Go On

1 136ª vez.


Notas iniciais
OneShot pedida, OneShot entregue.

- Kurt, vocês tem que seguir em frente. – Rachel estava sentada no meu sofá.

- Rachel, a vida é minha, eu decido o que devo fazer. – Lhe encarei em pé.

- Você é jovem, não pode jogar sua vida fora. – Ela levantou-se.

- Minha vida já foi jogada fora. – Ela revirou os olhos

Eu entendia o que ela estava tentando fazer, queria ajudar. Mas eu não queria esse tipo de ajuda. Eu não preciso de alguém novo na minha vida. Só quero seguir minha rotina. Comum, simples, e nada inovadora.

Há mais de um ano eu trabalho na mesma empresa, moro no mesmo apartamento e vejo as mesmas pessoas. Eu acordo, lavo meu rosto e escovo meus dentes, me visto e saio para o trabalho. Passo na mesma cafeteria, compro o mesmo café. Pego o mesmo caminho para a empresa. Faço as mesmas coisas, assino os mesmos papeis.

Nas terças e quintas eu mudo minha rota para casa, vou para um prédio antigo, com um hall de entrada enorme e frio. É ali que eu encontro o conforto para a minha dor.

Hoje é quinta-feira.

- Bem vindos ao grupo de apoio de hoje. – Disse Adam, nosso instrutor.

Me sentei no mesmo lugar e observei Adam. Quando Rachel dizia que eu devia seguir em frente, ela se referia a ele. Mas toda vez que penso nele daquela forma, eu me lembro do motivo que me trouxe aqui. Eu simplesmente não consigo.

- Vamos começar a reunião de hoje, quem quer compartilhar? – Ele sorriu, o tipo de sorriso encorajador que um pai dá aos filhos quando decidem tirar as rodinhas da bicicleta.

- Eu posso começar. – Disse.

Eu não estava com medo de compartilhar minha história. Eu já havia feito isso 136 vezes, todos já a conheciam, mas mesmo depois de tanto tempo todos ainda prendiam a respiração quando eu lhes contava.

- Tudo começou no colegial... – Todos os olhos estavam atentos as minhas palavras.

Eu sempre fui oprimido pelos outros garotos, por ser “afeminado” e ser abertamente gay. Eu sofri muito bullying, na maior parte verbalmente e mantive isso em segredo, até o dia em que um garoto me agrediu e deixou meu olho roxo. Meu pai imediatamente me transferiu de escola e denunciou o pai do garoto. Porém não deu em nada, o garoto continuou imune e eu continuei longe.

Essa nova escola era um paraíso, Dalton Academy tinha tolerância zero ao bullying, ou seja, todos se aceitavam e se respeitavam. E a Dalton também tinha ele, Blaine Anderson, o garoto que roubou meu coração no momento em que eu o vi. Eu fiquei sem palavras, eu esqueci meu nome e de onde eu vim. Ele andava como um príncipe e sorria como um rei. Ele era perfeito aos meus olhos e toda vez que ele sorria meu coração acelerava.

Eu suava frio, eu gaguejava. Fazia coisas insanas, pois perdia a consciência ao vê-lo. E eu tinha medo de dizer como me sentia, ele era o garoto popular e me via como um de seus amigos confiáveis. Eu decidi que jamais contaria, já que ele mesmo me contou que estava interessado em outro garoto. Mas como dizem, o mundo dá voltas e em um belo dia eu recebi seu primeiro beijo.

Desde aquele dia nos tornamos o casal mais fofo da escola. Tinha aqueles que nos invejavam, e aqueles que nos admiravam. Havia aqueles que diziam querer um amor tão verdadeiro quanto o nosso. Eu simplesmente sorria e aproveitava o calor de seus braços.

Nós passamos nosso último ano do ensino médio nas mil maravilhas, pensando nas faculdades que devíamos seguir, onde iriamos morar. Porém Blaine sempre fugia do assunto faculdade, e eu achei que ele fazia isso porque tinha medo de escolher o que não era certo. Ah, eu era tão inocente.

Na noite da nossa formatura resolvemos jantar a sós depois. Um jantar simples, mas romântico, a luz de velas na sala de estar da sua casa. Eu já saboreava o sorvete de chocolate quando ele soltou a bomba.

- Kurt, eu não vou para nenhuma faculdade. – Ele suspirou. – Nem para Nova York.

- Do que você está falando? – Lhe encarei assustado.

- Eu vou seguir o pedido do meu pai. – Meu coração bateu forte. – Eu vou me juntar ao exército.

- Não, Blaine, por favor. – Eu comecei a chorar no mesmo instante.

As histórias das famílias que perdiam entes queridos para a guerra eram horríveis. Eu sabia que uma vez que ele fosse, eu jamais o veria de novo. Meu peito doía, e as lagrimas escorriam incansavelmente. Ele me abraçou e disse que estaria partindo na manhã seguinte e que não queria que o nosso último momento juntos fosse algo tão triste.

Aquela foi a melhor noite de nossas vidas, nosso amor falou mais alto que tudo. Mas infelizmente o Sol nasceu e junto com ele veio a tristeza. Nós fomos até a estação de trem, Blaine tinha apenas uma mala preta. Ele tirou do bolso uma foto nossa, me deu um beijo casto e sussurrou:

- Eu voltarei para você, Kurt. – Blaine encostou a testa na minha. – Eu prometo.

Quando ele me deu as costas e o trem disparou, eu pude chorar sozinho. Eu nunca tinha sentido uma dor tão grande em meu peito. Caminhei sem rumo por horas, até que resolvi voltar para a casa. Fiz minhas malas e voei para Nova York. Aluguei um apartamento, comecei minha faculdade e comecei um estágio.

A carta chegou cinco meses depois.

Era uma quarta-feira, o Sol brilhava no topo do céu. Eu cheguei em casa e uma carta estava à minha espera. O selo do exército americano brilhava ao canto inferior esquerdo. Eu abri com receio e caí de joelhos.

- Informamos por meio deste que Blaine Devon Anderson veio a falecer em combate nesta segunda-feira. A carta é direcionada ao endereço dado pelo soldado. Também precisamos informar que seu corpo não foi encontrado. – Li com a voz tremula.

Se seu corpo não havia sido encontrado, ainda havia alguma esperança.

Mas depois de um ano as minhas esperanças de esvaíram.

Logo que recebi a carta, eu lhe fiz um pequeno funeral. Apenas para os amigos mais próximos e para os familiares. Eu não acreditava que ele havia se ido para sempre. Eu não queria acreditar.

- E esse é o motivo de porque estou aqui. – Olhei todos na roda. – Eu perdi o amor da minha vida para o exército americano.

Uma senhora enxugava as lágrimas. Ela sempre chorava com a minha história, pois ela perdeu seu filho, que também deixou uma esposa desamparada. Mas no caso dela, seu filho também lhe deixou um neto.

Depois que todos falaram suas histórias, pela 136ª vez, todos puderam sair. Parecia algo estupido, um grupo de apoio, quando bobagem. Mas toda vez que eu ia até aquela roda, e contava o que havia acontecido, meu amor crescia e o peso nas minhas costas diminuía. Ela como um banho de cachoeira no mais cruel dos verões.

- Kurt. – Adam me chamou antes de eu seguir pela avenida.

- Sim? – Virei para olhar em seus olhos.

- Quer uma companhia? – Ele parou ao meu lado.

- Por que não? – Sorri e ambos caminharam para o Sul.

Conversamos sobre diversas coisas no caminho, mas como minha casa não era longe, a conversa foi interrompida. Eu lhe convidei para entrar e me acompanhar no jantar. Eu não sabia o que era conversar a mesa desde que Blaine se fora.

Eu coloquei a chave na fechadura, mas ela não girou. A porta estava aberta. Franzi o cenho e abri lentamente. Olhei para o apartamento escuro, apenas a luz do quarto estava acesa. Adam segurou meu braço e me puxou para trás.

- Eu vou. – Ele passou pela porta e foi em direção ao quarto.

Eu ouvi gritos, e um barulho de vidro se espatifando no chão. Em poucos minutos Adam surgiu na sala segurando um homem. Eu acendi a luz e meu coração parou.

- Kurt, chame a polícia. – Ele segurava o homem pelos braços.

- Não pode ser. – Meus olhos se marejaram.

- Kurt? – Adam me olhou assustado.

Eu me ajoelhei em frente ao homem, pus minha mão sobre o seu rosto e sorri. Ele sorriu de volta, era o mesmo sorriso de sempre.

- Blaine. – Suspirei e lhe dei o abraço mais apertado que podia dar.

- Eu disse que voltaria.

Notas finais
Gostaram? Deixem reviews.
Eu não sei se continuo ou se ficará assim. ;)
Quem sabe, até a próxima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.