Goddess of Revenge
7 Capítulo 7: Suspeitas
Notas iniciais
Depois que Odin havia saído, não demorou mais do que duas horas para que as bombas silenciassem e Os Três Guerreiros chegassem acompanhados por Lady Sif. Os príncipes asgardianos mais do que depressa correram se ocupar de suas funções. Jane e Frigga procuravam restaurar a ordem no palácio, acalmando as serviçais e coordenando a organização de tudo. Eu teria tomado parte naquilo, mas no momento estava sentada no chão de uma torre lateral esperando minha vez para usar uma das Forjas de Almas e dar um jeito na minha costela.
Eu já teria sido atendida se quisesse. Na verdade quando cheguei fui considerada prioridade. Viver como se fosse parte da família real tinha essas vantagens. No entanto bastava que eu ficasse parada e quase não sentia dor. Ao contrário de mim, havia pessoas com fraturas expostas e queimaduras. Elas berravam e choravam pelos corredores e a cada pouco tempo mais feridos eram trazidos em macas flutuantes pelos soldados que Loki enviava. Eu não tinha como ser prioridade numa situação daquelas.
Por isso evitei ficar num lugar onde fosse chamar muita atenção. Acabei sentada ao lado de uma estátua de um velho usando um capacete com chifres de bode. Sempre que uma nova maca surgia eu escondia o rosto entre os joelhos, dobrados na altura do peito. Não queria ver aquilo. Ouvir já era mais que suficiente.
Estava ali tentando ser invisível quando ouvi o retinir de metal diante de mim. Não cheguei a erguer os olhos. Vidar sentou ao meu lado, abraçando os joelhos exatamente como eu. Ficamos em silêncio enquanto um homem inconsciente era encaminhado.
– Tudo bem com você? – questionou me olhando. Assenti breve.
– Só uma costela quebrada.
– Devia deixar te atenderem.
– Eu vou deixar daqui a pouco. – respondi. Vidar bufou entre um riso e um suspiro. – Muitas baixas?
– Muitas. Para ambos os lados. – informou com uma expressão pesarosa. Ao mesmo tempo parecia confuso. E eu entendia o motivo. Já tinha ouvido muitas pessoas passarem por ali se perguntando exatamente a mesma coisa. Por que aquilo tinha acontecido?
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Ele tinha um hematoma ao redor do olho direito e a boca ainda sangrava de um corte fundo no lábio superior, que limpava na capa do uniforme.
– Foram mortais que fizeram isso. – afirmou quebrando o silêncio, me olhando um pouco de lado. Devolvi o olhar.
– Eu sei. – O homem continuou fixo em mim. Então me ocorreu. – Você não acha que eu ou Jane temos algo com isso, acha?! – exigi saber abaixando o tom de voz para não ser ouvida, mas com toda a ofensa explícita na voz. Meu coração batia nervosamente.
– Não. – rebateu imediatamente. – Mas não é com o que eu penso que você deve se preocupar. – insinuou de um jeito que me fez engolir em seco. – Lady Sigyn... – falou me fazendo achar por um segundo que ele falava da garota. Na verdade ela apenas estava em pé diante de nós e ele a cumprimentava.
A deusa usava os cabelos presos em um penteado apertado, não deixando um único fio fora do lugar e trajava um vestido simples de um tom opaco de azul acinzentado. Um avental cor de grafite cobria a roupa deixando as mangas longas das vestes aparecerem. Eu ainda vestia as roupas de campo. Era a primeira vez que eu a via com uma aparência tão cansada, sem uma gota de maquiagem no rosto e longe das costumeiras joias. Pessoas bonitas conseguem ser atraentes mesmo quando tudo vai contra isso. Mas naquele momento ela não era mais do que qualquer das outras curandeiras.
Vidar se levantou, me amparando por um braço para que eu pudesse fazer o mesmo, e fez uma breve reverência com a cabeça em respeito a jovem. Repetiu o gesto comigo, enquanto os soldados que ele acompanhara voltavam do interior de uma das forjas.
– Se precisar de algo, Lady Liana, estarei a disposição. – informou seriamente. Assenti brevemente, antes que ele girasse nos calcanhares e retornasse aos seus afazeres. Voltei minha atenção para a garota. Os olhos verdes me encaravam com uma expressão preocupada.
– Lady Liana eu estou com a forja livre agora. Se achar conveniente podemos cuidar da senhorita antes que mais algum paciente chegue. – ofertou com gentileza. Concordei a seguindo para a sala.
Uma mesa branca iluminava o ambiente lúgubre, enquanto uma menina que aparentava enganosamente uns treze anos, limpava algumas gotas de sangue do chão. Outras duas mulheres programavam a máquina. Fizeram uma breve reverência para mim, sem me olharem com atenção.
Sigyn me indicou a mesa, onde me sentei. Ela me apoiou pelas costas para me ajudar a deitar. Uma careta de dor me escapou junto com um ganido baixo. Então as compridas hastes nos cantos da mesa se acenderam, uma réplica do meu corpo se iluminando acima de mim. Me senti estranhamente confortável. Não havia nenhum tipo de dor.
Elas começaram a mexer num painel de luz lateral e logo a versão luminosa do meu corpo se dividia em músculo, vasos e ossos. A maldita costela se revelou partida em dois pontos. Mesmo que eu não sentisse mais nenhum desconforto, as observei enquanto escaneavam cada centímetro em busca de qualquer dano a mais. Uma delas se concentrou no corte da raiz dos cabelos. Frigga tinha cuidado de limpar e anestesiar aquilo, mas ainda estava muito aberto para ser ignorado. Depois disso as mulheres começaram a manipular a energia da máquina a condensando ao redor do ponto partido no osso. Eu não sentia nada diferente.
– A senhorita conseguiu uma fratura muito séria aqui. – Uma das mulheres afirmou. Encarei o ponto que elas procuravam fixar. Eu não entendia nada daquilo.
– O impacto de uma bomba me jogou longe. – expliquei. Vi uma das mulheres sorrir de canto. Me arrependi de ter dito a verdade.
– Mas que bom que nada mais sério aconteceu. – Sigyn disse com doçura, enquanto após alguns minutos a máquina se desligava ao comando delas. Me sentei contraindo os músculos por medo da dor, mas sem necessidade. A costela estava reparada assim como o corte que estava quase completamente cicatrizado. – O príncipe Loki teria ficado muito infeliz se algo lhe acontecesse. – afirmou. Aquilo me fez virar o rosto para ela. Não importava o quanto Sigyn fosse gentil e atenciosa comigo, eu não conseguia confiar nela. Sempre tinha aquela sensação de que a garota estava apenas rondando a espera de uma brecha.
Desde o primeiro momento em que nos vimos, senti que a deusa me enxergava como uma distração. Um mero passatempo de Loki. A corte provavelmente encarava da mesma maneira. O que mais me incomodava era me pegar como uma idiota imaginando o que aconteceria quando eu deixasse Asgard. Era uma decisão que eu tinha muito clara em minha mente, embora me parecesse irreal. Quando meu tempo tivesse passado, quando a aparência de uma jovem desse espaço a uma mulher que poderia ser sogra de Loki, eu deixaria o reino. Provavelmente o deus diria ser uma decisão burra se soubesse. Provavelmente ele teria razão. Mas como eu me sentiria se não o fizesse? Se assistisse a mim mesma declinar, enquanto ele estaria absolutamente igual? Se, por um único segundo, me ocorresse que ele permanecia ao meu lado por pena ou gratidão, me detestaria profundamente. E como a mulher egoísta que eu era, fugiria antes disso.
Mas o que mais me doía, era aquela deusa diante de mim. Linda. Jovem. Culta e delicada. E a quem eu invejava da pior maneira que um ser humano podia fazer. E ao mesmo tempo sentia pena. Quando eu deixasse o palco, sabia que seria Sigyn a ocupar meu lugar sob os holofotes. Em dez anos ou cem. Não importava. Seria ela. Por conveniência, eu desejava.
Nesse ponto entrava a pena. Podia ser arrogância minha, mas eu tinha feito demais para ser esquecida. Talvez minha voz se perdesse no tempo. Meu rosto. Mas meu nome permaneceria ecoando pela mente dele e isso Sigyn jamais apagaria. Estava vingada antes mesmo que o futuro se desenrolasse. Mas ainda assim detestava uma garota que nunca havia feito nada contra mim. Nada além de amar o mesmo homem que eu. "O príncipe Loki teria ficado muito infeliz se algo lhe acontecesse." Sorri para ela.
– Teria sim. – concordei, me levantando e seguindo para a porta. Ele teria. Ela não. Para mim isso ficava implícito na frase. Talvez nem fosse a intenção, mas era como me soava. – Uma sorte que eu seja tão resistente. – afirmei sorrindo mais amplamente. – Obrigada pela ajuda. – agradeci com um breve aceno da cabeça para as mulheres e me retirei antes de dar chance para uma resposta. Uma nova leva de pacientes chegava para garantir que elas se mantivessem ocupadas.
Desci as escadarias, tentando me livrar da paranoia. Eu tinha alguns amigos entre os serviçais e gostaria de ter certeza de que todos estavam bem. Depois poderia ir atrás de Frigga e Jane e descobrir alguma maneira de me fazer útil.
Vi mulheres carregando roupas limpas e cobertores, alguns nobres traziam doações para aqueles que tinham perdido tudo. Poucos me notavam enquanto eu passava. Os que notavam estavam ocupados demais para fazer mais do que me cumprimentar brevemente e seguirem seus caminhos.
A sala do trono não estava guardada quando passei diante dela e uma das enormes portas duplas se encontrava entreaberta. Espiei pela brecha na esperança de encontrar algum conhecido que me interessasse. E realmente encontrei, embora duvidava que ele pudesse responder a qualquer das minhas perguntas. O único ocupante do recinto era Jinggles, que aparentemente havia deixado o quarto de Frigga assim que a oportunidade surgira e agora me encarava com seu olhar crítico, sentado empertigado no trono de Odin. Ele devia realmente achar que merecia o lugar.
Entrei para rebocar o gato gordo. Odin nunca tinha demonstrado nada contra animais, na verdade parecia gostar bastante, principalmente dos corvos que tinha, mas eu não queria testar a opinião dele sobre um felino ladrão de tronos.
Meus passos soavam abafados, deixando o som se perder antes de chegar ao teto abobadado muitos metros acima. Mesmo o barulho exterior não conseguia encher o lugar. O salão era enorme e eu dificilmente vinha ali se não precisasse. O chão era repleto de arabescos e runas que eu ainda tentava aprender a ler. Se Jinggles quisesse se esquivar bastava correr para longe e eu teria muito trabalho, mas ao invés disso ele permanecia tão parado quanto possível, me fitando fixamente.
Subi as escadas que levavam até o trono. Loki um dia voltaria a se sentar ali, eu tinha certeza. Me virei por um breve segundo e olhei ao redor admirando a vista do lugar de honra da rainha. Apertei os lábios impedindo um sorriso de se formar. Eu era uma tonta impressionável. Finalmente me virei para o gato, que ainda me encarava com sua expressão arrogante. Quando estiquei as mãos para pegá-lo, Jinggles enfim esboçou reação.
Não de fuga como eu esperava. Apenas se encolheu para longe de mim, contra o encosto do trono. Silvou baixo em protesto. Franzi as sobrancelhas me questionando se ele estava dando sinais tardios de ter se ferido e por isso temia meu toque, quando ouvi as vozes vindas da sala lateral. Não altas o bastante para que eu pudesse entender com clareza, mas tinham urgência suficiente para chamarem minha atenção.
– ...não muitos... estimando... crianças. – Ouvi a voz grasnada de Wigord. O Conselho Real estava reunido. Era de se esperar.
– Doze me parece alto. – Afirmou Davlan. Um dos poucos conselheiros de quem eu gostava. Era tão gordo quanto um homem poderia ser e tão risonho quanto o mais feliz dos bêbados. Tinha um vozeirão alto que gostava de usar para dirigir elogios às pequenas coisas. Costumava elogiar meus cabelos sempre que eu fazia um penteado neles. Às vezes me caçava nas cozinhas em busca de cupcakes. Mas apesar do jeito bonachão diziam que manejava uma clava como ninguém mais faria. Loki costumava afirmar que era um homem responsável e justo com muito senso de dever, o que para mim queria dizer muito já que ele costumava apontar os conselheiros como um monte patético de bajuladores. E isso, aliado ao tom de preocupação do homem, me fez realmente prestar atenção no que estava acontecendo. – Deveríamos... a Midgard... explicações
– E um alerta. – complementou Wigord.
– Que seja Thor então. – ouvi Odin decidir com veemência. Jinggles, não se esquivava mais. Eu não tinha mais intenção de pegá-lo, então não havia motivo para se esquivar. Apenas me encarava com sua pose real.
– E o que... população? – Wigord resmungou na sua voz rouca e falha. Era muito, muito velho e cheirava fortemente a mofo. Devia ter saído de algum sarcófago enquanto ninguém estava olhando.
– Que... os reféns de volta. – Bragi alegou com sua voz suave e melódica. Aquilo me fez soltar uma exclamação baixa. Haviam reféns. As crianças? Doze delas? Me aproximei mais da porta lateral, mal respirando para evitar fazer algum barulho que me denunciasse, desejando escutar com mais clareza.
– E quais as chances reais disso acontecer, Bragi? – Ouvi Davlan perguntar num tom de censura. Aparentemente dizer aquilo seria alimentar falsas esperanças. Senti algo ruim se agitar no meu estômago.
– O que espera? É o melhor que podemos oferecer. – rebateu. Era o mais jovem conselheiro e Loki costumava o chamar de descerebrado. Apesar disso tinha malícia e havia subido rápido na hierarquia asgardiana depois de ingressar no exército.
– Existe uma diferença entre esperança e mentiras. Dizer que faremos o possível é melhor do que afirmar que certamente voltarão. – Odin ponderou de um jeito muito correto. Eu concordava. Bragi podia querer passar confiabilidade num momento de crise, mas mentir apenas criaria revolta quando as expectativas não fossem atingidas.
– Sim... razão, Majestade. – Concordou rapidamente. Me aproximei ainda mais. Jinggles me encarava como se prestasse tanta atenção quanto eu. Sentia meu coração acelerado contra a costela recém-reparada. Não tinha permissão para acompanhar reuniões do conselho. Mesmo Thor raramente era convidado a elas.
– Diremos que faremos o que estiver ao nosso alcance. Que nossos esforços serão empenhados nisso. – Decidiu firme. Ouvi sussurros em concordância. – Primeiro devemos cobrar explicações de Midgard e enviar nosso alerta.
– Majestade? – Fisir chamou. Era um homem calado, magricela e tão feio quanto à peste, mas incrivelmente engenhoso. Metade da tecnologia de Asgard saíra da mente dele. Gostava mais de máquinas do que de pessoas. – E quanto as mortais? – Perguntou. O silêncio pesou sobre a sala. Encarei a porta, sentindo um choque de adrenalina me percorrer. Eu mal respirava na expectativa do que viria a seguir. Demorei a perceber que apertava minhas mãos em punhos contra o vestido, encarando o gato. Davlan se apressou a falar.
– Insinuações não tem espaço neste conselho, meu nobre amigo. E sinceramente não vejo nenhuma das duas envolvidas em algo assim. – declarou numa tentativa de encerrar o assunto.
– Jane Foster não. Conhecimento é algo suave de se conter. – Wigord afirmou. Merda. Merda. Merda. Apertei a boca esperando o fim do raciocínio. – Mas vingança... Alguém esqueceu o exército que a garota jogou na sala do trono? – Era retórico. Aquilo era parte da história de Asgard e jamais seria esquecido. E a lealdade daquela tropa estava inegavelmente em mim.
– O ataque não veio dos mesmos guerreiros, caso não tenham notado. E não vejo motivos e nem meios para que ela fizesse algo assim, ancião. – Davlan tentava ponderar. Achei que meu coração fosse fugir pelas portas. Minhas pernas pareciam chumbo. Eu não tinha feito aquilo. Eu era inocente.
– Trapaça e traição seriam o melhor motivo. – Fisir falava um tanto quanto enérgico. Eles achavam que Loki tinha engendrado aquilo e me envolvido. Que eu era leal a ele e queria vingança, talvez pelo meu suposto exílio de Midgard ou por qualquer motivo que fosse. E mesmo se eu não os tivesse, Loki os tinha e não esquecia fácil. E se eu não o abandonara em Valhala, quem acreditaria que ele estaria sozinho em algo assim?
– Está supondo demais e se afastando dos fatos com que este Conselho trabalha, Fisir. – O conselheiro gorducho atalhou bruscamente.
– Concordo. Deixemos que Midgard se manifeste antes de supor qualquer coisa. Com o que eles responderem poderemos tomar alguma atitude ou tirar alguma conclusão. – Ouvi a voz de Odin. Soltei um suspiro entrecortado e fechei os olhos, aliviada por um breve segundo. Ele ainda tinha juízo. Minhas mãos suavam. Quando tornei a abri-los, vi Jinggles pular do trono e descer as escadas num furacão. Parou me olhando, minha boca se entreabriu, um segundo antes de o rei tornar a falar. – Por hora estão dispensados. Retomem suas atividades e me reportem qualquer anormalidade ou informação. – encerrou. Minhas pupilas se dilataram ao ouvir as cadeiras sendo arrastadas e após um breve silencio dedicado a uma reverencia o rei, as vozes ressurgirem falando de seus afazeres.
O peso deixou minhas pernas e eu rapidamente as pus para trabalhar, descendo as escadas tão depressa quanto elas permitiam. Quase voei seguindo o caminho que Jinggles traçava pelo amplo saguão. O animal parou duas vezes por instantes, vários metros a minha frente, apenas para olhar por cima do ombro e garantir que eu continuava avançando. Meus passos ecovam alto e denunciariam minha presença, não fosse a tagarelice dos homens. Temi que não conseguisse deixar a sala antes que abrissem a porta, mas graças à falta de agilidade de Wigord que cedia sob o peso da idade atrasando aos outros, tive tempo para me esgueirar pela porta seguindo o rastro do gato preto. Ele saltou pelas escadas tão rápido que eu jamais acompanharia e de toda forma eu sabia que o corredor acima não estava tão vazio quanto aquele e minha respiração rascante chamaria atenção. Olhei ao redor, a culpa estampada em meu rosto. Precisava me esconder ou achar um jeito de passar despercebida. Então fui puxada bruscamente para trás de uma enorme cortina vermelha que decorava o amplo corredor.
Olhos verdes me esquadrinhavam atentamente. Loki se encostou completamente a mim, nos achatando contra a parede, para garantir que a cortina não revelasse nossa presença pelo contorno de suas costas. Os pés não apareciam por baixo do tecido que tocava o chão. As vozes dos homens irromperam no corredor. O deus diante de mim levou um único dedo aos lábios. Silêncio. Eu não movia um único músculo e fazia o possível para abafar o som ruidoso da minha respiração. Escondi o rosto no pescoço dele nessa tentativa. O cabelo preto estava na altura do ombro e tinha cheiro de fumaça, encostando-se em meu rosto.
As vozes e passos dos conselheiros e do próprio regente desapareceram ao fim do corredor que conduzia ao saguão de entrada. Permanecemos em silêncio por mais alguns minutos. Então afastei o rosto do ombro do príncipe e tornei a encara-lo. Loki inclinou a cabeça o suficiente para conseguir olhar por uma frestinha por cima do ombro. Então saiu de trás da cortina, me puxando consigo. Rapidamente enganchou meu braço no próprio e me encarou atentamente, caminhando num passo suave e constante.
– ... de mais suprimentos. – iniciou a conversa com uma frase cortada ao meio, no exato momento em que dois guardas entravam pela outra extremidade. A ordem estava sendo reinstaurada e os homens estavam ali para assumirem seus postos na guarda. Loki me encarava com intensidade, tornando impossível olhar para qualquer lugar que não para ele. – Vou sugerir que seja solicitado a Vanaheim. O que acha?
– Ahn... – Meu cérebro trabalhava para se ajustar a situação. – Ótimo! Mas acho que vamos precisar buscar por voluntários. A situação está muito ruim lá fora?
– Nada que eu não possa contornar. – Respondeu com superioridade, enquanto os guerreiros marchavam firmes para suas posições. – Guardas, viram onde está o rei? – Questionou displicente, os encarando com tranquilidade.
– Estava com o Conselho Real, mas saiu em direção a Bifrost agora mesmo, alteza. – Um deles respondeu.
– Foi com Sleipnir?
– Sim, alteza. — Loki assentiu em entendimento.
– Nesse caso, vamos subir. Quando retornar, falo com ele. – Afirmou olhando para mim e me guiando até as escadas.
O segui calada passando por algumas pessoas que acenavam com as cabeças em deferência. Ele, ao contrario de mim, não passava despercebido. Loki abriu a porta da biblioteca e nos guiou para dentro. Deveria ser o único lugar a que ninguém iria naquele momento. Fechou a passagem, enquanto seis ilusões dele percorreram os corredores amplos entre os livros. Assim que teve certeza de que estávamos realmente a sós, deslizou as mãos pela porta nos isolando e virou muito sério para mim. Ninguém ouviria nada.
– O que você estava fazendo na sala do trono durante uma reunião do conselho? – questionou numa voz pausada e irritada. Falava um tom acima do normal.
– Eu fui pegar o gato. – balbuciei como uma criança pega em uma travessura. Ele revirou os olhos impaciente, passando a mão no rosto com irritação.
– Liana, você tem ideia do que diriam se tivessem te visto ali? – praticamente rosnou. Havia frieza em sua voz. Encarei meus pés.
– Eu não pensei... O gato...
– Que você não pensou ficou muito claro! Mortal tola! – Bradou definitivamente subindo acima do tom normal. Aquilo me fez olhar ao redor um pouco desnorteada. Há muito ele não falava comigo daquela maneira. Era a imagem da raiva. O maxilar projetado a frente, enquanto me encarava. Sua expressão se abrandou lentamente ao perceber a minha, terminando por apertar aos lábios finos e fechar os olhos por um breve segundo, antes de voltar a falar, num tom muito mais ponderado. – O ataque foi feito por humanos. Tivemos muitas baixas e existem crianças desaparecidas. Se você fosse pega ali, entreouvindo uma reunião importante, numa situação como essa... Não fariam perguntas, porque as resposta simplesmente não importariam. Você lembra dos nossos termos. – Ponderou.
Engoli em seco. Eu simplesmente não tinha pensado sobre o assunto. Me considerariam espiã e traidora. Nossas naturezas e minha origem garantiriam isso. E os termos de Odin diziam que caso eu ou ele fizéssemos algo errado, não haveria julgamento. O caminho seria a execução. Não à toa ele estava irritado daquela maneira. Devia ter pegado o gato e ido embora o mais rápido possível, quando percebi a reunião. Havia estado exposta, como um nervo pronto para ser cortado ao menor deslize.
Loki se aproximou de mim e segurou minhas mãos nas suas. As encarando por alguns minutos. Ergueu os olhos para mim, a cabeça ainda baixa e sustentou meu olhar, em silêncio, me deixando entender o risco que eu correra. O povo desejava encontrar culpados, desejava ver alguém punido. Eu poderia ter sido o bode expiatório.
– E o que você estava fazendo ali? – me lembrei repentina, quebrando o silêncio.
– Estava realmente procurando por Odin, quando vi Jinggles passar correndo e você aparecer na sequência. Organizei os desabrigados da melhor maneira, serviçais estão ajudando e soldados foram enviados para buscar por doações, mas mesmo assim precisamos do que Vanaheim puder dispor, por isso precisava falar com ele. – esclareceu. Loki seria um bom líder se lhe dessem autonomia. Sabia o que fazer. Era natural para ele.
– E por que não nos escondeu em uma ilusão? – perguntei sabendo que aquela decisão teria sido simples. – Poderíamos ter sido os soldados da escala de guarda da sala do trono.
– Claro e correr o risco de sermos pegos logo na sequência, quando os guardas reais chegassem e percebessem? – indagou retoricamente, o deboche acentuado na voz arrastada. Não importava o quanto eu fizesse, ele sempre estava um passo a minha frente. — O que você ouviu? – interpelou por fim.
Sabia que a pergunta viria. Ri baixinho, quando ele levantou as sobrancelhas reprimindo um sorriso de canto que pretendia me incentivar a falar. Loki não podia perder a chance de tirar proveito da situação.
Contei tudo que havia escutado. O moreno sempre fora bom ouvinte, era atento e fazia as perguntas corretas para me ajudar a lembrar detalhes. Ele pareceu particularmente interessado no tal alerta de Asgard, mas eu não sabia qual o conteúdo daquilo. Quando terminei de falar, ficou por alguns minutos olhando para o nada, uma das mãos num punho encostando-se à boca, enquanto pensava. Voltou apenas os olhos para mim, me fitando de lado.
– Tem ideia de qual país de Midgard fez isso? – Franzi as sobrancelhas, pensativa.
– Eu e Jane temos alguma noção sim. Mas não sabemos o motivo. Nào é um país. É uma organização que não responde a governo nenhum. Chama-se H.Y.D.R.A. e tem como ponto de oposição uma velha conhecida nossa.
– S.H.I.E.L.D. – concluiu sem que eu precisasse falar mais.
– Achávamos que eles tinham caído muito tempo atrás, mas pelo que meu irmão me disse, depois que vim para cá se reergueram e vem causando problemas. Não sei muito mais que isso. – expliquei fazendo uma careta frustrada. O deus desviou os olhos para a porta e várias ilusões de si próprio saíram da biblioteca, atravessando-a como se fossem fantasmas. Ficamos em silêncio, enquanto ele se perdia em pensamentos. Cerca de dez minutos depois, Thor entrou no lugar. Apenas sentou diante de nós sem falar nada.
– Odin já conversou com você? – Loki questionou.
– Wigord. Vou partir amanhã pela manhã. – esclareceu.
– Disseram algo sobre um alerta que Asgard vai enviar?
– Não. – Falou, sua voz soando reflexiva. — Nosso pai vai redigir uma carta para que eu entregue as autoridades de Midgard. Deve constar nela. – Loki fez uma careta contrariada com isso. Ou talvez fosse por Thor insistir em afirmar que Odin era pai de ambos. O moreno gostava de estar um passo a frente, de deter informação.
– A responsável pelo ataque é uma organização chamada H.Y.D.R.A.. Conhece? – O loiro negou, balançando a cabeça. – Por que eu não me surpreendo?
– Não comece, irmão. – Thor advertiu. – Tem certeza disso?
– Alguma vez dei motivos para desconfiar da minha palavra? – Reprimi uma risada com aquilo.
– Loki...
– Tenho certeza! – confirmou a contragosto. — Você deve procurar diretamente pela S.H.I.E.L.D., seus amigos Avengers devem ajudar nisso. – orientou num tom de aversão.
– Como você sabe disso tudo? – perguntou assumindo uma expressão séria e preocupada. Os olhos azuis se anuviaram temendo mais uma decepção vinda do mais novo.
– Eu não sabia. Liana e Jane sabiam. – avisou num tom cheio de subentendidos. O loiro olhou de mim para o irmão com uma expressão bastante fechada. Algum tipo de comunicação se estabeleceu no silêncio. Foi como se ambos debatessem algo que apenas eles entendiam. Eram tão cúmplices quanto podiam ser rivais. Pela primeira vez imaginei como seria se ambos pudessem governar em conjunto.
Não disse mais nada, apenas pôs a mão em um dos ombros de Loki num gesto de gratidão silenciosa, antes de se retirar. Nosso encontro na biblioteca era uma trama sendo tecida na surdina, longe dos olhos alheios. Thor partiria na manhã seguinte sabendo exatamente o que dizer e quem procurar. Aparentemente estávamos correndo nas sombras tentando conter o que parecia uma enchente de problemas a caminho, da qual eu ainda não conseguia ver toda a dimensão. Mas enquanto aquelas mãos se mantivessem firmes nas minhas, não havia o que temer. Ou assim eu me iludia.
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