Goddess and Monster - Part 1
16 Capítulo 14 - O Casamento Vermelho - Parte 1
Notas iniciais
A mistura dos raios solares e do ar gelado da manhã fez Sansa despertar e se remexer em sua cama. Os pensamentos e sensações da noite anterior ainda estavam em seu corpo e só fez com que seu rosto ruborizasse. Abriu os olhos, esperando encontrar o corpo quente e grande de Sandor ao seu lado, mas o mesmo não estava lá. Estava enrolada nos lençóis e totalmente nua embaixo deles. Por um lado, agradeceu por Sandor não estar ali, mas sentiu um pequeno aperto em seu coração.
Ela se aprontou antes que qualquer pessoa aparecesse, colocando seu vestido surrado e fazendo sua higiene pessoal. Não havia comida na mesa, como de costume, nem uma fruta sequer. Perguntou-se onde estaria Amina. Não se atreveria a sair do quarto.
Não demorou muito até que a porta se abrisse e Amina entrasse sorridente no quarto. Ela trazia uma bandeja com café da manhã e sentou-se a mesa com Sansa para comerem juntas.
– Bom dia, Lady Sansa. Espero que tenha dormido bem.
O cumprimento fez as bochechas ruborizarem, mas ela tentou disfarçar. Beliscando algumas uvas, ela sorriu para Amina.
– Por onde andou durante a noite? – perguntou Sansa, esperando que Amina também lhe respondesse onde estaria Sandor.
Amina apenas se limitou a sorrir.
– Resolvi alguns problemas. Partiremos hoje.
Sansa assentiu não tão satisfeita com a resposta.
– Onde está o Cão?
– Terminando de resolver os problemas, Lady Sansa – respondeu Amina. – Não está animada de poder reencontrar sua família?
Sansa nem tinha parado para pensar que a partida da estalagem significaria que, em breve, encontraria sua família. Seu coração palpitou e seu estômago se revirou de excitação. Ansiava tanto por aquele momento que nem conseguia imaginar como seria.
Por outro lado, a excitação se transformava em nervosismo. O que eles fariam se descobrissem sua intimidade com Sandor Clegane? Ela não precisaria contar, é claro, nem Sandor. Mas sabia que sua honra Stark estava manchada. Ou não estava?
– Que tipo de problemas vocês estão resolvendo? – Sansa ignorou a pergunta de Amina.
Amina suspirou.
– Estamos à procura de algum comerciante que fará entregas e que possa nos acompanhar até as Gêmeas sem que a gente chame muita atenção – Amina começou a explicar. – Ontem, Sandor encontrou um comerciante de vinhos rosados de Lys. São vinhos extremamente raros e Sandor ofereceu proteção para que a mercadoria chegue em segurança.
Apesar de toda a explicação de Amina, Sansa não recebeu uma resposta verdadeira de onde a mulher havia passado a noite anterior.
A porta do quarto se abriu e Sandor entrou afobado. Carregava um pacote consigo. Sem desejar bom dia, ele se aproximou da mesa e beliscou algumas frutas. Jogou o pacote sobre a cama.
– Quero que fiquem prontas. Partiremos em uma hora. – disse o homem.
Uma mistura de sentimentos passou por Sansa. Finalmente, iriam partir. Estava feliz. Mas ao mesmo tempo, nervosa por Sandor ter sido tão súbito em anunciar seu próximo passo. Estava com medo de serem pegos no meio do caminho.
– Mas já? Tão rápido? – perguntou Sansa.
– Você não quer ver sua família? – perguntou Sandor. – Então fique pronta. Sua família já está nas Gêmeas.
O estômago de Sansa se revirou e sua alegria aumentou mais ainda. Agora era real. Veria sua família. Não conseguiu mais comer e levantou-se da mesa, ansiosa, pronta para abraçar Sandor e fazer uma breve oração de agradecimento. No entanto, Sandor a empurrou pelos ombros, obrigando-a a se sentar novamente.
– Coma, Passarinho. Vai ser uma viagem sem paradas.
Sandor era muito opressor, às vezes e Sansa se perguntava se era para protegê-la ou apenas para mostrar-se poderoso. Era o tipo de atitude que Sansa queria mudar. Ela queria virar o jogo.
Sansa terminou seu desjejum e Sandor abriu o pacote para lher entregar um vestido simples, sem nenhum detalhe, marrom claro e de um tecido pobre. Amina lhe instruíra que era para a proteção de Sansa, pois com aquela simplória vestimenta de cor invisível, ela passaria despercebida. Seus cabelos chamavam muita atenção e isso já bastava. Ela tinha uma capa e teria que usá-la até estar em segurança com sua família.
Sandor saiu do quarto dizendo que iria preparar os cavalos e para não demorarem, pois o comerciante sairia em pouco tempo. Amina ajudou Sansa a trocar de vestido. Por mais que Amina nutrisse um carinho diferente por Sansa, a menina percebeu que ela era extremamente profissional ao ajudá-la. Sansa pensou que isso se devia ao fato de que, agora, Amina seria sua aia. Ela agia como uma desde o dia anterior.
Não haviam muitos pertences para carregar e logo foram para os estábulos encontrar Sandor. Ele separou dois cavalos para o trio e pediu que Amina fosse pagar a estalagem.
– Por que Amina tem que pagar a estalagem? – perguntou Sansa.
Sandor não respondeu. Apenas tomou a capa da mão de Sansa e colocou sobre ela, colocando o capuz sobre sua cabeça. Voltou a arrumar os cavalos e começou a andar para perto de um homem velho, de pele bronzeada e enrugada e cabelos grisalhos. Ele tinha uma carroça cheia, mas seu conteúdo estava escondido por um trapo de pano. Ela percebeu que eram barris de vinho.
Quando Amina voltou, estava sorridente, como sempre.
– Já podemos ir. – anunciou a mulher.
– Amina, por que você pagou a estalagem? – perguntou Sansa.
Amina não se preocupou em olhar para Sandor antes de dar a resposta naturalmente.
– O dinheiro era meu, oras.
Sansa tratou de olhar feio para Sandor. Não estava entendendo. Mas ele não parecia preocupado em lhe explicar. O homem ajudou Amina a subir no cavalo e só aquela atitude fez Sansa perceber que havia algo entre os dois que a menina não sabia. Desde quando Sandor ajudava Amina em alguma coisa?
– Por que você não pagou, Sandor? – perguntou Sansa, mais firme, tentando soar ameaçadora.
Amina suspirou e Sandor continuou impassível.
– Querida, vocês estavam passando por uma pequena crise, o ouro fora mal planejado e impossibilitou vocês de chegarem ao destino final com sucesso. – respondeu Amina. Sansa nunca ouvira Amina falar aquelas palavras, numa frase tão bem formulada para vocabulário da mulher. Ela esperou que Amina voltasse a si e falasse do jeito que estava acostumada. – Tive que arranjar o dinheiro para vocês.
Sandor rosnou ao olhar para Amina. E com isso, Sansa entendeu o que Amina quis dizer. Jogou-se sobre Sandor, que arrumava seu cavalo, e começou a socá-lo nas costas.
– Você deixou que Amina vendesse seu corpo? – esbravejou Sansa. Seu capuz caiu e seus cabelos ruivos foram revelados ao sol. – Você deixou que ela nos sustentasse dessa forma?
Sandor se virou e agarrou os pulsos de Sansa.
– Você está louca, menina? Eu não mando em Amina! – resmungou Sandor.
Sansa lutou, tentando soltar seus pulsos das mãos fortes do Cão.
– Você é nojento, não deveria ter deixado isso acontecer!
O coração de Sansa batia forte e uma raiva pulsante percorria seu corpo. Queria socar o Cão até o lado bom de seu rosto ficar deformado. Não acreditava que Sandor deixara Amina vender seu corpo para pagar as estalagens. Não acreditava que ele fosse capaz de se tornar tão irresponsável a ponto de deixá-los dependente de alguém. A cada vez que tentava confiar nele, Sandor lhe decepcionava.
– Sansa! Está tudo bem... – Amina tentou dizer, calmamente, mas Sansa continuava se debatendo.
– Você é nojento e eu odeio você! – Sansa estava raivosa e a cada investida para libertar seus pulsos, Sandor apertava mais.
– Você queria o quê? – perguntou Sandor. – Queria que eu vendesse você? Talvez eu conseguisse bom ouro vendendo a sua cabeça!
A vontade de Sansa de se afastar de Sandor só aumentava. O nojo que sentia por ele era irreversível.
Sandor estava perdendo a paciência e Amina continuava calma sobre o cavalo. O homem carrancudo libertou os pulsos de Sansa e pegou-a pelos joelhos, jogando o corpo da menina sobre seu ombro. Ela continuava dando fortes socos e Sandor percebeu que ela estava cada vez mais forte.
Sandor jogou a menina sobre o cavalo e subiu atrás dela. Amina se aproximou com o cavalo e tentava acalmar a furiosa ruiva. Cada rosnado de Sansa atraía um olhar e estavam chamando bastante atenção.
– Sansa! – Amina chamou entredentes. Tentou pegar as mãos da menina e Sandor a agarrava pela cintura, tentando mantê-la quieta.
A voz firme e dura de Amina fez Sansa olhá-la, mas sem parar de se debater.
– Você está atraindo muita atenção! Pare com isso! – brigou Amina, aos sussurros. Sansa parou de se mover. Ficou quieta nos braços de Sandor e só então percebeu os olhares curiosos. O medo tomou conta de seu coração raivoso e percebeu que estava sendo infantil se arriscando daquela forma.
– Vamos sair daqui. – pediu Sansa. Seu medo era tão grande que pensava que todo mundo já havia a reconhecido.
Os cavalos voltaram a andar e Sandor colocou o capuz sobre os cabelos de Sansa. O velho camponês lyseno e sua carroça já estavam a alguns metros distantes. Pegaram a estrada do Rei rumo às Gêmeas. E só quando estavam longe o suficiente da movimentação, Sansa voltou a retrucar.
– Eu quero ir com Amina! – ordenou a Sandor. O homem soltou aquela risada entredentes que mais parecida uma bufada.
Amina estava mais próxima do camponês enquanto Sandor e Sansa ficavam para trás.
– O seu lugar é aqui. – disse Sandor.
Sansa estava nervosa. Um turbilhão de sentimentos passava por sua mente e seu coração. Ela queria encontrar sua família logo, se livrar de Sandor, mas ao mesmo tempo, puni-lo por suas atitudes. Também sentia nojo do homem e não suportava o toque dele. E só de pensar que no dia anterior, ele havia a tocado tão intimamente... Aquilo embrulhava seu estômago. E nem conseguia pensar no fato de que Amina teve que fazer algo parecido e muito pior para conseguir pagar a estalagem para eles.
– Você não devia ter feito isso. – disse Sansa colocando a mão na testa. Só na calmaria, Sansa percebeu que sua cabeça latejava.
– Eu não tive outra saída. Ela se ofereceu.
– Você deveria ter impedido! – Sansa o olhou nos olhos e ele não parecia arrependido, mas um pouco frustrado. Ela desviou o olhar. – Você deveria ter se vendido.
Sandor soltou outra risada curta.
– Estava ocupado me vendendo a você. – revidou Sandor.
O rosto de Sansa esrubesceu de vergonha e fúria.
– Eu não suporto você. – sussurrou Sansa. Não era para ele ouvir, mas também pouco se importava. Estava pensando alto e se ele ouvisse sua mente, ele iria se manter afastado.
– Você parecia me suportar ontem. – Sandor revidou outra vez. Sansa suspirou pesadamente.
Queria se afastar dele. Ficar bem longe. Não aguentava mais aquela viagem. Fez tudo para tornar a viagem suportável para ela. Tentou controlá-lo. Tentou se tornar forte. Tentou ser tudo o que ele queria e imaginava, mas seu coração estava angustiado e sua mente havia chegado ao limite. Queria voltar para casa. Para Winterfell.
Nesse tempo longe de casa, ela imaginava que estaria segura onde estivesse. Quando seu pai estava vivo e a guarda estava ao seu lado. Quando era apaixonada pelo príncipe e acreditava que ele velava seu sono. E quando ficou sob a fúria do mesmo, acreditava que a presença de Sandor era protetora. Quando fugiram, ela percebeu que ele a protegia de tudo e de todos como se ela fosse uma rainha.
Mas só então percebeu que nunca havia se sentido segura de verdade. A ilusão de uma vida perfeita em Porto Real e a ilusão de voltar para casa depois da fuga a fizeram acreditar que ela estaria sempre protegida. Que sempre haveria um lugar para ela. Quem iria negar proteção a uma bela menina indefesa? Só então percebeu que o único desejo era voltar par Winterfell. Não voltar para sua família, para Robb, o novo Rei do Norte, para sua mãe, seu colo mais confortável. Queria Winterfell. Sua terra gelada. Sua casa. Só então percebeu que o inverno contínuo de Winterfell era sua verdadeira proteção.
E não queria perigos por lá.
– Sandor... – começou Sansa parando para suspirar. – Eu quero que você vá embora depois de me entregar para Robb.
Aquilo pegou Sandor desprevenido. Antes, ele não tinha planos de ficar. Queria apenas pegar a recompensa e fugir de Westeros. Mas a cada dia, pensava em como seria bom proteger Sansa e ter um lugar para ficar. Ela mexia com sua mente e se pudesse, faria o possível para continuar ao seu lado. Sansa já havia oferecido um lugar lá. Poderia ser da guarda real dos Stark.
E agora, com o coração pesado, a voz triste, Sansa lhe pedia para ir embora. Não imaginava que aquilo lhe atingisse o coração. Mas só de pensar que seu passarinho não queria mais sua presença, sua proteção, sentia que Sansa estava distante. E poderia retrucar e dizer que não sairia do seu lado, mas o semblante torturoso de Sansa o fez parar para pensar.
– Eu não quero você perto de mim – disse Sansa, ainda pesarosa. – Eu farei de tudo para garantir que consiga uma boa recompensa. Farei de tudo para que chegue a um destino seguro para chamar de lar. Mas eu não quero que esse destino seja ao meu lado.
Sansa não o olhava. Tinha a cabeça baixa e mexia em seus próprios dedos. Sandor percebeu pequenas lágrimas escorregando em seu rosto. Queria limpá-las, mas não se atreveu. Sabia que ela havia chegado ao limite e deveria deixá-la em paz. Deveria seguir seu caminho longe dela.
Suspirando, ele assentiu.
– Tudo bem, Passarinho. Como a princesa desejar.
A palavra princesa só fez o coração de Sansa se angustiar, pois sabia que, com aquela palavra, Sandor estava se distanciando.
***
Metade do dia se passou e Sansa sabia que eles estavam perto. A viagem fora tranquila, com comerciantes indo para o mesmo destino, sem perigos e muito silenciosa. Cada vez mais, Sansa tinha certeza que queria estar longe de Sandor. Cada vez mais, ela queria chegar ao seu destino.
Quando já avistavam as Gêmeas ao horizonte, o coração de Sansa deu alguns pulos só de pensar que estava tão próxima. As duas torres ligadas por uma ponte sobre o Ramo Verde do Tridente.
– Vamos ter que nos apresentar ao chegarmos – avisou o velho comerciante. – É bom que estejam preparados.
Eles não esperavam por isso, mas contavam com a ajuda do comerciante para que eles passassem pelos portões. O importante era chegarem vivos até os Starks.
À medida que iam se aproximando do local, eles se misturavam aos outros comerciantes que chegavam. Carroças e mais carroças cheias de frutas, comida e bebidas. O cheiro de carne crua se misturava ao cítrico das frutas e impregnava as narinas de Sansa.
Alguns guardas tiravam informações dos homens e verificavam o que havia nas carroças. Sansa não viu nenhum sendo barrado e isso acalmou mais o seu coração, que parecia querer explodir.
Quando foi a vez deles, os guardas perguntaram suas informações e inspecionaram sua mercadoria. Dois guardas assentiram e então olharam para os três acompanhantes.
– Eles estão com você? – perguntou um dos guardas. Sansa sentiu Sandor se remexer e imaginou que eles estivesse com a mão na espada.
– S-sim. São meus guardiões para que a mercadoria chegasse em segurança. – explicou o comerciante.
Os dois guardas se entreolharam desconfiados.
– Você tem duas mulheres. Como podem ser guardiões? – perguntou um deles.
Amina logo se intrometeu.
– Sou a mulher dele, sor.
Os guardas pediram para esperar e foram até uma guarita próxima ao portão. Falaram com mais alguns guardas e só então, Sansa percebeu que alguns deles não usavam o mesmo uniforme.
– Se eles não nos deixarem entrar... – sussurrou Sandor no ouvido de Sansa. Ela tomou um susto com a proximidade e com a frase.
– Você não fará nada – brigou Sansa. – Olhe para eles. Não vê que são diferentes?
Sandor não entendeu o que a menina dizia até que reparou nos uniformes. Os guardas que estavam fazendo a inspeção usavam uniformes cinzas em detalhes azuis. Eram guardas dos Frey, pois suas capas tinham as duas torres azuis que representavam a casa. Já os outros guardas, também usavam uniformes cinzentos. Mas suas capas eram claras e tinha um lobo como desenho. O Lobo da Casa Stark.
Apesar de não reconhecer nenhum dos guardas que se aproximava, seu coração se encheu de alegria. Mas logo ele se encheu de receio ao ouvir Sandor sussurrar.
– Não fará nenhuma loucura.
Ele tinha aquela voz rouca que fazia Sansa sentir muito medo. Mas a esperança em seu coração em encontrar sua família e encontrar pessoas que estavam a seu lado falava mais alto.
Os guardas Stark inspecionaram a carga e deram uma boa olhada para Sansa. Eram dois homens altos e robustos, de cabelos castanhos, mas um tinha olhos azuis e o outro tinha olhos verdes. O guarda de olhos verdes era tão jovem quanto Robb e quando ele bateu os olhos em Sansa, ficou um bom tempo a observar. Ela esperava que ele a reconhecesse, mas seus cabelos estavam escondidos e seus olhos estavam sobre a sombra do capuz.
O guarda retirou os olhos de Sansa e se afastou. O outro guarda Stark ordenou.
– Prendam-os e levem para a masmorra do castelo.
A esperança de Sansa se esvaiu assim que o guarda de olhos verdes desistiu dela. E o medo de não ser reconhecida e ser jogada nas masmorras do castelo estando tão perto de sua família falou mais alto que o medo de Sandor Clegane.
Num impulso, Sansa pulou do cavalo, sentindo seus joelhos cederem e dobrarem, suas mãos alcançando o chão e se ralando. Pouco se importava. Sentiu os braços de Sandor tentarem pegá-la, mas ela foi mais rápida em fugir, ouvindo o homem persistir e descer dos cavalos.
– Esperem! – gritou Sansa, com Sandor em seus calcanhares.
Ela correu para perto dos guardas, mas os homens levantaram suas espadas apontando-as para Sansa. Ela freou seus pés, tomando o susto com a ação. Ouviu Sandor desembainhar sua espada, logo se pondo a frente dela.
– É o Cão de Caça! – gritou um dos guardas Frey. Ele parecia assustado e pronto para atacar.
Sansa tirou o braço de Sandor, que servia de escudo, da frente de seu corpo e se aproximou mais uma vez.
– Por favor, abaixem as espadas! – pediu desesperada. O guarda de olhos verdes manteve seu olhar preso ao de Sansa e quase fez menção de abaixar a espada. Sansa tirou o capuz para mostrar seus cabelos vermelhos sob o sol. Ela torcia para que eles a reconhecessem.
O guarda de olhos verdes foi o primeiro a abaixar a arma. E logo, o de olhos azuis também se rendeu, um pouco incerto.
– Eu reconheço esse cabelo e esses olhos. – reconheceu o guarda de olhos azuis. – Eu reconheço esse rosto. Abaixem as armas! – ordenou para os outros guardas Frey. Agora o número havia aumentado. – Princesa Sansa Stark, seja bem vinda. – e dizendo isso, o homem fez uma reverência curta sendo acompanhado de seu colega.
E então, o coração de Sansa, finalmente, se aliviou. Estava em casa. Ela se virou para Sandor, que ainda estava com a espada apontada. Ela assentiu para que ele abaixasse-a e ele obedeceu. Quando olhou para Amina, a mulher parecia radiante e orgulhosa. O comerciante parecia tão aliviado quanto ela.
***
A curta cavalgada até a entrada do castelo foi o suficiente para que todos as pessoas ficassem sabendo da confusão nos portões. Foi o suficiente para que chamassem pela família Stark e o suficiente para que Sansa explicasse sua fuga para os dois guardas Stark que a receberam.
Sansa cavalgava com Sandor e Amina estava logo atrás, em outro cavalo. Ao longe, ela conseguiu visualizar algumas pessoas na entrada do castelo. A maioria parecia sem graça, com seus cabelos cor de água suja e imaginou que eles fossem os Frey. Mas no meio deles, duas cabeças vermelhas se destacavam. Ela reconheceria sua mãe e seu irmão de longe. Sua vontade de vê-los só se apertou em seu coração ao imaginar abraçando-os em poucos segundos. Finalmente, estaria com sua família.
A multidão se enturmava para ver os novos visitantes e os guardas pediam para que se afastassem, pois atrapalhavam a passagem.
Sansa não sabia se gostava daquela exposição. Ainda se sentia insegura e imaginava que, a qualquer momento, alguém iria sequestrá-la e levá-la de volta aos Lannister. Estava segura ao lado de Sandor. Esteve segura ao lado dele durante todo esse tempo. Não seria agora, na frente de seus pais, que seria sequestrada.
Os cavalos dos guardas pararam e se afastaram para que Estranho passasse. Sandor parou o cavalo, desceu e ajudou Sansa a descer. Seu coração batia tão rápido, que ficou com medo de que fosse explodir. Sandor lhe deu um leve sorriso quando ela tocou o solo. Ela sabia o que significava aquele sorriso. Estava tudo bem. Estava segura e em casa.
Ela olhou para sua família e sua mãe, Catelyn, andou ao seu encontro. Ela não conseguia acreditar que estava em casa. Sandor lhe deu um ligeiro empurrão para que Sansa prosseguisse.
E foi o que fez. Sansa correu para os braços de sua mãe. Aqueles braços ternos e acolhedores que tanto esperou desde que saiu de Winterfell. O cheiro de mãe que nunca esquecera só a fizeram se sentir mais segura ainda. Nunca se sentiu tão feliz. Apertava a mulher com tanta força que tinha medo de quebrá-la. Percebeu que cresceu alguns centímetros desde que saíra de casa. Só percebeu chorava quando abriu os olhos e sua visão estava turva com as lágrimas. Seu irmão Robb se aproximou e ela também sentiu os braços acolhedores ao seu redor.
– Minha filha, minha menina – Catelyn chorava e se afastou para envolver o rosto de Sansa em suas mãos. Robb lhe deu um beijo em sua testa e se afastou por um momento. Catelyn lhe abraçou mais uma vez e então, Sansa ouviu espadas sendo levantadas.
Sansa se afastou da mãe e se virou para ver os guardas Stark com as armas apontadas para Sandor e Amina, que estavam ajoelhados.
– NÃO! – gritou Sansa ao perceber que eles estavam sendo rendidos. Correu para perto deles, empurrando os guardas. Tentou fazer uma barreira para protegê-los dos guardas.
– Sansa, o que está fazendo? — perguntou Catelyn, se aproximando dos guardas.
– Sansa, temos que rendê-los até termos certeza de que são seguros. – explicou Robb.
Catelyn parecia desesperada e confusa com a situação.
– Abaixem as armas! – ordenou a mulher. – Não veem que estão apontando as espadas para uma de vocês?
Os guardas não abaixaram as armas e Robb parecia estar num dilema.
– Passarinho – chamou Sandor, segurando o quadril de Sansa. – Deixe que eles nos levem. Tudo será resolvido.
Por um lado, Sansa gostaria de fazer o que ele lhe dizia, pois imaginava que ele tinha tudo sobre controle. Mas por outro, não entendia por que o homem gigante e guerreiro havia se rendido tão facilmente. Ele nunca se deixava abater mesmo diante de tantos guardas. Sansa se virou para ele, segurando seus ombros e tentando entender seu semblante. Sandor parecia cansado e desgastado e talvez, esse fosse o motivo de se render. Ele havia completado sua missão e tinha segurança de que tudo poderia dar certo agora. Afinal, por que não daria? Se ele fosse preso, Sansa faria de tudo para soltá-lo e protege-lo e ele sabia disso. Se ele tinha confiança nela, então, precisava ser digna disso. Ela olhou para Amina e a mulher também parecia cansada.
Sansa se afastou, e com dor em seu coração, deixou que os guardas algemassem Sandor e Amina. Robb parecia furioso e confuso e se aproximou da menina para leva-la de volta ao castelo. Catelyn segurou nas mãos da filha, tentando acalmá-la. Eles entraram no castelo, junto de várias pessoas desconhecidas. Lá, ela viu Sandor e Amina sendo afastados.
Sua mãe pediu que arranjassem um quarto para ela. Sansa foi para o quarto escuro preparado para ela junto de sua mãe e de algumas aias que não conhecia. Ela se banhou, ganhou um vestido verde escuro simples e bonito e algumas joias para adorná-la. Sua mãe lhe penteou os cabelos desgrenhados e lhe prendeu os cabelos com uma presilha prateada. Estava linda como uma princesa deveria ser. Perguntou-se se Sandor e Amina receberiam algum tratamento respeitoso.
Catelyn lhe respeitou e não lhe fez perguntas, mas sabia que teria que contar sua jornada para ela. Depois de tanto silêncio, Catelyn decidiu tirar informações dela.
– Você não está ferida, apesar de ter algumas cicatrizes e hematomas. O que aconteceu? – perguntou sua mãe. Ela segurava sua mão com a cicatriz do pacto.
Sansa nem se lembrava mais onde ganhara todas as feridas. Ela suspirou fundo.
– Foi uma longa viagem, você quer que eu me lembre de tudo o que aconteceu? – perguntou Sansa, um pouco cansada.
– Minha filha aparece cheia de cicatrizes, é claro que quero saber. – disse a mulher. Parecia firme em receber respostas. – Sei que não deve ter sido fácil, mas quero saber se aquele homem lhe fez algum mal.
Sansa não respondeu, pois já imaginava que Sandor seria questionado. O que falaria para sua mãe? Por mais que Sandor lhe tivesse tirado o sono algumas vezes, ele a trouxe em segurança.
Sem ouvir a resposta, Catelyn continuou.
– Sansa, minha filha, diante de seu silêncio, eu só posso supor que aquele homem te sequestrou e te fez algum mal.
Sansa não gostou do tom. Não gostou do que ela lhe falou, mas antes que pudesse expor sua raiva em ser tão questionada, Robb entrou em seu quarto.
Sansa tentou sorrir para o irmão. Não se lembrava se ele tinha barba tão espessa, mas gostou da aparência madura e viril que ele mantinha. Robb parecia mesmo um rei.
Robb se aproximou e lhe deu um beijo na testa junto de um abraço.
– O que acontecerá com Sandor e Amina? – perguntou Sansa. Ela percebeu que sua mãe fez cara feia para a pergunta e Robb parecia um pouco confuso, mas o irmão não hesitou em responder.
– Sansa, eles serão interrogados para saber se todos os boatos são verdadeiros. Queremos saber suas verdadeiras intenções. – explicou Robb.
– Boatos?
Catelyn segurou as mãos de Sansa e a puxou para se sentar em uma cadeira junto dela e de Robb.
– Sansa, você foi sequestrada por este homem e agora ele espera por uma recompensa. – disse Catelyn. – Queremos saber o que ele fez com você.
Sansa fez menção de se levantar, mas Robb segurou sua mão também.
– Queremos ouvir de você. Há muitos boatos rodando o reino. – pediu Robb.
– Não sei que tipo de boatos.
Mentira. Sansa sabia quais eram os boatos. Sandor a sequestrara e provavelmente estava se aproveitando sexualmente da menina.
– Sansa, este homem é perigoso! Ele traiu o rei e te sequestrou! – disse Catelyn.
Sansa estava com raiva da posição de sua mãe. Estava tão disposta a julgar Sandor sem ouvir qualquer versão dela ou do homem.
– Ele me trouxe para vocês! Isso não é suficiente para mantê-lo solto? – perguntou Sansa. – Não entendo seu ódio por ele, você nem sabe o que aconteceu conosco!
– Ele traiu o rei, é um desertor e te sequestrou! Temos motivos suficientes para mantê-lo preso! – esbravejou a mãe.
Robb tocou a mão de sua mãe, esperando que ela se acalmasse.
– Estamos felizes que você está conosco – garantiu Robb e Sansa percebeu que ele trocou um olhar esquisito com sua mãe. – Conte-nos o que aconteceu.
Sansa suspirou. Tudo o que queria era um pouco de paz. Mas também queria que Sandor e Amina estivessem soltos. Estaria mais aliviada se eles estivessem rondando pelas Gêmeas.
– Ele desistiu da batalha, desistiu do rei – começou Sansa. – E ele tinha razão. Joffrey era um monstro. Fazia atrocidades com todos e comigo – a voz de Sansa embargou e ela lutou para não chorar. – Ele me maltratava desde que assassinou nosso senhor pai. Sandor era o único que me ajudava e se arriscou a me tirar do castelo...
Sansa parou por um momento. Não queria chorar na frente de sua mãe e de seu irmão. Por um momento, eles pareciam estranhos para ela e não estava se sentindo bem. Não se sentia confortável em chorar perto deles.
Catelyn apertou a mão de Sansa, tentando tranquiliza-la, mas mesmo assim, Sansa não se sentiu melhor.
– Ele me trouxe em segurança. Só isso – garantiu Sansa. Robb e Catelyn ainda pareciam muito curiosos e desconfiados. – Deem uma boa recompensa e façam o que ele pedir. É tudo o que lhe peço, Robb.
Ela poderia chama-la de majestade, de rei. Mas ali, ele era apenas seu irmão Robb. Não tinha mais paciência para cortesias.
– E quanto à moça? – perguntou Robb.
– Ela apareceu em nossos caminhos e nos ajudou. – disse Sansa. Não queria ter que dar explicações de quem era Amina. – Seu nome é Amina e gostaria de tê-la como aia.
Catelyn franziu a testa.
– Sansa, nós não a conhecemos, não podemos colocá-la como sua aia. – explicou a mãe.
– Eu a conheço e ela cuidou de mim quando precisei. Confio nela.
Robb se levantou de supetão, parecia determinado.
– Irei interrogá-lo, Sansa. É meu dever fazer isso – lamentou Robb. – Quanto à moça, verei o que posso fazer por ela. Mas não me aparenta perigo.
Robb lhe deu um ligeiro sorriso. Talvez, ele quisesse passar segurança e ela sorriu de volta. Sua mãe se levantou e foi atrás de Robb quando ele saiu do quarto, sem nem se despedir dela. Parecia um pouco raivosa.
É claro que eles não querem ouvir a versão de Sansa. Sansa está traumatizada com a situação e fará de tudo para livrar a cara daqueles que podem tê-la maltratado. Foi assim que Sansa se sentiu. Sua família parecia trata-la com muita cautela, como se ela fosse quebrar. E talvez fosse mesmo. Mas gostaria que eles a tratassem com mais respeito.
A Sansa de antes era mimada e queria tudo de seu jeito. Era uma criança que não sabia viver no mundo. Sabia que sua família ainda pensava que ela era desse tipo, mas nem imaginavam o que ela tinha passado nas mãos de Joffrey e no caminho até as Gêmeas.
Ela só queria que Sandor e Amina estivessem livres. Tomaram tanto cuidado para não caírem nas garras de alguém inimigo e serem presos, mas acabaram caindo nas garras da própria família Stark. Por um lado, Sansa se sentia culpada, como se devesse fazer algo mais. Ela sabia que podia fazer algo mais. Poderia insistir para Robb libertá-los. Mas sabia que sua mãe desconfiada e Robb, como rei, iriam fazer o correto: investigar.
A honra da família Stark vinha primeiro e se, por acaso, os boatos de que ela e Sandor tiveram relações forem verdadeiros, eles precisariam limpar isso. Imagina só, uma Stark tendo relações com um desertor. Mesmo que não pudessem saber da verdade, era uma honra para ser mantida.
E então, Sansa pensou em Sandor e percebeu que ele poderia contar toda a verdade para sua família. Robb iria tortura-lo até contar a verdade sobre ela e Sandor. E Sansa sabia que parte da história era verdade. Bem, até ontem era mentira.
Mas Robb não era Joffrey. Robb era íntegro e ela precisava ter confiança nisso. Passou tanto tempo nas atrocidades de Joffrey que não sabia mais como um rei deveria ser de verdade. Esperava que Robb cumprisse com as obrigatoriedades que ela imaginava que ele tinha.
Sentiu-se tão solitária e desejou que Sandor estivesse ali. Não precisaria estar em seu quarto, apenas guardando sua porta era suficiente. Ela pensou em passear pelo castelo, mas decidiu deitar na cama e acabou cochilando.
***
Quando os homens Stark o jogaram junto de Amina na mesma cela, ele sabia que não podia esperar bom tratamento. Poderiam, pelo menos, ter sido menos rudes com Amina, que fora jogada no chão e acabou ralando suas mãos.
– Você está bem? – perguntou Sandor para Amina, quando os guardas se afastaram. Eles estavam cada um em uma ponta da cela escura, úmida e nojenta. Nem havia uma cama ou uma vela, apenas chão. O cheiro de mofo era insuportável.
– Estou bem. Estou acostumada a esse tratamento. – Amina sorriu sarcasticamente.
Sandor bufou e passaram alguns minutos em silêncio. Ele queria saber como estava Sansa. É claro que ela estava sendo bem tratada e esperava que ela não se esquecesse dele. E de Amina. Sabia que a mulher também tinha curiosidade em saber como Sansa estava.
– O que farão conosco? – perguntou Amina. Ela estava encolhida, com o vestido rasgado.
– Vão nos interrogar.
– E o que falaremos?
– A verdade. – Sandor resmungou. É claro que falariam a verdade, mulher estúpida.
– Toda a verdade? – Amina levantou uma sobrancelha. E Sandor sabia o que ela queria dizer com a pergunta.
– A versão resumida da história original – explicou Sandor. – Eu fugi de Porto Real, convidei Sansa, ela aceitou e encontramos você no meio do caminho.
Amina ficou em silêncio. Parecia ter aceitado a versão resumida da história.
– O que aconteceu com vocês ontem? – perguntou Amina. Sandor fuzilou-a com os olhos.
– O que você tem a ver com isso, vadia? – retrucou Sandor.
– Curiosidade. Sei que aconteceu algo.
Sandor não falou nada.
– De qualquer forma, Sansa irá me contar. – Amina sorriu abertamente. Sandor soltou uma risada irônica.
– O que garante que você a encontrará novamente? – perguntou o homem.
Amina ficou confusa e perdeu o sorriso. Por um instante, pareceu preocupada.
– Você acha que Sansa irá nos deixar aqui?
Sandor pensou um pouco. Sansa nunca os deixaria ali. Certamente, depois de tudo o que aconteceu, ela pediria para que seu irmão os libertasse e lhe dessem uma recompensa. Mesmo que ela nutrisse um ódio por ele, Sansa era justa.
– Ela não irá nos deixar aqui.
Os guardas trouxeram um prato com algumas frutas e duas canecas com água. Sandor reclamou por vinho, mas eles apenas riram com o pedido. Amina parecia faminta e engoliu uma maçã com rapidez. Sandor não tinha fome e deixou que ela comesse todas as frutas.
– Não vai querer nada? – perguntou Amina.
Ela se aproximou de Sandor, arrastando o prato junto. Ficou sentada ao seu lado, as pernas esticadas, o prato em suas pernas, comendo as frutas, encostada na parede. Pegou uma uva e empurrou contra a boca de Sandor, mas ele apenas virou a cabeça. Afastou sua mão, mas mesmo assim, Amina insistia com a uva.
– Dá para parar? – rugiu Sandor, irritado com a mulher.
– Você precisa comer. – ela empurrou a uva contra a boca dele de novo e Sandor, enfim aceitou a fruta. Mastigou e saboreou o sumo da fruta, cuspindo o caroço para longe. Amina lhe deu outra uva na boca e o homem deixou que ela o alimentasse forçadamente.
Quando eles terminaram de comer, outros guardas vieram até eles. Algemaram o casal. Não disseram nada, apenas os levaram para longe das celas. Sandor até pensou em ataca-los, mas talvez, eles o estivessem levando para Sansa. Olhou para o lado, Amina estava sendo levada por outro guarda e parecia muito assustada.
Eles saíram das masmorras do castelo e Sandor se aliviou com o ar mais limpo e a claridade. O sol parecia estar mais fraco, e logo estaria se pondo. Passaram por alguns corredores e entraram em uma pequena sala escura, com decoração em tons cinza. No centro da sala, se encontrava Robb Stark e dois guardas. A mãe Stark estava sentava em uma cadeira, na lateral da sala, com mais dois guardas. Robb estava sentado em uma cadeira ornamentada e parecia tão pomposo quanto Joffrey quando se tornou rei. Sandor quis soltar uma risada, mas achou que não era o momento propício. Perguntou-se por que todos os reis se sentiam tão cheios de si quando assumiam o trono. A resposta era óbvia demais.
– Ajoelhem-se perante o rei! – gritou o guarda, obrigando Sandor e Amina a se ajoelharem. Eles os soltaram e Robb se levantou. Ele não fez menção para que o casal se levantasse.
– Aparentemente, vocês não apresentam perigo, mas prefiro não arriscar. – quatro guardas guardaram as costas de Sandor e Amina e não soltaram as algemas.
Sandor bufou, mas Robb não se importou.
– Devo agradecê-los por trazerem minha irmã para casa? – Robb perguntou diretamente para Sandor. Ele não fez menção para falar. Amina, tão apreensiva, decidiu se arriscar.
– Majestade, nós apenas cumprimos a missão de trazê-la em segurança – Amina não olhava para Robb. A mulher tão poderosa estava sumindo.
Robb reparou em Amina e se aproximou.
– Quem é você? – perguntou Robb. – Olhe para mim.
Amina olhou para Robb com muita insegurança. Os olhos do rapaz lampejaram por um instante e a mulher sabia que ele poderia reconhecê-la. Lutou para manter sua identidade apagada. Demorou alguns segundo antes de responder.
– Sou Amina. Amina Burley.
E quando Amina respondeu, Robb e sua mãe se estatelaram e soltaram uma exclamação de surpresa. Os guardas pareceram segurar a respiração e Sandor foi o único que ficou sem entender. Catelyn Stark levantou-se da cadeira e se aproximou.
– Amina. Seu rosto não passou batido por mim. – disse a Senhora Stark.
Amina olhou para Sandor, que continuava sem entender. Não reconhecia o sobrenome.
– Então, é real? – perguntou Robb. – Amina Burley, da Casa Burley.
Amina assentiu.
– Filha de Lorde Ronold Burley, do Clã Burley, um dos clãs das montanhas.
Então, Sandor entendeu. Amina não era uma prostituta qualquer. Era uma Lady. Filha de um Lorde do Norte. Sentiu-se enganado, mas entendeu a lealdade de Amina por Sansa.
– Então, as afirmações são corretas? – continuou Robb. – Fugiu de casa para se tornar prostituta.
Todo o medo que Amina sentia sumiu. Sandor viu a menina erguer o corpo, endireitando sua postura e levantando o queixo, pronta para responder qualquer insinuação. Essa era a Amina que ele conheceu.
– Sim, senhor. – respondeu Amina.
– Você estava em Porto Real? – perguntou.
– Não. Encontrei-os pelo caminho. Estive em muitos lugares, mas nenhum foi bom o suficiente para ficar.
– Por que fugiu?
– Saí de casa, pois era a herdeira e não acreditava nos ideais de meu pai.
Robb manteve seu rosto impassível.
– São fiéis aos Bolton.
– Não. – cortou. – Meu pai é fiel a eles. Eu não confio nos Bolton. Eu sou fiel a mim mesma. E serei fiel a uma casa quando Sansa Stark for Rainha do Norte.
Sandor esboçou um leve sorriso.
Robb não discutiu. Não iria fugir do assunto que era Sandor Clegane.
– O que pode me dizer de Sandor Clegane, sequestrador de Lady Sansa. – perguntou Robb.
Sandor bufou, pronto para socar a cara de Robb Stark.
– Não sequestrei Sansa! – gritou o homem raivoso.
Robb o ignorou e fez sinal para que os guardas o controlassem. O coração de Amina se acelerou quando os guardas deram um murro em sua cabeça, obrigando-o a ficar quieto. Ela não queria que Sandor se machucasse. Decidiu continuar.
– Se ele sequestrou ou não, não acha que ele fez um bom serviço a você? – perguntou Amina, indiferente.
Robb pareceu surpreso com a pergunta.
– Serviço?
– Sim. Ele lhe fez um favor. Trouxe sua irmã de volta. Não interessa se foi contra a vontade dela ou não. Ele a trouxe de volta para casa. Isso não deveria ser chamado de sequestro.
– Não acredito que Lady Sansa fugiria com Sandor voluntariamente. – confessou Robb.
Sandor soltou uma risada.
– Você não acreditaria nas coisas que sua irmã fez voluntariamente. – disse Sandor e Amina quase arriscou um sorriso, mas os guardas deram outro murro em sua nuca e ela se manteve séria.
– Você sabia que os boatos chegaram mais rápido do que eles? – perguntou Robb para Amina. – Sabe o que dizem os boatos?
– Não, senhor. – mentiu. Amina sabia muito bem quais eram os boatos.
– As pessoas dizem que ele a sequestrou. Arrancou sua inocência. E por que isso seria mentira? Este monstro e uma donzela viajando sozinhos pela estrada, escondendo-se na floresta. Sansa é uma presa muito fácil. Quem sabe o que esse homem fez a ela?
– Quem me dera ter arrancado a inocência de Sansa – começou Sandor, sorrindo. – Mas aproveitei bastante sua inocência. Ela também aproveitou bastante minha sabedoria.
O rosto de Robb ficou vermelho. Ele mexeu o pescoço, estalando-o, e fechou o punho. Aproximou-se de Sandor e gritou:
– BASTA!
E bateu no rosto de Sandor com o punho fechado. Não só uma, mas duas, três vezes. Robb parecia muito menino e pequeno perto de Sandor, mas naquele momento, ele era o Rei do Norte, grandioso e forte, esmurrando o rosto de Sandor Clegane com toda a sua força. Amina, que tentava não se importar com os murros que os guardas davam, não se aguentou e fechou o olhos. O que o parou foi o grito da Senhora Stark.
– CHEGA ROBB! CHEGA!
A Senhora Stark, que até então se encontrava sentada na cadeira, levantou-se, pronta para separar o filho de Sandor. Mas seu grito foi suficiente para fazê-lo parar e perceber que ele era Rei e não devia perder o controle dessa forma.
Amina abriu os olhos e Sandor estava deitado no chão, as mãos presas em suas costas, o sangue espalhando pelo piso e seu rosto deformado estava muito machucado.
Robb respirava ofegante e Catelyn tentava acalmá-lo. Ele olhou para Amina.
– O que acha que devo fazer com vocês? – perguntou Robb para Amina. – Minha inocente irmã, Princesa do Norte, sequestrada por um monstro e andando sozinha com uma prostituta. Você quer que eu acredite que os boatos não são reais?
Ouviram a risada de Sandor. Ele se mexeu, tentando se levantar.
– Você sabe... – começou Sandor, ofegante, a voz embargada, rouca e meio fanha. – Você sabe o que faziam com a sua pobre irmã em Porto Real? Quem é o verdadeiro monstro? – Ele conseguiu voltar sobre os joelhos. – Ela era maltratada, espancada. Todos os dias, aquele merdinha de rei a humilhava. Na frente dos guardas, da realeza, do povo. Não importa. Qualquer lugar era lugar para humilhá-la e espancá-la – Catelyn tapou a boca com as mãos, segurando um soluço. – Você sabe quantas marcas sua irmã tem graças a ele? Sabe quantas vezes ela foi espancada pelos guardas de Joffrey?
– Você era guarda de Joffrey. – lembrou Robb.
Sandor bufou.
– Nunca bati na menina em Porto Real. – disse olhando para Amina de relance. Esperava que ela não o entregasse. Em partes, aquela afirmação era real. Ele nunca levantou a mão para Sansa quando estavam em Porto Real. – Mas nunca pude defendê-la. Sinto muito por ter sido incapaz de protegê-la naquele castelo. – Aquilo era muito doído para Sandor. Ele sempre sofreu escondido por machucarem Sansa Stark. Ele nunca pôde fazer nada.
– Lady Sansa me contou algumas coisas que ocorriam com ela no castelo. – afirmou Amina. – Ela me disse quando o rei despiu-a na frente de várias pessoas – Catelyn soltou outro soluço. – Foi ele quem lhe deu algo para se cobrir – e apontou para Sandor. – Também lembro que ela me contou da vez que ouve um motim em Porto Real e ela ficou sozinha e três homens tentaram violentá-la. Foi Sandor quem a salvou. O rei nem se moveu para protegê-la. Fugir foi a melhor opção que ela teve, majestade.
Tudo o que estavam dizendo era igual ao que Sansa disse. Eles não estavam mentindo. Não tinham mais motivos para provoca-los a confessar mentiras.
– Por que fugiu da batalha, Clegane? – perguntou Robb.
Sandor suspirou antes de responder. Com certeza, pensavam que era por medo. Em parte, ele teve medo do fogo que lambeu o castelo. Mas ele não aguentava mais as injustiças e hipocrisia do rei.
– Joffrey é uma criança. Uma criança ruim. Acha que tudo não passa de uma brincadeira de morte. Deixa o povo para morrer de fome e tortura quem estiver a sua frente – Sandor olhou para Robb. – Que futuro teria ali? Ele não passava de um merdinha manipulado pela cobra da Rainha Regente. Foi na batalha que percebi que eu lutava por nada. E então, pensei em chamar Sansa. Eu poderia leva-la de volta para casa enquanto pensava para onde iria. À princípio, ela não queria. Acreditava que se Stannis assumisse o poder, ela seria salva. Pobre menina. Eu fiz a cabeça dela para ir comigo. Não a sequestrei. Ela veio por vontade própria.
– Agradeço por ter pensado em minha filha, Clegane. – agradeceu Catelyn. As lágrimas ainda rolavam.
– Sansa Stark é uma guerreira. Ela aguentou tudo o que podia durante a viagem – continuou Sandor, firme em suas palavras. – Achei que ela não iria durar. Mas Sansa é forte. Meu único dever foi protegê-la e fiz isso da melhor forma que pude. Se tive que dormir ao seu lado, foi por necessidade. Abracei-a quando teve frio, e matei quando ela esteve em perigo. Ensinei a menina a usar uma espada, a se defender. Fiz tudo por sobrevivência.
Um longo silêncio se seguiu pela sala. Robb parecia um pouco incerto do que fazer. Olhou para sua mãe por diversas vezes.
– O que esperam que eu faça por vocês? – Robb suspirou e se virou para Amina. — Você deixou seu lar para ser prostituta e agora quer ganhar os favores de sua Casa novamente? – Amina deu um leve sorriso.
– Não quero favores. Só voltaria para minha casa se Sansa Stark fosse rainha – ressaltou Amina. – Não me importo de voltar para as ruas e para o meu ofício.
– Sansa deseja que você seja sua aia.
Amina abriu o sorriso.
– Eu também serei com muito prazer. Sou fiel a Lady Sansa.
Robb se virou para Sandor.
– Você me pareceu bem honesto com suas palavras. Sansa pediu algo por você também – Sandor levantou o rosto, esperando ouvir que Sansa queria que ele ficasse. – Ela disse para eu lhe dar uma boa recompensa e fazer o que você deseja. É um desertor e jamais fez juramento aos Lannister. Está perdido no mundo, Clegane. O que deseja?
– Sair de Westeros. Um caminho seguro até o porto mais próximo para que eu possa sair do reino. – respondeu Sandor Clegane.
Amina o olhou entristecida. Sandor retribuiu seu olhar. Sabia que Sansa sofreria com sua partida por mais que ela negasse.
– Você foi infiel ao seu rei. Não confiaria você para ser da minha guarda – disse Robb. – Mas foi fiel à minha irmã. Pode ser guarda dela se fizer por merecer.
A proposta era tentadora, mas sabia que Sansa não o queria por perto. Não iria provoca-la. Pegaria a recompensa e partiria.
– Terá sua recompensa, Clegane. – garantiu Robb.
Ele ordenou que levassem Amina e Sandor para algum aposento e lhe dessem banho e comida de verdade. Sandor se livrou das algemas e junto de Amina saiu da sala. Na primeira oportunidade, Amina o abraçou pelo pescoço.
– Não vá embora, Sandor. – pediu a mulher e parecia sincero.
Ele retribuiu o abraço, meio relutante.
– Sansa não quer que eu fique aqui.
Amina soltou-se do abraço e olhou-o nos olhos.
– Ela está mentindo.
E se afastou para seus aposentos.
***
Sansa estava jantando sozinha em seus aposentos emprestados quando ouviu uma batida e a porta se abriu. Sansa levantou o olhar e Amina estava parada na porta, limpa e bem vestida. Sansa se levantou e Amina correu para abraça-la.
– Fizeram o que eu pedi. – Sansa concluiu.
Ficou feliz por isso, mas também ficou triste. Se fizeram o que ela pediu, então também cumpriram em relação a Sandor. E parte de si não queria que Sandor desistisse dela.
– Serei sua aia. Mas também serei sua protetora. – Amina deu um beijo carinhoso no rosto de Sansa.
A menina convidou Amina para se sentar e comer com ela.
– Eu temi tanto que vocês fossem despejados ou mortos. – confessou Sansa.
– Não confia em seu irmão? – perguntou Amina. Sansa enrubesceu.
– Não é isso – disse Sansa. – Robb e minha mãe pareciam muito certos de que vocês foram ruins para mim.
– Eles perceberam que não foi bem assim.
Amina decidiu contar a verdade sobre sua identidade para Sansa e a menina pareceu bem surpresa.
– Fico feliz que tenha jurado lealdade ao meu irmão. – disse Sansa.
– Não jurei lealdade ao seu irmão, Sansa – explicou Amina. – Eu juro lealdade a você.
– Eu não sou ninguém para você jurar lealdade.
– Pois eu acredito que será Rainha do Norte, um dia.
Sansa só esboçou um sorriso tímido para Amina. Não se via tão grandiosa quanto Amina acreditava. Tinha certeza que Sandor não a via tão grandiosa. Ele deveria acha-la uma menina estúpida.
– O que foi, Sansa? – perguntou Amina reparando na mudança de humor da menina. – Pensando em Sandor?
Sansa logo se recompôs e tratou de espantar a cara de tristeza.
– Não, Sandor não. Ele não está em meus pensamentos.
– Não minta para mim – Amina sorriu. – Sei que se sente um pouco incerta em relação ao futuro dele.
Sansa deixou seus ombros relaxarem.
– Eu não quero que ele fique. Não gostei do que ele fez a você. – explicou Sansa.
– Eu não me importei de me vender. Foi ideia minha, Sansa – Amina tentou convencer. Ela levantou o queixo de Sansa para que pudesse olhar naqueles olhos cinza. – E sei que foi uma ótima chance para vocês ficarem sozinhos.
Sansa desviou o olhar e sentiu seu rosto se queimar.
– O que aconteceu entre vocês?
– Eu não quero falar sobre isso.
– Você deixou de ser donzela? – Amina arregalou os olhos.
– Não! Claro que não! – Sansa se assustou com os pensamentos de Amina. – Foi outra coisa...
– Aposto que ele deu uns beijos em você. – disse Amina, passando sua mão por sobre a coxa de Sansa e subindo. – Foi isso?
Sansa não se importou com a mão de Amina e olhou-a nos olhos. Deu um sorriso tímido para confirmar o que Amina imaginava. A mulher apenas riu e apertou a coxa de Sansa por sobre a camisola.
– E você gostou?
– Bem... sim.
Amina riu e se aproximou para dar um beijo na bochecha de Sansa e sussurrar em seu ouvido:
– Aposto que ele pode te mostrar muito mais coisas se ficar aqui.
Sansa ruborizou. Não queria que Sandor lhe mostrasse mais coisas. Estava se guardando para o senhor seu marido. Mas não conseguia parar de pensar no que Sandor poderia lhe ensinar.
– Para onde ele disse que vai? – perguntou Sansa, curiosa.
Amina desfez o sorriso.
– Sair de Winterfell.
***
Sandor só queria deitar naquela cama macia e dormir o máximo que podia. Sentia-se cansado e tinha recebido uma refeição digna de rei.
Mas as batidas na porta interromperam os planos de Sandor. Catelyn Stark interrompeu o plano de Sandor.
O homem não havia feito nenhum juramento aos Stark, mas depois do que haviam feito a ele, sabia que devia algum respeito à Lady Stark. Curvou-se quando ela entrou em seu aposento.
– Sor... – começou a mulher.
– Não, eu não sou sor.
Catelyn acenou com a cabeça em um gesto de desculpa.
– Clegane, venho aqui para lhe pedir um favor.
Sandor não esperava a mãe de Sansa tão tarde da noite. E não esperava que ela fosse lhe pedir um favor.
– Sansa me pareceu confiar muito em você, Clegane – começou Catelyn. – Ela estava muito certa de que você a protegeu com sua vida e não deixou que pensássemos coisas ruins.
Sandor manteve-se sério, apesar de ter gostado do que Catelyn falara.
– Quero voltar para Winterfell. Meu lugar não é aqui. Sansa virá comigo. Mas não confio nos caminhos. Temos muitos guardas e sei que eles podem nos proteger – ela parou de falar e deu um longo suspiro. – Robb é muito jovem e temo que ele se fira em alguma batalha. Se isso acontecer, Sansa será Rainha do Norte e quero que ela lute por isso.
– Sansa seria uma rainha boa e justa, Lady Stark. – garantiu Sandor.
– Clegane, sozinho, você protegeu minha filha por caminhos muito mais perigosos do que os caminhos que passaremos para chegarmos ao Norte. E só por isso, sei que é leal à minha filha. Peço que venha conosco para Winterfell. Peço que seja o guarda oficial de Sansa e garanta que ela chegue segura.
Sandor se estatelou com o pedido. Ela sabia de seus planos e estava pedindo que tudo se modificasse.
– Lady Stark, esses não são meus planos e vocês tem muitos guardas competentes. – Não tão competentes quanto e, pensou Sandor.
– Não, você não está entendendo – Catelyn se aproximou mais de Sandor. – Os guardas serão leais a mim. Nenhum jurou lealdade a Sansa. Se algo acontecer, todos irão me proteger e deixarão Sansa em segundo plano. Você não deixará que isso ocorra. Você é o mais adequado para manter minha filha viva. Se algo acontecer pelo caminho, quem sou eu para manter viva? Não passo de uma velha mãe. Mas Sansa é importante. E ela precisa de alguém totalmente leal a ela.
– Senhora...
– Depois disso, quando chegarmos a uma das casas vassalas de Winterfell, garantirei que chegue com segurança ao porto mais próximo. Poderá escolher os guardas que o acompanharão e quantos quiser. Mas, por favor, seja o lobo de Sansa.
Sandor suspirou e pensou. Ele sabia que Catelyn honraria essa promessa. E poderia garantir que Sansa chegaria em um local seguro. Mas ela odiaria ter sua companhia. Ser lobo de Sansa Stark soava muito melhor que ser Cão de Joffrey Baratheon. E lidar com Sansa raivosa não era tão ruim assim. Poderia adiar seus planos.
– Tudo bem, Lady Stark. Farei o que me pede.
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