Go-live
2 Hora 1 - Sexta-Feira: 22:00hrs - 23:00hrs
Talita chegou no prédio da empresa dez para às dez da noite. Estava com uma mochila grande e três sacolas das Lojas Americanas. Ela desceu do táxi e ficou surpresa com a aura do local aonde havia trabalhado nos últimos dois anos. Ela nunca estivera ali tão tarde da noite, a rua estava deserta e o prédio de três andares estava isolado atrás do enorme jardim com as fontes de água modernas desligadas e os bancos de mármore vazios. Atrás dos vidros das janelas enormes, ela conseguia ver que apenas o segundo andar, o Salão, colo eles chamavam, estava aceso. Havia apenas um segurança no portão.
Antes de entrar a jovem acendeu um cigarro. O segurança, um homem alto e moreno que ela sempre via em dias alternados nos últimos anos, estava sentado na guarita ao lado do grande portão de ferro. A noite estava fria e ela imaginava que no Salão estaria ainda mais frio, por causa do ar condicionado. Agradecia aos deuses por ter trazido mais de um casaco.
Enquanto fumava, ela viu outro táxi parando no portão do prédio. Dele saiu um homem alto, com braços musculosos e olhos muito juntos. Ele usava uma roupa social impecável, tinha uma mochila de couro preta nas costas e, como Talita, carregava algumas sacolas de plástico das Lojas Americanas:
— Você também, guria. — Ele disse, se aproximando. — Preparada para o tédio?
— Claro que sim, Sérgio — Ela respondeu, sorrindo e abraçando o amigo de longa data. — Vários episódios das séries da Netflix devidamente baixadas, livros online devidamente escolhidos, guloseimas devidamente compradas.
— Nós somos completamente inúteis aqui. — Sérgio disse, observando a amiga tragar o cigarro. — Sabe disso não é?
— Sim, só precisamos pegar a lista de requests (requisições de alterações), que já está pronta há mais de um mês, e entregar para o Basis. — A menina disse. — E depois resolver se acontecer algum problema, o que eu, particularmente, não acho que vai acontecer.
— Eu sei que não vai . — Sérgio completou. — Vamos logo com isso...
Eles subiram e descobriram que poucas pessoas da equipe que acompanharia o transporte já haviam chegado. O Salão estava vazio. O segundo andar do prédio da TI da petroleira que estava implantando o SAP era onde o projeto estava alocado. O salão era exatamente isso, um enorme salão sem paredes, exceto as que guardavam os banheiros enormes e a copa com algumas mesas redondas, uma geladeira, um microondas e uma cafeteira. O restante do espaço era cobertos por simples mesas brancas de escritório sem gavetas umas ao lado das outras transformando em enormes fileiras de mesas, lembrando muito uma linha de produção. No salão também havia quatro salas de reunião perto da entrada do andar, que sempre estavam ocupadas.
Mas durante esse final de semana seriam apenas quinze pessoas naquele andar imenso. O lugar todo estava iluminado com lâmpadas brancas fluorescentes e, como Talita imaginara, estava bem gelado.
Seu amigo Sérgio se sentou ao lado de sua equipe, dois analistas funcionais do módulo de SD (Vendas e Distribuição). Os analistas do módulo de MM(Administração de Materiais), ao qual Talita pertencia, ainda não haviam chegado. Ela se sentou no mesmo lugar que havia se sentado nos últimos dois anos, ligou seu computador e esperou.
O salão estava silencioso demais e gelado demais. Talita pegou um casaco na mochila e jogou sobre seus ombros. Olhando para a tela ela passou pelos e-mails sem encontrar nenhum novo. Logo começou a ouvir o resto da equipe chegando. Primeiro foi o gerente de projetos, Marco, que se sentou na cadeira de encosto alto que estava no canto mais distante do salão. Depois Gustavo apareceu usando calças jeans, um moletom, meias brancas e um chinelo slider laranja. Ela riu, e o homem gordo sorriu em retorno.
Antes de dez e meia da noite, todos os membros das equipes que acompanhariam o go-live já haviam chegado. Surpreendentemente ninguém estava nervoso. Todos sabiam que aquilo era uma coisa normal do trabalho que eles desempenhavam e tinham certeza absoluta de que tudo daria certo. A maioria, principalmente os casados, viam aquela janela para go-live inconveniente como uma bela oportunidade de tirar umas férias do companheiro de todas as obrigações que ser casado representa.
Talita estava sentada lendo um livro chamado O Castelo Animado de Diana Wynne Jones. Era uma história para o público juvenil que foi lançado em 1986. Sua equipe de MM estava completa. Jonas, um homem alto de meia idade, e Antônio, mais baixo e jovem que Jonas, estavam conversando baixo sobre futebol, como sempre.
Haviam apenas representantes dos quatro principais módulos de SAP: SD, MM, FI(Finanças) e CO(Controladoria). Havia um Basis (Profissional SAP Voltado para Infraestrutura) e um GP (Gerente de Projetos), totalizando assim quinze pessoas no salão enorme. As equipes sentaram-se juntas mas estavam separadas como pequenas ilhas de pessoas no imenso local vazio.
A noite seria longa, ninguém estava com pressa... entre conversas leves e sussurros, cada analista verificava suas próprias configurações e fazia suas últimas revisões. Os desenvolvedores ABAP, um de cada módulo, não precisariam se preocupar num primeiro momento, as suas alterações só seriam transportadas para produção depois que as configurações estivessem lá. O Basis fazia os últimos preparativos no ambiente de desenvolvimento antes que as customizações dos analistas funcionais fossem carregadas. Ele viu que o ambiente de produção estava pronto para receber as customizações e mandou um e-mail para cada um dos analistas, solicitando a lista de requests de customização de casa módulo. As requests seriam aplicadas uma a uma. melhor transportar com calma e perder um pouco de tempo, mas conseguir identificar um erro mais assertivamente do que transportar tudo junto e quando começarem a pipocar os erros, não ser possível identificar a origem do problema.
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