Goddess
1 Finalidade última de todas as coisas
Notas iniciais
goddess
Ela volta de novo e de novo, como se fosse a primeira vez, se perpetuando em momentos e deixando marcas por onde passa. Sempre presente, onisciente e potente, Ozaki Kouyou coexistia no tal mundo sensível e inteligível¹ ao mesmo tempo em que dançava sobre os destroços de sua amada metrópole. Superior à razão humana, ela era simplesmente uma incógnita. Muito embora essas descrições fossem apenas analogias feitas a fim de explicar sua magnificência, a verdade é que sua essência era um mistério, a finalidade última de todas as coisas.
Kouyou era uma verdadeira femme fatale. Tudo nela exalava beleza apesar do caos que causava, sendo essa dualidade o principal fator que a tornava um ser digno da mais pura perfeição. Ela ria da obscuridade que tingia a cidade enquanto bebericava sua xícara de chá e passava a mão pela bainha de sua katana, imaginando quando iria agir novamente. Mas não era como se essa atitude fosse exclusiva dela, já que certos deuses tinham, de fato, tendências mais egoístas que outros; ela apenas fazia parte desse espectro, muito embora orgulho não fosse a palavra correta para definir o que sentia.
E então, em meio a tudo isso, havia Yosano.
Ela, que simbolizava tudo aquilo que Kouyou jamais alcançaria, muito embora esse fosse seu maior desejo. Apesar de seu passado duvidoso, uma coisa era certa: mesmo presa às falsas sensações e às limitações do mundo sensível, Yosano era uma heroína. Não uma das melhores e tampouco a mais experiente de todas, mas Akiko era simplesmente… ela, e isso se constituía mais do que suficiente. Ozaki odiava o fato dela se contentar com sua pequenez na maior parte do tempo, nunca questionando o porquê de sua alma ainda estar ali. Isso era frustrante de todas as formas possíveis para Kouyou, afinal, Yosano abdicava seu lugar nos céus ao lado dela em prol de terceiros e não recebia nada em troca. Essas divergências eram tão palpáveis quanto sua vontade de mudar o mundo e as mordidas que marcavam sua epiderme, mas era até que interessante ver as coisas na perspectiva desprezível da terra de vez em quando, afinal, tudo era regado a hipocrisia e isso, a disparidade dos fatos, a divertia na maior parte do tempo.
E esse era um dos principais motivos para Kouyou visitá-la constantemente; ela gostaria de abrir os olhos de Yosano mostrar a sua dama da noite que o mundo era uma falácia, que a ciência não era salvacionista e que deus, na verdade, era uma mulher. Ela fazia questão de sair do empíreo para ir lhe visitar pessoalmente e lhe mostrar um pouco da verdadeira visão do paraíso, nunca sendo tão cautelosa como era de se imaginar. Às vezes a pressa se fazia presente, afinal. Mas Yosano esperava todos dias, apesar da impaciência, pelo instante em que seria julgada por cair em tentação.
E, bem, talvez aquele fosse o momento ideal.
Muito embora ela soubesse que estava condenada, Yosano ria de toda aquela situação e se confortava com seu ceticismo. A outra nada fazia, afinal, paciência era uma virtude. Akiko contemplava-a como todas as noites, quase que numa espécie de prece, e evitava olhar para o ambiente ao seu redor. Elas constantemente se encontravam nos mais variados lugares, indo desde vielas imundas à sala de espera da Agência de Detetives Armados. No entanto, daquela vez em especial, Kouyou havia proposto algo diferente; uma ida à Máfia do Porto. Seria interessante.
Era quase inevitável não olhar para Yosano naqueles instantes. A luz sublime da lua perpassava o ambiente e lhe dava um ar ainda mais angelical, muito embora ela estivesse próxima até demais às portas do inferno. Kouyou se extasiava com o olhar frio dela sobre si e arfava quando ela ousava pôr as mãos em seu rosto, esquentando a área tocada por causa do couro das luvas. Os lábios de sua amante também sussurravam palavras que não deveriam ser ditas e às vezes resvalavam contra o batom fúcsia, deixando para trás um suspiro e uma gama de outras sensações pairando sobre si.
E então, num piscar de olhos, Yosano foi ao chão. As costas dela doíam um pouco por causa do baque, mas essa sensação era o de menos ante tudo que sentia. Ela olhou para os lados e percebeu que Kouyou alternava sua visão entre ela e o corredor imundo do lugar, provavelmente verificando se não havia ninguém no local. Bem, não era como se elas se importassem com a opinião de terceiros se tratando daquilo, mas prezar pela segurança de ambas as instituições era uma prioridade. De toda forma, Kouyou sabia que esse era preço a se pagar por abandonar sua realidade utópica, porém, se essa era a única forma de tê-la consigo, não havia por que reclamar.
Yosano percebeu que sua mulher estava se aproximando. Ao invés de se levantar do chão num sobressalto, ela esperou Kouyou ir ao seu encontro e estender a mão a fim de ajudá-la. O barulho das sandálias que ela usava e a veste tradicional japonesa se arrastavam pelo chão de forma lenta e vagarosa, ecoando pelo cômodo quase vazio e intensificando-se gradativamente assim que se aproximava de Akiko. Quando Ozaki foi ao seu encontro, Yosano a puxou para baixo a fim de levá-la ao inferno.
— Você tem certeza que aqui é o melhor lugar? — Kouyou perguntou calmamente, sua voz soando tal qual um sussurro.
— Não mesmo. Mas também não é como se alguém pudesse nos ver. — Ela estendeu os braços e levou as mãos, agora sem o par de luvas, aos cabelos de Ozaki. O ruivo intenso se estendia pelas costas dela e a franja tampava um dos olhos, deixando o olhar cor-de-rosa com um tom ainda mais perverso. Yosano não reclamava, afinal, ela gostava de mulheres intensas. — Se deus realmente existe, me prova.
Findam as palavras e, com elas, um selar de lábios. O silêncio não se estendeu, muito embora Akiko estivesse esperando pelo momento em que Kouyou falaria sobre toda aquela inconstância. Era um tanto difícil discernir as coisas quando se tinha uma mão segurando sua gravata e outra dedilhando seu maxilar, os dedos percorrendo a área de uma forma tão vagarosa que se assemelhava a um tipo de distanásia. Mesmo que estivesse por cima e exalasse prepotência, Ozaki não negava o fato de Yosano ter um poder coercitivo enorme sobre si. No entanto, como tudo era para ela, dela e por ela, não havia por que Kouyou se enganar contando mentiras para si mesma. Como uma boa deusa, ela fazia questão de puni-la quando necessário e atender suas súplicas assim que possível, sempre fazendo de tudo para fazê-la flutuar e ir aos céus consigo.
A respiração quente de Yosano se misturava com a dela a ponto de esquentar os corpos que, antes, estavam frios por causa da volubilidade da vida. A cada pedaço de pele que a de fios ruivos ousava explorar, Akiko aproveitava o momento e, durante o processo, lembrava-se que ela não era boa tal qual um deus — e era até indelicado da sua parte compará-la a essa figura, tendo em vista que ela não precisava dessas equiparações para mostrar seu devido valor —, na verdade, Kouyou era a divindade em questão. E então, como se estivesse provando o próprio manjar dos deuses, Ozaki se deixou levar pelos sabores que estavam na ponta de sua língua. Ela sentia as labaredas do inferno queimando em sua boca, mas esconder seu contentamento ante a situação era quase inviável.
Yosano não se encontrava muito diferente da mulher à sua frente. Muito embora isso não sanasse completamente suas dúvidas acerca da totalidade das coisas, naquele momento, ela tinha certeza de que Kouyou era, de fato, perfeita, assim como os ideais platônicos sugeriam. Para ter certeza da existência de um ser superior, porém, outros encontros teriam de ser feitos. Só de pensar nessa possibilidade sua alma se inquietava e o corpo arrepiava, imaginando qual seria seu próximo veredito.
Talvez Kouyou lhe visitaria novamente. Talvez Yosano lhe esperaria como sempre e, quem sabe, elas se amariam. Talvez. Afinal, mundo era incerto e as duas também.
Fale com o autor