God of Mischief | Loki
3 Capítulo 3: Loki
Notas iniciais
Duas semanas depois eu estava saindo do treino. Eram umas quatro e meia da tarde. Eu estava com os cabelos presos em uma trança embutida e carregava no ombro meu arco e minhas flechas fechados em uma mochila preta, vestia o uniforme de treino com o logo da Stark Industries. O dia estava horrivelmente quente.
Eu estava na expectativa de comprar uma casquinha no Mcdonald’s no caminho de casa. Mas assim que me despedi dos outros atletas e passei pela porta giratória no saguão fui surpreendida pelo herói americano. Ele estava completamente constrangido enquanto uma menina baixinha de uns 13 anos tirava fotos dele, sem nem ao menos disfarçar. Eu não a culpava, ele era realmente bonito. Ela e as amiguinhas riam histéricas. Eu ri também. Ele se desencostou rapidamente da parede e veio ao meu encontro sorrindo.
— Bruce esqueceu de me ensinar. – Ele disse timidamente. As menininhas me fuzilavam com os olhos. Eu fiquei em dúvida por alguns segundos, até entender que ele falava do celular. – A senhorita Potts me disse que eu podia te achar aqui por esse horário... – Steve parecia preocupado com o que eu pensaria dele estar ali me esperando. Eu achava super bonitinho.
— Eu estava indo comprar uma casquinha no Mcdonald’s, quer ir comigo? – Perguntei num tom animado. Ele pareceu relaxar e confirmou.
Gentil como um homem das antigas, ele se ofereceu para carregar minha mochila com o arco e aljava de flechas. Ela tinha um zíper que estava fechado escondendo o conteúdo. Seria estranho sair com flechas nas mãos.
Caminhamos duas quadras enquanto reclamávamos do calor e eu ensinava a ele como usar um celular. Ele entendeu rápido, em 15 minutos já conseguia mandar mensagens. Talvez facilidade de aprendizado tivesse relação com o soro do super soldado ou algo assim... mas ele certamente não aprendia como uma pessoa de 80 e tantos anos. Que coisa confusa.
Entramos na loja, compramos nossas casquinhas que ele fez questão de pagar e nos sentamos em uma mesinha. Silêncio. Eu não sabia o que dizer. ‘’Aquele uniforme fica bem em você’’ não parecia apropriado. Eu não sabia o quanto ele estava desatualizado com relação ao mundo moderno, então falar sobre filmes, bandas e coisas do tipo também não parecia certo. Meus olhos pousaram na televisão que estava a um canto. Ela reexibia cenas da batalha de New York sendo pontuadas por um apresentador careca que parecia estar adorando comentar os golpes, como se narrasse um MMA. E por fim, Loki apareceu sendo conduzido pelo irmão, Thor. Ele estava com uma mordaça metálica e algemas. Tinha um olhar desafiador e olhava para o outro deus de cabeça erguida. Não havia arrependimento. Lindo, de uma maneira ameaçadora.
— Eu ainda acho que ele deveria ter respondido por seus crimes aqui, nos Estados Unidos. – Steve falou num tom rancoroso. Repentinamente me lembrei que ele estava ali. Concordei com um aceno.
— E para onde ele foi levado? — Perguntei tentando parecer casual. Na verdade a curiosidade estava me matando.
— Asgard. – Ele disse aborrecido.
— O que é Asgard? – perguntei. Ele sorriu, aparentemente satisfeito por poder me dizer algo que eu não sabia.
— Asgard é o mundo de onde Thor e Loki vieram. Onde os deuses habitam. Como se fosse outra dimensão. Eles tem suas próprias leis e seus próprios governantes e pouco em comum com a Terra. Thor poderia te explicar isso muito melhor, mas em resumo é isso. – Explicou ele feliz. Outro mundo? Caramba... Isso parecia meio longe. Apenas parecia. – Liana? Você está me escutando?
— Desculpe. Eu me distrai totalmente. Acho que é o calor. – Falei soando como uma boba. Ele havia começado outro assunto qualquer e eu não ouvira. Ele franziu as sobrancelhas parecendo preocupado.
— Vou te levar para casa. Ainda está morando com Tony?
— Não. — Eu respondi, me levantando e o seguindo pela porta. – Me mudei no início da semana. Estou morando naquele prédio azul ali. – falei apontando por sobre os outros edifícios. Era um dos mais altos da cidade. Por mais que eu tivesse mostrado apartamentos simples a Pepper e ela gostasse, Tony resolveu que eu deveria morar em uma cobertura no centro. Típico. Não era muito longe do meu prédio antigo, era ainda mais perto do centro de treinamento e não era longe da Broadway também. Eu adoro a Broadway. Passamos por algumas lojas famosas no caminho: Givenchy, Channel, Apple. Eu contei a ele um pouco sobre as lojas e como haviam sido fundadas. Ele ficou admirado com Coco Channel e Steve Jobs. Eu brinquei que devia ser mais por terem o mesmo nome do que qualquer outra coisa. Quase chegando a portaria do meu prédio passamos por um cartaz de O Rei Leão da Broadway.
— Eu gostaria de te levar. – Steve falou como um pedido. Eu simplesmente amo a Broadway e ainda não tinha visto O Rei Leão. Eram 5:30 e o espetáculo começaria as 8:00.
— Te espero 7:30 aqui. – Eu falei com um sorriso. Não tínhamos muito assunto, mas acho que eu podia ajudar ele nisso. Ele concordou sorridente, devolveu-me a mochila, nos despedimos e eu subi.
Ao entrar no apartamento Jarvis me cumprimentou. Tomei um banho rápido e passei a próxima hora escolhendo roupas. Queria estar bonita, mas não exagerada. Escolhi um vestido verde um pouco acima dos joelhos, com decote em V e costas de fora até a altura do sutiã. Ele era elegante e casual. Perfeito. Agora eu teria que esperar.
*Asgard*
Ele estava preso. Enclausurado. Tudo por que havia feito o que os deuses fracos não haviam sequer tentado. Dominar, de verdade, outra raça. Uma raça fraca e inferior, desorganizada e repleta de ambição desgovernada. Ele teria sido um rei benevolente, os humanos viveriam sob seu julgo e seriam felizes assim. Pelo menos era o que ele pensava.
Sua mãe não concordava, mas lhe doía ver o filho que tanto amava ali, fechado, relegado no esquecimento. Ela lhe enviava livros, roupas, pães e doces que ela mesma fazia. Sua vida havia se resumido em tentar tornar a do filho criminoso, menos sofrida. Mas mesmo suplicando ao marido não tinha permissão para vê-lo pessoalmente, apenas projeções. A punição não era apenas para ele. Ela se sentia punida junto, sofria com seu menino. Aquela noite jantariam juntos. Ou tão juntos quantos cinco andares permitiriam.
— Boa noite, querido. – ela o cumprimentou quando sua imagem surgiu. Ele estava sentado na beirada da janela da cela. Ergueu os olhos para a mãe enquanto fechava o livro. Levantou-se e sentou à mesinha de canto junto com ela. Ele a adorava. E era recíproco. A cumprimentou com um sorriso forçado, repleto da tristeza que sentia.
— Oi mãe. – Disse num tom apático pegando uma garfada de faisão com ervas. O jantar já estava frio, mas ela não precisava saber. Ele tinha esperado que ela chegasse. Assim que colocou na boca soube que tinha sido ela a preparar. Era o favorito dele.
— Como foi seu dia? – A pergunta parecia ridícula aos ouvidos de Loki. Como poderia ter sido afinal? Sentado na poltrona vermelha, sentado na beirada da janela, deitado na cama, comido algo. Ele não queria ver a expressão dos olhos dela. Não queria ver a tristeza que ele havia causado. Ela era o único momento de arrependimento dele.
— Foi bom. Eu gostei do livro que você mandou. Amanhã vou precisar da continuação. Você mandaria para mim? – Perguntou encarando a comida. De todos no universo, ela era a única que entendia como ele se sentia. Se ele olhasse aqueles olhos, ela veria sua alma e seu futuro. Esse era o poder de Frigga. E a tristeza nos olhos dela lhe diziam que o que quer que ela pudesse ver não era nada bom.
— Claro, amanhã cedo vai estar aqui com você. Você tem comido direito? – Ela perguntou, olhando para ele atentamente. Estava usando apenas uma calça preta fina e uma camisa de algodão verde escura que revelava que ele havia emagrecido nas últimas semanas. Ele confirmou com um breve aceno de cabeça, enchendo a boca com sorgo e olhando para Frigga que riu diante das bochechas estufadas dele. A risada parou tão abruptamente quanto começou. Eles terminaram a refeição em silêncio.
Os pratos dele sumiram sozinhos. Ambos continuavam sentados sem nada dizerem. Ele queria ficar sozinho. E a cada vez que ela o deixava, ele ansiava desesperadamente pela companhia dela de novo.
— E o seu dia mãe? Como foi? – Perguntou numa voz animada que soava falsa. Ele não usava ilusões com ela, poderia ter fingido estar em sua melhor forma, alegre e tranquilo, mas ele não queria isso. Mesmo se tentasse as ilusões não funcionariam. De qualquer maneira ele não se importava. Ela o entendia.
— Aquelas coisas de rainha. — Ela respondeu gentil. — Eu pintei, bordei, toquei piano, cozinhei para você. – Ela concluiu esticando a mão em direção à dele, e parando no último segundo. Se tocassem um ao outro, a projeção seria desfeita. – Uma vida muito chata. – Frigga disse simpática. Ele sorriu com o canto da boca. Um barulho abafado aos ouvidos de Loki soou no lado dela da projeção, a fazendo desviar os olhos na direção da parede. Ela concordou com a cabeça e voltou os olhos com tristeza para ele, apertando os lábios. Estava na hora de ir. Ele levantou da mesa sem olhar para a mulher.
— Boa noite, mãe. – Disse pegando o livro que havia largado na cama e se sentando escorado na parede.
— Boa noite, meu anjo. – E ela desapareceu.
A cada vez que ela se ia, ele tentava memorizar sua aparência. Não sabia por quanto tempo Odin permitiria que ela o ficasse mimando daquele jeito. Ela era a mãe mais fantástica de todos os Nove Reinos, disso ele tinha certeza. Os cabelos loiros, compridos e sedosos sempre presos em complexos penteados que ela se divertia em inventar, o sorriso sempre fácil, a gentileza. Ela sempre o havia aceitado com todos os defeitos. Não era como o pai, Odin. Pai. Ele nem era mesmo seu pai. Sempre havia preferido Thor e sempre deixara isso claro. Nada do que ele fizesse estava bom o bastante. Mas para a mãe, ele era motivo de orgulho não importava o que quer que fosse.
Ele sentiu uma onda de fúria a caminho. Loki era um homem de rompantes. Mudava de opinião e de sentimentos como o vento mudava de direção. A isso ele devia sua alcunha de traiçoeiro. A mãe sempre havia preferido dizer que era travesso. Mulher tola. Mulher idiota. Ficava ali, com ele tentando amenizar aquilo que não podia ser mudado. Se preocupando em cozinhar, costurar e agradar a ele. Se não fosse tão falho nada daquilo estaria acontecendo. Atirou o livro na parede do outro lado da cela. Apagou as luzes e deitou sem trocar de roupas. Tentaria dormir para mais um dia igual. Mal sabia que não ficaria nem vinte minutos deitado.
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