Notas iniciais
Olá, amores! Perdoem a demora para postar, estava esperando ganhar mais alguns comentários na história — que, aliás, está tendo um feedback incrível ♥ Muito obrigada e espero que gostem desse capítulo.

As noites são sempre as piores.

Dessa vez, estou me afogando. A água é vermelha, e demoro pra raciocinar que é sangue.

Sangue de quem?

Não consigo pensar direito, a sensação é horrível e todo aquele mar de sangue invade meus pulmões. Me debato, tentando em vão tentar nadar até a superfície. Quero gritar e chorar, mas tudo que consigo é me debater mais.

Isso continua por um bom tempo, parece uma eternidade e essa é sempre a pior parte dos pesadelos: tudo passa muito devagar.

Fecho os olhos e paro de me debater, desejando com todas as forças acordar de uma vez, quando sinto algo me puxando. Abro os olhos na hora em que eu saio daquele mar de sangue, surpresa, e encaro a pessoa que me salvou. É um... Garoto?

Ele me analisa com os olhos azuis esbugalhados. Seus cabelos loiros estão parecendo um ninho de ratos, super bagunçados. Franzo a testa, observando-o, e nós dois falamos ao mesmo tempo:

— Por que você está no meu pesadelo?

Tenho certeza que ele só não arregalou ainda mais os olhos porque não era possível. Pelo amor de Deus, Dominique, o cara acaba de te salvar de passar mais tempo se afogando num pesadelo horrível e é assim que você agradece? Onde estão seus modos?

— Desculpe — digo. — E obrigada por me salvar, por mais estranho que tenha sido.

Ele resmunga algo sobre estar ficando cada vez mais maluco.

— Meu nome é Dominique... — continuo, mesmo relutando.

— Henry — diz ele, seco. — Você deveria saber, já que invadiu minha mente.

— O quê? — ergo as sobrancelhas. — Não mesmo! Você que invadiu a minha!

— Que pesadelo esquisito... — comenta ele, visivelmente confuso. — Você existe mesmo?

— Claro que existo, seu animal! — exclamo. Essa é a maior conversa que eu tenho com alguém desde algumas semanas, e acho que a mais idiota de todas. Tinha até esquecido de como eu sou idiota quando converso com alguém.

— Não me xinga! — Henry ergue as mãos como se estivesse se rendendo. — Olha, Monique...

— Dominique — corrijo.

— Que seja. Continuando... Eu também existo. Moro em Frotwhite, conhece?

— Eu também moro em Frotwhite! — exclamo. — Você deve ser da escola particular.

— Sou. Moro na cidade.

— E eu na área rural — coço a nuca. — Isso é tão estranho... Por que você invadiu meu pesadelo?

— Você que invadiu o meu!

— Droga, Henry, tanto faz — digo, revirando os olhos. Subitamente a imagem de Henry começa a tremer na minha frente, falhando. — Henry? O que está acontecendo?

— Você vai acordar, Dominique... — Ele suspira. — Por mais estranho que tenha sido, fiquei feliz por conversar com alguém. Adeus...

. . .

E então eu acordo. Simples assim. Estou toda suada por conta da parte ruim desse sonho, e o Gato está dormindo em cima da minha barriga, o que me faz questionar duas coisas: Como ele entrou e por que diabos ele quis se aproximar de mim?

Eu tento tirá-lo da minha barriga gentilmente, mas ele não dá a mínima. Nunca parei para pensar que minha mãe estava engordando o Gato exageradamente, porque ele pareceu pesar uns cinquenta quilos naquele momento. Tento mais uma vez, mas ele arranha minha mão, grunhindo e se ajeitando novamente na minha barriga. Reviro os olhos, mas não consigo arrumar coragem para simplesmente jogar o Gato longe — além do mais, isso acabaria definitivamente com todas as minhas chances de me dar bem com aquele monstrinho peludo.

— Você também é meio perturbado, não é, Gato? Pensei que me odiasse — digo. Nesse momento, Tracey aparece.

— Agora você fala com animais também? — provoca, passando os dedos pelo pelo escuro do Gato, que se eriça na hora e foge.

— Não deveria ficar surpresa, você está morta e eu falo com você também — retruco, fechando os olhos e tentando — em vão — ignorar a presença de Tracey.

— Gostaria de lembrar que só estou morta por sua culpa.

— Para de colocar a culpa de tudo em mim! — exclamo, abrindo os olhos novamente e levantando de uma vez.

— A culpa é toda sua, docinho — ela continua, piscando pra mim e desaparecendo. Esfrego os olhos, chateada, e prendo meu cabelo antes de ir até a cozinha. Minha mãe já foi trabalhar, o que me deixa ainda mais chateada, porque hoje é sábado e está cedo, minha mãe trabalha duro a semana inteira e em dias como ontem ela é obrigada a sair do trabalho cedo pra me buscar na escola. Ela merece um descanso.

Sinceramente, ela não merece passar por nada disso.

Enquanto preparo meu café fico refletindo sobre como a vida da minha mãe poderia ser melhor sem a minha presença. Eu já tentei procurar emprego várias vezes e tomar um rumo na minha vida, mas a Tracey sempre dá um jeito de me enlouquecer logo no primeiro dia e eu acabo sendo demitida. Eu já tenho quase dezessete anos, quero trabalhar e nada dá certo. Só podia ser comigo mesmo.

Depois do café da manhã eu vou até o sofá, me sento lá e ligo a televisão, procurando algo interessante, mas só tem desenhos e tragédia. Desligo a televisão, derrotada, e só fico sentada no sofá. Meus pensamentos acabam parando em Henry, será que ele existe ou foi só mais uma loucura minha? Se existir, por que ele apareceu de repente no meu pesadelo? Isso é bizarro.

Henry disse que mora na cidade, e como não tenho nada interessante pra me manter ocupada o dia inteiro, saio pra me arrumar. Vou dar uma volta.

. . .

Chego na cidade exausta por causa da caminhada, mas sorrio ao ver aquele lugar cheio de gente. Sempre que visito a cidade eu fico mais calma, não sei bem o porquê.

Passo na Blackoffee, a única — porém maravilhosa — cafeteria de Frotwhite. Sorrio para a atendente, uma mulher jovem e simpática de cabelo loiro e curto, usando um óculos enorme.

— Bom dia, moça — cumprimenta ela, sorrindo. — O que vai querer?

— Bom dia! Um frapuccino, por favor.

Ela balança a cabeça positivamente. — Pode ir sentar, já levo seu pedido.

Me afasto, sentando numa mesa bem do lado da janela. A Blackoffee fica vazia nesse horário, e num silêncio desses ia ser incrível ter um livro em mãos.

A simpática atendente traz meu pedido e eu bebo o frapuccino devagar, prestando atenção na janela. Nada de interessante, só pessoas caminhando, conversando, mexendo no celular...

Desvio o olhar para o meu frapuccino e ouço a porta abrir. Bebo mais um gole e ouço a atendente exclamar alegremente:

— Henry, querido! Que bom te ver!

Automaticamente meu olhar vai para o garoto parado ali, que me observa. Nossos olhares se encontram, e reconheço aqueles olhos azuis na hora.

Você?

Notas finais
E aí, o que acharam? Críticas? Sugestões? Gostaram do Henry? Deixem tudo nos comentários, amo respondê-los. Até a próxima! ♥