Notas iniciais
Boa tarde, gente! Não tenho muito o que falar dessa vez, só peço desculpas pela demora para responder os comentários no capítulo anterior; eu estava mal — não sei se vocês sabem, mas assim como a Dominique eu também tenho depressão — e só saía da cama para ir para a escola e ir no banheiro mesmo, e é ruim responder pelo celular. De qualquer jeito, estou aqui agora :3 Espero que gostem do capítulo.

Acordo chorando desesperadamente, e quando vejo Tracey na minha frente, me observando com uma expressão de pura raiva só consigo chorar ainda mais.

— Não aja como se você realmente se importasse — diz ela, fechando os olhos. — Agora você finalmente sabe a verdade.

— Por que nunca me contou? — pergunto, soluçando e me esforçando para parar de chorar. Não estou chorando exatamente por Tracey, mas por tudo naquele sonho, foi desesperador viver aquilo. Também estou chorando pela mentira que eu pensei ser verdade desde o dia em que me contaram da Tracey.

— Você tinha que descobrir sozinha — responde, dando de ombros e abrindo os olhos outra vez. — A culpa foi sua. Poderia ter sido nós duas a morrer ou a se salvar. É injusto. Eu odeio você, sua idiota.

— Mas... — Tento protestar, mas Tracey desaparece.

Fico sentada na cama por um minuto, pensando, mas isso realmente não vai ajudar. Seco as últimas lágrimas, que ainda estavam escorrendo, e levanto. Minha mãe ganhou folga e está na cozinha, tomando o café da manhã. Observo minha mãe e depois penso na versão jovem dela, tão bonita e cheia de vida...

— Bom dia. — Me esforço para dizer em voz alta, mas não arrumo forças para tal, fazendo com que meu "bom dia" não passe de um mísero sussurro. Minha mãe nem ao menos me olha. — Eu... Tive um pesadelo. — Dessa vez minha voz sai em um tom melhor, fazendo com que minha mãe me olhe.

— Hum — murmura antes de voltar a encarar a xícara de café quente.

— Eu sei que você mentiu sobre a Tracey — digo, mordendo o lábio em seguida. — Ela não nasceu morta.

Consigo ter toda a atenção da minha mãe, porque agora ela me fita com os olhos arregalados. Suspiro e preparo um pão com manteiga, sentando com ela.

— O que você viu? — pergunta. Conto tudo do sonho, e minha mãe ouve atentamente e, quando eu termino, sua expressão passa de deprimida para terrivelmente triste. Mordo meu pão, esperando que ela fale algo. — Você tinha acordado logo depois que seu pai tinha terminado de ninar vocês duas... Eu fui te acalmar, porque você chorava, e te levei para o pátio, porque sempre te acalmava ficar lá. Nesse meio tempo o incêndio começou e... Demoramos pra sentir o cheiro da fumaça e perceber que o fogo se espalhava. Quando percebemos já não tinha como entrar no quarto de vocês, tinha muito fogo e Tracey já deveria ter morrido enquanto tentávamos.

Quase no mesmo momento em que termina minha mãe começa a chorar. Termino meu pão, sem saber o que dizer para consolá-la — e muito provavelmente, mesmo tentando algo, não ajudaria.

— Sinto muito — digo. Preciso me arrumar pra escola, o que só colabora em me desanimar ainda mais. Começo a imaginar que a culpa foi minha, mas... Não fui eu quem provocou o incêndio, e eu não tive culpa por chorar e ser tirada do quarto! E mesmo assim, não posso deixar de me sentir mal.

. . .

Estou no ônibus indo para a escola e ouvindo Panic! At The Disco no último volume, tanto que parece que meus ouvidos vão explodir, quando o ônibus para, e um novo aluno entra. Estreito os olhos, analisando bem a figura, e um sorriso de orelha a orelha se abre antes mesmo que eu possa impedir que algo tão bobo aconteça.

— Henry! — exclamo, talvez alto demais considerando o volume da minha música e que eu precisaria gritar para ouvir minha própria voz. Desligo a música e nossos olhares se encontram e ele sorri, vindo até a minha direção e sentando no banco ao lado, sem parar de me olhar. Ele molha os lábios e diz:

— Ora, ora, o que temos aqui?

Pela primeira vez no dia, eu fico feliz de verdade.

— Você se mudou? — pergunto, completamente curiosa.

— Sim — responde ele, fazendo uma careta.

— E o que um garoto da cidade e da escola particular veio fazer por aqui?

— Minha mãe inventou que a cidade já não era mais lugar pra gente, como se ela realmente ligasse — ele revira os olhos. — Mas não é de todo ruim morar aqui. — E, dito isso, ele me lança um olhar malicioso, me fazendo rir. — E você, como está? Eu fiquei preocupado, sabe, em relação à Tracey e aquela crise que você teve na Blackoffee...

Então eu conto tudo o que aconteceu desde a última vez que a gente se viu, desde a senhora até a conversa que eu tive com minha mãe essa manhã.

— Quanta agitação — comenta. — Que senhora louca a que você encontrou, hein? E sobre seu pesadelo e essa revelação... Eu sinto muito, Nique.

Fico um pouco abalada novamente quando ele me chama de Nique, mas tento parar com essa bobagem logo, afinal, é apenas um apelido.

— Não sinta. Iria enlouquecer se sentisse — dou um sorriso sem graça, que ele retribui com um fofo.

— Eu sou louco, minha cara Alice. Somos todos loucos aqui.

Meu sorriso, que havia murchado, volta na hora. Gosto mesmo desse cara.

. . .

Hoje é dia de educação física. Dois períodos. Eu não poderia estar mais desanimada, já que eu detesto essa matéria, e minhas notas nela só diminuem. Sou uma ótima sedentária.

Henry foi encaixado no time de futebol dos garotos, e o professor Matthew resolveu que hoje as garotas irão jogar contra os rapazes.

Grande maioria das doze moças da minha turma está reclamando sobre sempre quebrar a unha nesses jogos, ou suar tanto que chegam a parecer um picolé derretendo. A minoria está tranquila ou sem vontade de jogar, da qual eu faço parte.

Há uma garota nova na turma também, seu nome é Alice. Ela tem longos cabelos loiros e parece ser bem quieta, nesse momento está sentada em um banco afastado, observando o movimento na quadra e com fones nos ouvidos. Algo nela me chama a atenção, mas eu mesma não sei dizer o quê.

Quando o professor chama todos para o centro da quadra, Alice larga o celular no banco e se aproxima, talvez devagar demais. Tira do pulso uma borracha e prende o cabelo bem alto, se pondo ao meu lado enquanto o professor explica algumas coisas sobre o futebol que nós já estamos cansados de saber.

Ouço Alice suspirar profundamente, parecendo irritada. Avisto Henry bem no fundo dos outros garotos, e ele está me observando. Sorri ao me ver, e retribuo o sorriso.

Quando terminar de falar, nosso professor nos organiza no campo e o jogo começa.

Alice sai em disparada na minha frente, roubando a bola de um garoto que fica boquiaberto enquanto ela corre habilidosamente por entre os rapazes. Seu olhar para no meu e ela abre um sorriso maroto, piscando. Entendo o recado e ela chuta para mim, que corro um pouco e chuto para Jane, uma garota legal da turma, mas que fala pouco comigo.

Logo marcamos o primeiro gol, e todas pulamos e gritamos enquanto os meninos resmungam que é impossível.

— É BEM POSSÍVEL! — grita Laurie, outra garota legal que sempre fala sobre empoderamento das mulheres e os nossos direitos. Eu gosto dela.

No fim do primeiro tempo, nós estamos ganhando de 3x1.

Pego uma garrafa d'água e bebo rápido, com muita sede, procurando Henry pela quadra, e fico preocupada quando o encontro. Ele está sentado abraçando os joelhos e se balançando, e todos que passam por ele não parecem ligar.

Guardo a garrafa na mochila e vou com pressa até o banco que ele está, pousando minha mão em seu ombro. Ele dá um pulo de susto e me olha, com os olhos vermelhos e o rosto molhado com lágrimas.

— Aconteceu algo? — pergunto, mesmo sabendo da resposta.

— Vozes... — sussurra ele, olhando em volta e depois balançando a cabeça desesperadamente. — Me ajuda, Nique... Isso é horrível...

— Vou pedir para o professor te tirar do jogo — digo, me levantando, mas ele segura minha mão e me puxa de volta. Restam dez minutos de intervalo e já começo a ficar nervosa.

— N-Não... Não adianta — Henry continua sussurrando, com a voz rouca. Ele me abraça com força e sinto-o tremer. Um choque elétrico percorre meu corpo da cabeça aos pés, mas não é hora de pensar nisso agora. Henry precisa da minha ajuda. Infelizmente, sou inútil a ponto de não saber como ajudá-lo como ele me ajudou aquela vez.

— Henry, você precisa de ajuda. Se não avisarmos o professor agora você vai ter que jogar depois! — aviso. — Por favor...

— Não me solta — implora ele. — Todos são monstros. Todos. Não quero ver. Por favor, Dominique, me ajuda...

— Olhe para mim — peço, e ele só enterra a cabeça no meu peito. — Não tenha medo, Henry. Estou aqui, sou só eu. Não olhe para os outros.

Devagar, ele tira a cabeça do meu peito e me olha. Um sorriso confiante aparece em meu rosto, e beijo sua testa demoradamente.

— Foca em mim. Só em mim — digo, segurando sua mão. — Não olhe para os monstros, tudo bem?

Henry balança a cabeça positivamente e nós levantamos. Guio ele até onde o professor está sentado, porém ele se agita muito ao ver o professor.

— Feche os olhos — peço. Ele aperta os olhos com força, mas choraminga.

— Os monstros continuam, Dominique... As vozes continuam! — exclama, totalmente desesperado. Olho para o professor.

— Professor... — Minha voz falha. Não, Dominique, não é hora de falhar agora. — Professor. — O professor me olha. — Henry está com um problema.

— O que há com ele?

— Esquizofrenia — conto. — Surto.

Ele entende e nos leva até a sala de aula, só que não parece adiantar. Agora ele se debate ao sentar na cadeira e grita a plenos pulmões. O professor Matthew e eu trocamos um olhar, e noto como ele está perdido.

— Henry... — sussurro perto dele, mas ele acerta uma mesa e ela voa longe.

— NÃO! TIRA DAQUI, POR FAVOR! — berra ele.

— Calma, está tudo bem. Eu estou aqui.

Mas isso não parece acalmá-lo. Como se não fosse mais ele ali — o Henry calmo, gentil e engraçado que conheci — e sim uma pessoa totalmente diferente, ele berra mas alto e alcança uma tesoura em uma mesa.

— HENRY, NÃO! — grito, indo para frente e tentando tirar a tesoura dele, mas ele é muito mais rápido e forte que eu, e acerta seu pulso mesmo com todas as minhas tentativas de arrancar a tesoura. O sangue jorra, e ele revira os olhos antes de desmaiar.

O professor liga para a ambulância, e eu estou em choque. Ponho as mãos sobre seu pulso, tentando estancar.

Tracey aparece do nosso lado, balançando a cabeça e produzindo um tsc, tsc irônico.

— Se quiser salvar seu namoradinho vai precisar correr, Dominique — avisa ela, desaparecendo em seguida.

Poucos minutos depois ouço a sirene da ambulância se aproximando, e os médicos entram na sala.

Observo Henry sendo tirado de mim, ainda em choque. O professor vai com ele, e muitas pessoas tentam falar comigo, mas não respondo. Nem ao menos entendo o que querem falar.

Somos liberados para irmos para casa mais cedo, e quando saio do portão tudo em mim grita apenas duas palavras.

Corra, Dominique.

Notas finais
E aí, o que acharam do capítulo? E o que estão achando do Henry? Não sejam fantasminhas, meus amores. Me contem tudo! Um beijo ♥