Godan
13 Os Cabeças Vermelhas
Notas iniciais
Takahama – 30 de dezembro de 752 D.C.
A cidade estava movimentada naquele fim de tarde, as luzes finais do crepúsculo refletiam no pingente da família Takahashi que pendia no cabo da espada de Kazuki que estava fora da capa cinza envelhecida e fosca que cobria seu corpo por exceção de seus ralos cabelos ruivos esbranquiçados recém cortados.
Foram anos adormecido e poucas semanas para reajustar sua vida, mas Kazuki é um homem esperto, sempre foi, os contatos certos e já está quase tudo em seu devido lugar, exceto por um detalhe.
* * *
É o início do último dia do ano em Ishikawa, Sora fora admitido aos Chuniores do clã dos Camponeses, Milla não está exigindo direitos por transar com ele casualmente, as coisas parecem estar certas para o jovem camponês.
–O que está fazendo acordado a essa hora? – Perguntou Milla afastando o cobertor branco e coçando os olhos escuros. – Ainda não amanheceu...
–As costelas ainda doem... Os ninjas curandeiros estão cada vez mais fracos. – Respondeu Sora se sentando na cama com a mão sobre a barriga, ele olhou para Milla que ainda estava na mesma posição de segundos atrás; seus seios eram fartos e estavam para fora do cobertor, os mamilos rosados estavam duros com o frio do inverno.
–Por que está me olhando assim? – Perguntou ela enquanto os pelos de sua pele arrepiavam-se e como reflexo ela esfregou o braço direito.
–Não é nada... Estava viajando, só estou preocupado com Kazuno, não tive notícias dele nos últimos dias... Você me parece com frio, quer que eu acenda a lareira?
–Droga, Sora-kun, você esteve observando meus peitos! Bom, se não for incendiar a própria casa, é uma boa hora...
Depois disso Sora não conseguiu mais dormir, saiu de sua casa e foi tremer de frio pelas ruas da cidade, onde ficou até a alvorada e foi para casa dos irmãos Ikeda e bateu com força na porta de madeira.
–Sora-san? A essa hora? – Disse Hyato quando arrastou a porta de entrada e se deparou com o amigo. – Entre, está frio!
–Obrigado...
Sora retirou as botas de frio e caminhou sobre o solo revestido com madeira, a lareira estava acesa e na mesa da sala de estar estava Hideki tomando o que aparentava ser suco de laranja. Hideki e Hyato Ikeda são gêmeos idênticos, a forma mais clara de diferença é a franja sobre o olho esquerdo de Hyato e a altura levemente superior do irmão; eles nunca se separaram e mesmo depois da graduação no clã, continuam morando junto.
–Queria estar em Mijolnir agora, sinto falta do clima tropical e do cheiro de mar... aqui a temperatura deve estar inferior a 5ºC. – Observou Sora enquanto caminhava na direção de Hideki.
–Suas costelas estão melhores? – Perguntou o irmão que abrira a porta. – Ouvi dizer que passou alguns dias no hospital da cidade.
–Boatos verdadeiros, mas sim, estão bem...
–Por onde esteve? – Indagou Hideki após uma golada no suco.
–Precisei ajudar a um amigo, digamos que foi extremamente necessário, mas agora preciso saber das novas dos dias em que estive fora, onde está Kyou-sensei?
–Ele partiu com o Líder do clã... Os magos organizaram uma reunião de emergência em Haiagriva a respeito do clã dos Humanos. – Respondeu o mesmo irmão.
–Merda...
* * *
–Está vendo, Steve? É por isso que às vezes tenho raiva da minha vida, é quase o último dia do ano e eu estou na capital tomando vinho numa cadeira super desconfortável esperando o pequeno conselho dos Humanos. – Disse Tsuki inclinando a cadeira nas pernas traseiras enquanto mexia o vinho que se encontrava dentro de uma taça feita com bronze em sua mão direita, ele desceu a cadeira para a posição original enquanto dava uma considerável tragada no vinho tinto e olhava para o aprendiz de mago que fora designado para servi-lo. – Bom, se você vai mesmo me servir... Não gosto de monólogos. Não me importo se você é iniciante ou qualquer coisa, só não me deixa falando sozinho... Tenta dar uma opinião sincera!
–Eu acho que o senhor está bêbado... – Disse o Mago iniciante encapuzado.
–Boa! Começou bem, mas não, Steve. – Respondeu Tsuki sorrindo com o canto da boca. – Não fico bêbado há décadas.
Então a porta dos fundos da sala em que Tsuki se encontrava abriu e por ela passou mais um mago encapuzado.
–Meu senhor, o pequeno conselho chegou de Mijolnir junto a Hiroshi Sasaki, do clã dos Camponeses, a reunião começará em cinco minutos. – Então ele saiu enquanto Steve e Tsuki entreolhavam-se.
–A diversão acabou, Steve, vamos acompanhá-lo. – Concluiu o Mago seguindo o aprendiz que deu a notícia.
Tsuki já estava enjoado da decoração da sala de reuniões, que por sua vez era um grande e circular recinto no qual doze cadeiras estavam numeradas no sentido horário e no centro da sala havia uma mesa redonda onde oito cadeiras de madeira bem ornamentadas estavam preparadas para a reunião.
–Oito?
–Mestre Odur não conduzirá a reunião, o senhor será o encarregado.
Após algumas horas todos os oito homens com inclusão de Tsuki estavam em suas devidas cadeiras, eram cinco do pequeno conselho do clã dos Humanos: o velho Charles Campbell, patriarca de sua família, sedento por poder, mestre da moeda do clã dos humanos, vestido como uma boneca para atrair atenção como uma puta, assim Tsuki julgava, pois não havia como não fazê-lo, o velho estava logo à direita do mago e tomava um longo gole de café enquanto erguia seu mindinho para demonstrar classe; seguindo anti-horariamente estava Robert Carter, primogênito de sua família e vassalo inteligentíssimo dos Thorpe; Nicolas Cook: com sua cartola vermelha e seu bigode curvado, comerciante rico de Mijolnir, sua família era rica desde os tempos em que os Vikings tomaram o poder e a revolta não abalou os lucros dos Cook, sua capacidade para negócios o levou a ser membro do pequeno conselho dos Humanos; Harley Parker: último membro vivo da família que substituiu os Takahama em questão de importância, mas que aos poucos foi morrendo com o passar dos anos o deixando como herdeiro supremo de todas as riquezas; e por último Antony Darkwood: primogênito de sua família, que por sua vez tem uma grande fábrica de uísque ilegal, o que torna tudo mais lucrativo. Depois de Darkwood estava Hiroshi Sasaki e seu bajulador: Kyou.
–Bom, o mago primário do vento e líder do conselho dos Magos: Odur, convocou esta reunião de emergência para tratar do caso Balder, gostaria que começássemos na ordem original das reuniões do meu clã, isto é, no sentido horário, então... Comece, Sasaki.
–Konbawa* senhores do conselho, fazem algumas semanas que descobri a trágica notícia de que vossa majestade Peter Erick faleceu, mas antes de mais nada seria interessante a discussão a respeito da causa da morte, já que não foi divulgada...
–A causa da morte do nosso senhor não vos interessa, o que importa é quem vai substituí-lo daqui pra frente! – Exclamou Campbell olhando torto para Sasaki.
–É óbvio que interessa, ou vocês já esqueceram que mandamos um esquadrão para ajudá-los na sua guerra fútil contra os Vikings! – Retrucou rudemente Kyou. – O mínimo que vocês poderiam fazer é nos dar o pingo de consideração.
–Nosso senhor Erick faleceu por doenças respiratórias, assim como seu antepassado morrera. – Respondeu calmamente Robert Carter alisando a barba grisalha e rala que seus 43 anos lhe proporcionaram. – Não há o que ser discutido quanto a isso, em parte concordo com o senhor Campbell, no entanto julgo que devêssemos pensar um pouco a respeito de quem ocupará o trono.
–Isso deveria ser decidido popularmente, é mais justo e democrático. – Concluiu Parker.
–Pelo amor de Deus, Harley, nós não estamos em Takahama. – Retrucou Darkwood. – E mesmo lá a democracia não funciona como diz nas leis.
–O que sabe você das leis? Vende uísque ilegal... – Espetou Harley Parker. – Além do mais, se nosso reino não deu certo com a monarquia dos Erick todos esses anos, então está mais do que na hora de adotarmos uma democracia, pelo menos em Takahama as coisas parecem estar estáveis.
–Estáveis com os Samurais batendo na porta do lado livre prontos para atacar novamente? – Perguntou Cook sarcasticamente. – O regime dos Erick deu mais do que certo, ou então como acha que conseguimos manter um império por centenas de anos? Faça-me o favor Parker?
–Então por que não há nenhum Erick aqui nesta reunião? – Prosseguiu Parker. – Se o regime monárquico tivesse dado certo, nós não estaríamos discutindo isso.
–Tudo bem, damos o poder ao povo. – Recomeçou Carter. – Acabamos de ter uma guerra, as mães perderam filhos e as esposas maridos, a economia não tem estabilidade alguma, não há emprego porque também não há onde empregar, tudo o que temos foi tomado de outro povo, nossas mulheres viram os guerreiros Humanos matarem e estuprarem mulheres Vikings com o final da guerra, elas tem medo de que haja um ataque e o mesmo ocorra; numa democracia devem votar para um líder os homens e mulheres de todas as idades, você acha que nosso povo está preparado para escolher um líder em meio a essa situação?
Um longo silêncio de cinco minutos tomou conta da sala enquanto todos encaravam o centro da mesa onde havia um desenho da esfera branca, símbolo do clã dos Magos.
–Haverá uma votação secreta, embaixo da mesa há folhas e penas, decidiremos se o clã dos Humanos continuará sob um regime monárquico ou se irá tornar-se uma democracia. – Concluiu Tsuki. Assim todos escreveram seus votos e depositaram numa caixa de madeira no centro da mesa, quando a votação acabou.
* * *
Kazuno Takahashi sente dor na coluna e se inclina para alongar os músculos das costas, com este movimento ele adquire momentaneamente uma visão mais ampla da taberna em que o mesmo se encontra nessa noite de dezembro, ao retornar a sua posição inicial no banco desconfortável, sentiu o cheiro do seu jantar que vinha sendo trazido na mão do taberneiro idoso daquela parte de Takahama.
–Obrigado, senhor Garrick, é uma honra ser hospedado em seu estabelecimento. – Agradeceu Kazuno tomando uma colher de sopa enquanto observava os miúdos olhos do taberneiro Careca.
–Não agradeça, Takahashi, você não foi o único em toda a minha carreira que descansou aqui, houveram muitos parasitas que assim como você atrasaram o pagamento da pensão. – Retrucou ele coçando o bigode branco. – Você parece com aqueles Jovens... Uns mais velhos... uns mais fortes... uns com uma demência que nem o próprio Deus poderia curar...
Então o taberneiro o qual Kazuno fizera amizade, Jason Garrick, sentou em seu banco no lado oposto ao balcão e enterrou o rosto nas mãos.
–Senhor Garrick? O senhor está bem?
–Sim... Sim, o velho Garrick sempre está bem... –disse ele erguendo novamente o rosto. – Só estou recordando o passado, alguns grupos que encontrei.
–Acho que o senhor está misturando realidade com imaginação.
–Você que é demente, estou falando de Valkarya, que assim como você parecia puritana, mas que também assim como você, falo de Sarevok, aquele grande imbecil, cuide da sua vida. – Com isso ele se levantou e caminhou com dificuldade na direção de outro cliente.
Kazuno continuou seu jantar achando aquilo tudo muito estranho, Garrick nunca havia falando desses dois. Ele percebeu que alguém se aproximava dele de forma sorrateira, então sacou seu punhal.
–Calma, assim como você sou um Mercenário. – Disse uma voz masculina grave nas suas costas. – Rua das cabeças vermelhas, ao amanhecer, não se atrase, há uma pessoa que deseja vê-lo.
Então o jovem ruivo virou com um movimento brusco e não havia ninguém atrás dele, só um empregado do taberneiro que limpava uma mesa recém utilizada.
O último dia do ano deu seus primeiros passos, Kazuno não conseguira dormir essa noite meditando sobre a mensagem que recebera horas atrás. Ele levantou de sua cama nada confortável, sentiu a brisa quente de verão em seu peito nu, caminhou pelo quarto sentindo a pedra fria do chão do dormitório da taberna, vestiu suas roupas, armou-se devidamente, colocou a armadura de peão humano, descartou o elmo e por cima colocou sua longa capa preta, por fim ele abaixou o capuz e saltou pela janela de vidro.
Ele sentia a brisa agradável de verão enquanto corria pelos telhados de Takahama como um verdadeiro ladino, caminhou por ruas estreitas e por fim chegou a Rua das Cabeças Vermelhas e viu um homem com uma capa preta idêntica a dele.
–Lorde, Takahashi, entre por aqui... – Indicou o homem encapuzado para dentro de uma pobre casa de primeiro andar, a qual Kazuno reconheceu como o antigo esconderijo de sua família. – Tem algo pra você lá em cima.
–Como posso saber que não é uma armadilha?
–Eu não pedi suas armas e... – Então ele abaixou o capuz expondo um rosto maduro com uma cabeleira ruiva e uma barba cheia da mesma coloração. – Temos o mesmo sangue vermelho.
–Achei que nossa família estivesse extinta...
–Tecnicamente está, mas... Ah, ele vai te explicar.
Kazuno ouvia o som do ecoar da batida de suas botas com a escada de madeira velha e mofada, o cheiro de poeira irritava seu nariz e despertava vontade de espirrar, a umidade daquele local era irritante. Finalmente ele chegou a uma porta arrombada e no fundo da sala que encontrou, a qual não tinha teto, havia um homem iluminado pelos primeiros raios de sol do dia, seus olhos brilhavam um avelã claro com a luz do dia, barba e cabelos ralos. Ele abaixou o pescoço num movimento para enxergar melhor quem entrava pela porta, tal ação expôs os últimos fios ruivos que lhe restavam entre os cabelos grisalhos.
–Hã? – Disse Kazuno se assustando ao ver seu pai sentado numa cadeira de madeira com os braços apoiados numa mesa. – Como...
–Uma anomalia... – Respondeu ele sorrindo fervorosamente.
–Isso é impossível... Como chegou a Takahama tão rápido? – Disse ele abaixando o capuz — E o que porra aconteceu nesse tempo... VOCÊ ME DEVE MUITA EXPLICAÇÃO!
–De fato, meu filho... Muita coisa aconteceu, coisa que eu ainda nem consigo explicar... Posso começar com o fato de eu estar bem mais velho do que quando você me encontrou. Encontrei um velho amigo Odur, mago do vento, ele estava encapuzado, conversei com ele sobre a técnica da Morte-falsa... Sente-se, são muitas histórias. – Então ele indicou uma cadeira de madeira na sua frente, na qual imediatamente o garoto sentou. – O tempo vai passar mais rápido pra mim, até que eu atinja a aparência que eu teria com a idade que eu realmente tenho; Odur também tem truques, como o líder da antiga Ordem dos Magos ele tem privilégios, assim ele restaurou minha memória, o que me fez lembrar de minha missão.
–E que missão seria essa?
–Há alguns anos, meu pai, Benjamin me deu a missão de encontrar um Goblin chamado Flinx e eu teria de proteger o rei...
–Pai... Sobre o rei...
–Balder, eu soube do que aconteceu. Sei dos planos de tirar a vida de Kido Suzuki e sei do amuleto de Balder muito antes de você nascer... Quero saber até aonde irá essa sua vingança.
–Não é vingança, é justiça. Estou cansado de ver as pessoas sofrendo injustamente, seja de fome ou por causa de alguma guerra teatral ensaiada pelos Magos.
–Os Magos são nossos aliados.
–Minha única aliada é a Justiça, que por sinal é o nome que dei à espada de Kido.
–Não há mais justiça Kazuno, tudo o que sobrou dos tempos antigos foi morte, destruição e corrupção.
–EIS A PALAVRA CORRETA, a corrupção é a causa da morte e destruição, se todos tivessem bens partilhados igualmente, se as pessoas se enxergassem como pessoas e não como adversários, se ninguém avaliasse a situação do ponto de vista de como pode se sobressair não haveria corrupção.
–Qualquer político sabe disso, mas a corrupção é boa para os negócios, dependendo do teu ponto de vista há justiça na corrupção.
–Diz isso porque já está corrompido. – Respondeu Kazuno ajeitando os cabelos embaraçados que caíram sobre seus olhos. – Estou farto dessas conversas.
–Eu te criei para ter meu lugar na diretoria desta cidade... Precisamos reerguer nosso nome, pare de pensar nesses imbecis, você não irá conseguir tirar a corrupção, ela está no povo, eles estão em todo lugar, é injetada desde o nascimento de cada indivíduo.
–Não posso extraí-la das pessoas, mas posso fazer o trabalho mecânico. Tirar a poeira grossa... Os inimigos públicos, mafiosos, Magos, Diretores e líderes, são todos culpados... Eu buscarei a paz nem que eu aja sozinho.
–Meu filho... A paz já não existe mais, este mundo está perdido.
–Então se o mundo já desconhece a justiça ou uma paz estável, então eu os farei brotar do sangue dos inimigos públicos. – Respondeu ele com tom de ponto final.
–Sua causa é utópica, a minha está em andamento, tire um tempo para pensar... Venha na festa da virada do ano, conheça pessoas novas. O centro da cidade está repleto de jovens. Sinto que 753 será um ano melhor e com o ascender dele também virar o nosso.
* * *
–Finalmente a votação acabou... Robert Carter é o novo rei de Mjolnir de e de toda a raça Humana. – Disse Tsuki para todo o conselho.
* * *
Kazuno passou o dia caminhando na cidade de Takahama e escolhendo roupas pra vestir na festa, no final percebeu que nada do seu dinheiro seria capaz de comprar qualquer uma daquelas roupas caras, então simplesmente retirou a armadura e usou apenas suas roupas normais feitas com tecido grosso próprio para movimento em batalha, com apenas seu punhal como arma ele aguardou as 22:00 para se dirigir ao centro da cidade.
Chegando lá havia grande movimentação de pessoas, guardas Samurais contratados do Sul da cidade para manter a ordem no local, um deles era menor do que os outros, no entanto parecia ser o superior do esquadrão; no meio havia uma praça redonda com vários bancos que estavam quase todos ocupados, Kazuno por sua vez se acomodou em um dos únicos que não estavam totalmente ocupados, então ele notou a presença de uma pessoa nos eu lado esquerdo, uma linda mulher oriental usando um vestido oriental com estampa de listras verdes.
–Konbawa* — Disse a mulher sorrindo para ele.
–Perdoe-me... Sou godariano. – Respondeu ele sorrindo de volta e achando aquelas feições semelhantes.
–Percebi. Chamo-me Saeko Suzuki, de Yamamoto. – Apresentou-se com um forte sotaque. – E você quem é?
–Kazuno Takahashi, daqui mesmo.
–Curioso... Teu nome me é familiar... Acho que foi a nee-chan*.
–Realmente curioso, não costumo me apresentar para qualquer um, a senhorita está sozinha?
–Sim, meu noivo Keisuke Honda foi me buscar uma bebida, mas não se preocupe, Honda-san não gosta muito de ficar muito tempo sentado.
–Então você mora aqui apenas com o noivo?
–Não, na verdade moro com meu pai Seiji e minha irmã mais nova Akemi.
Kazuno sentiu seu mundo girar, retomou todas as lembranças de sua época de infância e sentiu a emoção de um possível reencontro. Então ele contou toda a sua história de quando conheceu Akemi, e quando terminou foi no exato momento em que chegou Honda, o noivo de Saeko.
O jovem ruivo se apresentou e eles aguardaram as 107 badaladas típicas das tradições gondirianas. Os Samurais só aceitaram participar se suas tradições do oriente fossem respeitadas. As badaladas terminaram e o ano acabou começando um novo. Os primeiros raios de sol de 01 de janeiro de 753 vieram com um calor de esperança e com a ideia de um reencontro surpresa com Akemi.
* * *
–Feliz ano novo Kido... – Sussurrou Natasha ajoelhada na lápide onde estava cravados os nomes dos guerreiros mortos na guerra contra os Vikings. – Que nosso encontro não demore.
–Ele está melhor do que nós. – Disse Tsuki abraçando ela. – Espero que Kazuno e Sora também.
* * *
Kazuno estava na sala de treinamento de Akemi a esperando quando ouviu o arrastar da porta de entrada.
–Quem diabos é você?! – Exclamou um homem baixo com a voz suavemente aguda e abafada por seu elmo vermelho. – Espera...
–Calma, senhor, estou esperando uma velha amiga, sou Kazuno Takahashi, filho do antigo diretor.
–Deuses, como você cresceu! – Disse o Samurai retirando o elmo e mostrando ser uma bela mulher oriental com traços similares aos de Saeko. – Por onde andou?!
–Akemi? Como é bom te rever! – Disse ele tentando um abraço por cima da armadura dela, contudo foi afastado por ela.
–Sem toques calorosos...
–Tudo bem... Então... Eu consegui me tornar um mercenário.
Então ele contou toda a sua história, o que levou horas.
–Nossa, Kazuno... você pode repetir por favor o nome do Krïeger?
–Kido Suzuki. – Respondeu ele sendo imediatamente abraçado por Akemi enquanto ela chorava pela morte de seu irmão.
–Obrigado... Por ter vingado a morte dele... – Respondeu ela; assim, após alguns minutos o clima entre os dois voltou ao normal. – O que você procura em Takahama?
–Eu tenho um objetivo, na verdade... Quero reestruturar minha família, encontrar alguém que me proporcione filhos, mas antes preciso trazer de volta o passado.
–E como você pretende? Tudo o que restou dos Takahashi está no sul de Takahama e está tudo tomado por Samurais como eu.
–Você é realmente um deles?
–Sim, me cansei de ser rebaixada por ser mulher, ser considerada inferior, agora sou eu que dito as regras e obrigo meus lacaios a segui-las.
–E eles não desconfiam? – Perguntou ele imaginando ela sem armadura com os seios cobertos apenas pela camisa. Então ela tirou a armadura e exibiu um busto liso coberto por uma camisa preta, maciço como um peito de homem, músculos fortes na barriga.
–Eles não precisam saber que sou uma mulher, há vários Samurais com feições femininas e outros que você só conseguiria diferenciar devido à barba que poucos tem. – Respondeu ela desfazendo o coque samurai exibindo seus lisos e belos cabelos negros que caíram sobre o rosto angelical com uma franja curva. – Meu pai também não sabe da minha vida dupla, ele acha que trabalho com negócios no sul, e mesmo assim me diz que isso não é trabalho para mulheres.
–Bom, já que você tem negócios militares no sul... poderia me ajudar?
Kazuno e Akemi caminharam até o grande portão vermelho no norte de Takahama, onde encontraram dois guardas a postos nas laterais do local citado.
–高いです (Alto!) — Exclamou Akemi engrossando a voz por trás do elmo vermelho. — キャプテンの鈴木行います(capitão Suzuki se apresentando!)
–先生はい!(Sim senhor!) — Responderam os dois com fervor.
Então os dois entraram na cidade, logo quando adentraram o local Kazuno notou a diferença dos lados de Takahama, ali no sul tudo era mais pobre, o comércio quase não tinha atividade, o sofrimento era visível aos olhos das pessoas. Ali era pra ser a área nobre da cidade toda, mas era a mais sofrida.
–O que houve aqui? — Perguntou Kazuno horrorizado com a vista. — As pessoas sofrem aqui como sofrem em Urd de Bifrost...
–Eis uma coisa que concordamos, mesmo eu sendo uma deles. — Concordou ela enquanto caminhavam. — Olha ali, a casa onde você morava quando criança!
Kazuno observou a grande fachada de sua antiga casa, o portão da frente enferrujado, e o muro quebrado em algumas partes.
–Não está arrombado... Acho que os mendigos não invadiram. – Respondeu ele puxando a corrente presa com um cadeado antigo e igualmente enferrujada. – Vamos entrar.
Os dois pularam o muro e entraram pelo jardim com grama alta e ervas daninhas, chão rachado, fonte quebrada, mas a porta da frente estava só corroída pelo tempo; Kazuno usou suas habilidades de abrir fechadura próprias de um Mercenário e eles adentraram a casa que fedia a ácaro, mofo e umidade devido as chuvas e a madeira envelhecida.
Kazuno explorou bem o local, encontrou a antiga poltrona de seu pai revirada, a lareira com cinzas brancas e visivelmente molhadas, nos tijolos da lareira estava esculpido um grande “T”.
–Pode parecer bobagem depois de tantos anos, mas ainda sinto falta de tudo isso...
–Está tudo bem, Kazuno-kun. – Respondeu Akemi pousando a mão em seu ombro direito e retirando depois de três curtos segundos.
O jovem ruivo subiu as escadas e encontrou os aposentos de seus pais, ele abriu a porta com dificuldade e ela se quebrou assim que fora aberta, a soltou no chão e abriu a janela de vidro empoeirada e rachada por choque térmico. Abriu o guarda roupas de seu pai, vasculhou as roupas velhas e encontrou uma prancheta com números de três casas decimais em linhas verticais, eram cerca de quarenta deles.
–O que é isso? – Perguntou Kazuno olhando para todos aqueles números. – Serão códigos?
–Não... São números de casas, aqui no norte as casas dos nobres são marcadas com três números, tenha como exemplo esta aqui, número 166.
–Não sei... – Então ele viu que haviam duas folhas velhas e na seguinte haviam nomes e no centro da página o desenho de uma cabeça em chamas. – Eu tenho minhas suspeitas... Um amigo do meu pai me falou sobre os cabeças vermelhas quando eu era pequeno, são um exército da minha família... Mas provavelmente estão extintos.
–Negativo, os Takahashi vivem nos subúrbios daqui, frequentam um grande salão subterrâneo para reuniões. O que você iria querer com eles?
–Eu quero tomar o norte, acabar com o sofrimento dessas pessoas... E quem sabe começar um exército e trazer a paz para o mundo.
–Temo que os Takahashi sobreviventes sejam inacessíveis... – Respondeu ela ajustado o elmo em sua cabeça.
–Não, Akemi... Conheço um homem que talvez me ajude.
* * *
Kazuki Takahashi estava almoçando no esconderijo na área sul de Takahama quando bateram na porta, era seu mensageiro.
–Lorde Takahashi, seu filho deseja um encontro.
–Sempre que ele quiser!
–Eu já estou aqui – Disse Kazuno entrando com um sobretudo azul que pertenceu a seu pai e trazendo a prancheta em sua mão direita. – Quero conversar.
–Vejo que encontrou a lista dos Cabeças Vermelhas... – Disse ele exibindo um sorriso satisfeito. – Pode começar.
–Andei pensando na sua proposta, sobre você ser o diretor de Takahama, posso conseguir isso para você num futuro não muito distante, mas você teria que me ajudar numa coisa. É notável o seu acesso à Família Takahashi restante.
–E você deduziu isso só por eu ter um primo meu como mensageiro? — Indagou o pai ironicamente.
–Não, mas pelo simples fato de não ser mais possível encontrar primos pelo mundo afora. — Respondeu Kazuno não muito confortável com o sarcasmo do pai. — Eu quero juntar os Cabeças Vermelhas novamente, tomar o norte da cidade e entregar para quem for digno de dirigi-la com honra.
–”sobre você ser diretor de Takahama”. — Repetiu Kazuki lembrando das palavras do pai. — É uma proposta realmente tentadora, eu aceito. Precisamos planejar, ou você espera que os Cabeças vão simplesmente te ouvir e te seguir até o fim do mundo? A vida real não é como nas canções, principalmente porque nas canções existem elfos e anões, ambos nunca existiram.
–Então o que você sugere?
–Edward é um deles, o meu mensageiro… Para quem você acha que ele entrega as mensagens? — Falou o patriarca coçando a barba rala no queixo. — Enfim, temos uma chance de ele ir no norte e arrumar um momento para você falar durante a reunião da família, há muitos de nós lá, tive uma única oportunidade de entrar no local desde que voltei, é bem pobre, mas dá pra ver que ainda há o fogo da nossa família dentro deles. O único problema vai ser entrar lá…
–Isso não é um problema… Não para mim.
* * *
–Pelos Deuses, esses papéis não acabam nunca! — Exclamou Sora assinando papéis de autorização de missão para os geniores e chuniores. -É um saco ter que ficar carimbando isso, até você entrou no grupo seleto dos três e eu ainda estou fazendo isso…
–Bom, é melhor se acostumar, será isso até você arrumar uma missão, ou os Joniores autorizarem uma para você. — Respondeu Hideki que mordiscava uma maçã sentado na janela da sala revestida de madeira que os dois se encontravam. — Meu trabalho é bem mais trabalhoso, eu tenho que vigiar as crianças para que não caiam em buracos na neve, ser chunior é uma verdadeira bosta, fomos iludidos, Sora-senpai.
–De fato… E Kyou-sensei ainda está longe de retornar com Sasaki-sama, estamos ferrados para arrumar uma missão. — Continuou a reclamar o superior, quando foi interrompido por batidas na porta interna que ficava atrás de sua cadeira, que era onde se encontrava a sala dos Joniores.
–Sora, uma missão para você, acabei de aprovar, já que você está aqui de serviço então vou te explicar. — Disse o jonior chamado Akira Myamoto entregando um envelope assinado por ele mesmo a Sora. — Missão de espionagem, você deverá mover um esquadrão de três, contando com você, até Takahama, onde você encontrará um mensageiro que te levará até a parte norte da cidade, onde está tudo dominado por Samurais há anos, entre no local, observe o quanto for necessário e traga o status do recinto, quantidade de soldados, hora das rondas, quantas por dia e tudo o que é necessário para a invasão de Takahama. Precisamos tomar a frente dessa guerra; arrume o que você precisar, ache seus dois guerreiros, tu partirás hoje ao amanhecer.
* * *
Kazuno estava dentro de um grande salão subterrâneo, as paredes feitas de pedras rústicas lascadas e cinzentas como numa caverna, a iluminação era produzida por uma grande lareira escavada numa parede, as pessoas possuíam características similares, como a coloração vermelha dos cabelos ou preta, pele branca, alguns deles eram orientais, todos estavam sentados de frente para o altar onde se encontrava um homem de cabelos ruivos longos que falava sobre o futuro.
–Chegará o dia em que nós não mais teremos que nos esconder, que comer o resto do que eles produzem em quantidade limitada apenas para as suas bocas gananciosas…. — Continuava o homem.
Akemi estava do seu lado, ela havia retirado a armadura, mas usava um pano para cobrir o nariz e a boca, expondo apenas os olhos orientais; Kazuno já estava de saco cheio, as palavras que saíam da boca do homem soavam como utopias surreais, isso o irritava muito.
–Com licença! — Gritou Kazuno para o homem ruivo do altar. — Eu poderia tomar a palavra por um momento?
–Kazuno, seu pai ainda não conseguiu um espaço pra você, o que diabos está fazendo? — Sussurrou Akemi irritada
–Foda-se. — Respondeu Kazuno afastando as pessoas da frente com sua mão direita e subindo no altar de madeira improvisado.
–Já deve fazer anos que vocês escutam essas merdas desse cara, permitam-me apresentar, sou Kazuno, um Takahashi assim como vocês. — Disse ele abaixando o capuz e mostrando seu rosto parcialmente coberto pelos cabelos ruivos e permitindo a luz da lareira cintilar seus olhos verdes, repletos de fúria e fome de justiça. — Trago-lhes algo concreto, algo pra tirar vocês da caverna, presos à sombras do que a realidade realmente é. Sou filho do verdadeiro patriarca de nossa família, o herdeiro Takahashi… Trago-lhes uma proposta vinda de mim mesmo, mas antes preciso saber quantos de vocês são verdadeiros Cabeças vermelhas capazes de brandir uma espada e decepar membros de Samurais… — Então cerca de quarenta homens e mulheres ruivos levantaram as mãos no meio dos setenta Takahashi presentes na reunião. — Creio que já captaram a mensagem que quero transmitir, quero juntar novamente as forças de nossa família para tomar de volta o norte da cidade que foi tomado de nós de maneira humilhante há anos atrás, está na hora da revanche.
–Tudo bem, supondo que aceitemos sua proposta, como faremos isso? Como mataremos centenas de Samurais? — Perguntou Marco Takahashi, que trajava uma túnica bege por cima do que seja lá que ele esteja vestindo. — Não temos armaduras o suficiente, não temos armas o suficiente, não temos armaduras o suficiente.
–Quantos homens armados e devidamente protegidos temos? — Perguntou Kazuno com receio.
–Vinte homens e mulheres, o resto é de ladinos.
–Então tomaremos a cidade com vinte guerreiros e sejam lá quantos ladinos… quem estiver disposto, dê um passo à frente. — Assim que Kazuno acabou de falar, Marco andou, retirou sua túnica expondo uma armadura de ferro e desembainhou sua espada erguendo-a para o alto.
–Eu te juro minha espada e te aceito como meu comandante para esta jornada. — Quando Marco acabou de falar. mais vinte pessoas repetiram o ato.
–Então marquem o grande “T” azul em suas armaduras, nós atacaremos ao amanhecer.
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