Godan

11 Fogo e Noite


Notas iniciais
Finalmente pessoal, FÉRIAS, agora postarei mais capítulos em um menor espaço de tempo. Finalmente consegui terminar este capítulo nesta noite de Sábado... quase 22:30 da noite kkkk, mas tá aí, boa leitura! Préviazinha de lei: Sora retornou para Ishikawa, Kazuno matou Balder e desmaiou numa floresta após uma flechada na coxa direita e porque usou magia demais.

Kazuno Takahashi abriu os olhos, encarou um teto de madeira, olhou ao redor e percebeu que estava dentro de um quarto simples, uma cômoda, uma janela por onde um feixe de luz do sol entrava, uma cama de solteiro com um colchão relativamente duro.

—Finalmente acordou! – Disse um velho careca com vestes pobres e um aspecto de melancolia. – Antes que pergunte, você está em Takahama, seguro.

—E quando foi que... Quanto tempo eu dormi? – Perguntou Kazuno tentando se levantar e sentindo seu ombro arder, foi então que viu que uma atadura envolvia seu ombro e peito.

—Uma semana inconsciente, sendo alimentado sabe Deus como, bem, seu amigo deixou uma coisa para quando você acordasse.

Então Kazuno lembrou de Sora, será que ele já estava em boa forma para trazê-lo até o sul de Godan? Bem, se trouxe, então não havia muito o que se preocupar. Isso até que o velho entregou uma carta amarrada numa maçã vermelha, não havia sido Sora...

“Kazuno, essa já deve ser a terceira ou quarta vez, seja mais prudente quanto as suas ações, seja lá o que isso desencadear... Vai afetar o mundo todo, me perdoe por não ter te levado mais pro oeste, só me preocupei em tirá-lo de Mijolnir o mais rápido possível”.

—Eu devia um favor a Tsuki, então te hospedei em minha casa, tome cuidado, limpei seus ferimentos, tenho cuidado de você por todos os sete dias, qualquer movimento brusco e seus ferimentos podem se romper novamente.

—Obrigado... – Disse Kazuno sentando e mordendo a maçã. – Ele está aqui?

—Não... Ele me parecia apressado e deu o fora quando terminou de me passar as instruções. – Respondeu o velho sentando num banco ao lado da janela entreaberta.

—Preciso sair daqui, o quanto antes. – Disse Kazuno levantando e mancando até a porta. – Onde estão minhas coisas?

—Aqueles trapos? Me livrei da sua armadura quebrada, guardei sua capa queimada por sugestão de Tsuki e suas espadas.

—O senhor tem roupas disponíveis? – Perguntou Kazuno Se virando.

—Tenho algumas de meu falecido filho, acho que dará em você.

* * *

Kazuno estava vestindo uma camisa de algodão marrom com mangas curtas, sua calça preta ainda suja de sangue e chamuscada, um sapato qualquer e sua capa preta por cima. Ele abaixou o capuz e disse:

—Irei dar uma volta na cidade, preciso me recompor antes de retomar meu rumo.

—Pode usar minha casa como base enquanto estiver aqui na cidade.

—Usarei, obrigado.

O ruivo abriu a porta do quarto e se deparou com uma sala pequena, onde só havia uma lareira e lenhas para cozer. Então ele saiu.

A rua estava movimentada, uma onda de nostalgia bateu, ele esteve aqui quando era criança, sua cidade natal, só não sabia exatamente aonde estava e nem as condições políticas do local, portanto retirou o pingente do clã dos Mercenários e o guardou, assim prosseguiu pela rua, ele viu um grupo de monges meditando numa esquina, pessoas vendendo coisas, era uma cidade bem ativa, foi então que ele decidiu se aproximar de uma praça e sentar em um banco próximo à um grupo de pessoas que conversavam.

—...Sim, Takahama está cada vez mais pobre, os Samurais estão absorvendo nossos recursos e se aproveitando da nossa imparcialidade perante os clãs. – Falou um homem mais velho que estava sentado.

—Qualquer pessoa com um pingo de intelecto ou estudo de história sabe o que nós passamos para sermos uma cidade livre, tenho pena dos jovens que vez ou outra protestam para o domínio total dos Samurais... – Respondeu um homem de meia idade.

—Exatamente! Somos a única cidade totalmente livre, estamos cercados por Magos, Samurais, Goblins e agora os Humanos que tomaram Mijolnir! – Falou uma mulher dando continuidade ao assunto.

—Então eles conseguiram? Derrubaram os Vikings? – Perguntou outra moça mais nova que estava do lado do rapaz de meia idade. – Meu Deus, são todos tão selvagens... Onde está a democracia nisso tudo?

—A democracia é uma farsa, veja nós mesmos, vivemos nossas vidas monótonas cercadas de liberdade enquanto aguardamos os Samurais derem o próximo passo depois de onze anos... – Respondeu o velho sentado. – Ainda me lembro como o sul lutou bravamente para manter a cidade, foi preciso o apoio dos exércitos de famílias nobres como os Takahama e os Takahashi, mas mesmo assim os Samurais tomaram o sul da cidade, é só uma questão de tempo até que ataquem Takahama do norte.

Então Kazuno se situou, é norte de Takahama, a parte livre da cidade, onde viera algumas vezes em sua infância para visitar primos ou tios de sua família que ainda deve estar viva em algum lugar por ali... Vieram um turbilhão de pensamentos, lembranças, seus pais, sua casa, ficava tudo no sul, mas agora não havia como visitar o outro lado da cidade, uma vez que já era tudo dominado por Samurais, ele procurou uma sombra e observou a praça de longe enquanto lembrava do dia em que foi forçado a abandonar aquilo tudo, há onze anos, quando era apenas uma criança.

* * *

Takahama, Godan – 05 de maio de 741 D.C.

Kazuno Takahashi, uma criança de oito anos corre pelos campos verdes do sul da cidade, onde encontra uma macieira. Ele é habilidoso e consegue retirar uma maçã, sem seguida desce e senta na sombra da árvore.

Seu pai permitira que ele fosse brincar um pouco, mas não que fosse tão longe, podia haver estranhos perigosos por ali, mas Kazuno não temia muita coisa, era o tipo de garoto que fazia amizade com qualquer pessoa sem dificuldades, não muito esperto por ser uma criança, mas era puro como a neve.

O céu estava azul e limpo como se o próprio Deus tivesse retirado as nuvens uma a uma, era cedo, poucas pessoas nos campos, um barulho, como pancadas fortes, o que poderia ser aquilo? A curiosidade do pequeno ruivo venceu e ele seguiu o som, e lá se deparou com um cenário um tanto estranho para a cidade: um garoto chutando uma árvore. O garoto estava de costas para Kazuno, sem camisa, pele branca, cabelos negros e assanhados, aspecto sujo.

—Olá? – Falou Kazuno interrompendo o garoto. – O que está fazendo?

O garoto virou e observou Kazuno com seus olhos orientais, exibiu seu rosto sujo e machucado, ele parecia irritado com algo.

—Estou treinando. – Respondeu o garoto com um sotaque pesado oriental. – Quem é você?

—Eu sou Kazuno, Kazuno Takahashi. Você é daqui?

—Não, sou de outro país, vim morar com meus pais aqui em Godan...

—Qual o seu nome?

—Me chamo Kido, Kido Suzuki. – Respondeu o garoto ainda observando Kazuno com uma expressão de raiva.

—Você tem uma cara estranha, Kido... Onde está seu pai?

—Ele está perto daqui, provavelmente me procurando, mas eu não quero que ele me ache, eu prefiro ficar só, que saco, não fique me encarando tanto...

—Me desculpe. – Disse Kazuno olhando para baixo. – Eu preciso ir, meu pai não me deixa ir tão longe... Adeus Kido!

Então o pequeno ruivo correu pelos campos agrícolas, o vento batendo em seu rosto, a ansiedade de rever os pais, chegou na parte urbana do sul de Takahama e após cinco minutos de caminhada encontrou sua casa; um portão de grade enferrujada, um belo jardim, uma porta, dois homens ruivos conversando na frente de uma lareira, um vestia armadura de ferro simples e o outro trajava roupas casuais de algodão.

—Então é isso... – Disse Kazuki Takahashi ajeitando a gola de sua camisa branca de algodão, ele parecia nervoso ou angustiado, talvez com algo que o soldado disse. – Eles virão atrás?

—De acordo com minhas fontes, sim, eles planejam invadir Takahama. – Respondeu o Homem notando o nervosismo de Kazuki.

—É idiotice, será que não dá para discutir isso diplomaticamente?

—A guerra é a diplomacia dos Samurais, meu senhor.

—Isso tornará os negócios uma bagunça, eu não estou totalmente preparado, venho me programando para assumir como diretor de Takahama e não para lutar com minha própria espada... Falando nisso... Onde estão eles? – Perguntou Kazuki encarando o soldado com uma expressão de severidade.

—Em Hertos, presumo, ocupados demais fugindo dos Ericks.

—Fugindo dos Ericks? – Zombou Kazuki. – Eles não são ameaça para ninguém no momento, eu achava que estavam extintos!

—Nunca se sabe... Eu também não sabia que os Takahama ainda estavam vivos.

—É, estão, mas não fuja do assunto, Abraham, pelo visto não temos opção, prepare os cabeças vermelhas, repensarei minha decisão e convencerei Annabel a me apoiar. – Concluiu Kazuki levantando de sua poltrona e guiando Abraham Takahashi até a porta, onde encontrou Kazuno que observava tudo com olhos atentos e uma maçã recém comida em sua mão direita.

—Então esse é o grande herdeiro da casa? – Perguntou Abraham sorrindo para Kazuno.

—Sim, ele é! – Respondeu Kazuki. – Apresente-se, Kazuno.

—Olá, eu sou Kazuno, você é algum primo?

—Sim, sou Abraham, temos muitos primos, talvez de sexto ou sétimo grau, enfim, foi ótimo conhecê-lo, jovem lorde. – Então passou pela porta e seguiu seu caminho.

—Pai... Do que ele me chamou?

—Lorde. – Respondeu Kazuki andando até a poltrona onde estivera sentado nas ultimas horas. – Um dia Kazuno, você herdará tudo o que eu e meus antecessores construímos, inclusive esta casa e o posto de lorde da família.

—O que é um lorde?

—Bem, talvez por sorte ou por mérito nossa família é o que nós adultos chamamos de nobre, e como você sabe, temos muitos primos, por nosso ramo ter sido favorecido em algumas ocasiões, o homem mais velho recebe o título de líder, e como você é nosso filho único...

—Acho que entendi...

Então Kazuno foi andando até seu quarto onde encontrou sua mãe que dobrava algumas roupas recém-lavadas, ela ajeitava seus longos cabelos castanhos e lisos com a mão esquerda enquanto continuava a dobrar com a mão direita, seu belo rosto se virou e seus olhos castanhos se voltaram para Kazuno, assim Annabel Thorpe sorriu.

—Kazuno! – Exclamou ela parando de dobrar.

Assim houve um diálogo monótono que há em todas as famílias entre mãe e filho, e de súbito...

—Annabel! – Entrou Kazuki no quarto segurando uma espada a qual a lâmina estava manchada de sangue. – Os Samurais chegaram! Vista-se e vamos logo! Os empregados cuidarão de Kazuno.

E assim ficou Kazuno, sozinho com empregados não muito confiáveis; passaram-se dois dias... Três... Duas semanas... Os pais dele não voltaram... Os empregados fugiram... Sozinho.

* * *

A porta bateu três vezes e um homem entrou sem esperar resposta do único e jovem morador. Abraham adentrou a sala retirando seu elmo de ferro pintado de vermelho exibindo seus cabelos cor de fogo e seu rosto cansado com uma cicatriz recente acima do olho direito.

Kazuno recuou e segurou um dos espetos da lareira.

—Calma jovem lorde, sou eu, Abraham. – Disse ele sentando-se em uma das duas poltronas de frente a lareira. – Seus pais estão na frente de batalha, Takahama está uma bagunça infernal...

—Eles ao menos estão bem? – Perguntou o garoto ruivo se sentando na poltrona vazia.

—Kazuno, é uma frente de batalha, ninguém está bem numa frente de batalha, só querem acabar logo com isso antes que chegue até aqui. – Respondeu ele retirando o cinto no qual sua espada fica e colocando-a apoiada na parede. – Os Samurais estão vindo pelo sul, provavelmente tem uma base deles em Hertos... Você é criança demais, não entenderá.

—Experimente.

—O líder dos Samurais está puto por que um sobrinho dele sumiu, ele culpa os Humanos e como vingança estão atacando a parte anexada de Takahama, que por sinal é aqui no sul.

—Mas papai dizia que Takahama é livre...

—É... “papais” mentem pra segurança mental de seus filhos. – Retrucou Abraham ignorando o que poderia ser uma possível resposta sentimental negativa vinda do garoto, embora Kazuno não tenha refletido muito sobre.

—Você está vestido com sua armadura, um corte na testa, então você também estava na frente de batalha, estou certo?

—Garoto esperto... – Respondeu Abraham surpreso.

—Então por que está aqui?

—A pedido de seu pai, pois recebemos notícias que as casas desta região estariam sendo evacuadas, então Lorde Kazuki me pediu para verificar se estava tudo bem por aqui, e... vejo que não está, então, tenho como missão assegurar seu bem estar até que a batalha se encerre.

—Então você vai ser tipo uma babá?

—Você decide.

* * *

Passaram-se mais duas semanas, a batalha não cessou. Os soldados Samurais avançaram e Abraham teve que deixar sua missão para cumprir o chamado e proteger o local pelos arredores, haviam emboscadas em todos os lugares, Abraham recebeu ordens para retornar para casa de Kazuki.

Ele corria com seu braço ferido, abriu a porta da casa grande e avistou Kazuno escondido atrás de uma das poltronas.

—Kazuno?! – Chamou ele nervoso. – Sou eu, garoto, Abraham, venha logo!

—O que está acontecendo, tio? – Gritou Kazuno assustado sem se levantar.

—Você precisa sair daqui imediatamente! Os Samurais chegaram! – Berrou ele de volta enquanto corria para o outro lado da sala e puxava o braço de Kazuno com força. – Preste atenção: seus pais morreram e não há tempo para explicações, fuja para o oeste o mais rápido que puder, sempre ao oeste, nunca ao leste! Fique longe de orientais e mantenha seus cabelos ruivos cobertos! – Então ele colocou seu elmo pesado na cabeça de Kazuno e lhe deu um punhal com o cabo feito de prata com um cristal roxo. – Isto era da sua mãe, proteja-se com ele, ignore todos os ensinamentos de seu pai, matar é correto se for para salvar sua própria vida!

—Mas eu não posso fugir assim! Eu não consigo entender... – Disse ele com as mãos bobas sob o punhal enquanto lágrimas brotavam em seus pequenos olhos verdes. – Por que fugir assim? Eu quero meu pai!

—Não há mais um pai para você querer, imbecil! – Disse ele aproximando o rosto do de Kazuno. – Vá logo embora!

Ao terminar a frase, Abraham se levantou e sacou sua espada no momento em que a porta da casa foi arrombada e entraram três Samurais trajando armaduras negras e máscaras com rostos falsos expressando fúria, balançando suas Katanas e berrando palavras indecifráveis aos ouvidos do jovem Kazuno, eles atacaram Abraham, que matou dois deles com sua espada enquanto gritava:

—Não há mais ninguém! SAIAM DA MINHA FRENTE SEUS ORIENTAIS IMUNDOS! – Berrou ele enquanto cortava a cabeça do segundo. Então Kazuno correu para os fundos da casa, correu sem pensar nas consequências, só olhou para trás uma única vez e o que viu o chocou ainda mais, o samurai restante estava cravando sua espada na barriga de Abraham e Kazuno a via brotando pelas costas do mesmo derramando muito sangue.

O Garoto ruivo correu pelas ruas tendo noção de leste e oeste apenas pelo sol que se punha, o capacete de ferro machucava sua cabeça por ser muito maior que ela e quanto mais ele corria, naturalmente ficava mais cansado.

Anoiteceu e ele já estava no final da cidade de Takahama, Kazuno estava com medo e com frio, pois o outono já estava no final e o inverno se aproximava aos poucos, e a pergunta que se passava em sua cabeça era “para o oeste até aonde”?

Então o garoto ruivo viu alguns Samurais passando na rua movimentada em que ele se encontrava, com isso ele tentou se esconder entrando na primeira viela que estava à sua direita, e assim que virou trombou com uma garota que carregava uma sacola com maçãs vermelhas, o tombo fez os dois caírem e as maçãs rolarem junto com o elmo que estivera na cabeça do menino.

—Ai! – Gritou a garota esfregando as costas. – Qual é o seu problema?

—Você que entrou no meu caminho! – Disse Kazuno finalmente olhando para o rosto da garota, era uma linda oriental de cabelos longos e escuros, usava roupas rosa típicas de Kuribayashi, o garoto ruivo tentou continuar respondendo de forma agressiva, mas ele simplesmente não conseguiu, por que será? – Desculpa... Se quiser eu posso te ajudar com as frutas.

* * *

Kazuno Takahashi caminhou alguns metros carregando a sacola para a garota, agora novamente com o elmo de ferro em sua cabeça, até uma casa esquisita com aspectos orientais, a porta era corrediça e feita de uma madeira clara.

—Tire os sapatos antes de entrar. – Disse ela abrindo a porta e retirando suas sapatilhas. – É costume...

Então Kazuno entrou na casa, era praticamente tudo feito de madeira, havia alguns porta-retratos de orientais incrivelmente parecidos com a garota.

—Me desculpe, eu não perguntei o seu nome e nem me apresentei! – Disse ela pegando de volta a sacola e a colocando em cima de uma mesa de madeira da mesma cor clara que a porta de entrada. – Eu sou Akemi... Não posso dizer meu sobrenome...

—Não tem problema, eu também cometi o mesmo erro. – Disse Kazuno sorrindo. – Sou Kazuno e... Também não posso dizer meu sobrenome...

—Vamos, me ajude a lavar as maçãs!

—Seus pais estão em casa? – Perguntou o garoto olhando ao redor.

—Bem... Meu pai está ocupado com algumas coisas na parte nobre da cidade há quase um mês, minha mãe e minha irmã voltaram para Kuribayashi, então não se acanhe.

—Entendo... – Disse Kazuno estranhando a coincidência do tempo em que o pai de Akemi esteve fora com o de seu próprio pai.

—E onde estão os seus? É estranho ver uma criança andando por aí com um capacete de soldado na cabeça, tira isso!

—Eu sou órfão... sempre fui, e o elmo eu roubei. Você é bem fluente em godariano pra uma oriental.

—Eu não sou de Kuribayashi, nasci aqui, é esquisito, mas na verdade sou meio enrolada pra falar gondiriano, papai implica muito comigo por isso, ele quer que o idioma da família venha em primeiro lugar... – Disse ela enquanto descarregava a sacola das maçãs. – Então você é um menino de rua?

—Exatamente...

—Você usa roupas bonitas pra um menino de rua... – Continuou ela olhando para as vestes nobres de Kazuno. – Mas não importa. Quantos anos você tem?

—Tenho oito, e eu acho que já vou andando. – Respondeu ele soltando as maçãs incomodado com o interrogatório sobre sua vida, mesmo sendo uma garota de mais ou menos a sua idade, ele já não confiava em mais ninguém, foi então que lembrou de seus pais e começou a chorar, chorou muito, como resposta Akemi o abraçou forte ignorando o elmo que impedia o abraço completo, mas foi o suficiente para consolar Kazuno nem que seja por um pouco. – Eu estou com fome... – Recomeçou ele enquanto chorava. – Eu quero minha mãe...

—Comprei essas maçãs com o dinheiro que meu pai me deixou... Podemos comê-las, ou onigiri, se você preferir. – Disse ela sem soltar o abraço apertado.

—Akemi... O que é onigiri?

—Bolinho de arroz. – Respondeu ela sorrindo.

* * *

Um tempo passou e os dois estavam sentados numa sala que parecia um local de treinamento enquanto comiam os tais onigiris.

—Então você tem dez anos? – Perguntou Kazuno retoricamente.

—Então você nunca vai tirar o elmo?

—Bem, ele caiu quando eu tombei com você.

—E você acha que eu me preocupei em olhar pra sua cara sem esse elmo? Eu estava mais focada em te xingar.

Assim Kazuno respirou fundo e retirou o elmo exibindo seus cabelos ruivos e embaraçados.

—Seus cabelos são lindos... Digo, a cor, vermelha, cor de fogo!

—É, cor de fogo... – Disse ele pensativo por longos segundos. – Eu menti.

—Como assim?

—Eu não sou órfão desde sempre, meus pais morreram essa semana, talvez até hoje mesmo.

—Achou que eu acreditaria na história de “órfão desde sempre e o elmo eu roubei”?

—Sei lá, não te conheço...

—Isso torna as coisas mais interessantes.

—Ou mais perigosas. – Respondeu ele encarando ela curioso.

—Não encare por esse lado, se você parar pra pensar já somos amigos, você chorou no meu ombro! – Disse ela esboçando uma expressão de satisfação consigo mesma. – E é mais interessante porque você vai me contar histórias que eu ainda não ouvi, e eu o mesmo para você, estou cansada de ler as mesmas histórias sobre dragões do meu...

—Do seu...

—Eu não posso dizer, poxa!

—E a história sobre compartilhar histórias que ainda não ouvimos?

—Do meu irmão, Kazuno, histórias de dragão do meu irmão. – Disse ela virando para frente e encarando o vazio. – Sua vez: Qual o seu sobrenome e por que não pode dizê-lo?

—Takahashi... Um amigo do meu pai disse para não dizê-lo a ninguém. – Disse ele omitindo a maioria das informações. – O que houve com o seu irmão?

—Ele fugiu de casa há seis meses, meu pai tá irritado e isso é parte das coisas que ele está resolvendo na área nobre da cidade. – Respondeu ela sem se virar. – Eu acho que não precisamos mais fazer perguntas um para o outro, né?

—Acho que já entendi tudo... Seu sobrenome é Suzuki, não é?

—Exatamente,

—E você não podia me dizer porque estava com medo das pessoas da minha família matarem você.

—E você não podia dizer o seu porque tem medo da minha família fazer o mesmo com você... Parece coisa do destino... Posso imaginar o que houve com seus pais...

—Eu não sei ao certo, nem sei se foram Samurais mesmo que mataram eles, eu só queria... Droga... É tão injusto... Eu só tenho oito anos e já nem tenho mais uma mãe que me abrace ou um pai que me explique o mundo, eu tenho muita vontade de chorar, mas eu também tenho muita raiva, uma raiva enorme...

—Vingança... É o que meu pai faria, ele se vingaria. – Disse ela olhando no fundo dos olhos verdes de Kazuno.

—Akemi... O que é vingança?

—Você nunca ouviu falar sobre vingança? – Respondeu ela surpresa ao receber a notícia. – Bem, eu não sei muito, mas meu pai falou muito sobre isso aqui em casa nas últimas semanas... Acho que é quando te fazem algo e você se irrita muito e faz o mesmo com quem te fez...

—Você quer dizer... Matar quem matou meus pais?

—É... Talvez isso seja vingança... Descontar sua raiva em quem realmente merece.

—Eu nunca irei encontrá-los. – Respondeu Kazuno enterrando a cabeça nas mãos.

—Você não, mas ouvi falar de umas pessoas que poderiam... Meu pai disse que se chamam Mercenários, um deles esteve aqui alguns dias antes de meu pai partir, acho que o nome dele era William.

—Então se eu encontrar esse William eu poderei ter minha vingança... Você sabe onde ele está?

—Eu ouvi algo sobre ele estar indo para o oeste.

—Então é pra lá que eu vou. – Concluiu ele levantando derrubando farelos de arroz no chão.

—Não, não, você não vai a lugar nenhum hoje, talvez amanhã ou depois, mas você precisa se preparar, Kazuno!

—Me preparar como?

—Primeiro tenha uma boa noite de sono, depois conversaremos sobre isso.

—Posso dormir aqui?

—Claro!

* * *

Passaram-se dois dias, os dias mais calmos e felizes que Kazuno teve desde que seus pais saíram, Akemi lhe ensinou coisas básicas sobre a vida que uma criança só saberia se vivesse nas condições que os dois atualmente vivem, eles criaram um laço que Kazuno jamais havia criado antes com ninguém, seja um adulto ou outra criança, exceto é claro por seus pais, Akemi o ensinou até técnicas básicas com Katanas, sim, Akemi luta Kendô;

Então finalmente havia chegado a hora de partir, Kazuno procurará o Mercenário William vagando para o oeste como mandara o amigo de seu pai, assim Akemi abriu a porta corrediça e Kazuno calçou os pés.

—Bem... Acho que eu... Obrigado, Akemi... Se não fosse por você eu não sei onde estaria agora. – Disse ele quando Akemi correu e o abraçou com força como ela fizera dois dias antes em quanto ele chorava.

—Não diga mais nada... – Disse ela sem o soltar. – Foi muito bom ter você aqui em casa, melhor ainda ter te ajudado, se um dia quiser voltar será sempre bem vindo.

Então ela o soltou e pegou uma bolsa de ombro que estava na parte de dentro da casa e o entregou.

—Tem algumas coisas úteis ai dentro, tipo onigiri. – Concluiu ela sorrindo. – Adeus, Kazuno Takahashi dos cabelos de fogo.

—Adeus, Akemi Suzuki dos cabelos da noite. – Então pôs o elmo folgado de Abraham e seguiu para o oeste.

Notas finais
E foi isso! Espero que tenham gostado do capítulo e da nova personagem! Foi cansativo passar da cena do Abraham para a parte da Akemi, muito complicado... Mas eu consegui! O capítulo 12 será a continuação desse “Gaiden” do Kazuno.