho a subir – disse Lust. – Antes que ela termine a contagem.

- Já disse que não tenho medo dela – Lie rebateu.

- 3 segundos.

Lie esperou três segundos, encarando Juno.

- Terminou de contar? – perguntou no final.

- Sim – a outra assentiu.

- Ótimo, agora eu vou subir, com licença.

E sem dizer mais nada, Lie dirigiu-se ao segundo andar. Quando chegou, deparou-se com mais uma cena que deveria ajeitar.

- Envy, coloque-a no chão... E não no chão lá em baixo, você me entendeu.

Envy segurava Pandora pelo braço, pendurada na lateral do prédio com vários metros abaixo para cair. Ela ria, parecia não notar que Envy realmente estava com a intenção de soltá-la.

- Ah, vamos, seria legal ensiná-la a voar – Envy resmungou.

- Não – Lie disse, irritada, indo para outro ponto do telhado e se sentando à beirada.

Ele jogou Pandora ao seu lado, no teto, e foi se sentar perto de Lie.

- Ok, o que foi que houve?

Ela suspirou, cansada.

- Juno! Ela acha que eu devo totalmente sucumbir a ela. Isso é um absurdo.

- Você está ficando igual ao Pride. Você também é orgulhoso, seu cabeça dura. Não negue.

Ele sorriu para ela de um jeito desconfortável.

- Lie – começou, sentando-se ao lado dela. – Se eu fosse você, não ficaria em pé de guerra com a Juno. Ela é mais perigosa que o papai foi.

- Eu não ficava em pé de guerra com o Padrasto – disse ela. – E não tenho medo da Juno, Envy.

Pandora, em seu canto, olhou para Lie com uma expressão levemente desconcertada.

- Lie-onee-san, não devia dizer isso. Pan acha que ter medo da Juno-sama é saudável.

- Estou falando sério – Envy apoiou o braço no joelho. – Você não sabe o que ela pode fazer.

Lie bufou e cruzou os braços, irritada.

- Que ela me surpreenda.

Envy revirou os olhos e passou os braços por Lie, envolvendo-a e lhe dando um beijo provocante no pescoço.

- Ei, se você quiser – disse ele em seu ouvido. – Ainda dá tempo de dar no pé.

- Você quer?

Ele soltou um sorriso sacana.

- Tínhamos mais tempo para nós antes.

- Não vou fugir se você está feliz.

- Estou mais preocupado com você, não sou o Greed. Não queria ter te envolvido nisso, desculpe.

Lie riu um pouco.

- Ainda acho engraçado quando você pede desculpas por algo.

Ele estalou a língua em desdém.

- Só por você que eu faço essas loucuras. Quer ir embora ou não?

- Eu acho... – ela começou, mas foi interrompida pelo barulho da porta que dava acesso à escada.

Se quem tivesse aberto a porta fosse Lust, Gluttony, Wrath ou até mesmo Greed... Se quem aparecesse lá fosse um leão, um elefante, ou uma quimera dos dois... Nada disso teria pasmado mais o homúnculo da mentira do que a pessoa que se via parada em frente à porta.

Agora ela sabia do que Juno era capaz. Agora ela estava com medo de verdade. E agora, mais do que nunca, ela queria deixar aquele lugar.

Envy segurou o braço dela, apreensivo quando ela se levantou bruscamente. Ergueu-se também, com o cenho franzido. Ele reconhecera aquela pessoa, é claro. E agora imaginava qual seria a resposta de Lie.

Entretanto, ambos estavam mais infiltrados naquela história toda do que imaginavam, e só após esse acontecimento perceberam isso.

Luke abriu um sorriso enorme para Lie. Não havia mudado nada do que a extensa memória do homúnculo podia alcançar. Mais de duzentos anos reduziram-se a nada, como se nem tivessem acontecido.

- True – murmurou o humano, chamando-a pelo nome que tinha na época em que tudo acontecera. – Eu... Eu não me lembro, mais sinto que faz muito tempo.

Lie engoliu em seco. “Só posso estar sonhando” pensou “Juno quer me enganar... Ou Pandora está usando o poder dela em mim”. Essa foi uma possibilidade que ela cogitou antes desse lembrar de que a garota lhe dissera sobre seu pior pesadelo.

Mas isso era algo que Lie quisera por tanto tempo, e mesmo assim, agora já não o queria mais com a mesma intensidade.

- L-Luke – ela gaguejou. – É você m-mesmo?

Ele sorriu mais e assentiu, parecendo alheio à confusão dentro da outra. Por trás de Luke, a porta se abriu de novo e saíram de lá respectivamente Juno, Pride e Lust. Os olhos dos outros homúnculos brilhavam em deleite enquanto observavam a cena.

- Sim, sou eu! – ele exclamou. – Faz... Quanto tempo? – ele olhou para Juno buscando ajuda.

- duzentos e setenta anos – Pride respondeu com um sorriso afiado.

- Nossa!

- Não! – Lie exclamou de repente, voltando-se para Juno. – Como é ele?! Como é que pode ser ele, Juno?! Se fosse realmente o Luke, ele se lembraria do que aconteceu e jamais olharia no meu rosto novamen...

- É ele, Lie – Lust interviu. – Mas parece que o choque pelo que você fez foi tão grande que ele perdeu a memória.

- Perdi... – Luke franziu o cenho, pensando. – Do que vocês estão falando?

- Luke... – Lie começou, dando um passo a frente. Ela engoliu em seco, sem saber o que dizer. Então parou de repente, olhando para trás. Como pôde ser tão burra e não parar para pensar como ele deveria estar se sentindo? – Envy...?

O homúnculo da inveja olhava para o humano com um misto de arrogância e desgosto. Era quase como se ele estivesse olhando para um monte de carne putrefeita: nariz levemente franzido, sobrancelhas repuxadas, expressão de nojo total.

- Estão brincando comigo? – Envy perguntou aos demais, cerrando as mãos em punhos. – HEIN?! Só podem estar brincando comigo!

- Ninguém está brincando com você, Envy – Juno respondeu pronunciando-se pela primeira vez desde que passara pela porta. – O único alvo de meu desgosto é sua namorada.

Lie olhou para Juno, enraivecida.

- Namo... Espera, alguém me explica o que aconteceu em duzentos anos? – Luke perguntou, parecendo notar que em certo período de tempo, coisas acontecem.

Envy bufou alto e passou por Luke, Juno e os homúnculos, descendo as escadas. Lie pensou em chamar seu nome, mas isso não o faria voltar. Ela o conhecia bem o bastante para saber. Seus olhos encararam Juno fervorosamente. Ódio e confusão transbordando de suas íris. As da garota que se denominava Deus, entretanto, permaneciam calmos e imparciais enquanto fitavam a mentira com um ar de vitória.

- Isso foi surpreendente o bastante para você?—os lábios finos murmuraram antes que ela desse as costas e fosse seguida pelos demais homúnculos – Pandora, relutante; Pride com um olhar de escárnio e Lust, indiferente – escada abaixo.

Sim, havia, de fato, sido surpreendente o bastante. Mas isso não faria aquele homúnculo erguer a bandeira branca, de jeito nenhum.

Mas na verdade, nem Juno nem Lie, tinham ideia de com quem estavam lidando.

Notas finais
Deixem comentários, que vcs andam preguiçosos!rs
Bjos da Yukari!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.