Lawrence, Kansas. 1997.


Jake conseguia ser extremamente irritante quando queria, até seu sorrisinho idiota me tirava do sério. Era carregado de travessura e de avisos de irmão mais velho que dizia “eu te disse”. Entretanto, não podia culpa-lo por estar certo. Meu irmão estava com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. O cachecol escondia seus lábios, mas eu sabia que ele estava sorrindo, porque suas bochechas repuxavam sob o tecido de forma que entregavam o riso contido.

– Eu não conseguiria prever que o Simon é um babaca! – Fiz minha defesa, bufando.

Eu era uma adolescente idiota. Assim como Jake, já que éramos gêmeos. Mas ele parecia ter muito mais idade, era mais experiente. Ao contrário de mim, Jake saía de casa mais vezes para viver sua própria vida. Já eu, era só uma esquisitona que ia de casa para a escola e da escola para casa. Além disso, eu tinha uma única amiga, a Luoyna, que era tão esquisita quanto eu.

Um dia, eu decidi me aventurar pelas “empreitadas” da vida e acabei me apaixonando. Não saía muito, não tinha muitos amigos como Jake, mas o que eu fiz foi a decisão mais burra que eu poderia ter tomado: quando Luoyna disse “você deveria reparar mais nas pessoas ao seu redor”, eu instintivamente aderi ao seu conselho. Reparei no cara mais bonito que meus olhos já encontraram naquele fim de mundo de escola, bem no ano em que Jake e Verity começaram a namorar. Foi a empreitada mais radical e cheia de adrenalina que eu tinha colocado no currículo até então.

Simon era amigo do meu irmão. Ele sempre almoçava com Jake e os outros caras do time de futebol. Dentro de campo, os dois eram como almas gêmeas: passavam a bola um para o outro como quem troca alianças, marcavam jogadas incríveis que dedicavam a eles como uma serenata e, acima de tudo, deixavam visível a paixão presente no modo como comemoravam as vitórias iminentes. Eu até sentia inveja dessa sinergia, pois o campo de futebol americano era o único lugar onde eu não era a gêmea de Jake e sim, outra pessoa. Apesar da minha descrição exagerada de sua dinâmica em campo, Jake e Simon eram grandes amigos.

Depois de acatar o conselho de Luoyna, para meu infortúnio, Simon me olhou de volta e sorriu. Desde então, nós nos aproximamos de forma gradual, sem pressa. Ele era gentil, me respeitava e elogiava minhas qualidades. Contrariando os clichês de filmes de romance, a péssima em matemática era eu. Simon, em seu tempo livre na escola, me ajudava com os deveres de casa na biblioteca. O garoto era extremamente inteligente. Todavia, quando Jake descobriu que estávamos passando mais tempo juntos do que deveríamos, e que eu estava tão caidinha por Simon quanto ele estava por mim, me deu o maior sermão que eu já levei na vida.

Jake parecia até furioso enquanto andava de um lado para o outro no quarto, como um pai preocupado. Ele adorava seu amigo, mas sabia do histórico de Simon. Meu irmão me avisou sobre a libertinagem do seu companheiro de campo, disse que Simon não era a tal da flor que se cheire, mesmo que me tratasse bem. Fiz meu drama sobre avisos, mas fui eu quem escolhi ignorar todos eles. Jake me mandou ficar longe do seu amigo pelo meu próprio bem. O que eu fiz em seguida foi óbvio: Não fui a gêmea dele mais uma vez quando decidi excluir seus conselhos e dar o benefício da dúvida a Simon.

Então, estávamos ali, pós baile de formatura, sentados nos balanços pendurados na maior árvore do campus e nos balançando calmamente para frente e para trás. Nós observávamos as pessoas indo para suas casas, sentindo o frio nos açoitando como se portasse um chicote. Verity ainda não estava presente, pois fazia parte da equipe de organização do evento, então era somente eu e meu irmão.

Eu suspirava vendo Simon deixar o prédio de mãos dadas com Ophelia, a patricinha popular mais sem sal que qualquer escola do ensino médio poderia ter o desprazer de matricular. Simon me enganou todas as vezes que olhava em meus olhos e dizia que gostava de mim, e mentiu em muitas ocasiões, como quando escondeu que trocava cartas de amor com Ophelia. Sequer iniciamos um relacionamento, mas a irresponsabilidade afetiva já tinha passado bem longe desde o começo.

– Eu avisei a você, Cassie. – Falou, tão sereno quanto a noite.

Suspirei pesadamente. Ele estava certo.

– Mas você poderia ter me ensinado. – Insisti, intercalando o olhar entre meu irmão e a cena tenebrosa de Simon guiando loira oxigenada para a limousine que os esperavam. – Você e Verity se amam de verdade, então...

Jake ergueu a sobrancelha, rindo.

– Então? – Incentivou ele.

Reprimi os lábios antes de continuar. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nunca tinha gostado de ninguém antes de Simon e nem sabia como lidar com um coração partido. Minha mãe sempre disse que eu era durona e agradeci por isso, porque não chorei quando a decepção me atingiu em cheio.

– Então como eu vou saber quando alguém verdadeiramente se apaixonar por mim? – Perguntei, na lata e sem escolher muito as palavras. Eu me sentia uma boba. – Como vou saber que não estou sendo enganada?

Jake pareceu surpreso com a minha pergunta e passou alguns minutos em silêncio, desviando o olhar e encarando os próprios sapatos. Parecia ter sido pego de surpresa pela primeira vez, quando ele era do tipo que sempre tinha resposta para tudo.

– O amor genuíno se enxerga no olhar. – Começou ele. – As pupilas dilatam, os olhos brilham. E então, você pode ouvir o pulsar do coração do outro a quilômetros de distância. É rápido e violento, enfurecido como se quisesse sair do peito.

Amar parecia ser algo visceral para Jake.

– O amor vai te fazer lutar pelo que é certo. É assim que você sabe quando passa a amar e ser amado de verdade. – Concluiu.

– Foi assim que descobriu que amaria Verity? – Indaguei.

Ele sorriu e assentiu.

– Sim, e acho que ela ouviu o pulsar do meu coração. Foi tão alto que fiquei com vergonha.

Nós rimos como se fosse uma piada vindo diretamente daquelas séries de comédia romântica. Jake passou o resto do breve momento contando as suas trapalhadas até chegar em Verity, antes dela se encontrar conosco ali, e, de repente, a noite já não estava tão ruim. Eu havia esquecido que meu coração estava em pedaços. Tudo isso por causa do poder que meu irmão possuía de suavizar o clima, de puxar minha mão e me guiar para fora de uma neblina densa formada em minha mente.



Ankeny, Iowa. 2005.


Eu e Verity escolhemos um bar qualquer da cidade para despistar a dupla de bonitões vinda diretamente de Hollywood. Era sujo, com cheiro de suor e álcool, muitas garçonetes mal-humoradas e uma variedade de jogos de azar espalhados pelo recinto. Em outras palavras, havíamos escolhido o lugar perfeito para relaxar e pensar sobre nosso próximo passo.

O sol já tinha nos deixado, permitindo que a noite caísse e o dia cansativo ficasse para trás. Quando resolveram nos ajudar, os Winchester fizeram sua hospedagem no mesmo hotel em que estávamos instaladas. Todavia, eu e minha amiga tínhamos assuntos pessoais a tratar e deixamos o plano de ataque ao ninho vampiresco por conta deles. Os rapazes foram buscar mais informações, fazer ligações e elaborar alguma estratégia. Ainda não tínhamos o endereço exato, mas Bobby disse que estava no encalço dos sanguessugas malditos.

– Eu vou querer uma cerveja, por favor. – Pediu Verity, assim que uma moça se aproximou. Ela segurava um bloquinho de notas e uma expressão facial de desgosto. – Traz um hambúrguer também... O maior que vocês tiverem na casa, por gentileza!

O sorriso de Verity se expandiu, exibindo os dentes alinhados e brancos. Meu laptop estava ligado, estava trocando e-mails com Bobby e Sam. O Winchester mais novo escreveu mais cedo, dizendo que havia conseguido meu endereço eletrônico através de Bobby. Ele mandou uma pista importante sobre o caso. Entretanto, eu e minha amiga continuávamos uma pesquisa pessoal antiga sempre que tínhamos um tempinho sobrando.

– Aí, se liga. – Chamei Verity, que estava descaradamente olhando para a bunda da garçonete do outro lado do salão. – Ô, presta atenção!

Verity estava de pernas cruzadas, na pose mais sedutora que conseguia fazer. Ficava assim sempre quando encontrava alguém por quem se interessava. Apesar da garçonete ser mal-humorada, ela era dona de cabelos dourados de dar inveja e um par de olhos verdes hipnotizantes. Além disso, a sexualidade de minha amiga nunca foi mistério para ninguém. Nem para seus pais, nem seus amigos. Muito menos era problema para Jake, que sempre confiou e respeitou muito Verity.

– Eu espero que você tenha uma pista muito boa para me tirar do foco assim! – Reclamou ela, voltando à posição de ombros caídos, como se tivesse sido derrotada.

Ela bufou, fazendo bico e apoiando os cotovelos na mesa.

– Você me detesta. – Verity fez seu drama, como sempre fazia quando estava cansada demais para continuar o dia.

Revirei os olhos, contendo o riso.

– O Bobby mandou uma pista sobre Mnemosine. – Disparei, retendo toda a atenção de Verity quase que de imediato.

Estávamos na cola dessa entidade por anos, pois tínhamos certeza de que Jake foi uma de suas vítimas. Até onde nós sabíamos, Mnemosine era uma deusa grega. Mais especificamente, uma titânide, filha de Urano e Gaia, e personifica a memória e a lembrança, tanto individual quanto coletiva. Essa desgraçada se alimenta das memórias das pessoas e nossa teoria era que ela faz isso se passando por um ente querido. Quando Mnemosine se alimenta, ela deixa para trás uma espécie de zumbi: a vítima passa a viver como uma sombra de quem costumava a ser; ou seja, a pessoa afetada não dorme, não come, não sente. Tornam-se como pacientes no pós-operatório de uma lobotomia.

Bobby folheou inúmeros livros antigos na biblioteca que chamava de casa, à procura de relatos e informações sobre Mnemosine. Em algumas literaturas, ela se alimenta até que não sobre nada e então, a vítima não encontra nenhum sentido na vida além de sua própria morte. O suicídio de Jake exemplificaria isso. Além do mais, a fonte de seu poder é contida em um rubi preso ao seu peito. Alguns livros de Bobby apontam o rubi como o coração da deusa, o que a tornaria diferente das outras divindades na hora de matá-la. A memórias ficam presas dentro da pedra preciosa e Bobby leu que existem duas teorias ao destruí-lo: 1) as vítimas nunca recuperam suas lembranças, tornando o efeito da deusa irreversível; 2) as memórias retornam aos respectivos donos, dando-nos o final feliz que merecíamos.

Mas de uma coisa tínhamos certeza: se o rubi fosse destruído, nós mataríamos a maldita para sempre. De qualquer forma, iríamos alcançar nosso final razoavelmente feliz. Mnemosine seria morta e Jake seria vingado.

Porém, ela não era uma deusa fácil de rastrear, e é aí que vem o pulo do gato. Aparentemente, Bobby havia coletado mais informações enquanto estávamos em Iowa. Essa entidade atacava com um padrão que nós já tínhamos identificado, só precisávamos do tempo exato em que Mnemosine atacaria. Ela tem seu tempo de dormência, onde hiberna por dois ou três anos, e o período ativo, que ainda era uma incógnita.

Virei o laptop para Verity.


Bobby Singer 7:54 PM (20 minutos atrás)

to Cassie Winters


“Meninas, Mnemosine está desperta. É agora ou nunca. Mas não se desesperem, Rufus está nos ajudando no caso. Vamos pegá-la juntos. Não façam nenhuma besteira e venham para Sioux Falls o mais rápido possível depois de cuidar dos vampiros.”


Eu queria largar tudo e partir imediatamente para Sioux Falls e, pelo olhar de Verity, ela pensava o mesmo.

– Como ele sabe que Mnemosine despertou? – Indagou ela. – Ou melhor: o que nós estamos esperando?

– Você está brincando? Não podemos deixar mais pessoas morrer por causa de sanguessugas malditos! – Respondi, meio impaciente. – Acho que Bobby identificou os sinais do despertar da titânide.

Ela sabia que não podíamos deixar a situação como estava, mesmo com os Winchester ajudando. Entretanto, também não podia culpa-la. Verity queria vingança tanto quanto eu, mas em seis anos caçando essas porcarias, estávamos começando a confundir justiça com vingança. Eu não me importava de ter tais propósitos corrompidos pela raiva, porque queria fazer o sobrenatural pagar de todas as formas que estivesse ao meu alcance. Matar Mnemosine era um bom começo. Mas Verity não merecia ter o seu amor por Jake apagado pela sede de vingança.

– Assim que resolvermos isso, nós vamos até o Bobby. Sem mas. – Determinou, logo dando continuidade: – Quanto aos vampiros, o que descobriu?

Suspirei, sem contestar.

– Sam me mandou algo. Ele disse que investigou os arquivos das vítimas e todas elas conheciam alguém em comum: o professor de ciências da escola de Florence, o sr. Walsh. – Expliquei, ao mesmo tempo que digitava outro e-mail para Sam.

A garçonete Odeio-Sorrir finalmente havia chegado com o pedido da senhorita Come-Tudo e o meu copo de água, fazendo minha amiga me olhar torto e balançar a cabeça.

– Fala sério, água? Você nunca se diverte. – Bufou Verity, jogando os fios de cabelo para trás e se preparando para dar uma mordida no lanche. Mas antes, retomou o assunto: – Devíamos falar com esse cara.

Abri um sorriso.

– Os Winchester já deram um jeito nele. Estão com o professor em custódia no seu... – Estreitei as pálpebras para ler direito o que estava no e-mail de Sam. – Quarto de hotel? Uau, que amadores.

Verity riu.

– Eles são idiotas ou o quê? Podem atrair os vampiros se esse cara estiver mesmo trabalhando para eles. – Pontuou minha amiga.

Isso é genial, na verdade.

Apressei os dedos para digitar uma resposta para Sam.


Cassie Winters 8:16 PM (1 minuto atrás)

to Sam Winchester


“Vocês idiotas estão tentando pegar os vampiros sem a gente? Se queriam transformar isso em uma competição, conseguiram! Estamos a caminho, não vamos deixar a diversão toda para os dois imbecis.”


Fechei o laptop de imediato, levantando da mesa e deixando uma Verity faminta completamente confusa.

– Ei?! Pra onde você vai? – A garota se apressou para me acompanhar.

– Eles estão com o suspeito, precisamos ir. Temos trabalho a fazer.

Verity bufou, suspirou, reclamou. Fez tudo que podia. Ela odiava ter que deixar comida para trás, mas sabia que era por uma boa causa. Entramos no Camaro em um pulo, deixando o bar comer poeira.

Enquanto não alcançava Mnemosine, outros monstros pagariam pelo seu terrível erro de ter matado meu irmão.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.