God of Mischief | Loki
11 Capítulo 10: Amizade e Dor
Notas iniciais
No dia anterior nós quatro passamos a manhã e a tarde na praia, Natasha preparou paella para o almoço e a noite encomendamos uma pizza.
Agora que eu tinha conseguido me livrar da acusação de estar acobertando um criminoso de guerra e ninguém estava escondendo nada de mim, começava a apreciar muito mais a companhia deles. Natasha era uma mulher séria e madura, enquanto Clint era bem humorado e simpático. E eu suspeitava que eles tentavam não ser um casal. Aquela coisa de colegas de trabalho e relacionamento profissional. Bom, não estava dando muito certo. Bastava ver como eles se olhavam.
Voltaríamos a Nova York hoje à noite, então estávamos aproveitando as últimas horas de folga. Natasha estava brincando de ensinar russo a Steve. Achamos alguma coisa em que ele era horrível. Ela parecia estar achando muito divertido. Eu peguei o presentinho de Tony e improvisei um local para treinar. Ali eu deveria relaxar, então a casa não tinha esse espaço. Amarrei uma almofada no gancho que devia prender uma rede, e atirava contra ela. Estava ficando em farrapos.
O mais legal do conjunto era que as flechas quando atingiam o alvo, se recebessem o comando, se desmontavam em pedaços bem pequenos e voltavam para a aljava se remontando, o que me impediria de ficar sem flechas. Eu precisava apenas desejar os projéteis de volta e assim elas faziam. Devia ter algo a ver com as pulseiras e impulsos elétricos. Eu não entendo muito do trabalho do Tony, mas era legal.
Clint estava me observando atirar e às vezes fazia uma sugestão ou outra. Ele inclusive me deu dicas de como atirar em movimento, coisa que eu nunca tinha tentado. O seu alvo em movimento é uma coisa, mas você em movimento é completamente diferente. Era engraçado ele me fazendo correr pelo jardim de um ponto a outro e atirar durante o trajeto. Quase acertei uma flecha nele tentando essa brincadeira, minha sorte foi o comando para que ela voltasse. Depois de algumas tentativas eu tinha pegado o jeito. Ele estava adorando bancar o professor e eu adorando aprender. A técnica dele era própria para um espião, para ação. Eu estava habituada a competições cheias de regras. Depois ele me ensinou como disparar com muito vento, baixa luminosidade, chuva. Na verdade não tínhamos como praticar isso, então ele me fez repetir a teoria até que eu a tivesse decorado, o que de acordo com ele era o suficiente. Ao longo do dia ele às vezes me perguntava alguma delas de supetão para ter certeza que eu tinha realmente decorado.
— Sabe você bem que poderia entrar para S.H.I.E.L.D. – Falou em uma dessas vezes. Steve que havia desistido das aulas de russo e agora cozinhava algo com um cheiro muito bom ouviu e gritou lá da cozinha.
— Nem pensar! Pode esquecer! – Eu e Clint rimos. Natasha piscou para mim do sofá.
— Se quiser uma indicação pode pedir. – Sussurrou simpática piscando um olho. Sorri de volta, enquanto saia da sala. Vi pelo canto do olho quando Clint sentou ao lado dela no sofá e os dois trocaram um sorrisinho.
Sentei numa poltrona de vime na varanda, o vento embalando meus cabelos. Puxei meu joelho esquerdo até a altura do peito e o segurei com uma das mãos, apoiando o queixo nele. Suspirei, olhando o mar adiante. Eu precisava de um pouco de silêncio, não estava acostumada a ter muitas pessoas por perto.
A verdade é que eu estava ansiosa sem nenhum motivo aparente. Queria ir embora para casa, queria treinar, queria dormir, queria comer, tudo ao mesmo tempo. Mas no fundo da minha mente eu ficava repassando algumas palavras quase como uma oração. ‘’Pelos jardins, passando o lago, depois das peras-melancias, descendo as escadas. Voltar pelo corredor, cuidado com a porta prateada, não toque em nada. Confiança’’.
Me assustei quando ouvi a voz de Natasha me chamando para almoçar. Steve me impressionou, não bastava ser lindo e gentil, era prendado também. Strogonoff de frango, arroz e salada. ‘‘A única que não sabe cozinhar’’. Decidi que quando chegasse em casa pararia de ver tantos programas de decoração de bolos e aprenderia a fazer comida de verdade.
Almoçamos conversando sobre várias coisas, Natasha nos contou sobre algumas de suas missões, Clint explicou como havia aprendido a atirar aos seis anos indo caçar com o pai, coisa que nem a agente parecia saber e Steve nos contou como não foi aceito no alistamento de uma região e acabou indo para outra tentando servir no exército. Eu não tinha nada no meu passado que quisesse dividir com eles. Nada era bonito ou engraçadinho para uma conversa descontraída como aquela. Acabei contando coisas triviais sobre Tony e Pepper, como o coelho gigante que ela tinha ganhado uns dias atrás no natal antes da casa ir pelos ares. Ou a vez que Pepper adotou Jinggles para mim, porque achava que eu precisava de companhia e Tony pensou que fosse um rato. Ele era muito pequeno, eu defendi.
Foi um almoço muito divertido e eu me ofereci para lavar a louça, enquanto os outros comiam alguns cupcakes que fiz para sobremesa. Não demorou muito eu conseguia ouvir as risadas de Clint e Natasha conversando próximos a piscina. Steve veio até a cozinha me ajudar, mas eu já estava terminando quando ele chegou. O soldado se sentou num banquinho e ficou me esperando. Eu me tornei robótica em segundos, guardando a louça como se tivesse sido programada para isso. Eu estava descalça e tinha casquinhas nas solas dos pés e nas laterais onde tinha me cortado com o vidro.
— Como você fez isso? – Ele perguntou olhando. Eu não tinha contado a ninguém sobre aquela noite e não pretendia fazer isso agora.
— Pisei em vidro quebrado. – Não era mentira, mas se ele analisasse a quantidade de marcas perceberia que eram muitas para ter sido por acidente. Ele suspirou e sorriu, se levantando. Guardei meu último prato e fechei a porta do armário. Eu sabia que ele estaria parado atrás de mim, mordi a boca e fechei os olhos com força antes de me virar. Quando me virei, tentei olhar para ele com o rosto meio abaixado. Pelo menos agora ele vestia uma camiseta branca justa. Steve levou a mão ao meu queixo e o ergueu me fazendo olhar para os olhos muito azuis dele. Ele era um homem muito bonito mesmo.
— Você não se cuida não é? – Falou num tom baixo. Eu sorri meio sem jeito, mas não respondi. Então ele puxou meu rosto de encontro ao dele e me beijou, gentil e de um jeito apaixonado e irresistível, descendo as mãos para minha cintura. Ele ainda tinha o cheiro daquela colônia que eu tanto gostava. Ainda me deu dois ou três pequenos beijos antes de afastar a boca da minha, mas mantendo nossas testas encostadas. Ele sorriu e eu sorri de volta. Ouvimos passos vindos pelo corredor e nos afastamos. Steve deu uma risada forçada, como se eu tivesse dito algo engraçado antes disso, para disfarçar a situação.
Natasha entrou na cozinha e me pediu ajuda com o telefone. Aparentemente Jarvis estava se recusando a completar uma ligação sem a minha autorização, para pedir que mandassem um helicóptero nos buscar. Eu sorri para ele e a segui para fora da cozinha.
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Loki estava deitado na cama, atirando um copo de madeira para cima. Ele era o único prisioneiro sozinho e exceto pela mãe não tinha com quem conversar e, no entanto o numero de prisioneiros havia dobrado nos últimos quatro dias que haviam passado.
Tinha escutado eles comentando entre si que o todo poderoso deus do trovão estava tentando recuperar o controle nos reinos que haviam se rebelado e por isso estavam recebendo rebeldes violentos nas prisões. Se rebelado porque Loki tinha sido responsável pela destruição da Bifrost e eles começaram a acreditar que Asgard estava caindo. Podia apenas imaginar o caos em que tinha posto os Nove Reinos. Sorriu com um tipo cruel de satisfação. Ainda mais imaginando o que estaria acontecendo na superfície, depois de uma fuga em massa que havia ocorrido àquela manhã.
Levantou-se e pegou um dos livros empilhados em um canto. Já devia tê-lo lido umas três vezes, mas o faria de novo. Sentou-se em uma poltrona que havia puxado para próximo da janela mais cedo, onde ao menos podia observar os guardas trocando de turnos e conseguia ver pés passando apressados no corredor alto acima das escadas da prisão, enquanto tentavam restaurar a ordem. Leu durante cerca de meia hora mesmo sem muita concentração.
Sentia o estômago queimando com o remorso. Sua mãe havia estado ali no dia anterior e o encontrara com péssimo humor. Haviam discutido, algo muito, muito raro, e ele dissera tantas barbaridades e absurdos que apenas a lembrança o fazia se sentir a pior coisa que já havia existido.
‘‘Ele não é meu pai!’’, ele havia gritado contra ela, quando Frigga se referira a Odin dessa forma e ela perguntara com a voz ferida se, então, ela não seria sua mãe. Loki havia feito a bobagem de responder que ela não o era. A deusa havia lhe dado um olhar muito ferido com aquela resposta, mas em seguida havia oferecido um sorriso compreensivo, apesar dos olhos marejados. Aquele gesto de relevar as asneiras que ele era capaz de dizer apenas para ferir e magoar significava mais para ele do que ela seria capaz de imaginar. A verdade é que Loki havia contido suas emoções, mas fora incapaz de conter o impulso de tentar toca-la, desfazendo a projeção. A mãe não havia retornado depois disso, mas assim que o fizesse ele se obrigaria a largar o orgulho de lado por cinco minutos e lhe pediria desculpas por seu comportamento. Balançou a cabeça, angustiado com a demora dela e tentou se concentrar novamente no livro. Devia estar ansioso também porque hoje ela iria o soltar outra vez. E com o caos da fuga e as festividades que deviam estar acontecendo na cidade talvez não tivesse outra oportunidade tão boa.
Cerca de uma hora depois um guarda veio até sua cela e o chamou.
— Alteza. – Ele ainda recebia o tratamento de um príncipe asgardiano, mesmo preso. Ergueu os olhos do livro com interesse, um guarda se dirigir a ele era raridade. – Fui enviado para lhe informar sobre o falecimento de Sua Majestade a Rainha, morta hoje em batalha. – Disse num tom seco.
Loki sentiu bile subir até sua garganta, e confirmou ter entendido com um breve aceno. Assim que o guarda se retirou, sentiu-se fraco como se houvessem lhe arrancado ambas as pernas, mas ainda assim levantou-se, largando o livro no apoio para pés em sua frente. Deu alguns breves passos inseguros pela cela e sentiu uma onda de fúria tão grande que não poderia fazer nada a não ser permitir que saísse. Os móveis voaram contra as paredes.
Alguns presos que haviam restado gritaram algo para ele, que estava cego e surdo a qualquer coisa ao redor. Fechou-se em uma ilusão e permitiu que o demônio que sentia gritar em seu interior surgisse.
Ele gritava, chorava e quebrava tudo ao seu alcance. Arranhava e socava as paredes, atirava a mobília contra a janela, quebrou vidros, rasgou livros, cego que estava pelo próprio luto. Não. Não. Não. Não. Ela não podia estar simplesmente morta, haviam se falado na manhã anterior e ela estava ali para ele, como sempre estaria. Não poderia ter se ido. Simplesmente o deixado sozinho. Atirou uma mesa contra a parede e observou suas pernas se partirem, da forma como gostaria de fazer com Odin e Thor. Como haviam sido tão incapazes de defendê-la?! Como haviam permitido aquilo?!
Ele caminhou descalço sobre o vidro, cortando um dos pés, mas foi incapaz de sentir. Agarrou o cobertor e o fez em farrapos soltando um urro com a dor que sentia. Gritava tanto que acabaria rouco, mas não se importava. Nunca desejou tanto a própria liberdade. Para matar Odin, Thor e quem quer que tivesse feito aquilo com sua mãe. Lembrou-se então que o preso que havia iniciado a fuga havia sido orientado por ele mesmo sobre qual o melhor caminho a seguir. Se tivesse sido ele, Loki desejaria a própria morte.
Quando destruiu tudo que havia ao seu redor encostou-se e deslizou para o chão puxando os cabelos com as mãos. Se não tivesse feito tantas escolhas erradas, poderia ter estado lá para protegê-la. Ela seria sua prioridade durante um ataque. Ela estaria viva.
Não podia estar morta. Não podia. Enterrou o rosto nas mãos e sentiu as lágrimas quentes escorrerem. Ela o tinha abandonado como todos os outros. O tinha deixado completa e irreversivelmente sozinho. Se ela havia decidido lhe dar algumas horas de liberdade por medo que enlouquecesse mesmo a tendo ao seu lado, agora ele tinha certeza que o que lhe restava de sanidade iria embora. Junto com ela. Gritou uma última vez e calou-se, derrotado, sob o peso dos próprios sentimentos.
Desejava estar morto. Desejava vingança.
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