Globo de Neve
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Globo de Neve
Virou o objeto em suas mãos de cabeça para baixo, colocando-o rapidamente na posição original logo depois. Seus olhos captando a beleza que aquele simples gesto trazia. A neve de mentira que caía sobre a pequena casinha, tudo preso em vidro. Um pequeno mundo de vidro.
Repetiu o gesto mais umas três vezes. Concentrado na mentirosa neve que caia em cima da falsa casa. Mentiras de um singelo mundo de vidro, um falso mundo de vidro.
Ouviu a campainha tocar uma vez, mas não ousou se mover de onde estava. Virou novamente o globo de neve, no mesmo gesto que estivera fazendo o dia todo. Observando a neve cair sobre a casinha com uma obsessão assustadora.
O som da campainha novamente, irritantemente persistente. Mas ele não saiu do lugar, nem de seu afazer. Porque a falsa neve jamais poderia deixar de cair sobre a casa de mentira, no frágil mundo de vidro.
Uma única lágrima escorreu de seu rosto com aquele pensamento. E foi esta lágrima que o trouxe a realidade do momento. Ao som insistente que ainda se ouvia. Ao objeto em suas mãos.
Enxugou rapidamente o rastro daquela lágrima e caminhou os dez passos de que necessitava para chegar a porta. Tentou ver pelo olho mágico a pessoa que desejava tanto falar com ele. Sorriu, um sentimento de alegria e de pesar por vê-lo ali. Não era quem ele gostaria, e na verdade, não sabia se isso era bom ou ruim. Abriu a porta, o esboço de um sorriso nos lábios.
— Não precisa tentar mentir — o homem do outro lado disse, um sorriso de compreensão estampado em seu rosto.
Em um convite mudo o dono da casa deu espaço para que o visitante pudesse entrar, e ele assim o fez. A porta foi fechada logo depois.
— Vai querer beber algo? — perguntou para o homem, que apenas lhe lançou um olhar reprovador. — Um chá então? Fique a vontade enquanto isso — o visitante apenas sentou-se no sofá, pernas cruzadas, um olhar astuto observando cada detalhe do apartamento impecavelmente limpo. Não esperava aquilo. Não esperava aquele tipo de reação. Era óbvio que não encontraria o outro homem aos prantos, não fazia o estilo dele. Mas mesmo assim, aquela aparente normalidade o deixava apreensivo.
Tentou reparar mais nos objetos, no apartamento. Nenhuma das fotografias antigas estavam na sala, embora ainda houvesse fotos. Mas nenhuma das fotos antigas. Todas haviam sido retiradas e substituídas por outras. Reparou no objeto deixado — obviamente fora do lugar — em cima da mesa de centro da sala.
Segurou o pequeno globo. Balançou rapidamente, fazendo assim a neve de mentira descer novamente em direção à solitária casa das montanhas, cuidadosamente pintada. Quando o último floco chegou em cima do telhado da casinha, percebeu como aquele objeto era banal e sem graça, anotando mentalmente que nunca precisaria comprar um daqueles.
— Não sabia que gostava de globos de neve, Shin — disse quando ouviu os passos do dono da casa em direção à sala. Ele entregou uma das duas xícaras em suas mãos ao visitante, sentando na poltrona em frente à dele.
— Eles são sinceros — respondeu, simplesmente ignorando o olhar intrigado que lhe era lançado.
— Sinceros, como...? — tentou induzi-lo a responder, mas não conseguiu. Os olhos castanhos apenas se dirigiam ao pequeno globo em cima da mesa.
Terminaram o chá em silêncio. O visitante ainda não conseguia entender a situação. Nessas horas amaldiçoava o fato de seu amigo ser tão reservado. Ele não falaria por vontade própria. Ele nunca tinha falado por vontade própria a respeito daquele assunto.
— Totchi pediu que eu viesse — disse por fim, colocando a xícara ao lado do globo de neve, conseguindo que o olhar do outro fosse direcionado a si.
— Por quê? — questionou, embora soubesse o motivo. Toshiya era um bom amigo, deveria estar preocupado.
— Você subitamente expulsou seu namorado de casa e ficou um mês sem dar notícias. Totchi ficou preocupado, não só ele, mas eu também. — olhava nos olhos do baterista, tentando encontrar uma resposta para suas dezenas de dúvidas. Sabia que havia algo de muito errado naquela história que Daisuke contara. Só precisava saber o que.
— Desculpe, eu deveria ter avisado que ia visitar meus pais. — levantou, recolhendo as duas xícaras para levá-las novamente a cozinha.
Quando percebeu que Shinya estava demorando muito para voltar, caminhou na mesma direção em que ele havia ido. E só então notou a ausência da coisa mais importante daquela casa. Na verdade, criatura mais importante.
— Shin, onde está seu cachorro? — olhou ao redor, procurando o pequeno animalzinho que costumava seguir Shinya por todos os lados e, no momento, não dava nenhum sinal de sua presença.
— Na casa dos meus pais. — o dono da casa viu o olhar surpreso do outro.
— Eu vou voltar. Caso você precise de alguma coisa, qualquer coisa, ligue! — disse virando-se em direção a porta.
— Kyo... — ouviu o chamado e virou-se para poder ver o outro. — obrigado! — murmurou baixo, mas em um volume que o amigo pudesse escutar.
* * *
Não demorou a ouvir o som da porta se fechando novamente. O silêncio do apartamento subitamente parecendo lhe sufocar. Voltou para a sala, fitando o objeto na mesa de centro. Um globo de neve. Um sincero, maldito, mentiroso globo de neve.
Lembrava-se de quando o tinham comprado, em uma viagem a Europa. Ele e Die estavam visitando pontos turísticos quando viram o globo para vender. Parecia uma boa lembrança. Uma adorável lembrança de um adorável tempo que não existia mais.
Será que Daisuke sabia? Será que ele havia entendido por que as coisas tinham acontecido daquela forma? Aquelas perguntas ainda o perseguiam, fazendo-o ter certeza de uma única coisa: ainda amava Die. Era estúpido o bastante para ainda amar Die.
E aquele globo de neve era tudo o que ele tinha para provar isso. De uma bela história de amor, apenas um melancólico globo de neve. Contando mentiras e mais mentiras.
Lembrou-se das várias vezes em que Die tinha dito aquelas três palavras. Aquelas três palavras que faziam seu coração bater mais rápido. Aquelas três palavras que o fazia sentir as pernas bambas. Aquelas três palavras que tiravam seu ar e tornavam impossível negar um sorriso genuíno.
As três palavras que se convertiam em ações. Em beijos suaves, apaixonados, lânguidos, luxuriosos. Em toques gentis, em toques quentes. Em noites de amor, ou noites de prazer. Em sorrisos de alegria, ou de satisfação. Três palavras que viravam lágrimas de felicidade, olhares apaixonados.
Três palavras falsas, puramente falsas.
Ele e Die. Juntos. Tinham criado uma história juntos. Uma linda história juntos, como as lindas histórias que as mães inventam para os filhos que observam globos de neve como aquele o qual observava.
Lindas histórias onde o príncipe e a princesa se apaixonavam, lutavam bravamente por seu amor, e no final, viviam felizes para sempre. As lindas e mentirosas histórias. Alguém deveria dizer "não existe final feliz". Alguém deveria dizer a verdade, para que quando esta fosse descoberta, não doesse tanto como doía.
Para que ele não tivesse acreditado nas palavras de Die.
As imagens daquele dia voltaram a sua mente. Seu amado Daisuke, conversando animadamente com um amigo. Já tinham sido apresentados uma vez, antes dele e Die começarem a namorar. Hideaki Shimizu era o nome de um dos amigos de infância de Die.
Os dois estavam falando animadamente sobre Die e Shinya. Sobre como Die havia vencido a aposta. A aposta que tinha feito com Hideaki. Eles não o viram ali, não viram que ele escutava cada palavra. Cada palavra daquela aposta nojenta onde ele era apenas um objeto para o grande prêmio.
Uma aposta asquerosa, que brincava com seus sentimentos, onde Die deveria em menos de um ano ter conquistado-o e ido morar com ele. Se vencesse, Hideaki faria com que a namorada de um conhecido seu rompesse o namoro e ficasse com Daisuke. Se perdesse, Daisuke o apresentaria para algumas pessoas poderosas do nome da música, para que ele pudesse subir na vida de maneira mais fácil.
E era naquela mentira que seu amor se baseava. Em uma aposta nojenta onde Die havia vencido. Porque eles haviam ido morar juntos naquela mesma semana, porque Hideaki viera visitar o novo apartamento do amigo. E, embora não fosse para chegar ao conhecimento de Shinya, confirmar se tinha perdido ou não a aposta.
Mas Die não esperava que ele descobrisse. Não esperava que ele simplesmente deixasse as malas do guitarrista, devidamente feitas, na frente da porta do apartamento. E que ele trocasse todas as fechaduras da casa. Afinal, o apartamento era dele. Havia sido difícil convencer um chaveiro a fazer o trabalho imediatamente, antes de Die chegar, mas com um bom pagamento qualquer coisa se resolvia.
E havia sido daquela forma, daquela maneira simples e sem palavras, que seu sonho maravilhoso de uma vida perfeita se quebrara. No dia seguinte, ele levara Miyu consigo para a casa de seus pais. Eles não lhe perguntaram nada. Sua mãe apenas o olhou, como se soubesse a resposta, como se entendesse seu silêncio, abraçando-o carinhosamente, dizendo as únicas palavras que ele precisava ouvir "Seja bem vindo, meu amor". E, naquele momento, Shinya agradeceu por ter a mãe mais maravilhosa e compreensível do mundo.
Ela também não questionara o porque de repentinamente ele deixar Miyu lá. Talvez ela entendesse a necessidade de solidão que ele estava tendo. Não sabia ao certo, mas podia supor.
Durante todos aqueles dias de viagem, e depois que voltou, ele não havia chorado nenhuma vez até aquela manhã. Até encontrar aquele globo de neve. Aquele globo de neve que Die havia comprado para ele, no mesmo dia em que havia dito que o amava pela primeira vez.
Aquela mentira. Grandiosa e torturante mentira.
Uma mentira criada em um mundo de vidro, que com o mais indelicado movimento, se quebraria estragando qualquer mágica que pudesse haver.
E mesmo assim, ele ainda amava Die. E sentia-se a pessoa mais miserável do mundo por isso. Por ainda amar alguém que havia brincado de tal forma com seus sentimentos.
Talvez fosse chorar de novo, se não fosse o som do telefone tocando. Mais por instinto do que por vontade, atendeu e o silêncio do outro lado da linha dizia tudo que precisava saber.
* * *
Era Daisuke.
— O que você quer, Daisuke? — sua voz saindo mais controlada do que nunca. Como se aquela ligação não o torturasse.
— Shin — e o baterista ouviu os soluços do outro lado da linha — Nós precisamos conversar, você não pode fugir para sempre. — em todo o ano que haviam passado juntos, Shinya nunca tinha visto Die chorar por algo que não fosse alegria. Estaria Die chorando de alegria agora? De alegria por ele ter voltado, por poder retomar a aposta com Hideaki Shimizu?
— Nos veremos no estúdio, Die; como sempre. — se alguém visse Shinya falando ao telefone naquele momento, perceberia claramente que, apesar do seu tom de voz frio, seu rosto era o retrato do mais puro sofrimento. Pois doía como se dez facas atravessassem seu coração. Doía falar com Die, doía saber de tudo que ele sabia, doía saber que ele não significava nada para alguém com um lugar tão especial em seu coração.
— Não! Shin, por favor. Eu preciso falar com você. Eu preciso saber, eu preciso saber por que você está fazendo isso. Eu imploro, Shin, eu imploro. — a voz vinha claramente chorosa. E enquanto o coração do baterista se contorcia em dor, sua mente apenas lhe dizia como aquilo tudo era calculado, como Die planejava cada passo.
O telefone foi desligado. Daisuke não teve sua resposta. Simplesmente porque Shinya não conseguiria falar. Não conseguiria dizer mais nenhuma palavra.
* * *
Shinya sorriu ao ver Kyo observando o globo de vidro com uma atenção fora do comum. O amigo havia vindo lhe visitar naquela tarde.
O baterista colocou a bandeja com um prato de biscoitos, um bule e duas xícaras em cima da mesa de centro da sala.
— Shinya — Kyo desviou sua atenção do objeto, olhando para Shinya — Você sabe que eu não vou lhe cobrar nada, mas eu sei que está sofrendo e eu realmente não faço idéia de como ajudar — o baixinho disse dando um gole no chá que o amigo havia servido.
— Existem feridas que só o tempo cicatriza Kyo, não se preocupe, eu vou ficar bem. — aos ouvidos de Kyo, aquelas palavras soavam repletas de mágoa. De dor. Mesmo que Shinya as tivesse dito de maneira tão natural. Talvez fosse por ele não estar habituado a ouvir o mais novo dizer "eu estou machucado". E era isso que incomodava Kyo. Era ver que Shinya estava sofrendo, ao seu modo, mas sofrendo. Enquanto Die havia simplesmente lhes contado que fora expulso do apartamento pelo namorado sem entender nada do que havia acontecido. Faltava alguma peça daquele quebra cabeças, alguma peça muito importante.
— Shin, que ferida? Quando o Kaoru me ligou perguntando se eu sabia de alguma coisa, ele foi bastante claro. Você expulsou Die de casa sem nenhum motivo aparente. Sendo assim, não deveria haver ferida, deveria? — perguntou vendo a mais pura dor passar pelos olhos do baterista.
Foi com curiosidade que observou Shinya pegar o globo de neve em mãos, fazendo a neve cair sobre a casinha. Admirando a beleza da cena que se criava a frente deles.
— Lindo, não? — o mais novo murmurou — Die me deu quando fomos para a Europa. Foi a primeira jura de amor que nós trocamos. — a calma na voz de Shinya contrastando com a mágoa em seus olhos.
— Parece romântico — respondeu, acendendo um cigarro, enquanto o amigo ainda contemplava o pequeno objeto.
— É falso. — a resposta abrupta fez Kyo arquear uma sobrancelha, questionando seu anfitrião. — Não há neve aqui Kyo. Não há ninguém dentro da casa, simplesmente porque não há casa. É apenas uma redoma de vidro onde você cria fantasias. Onde eu criei fantasias — ele colocou o objeto de volta na mesa fitando o amigo que fumava tranqüilamente, olhos fechados, tentando entender aonde o outro queria chegar.
— Sua história com o Die é uma fantasia, Shin? — a fumaça do cigarro, o olhar sobre si, tudo aquilo fazia com que Shinya sentisse como se estivesse em um julgamento, e seu juiz fosse ninguém mais do que Kyo.
Kyo pôde ver claramente quando o outro assentiu em um gesto de cabeça. — Por quê? — perguntou, pronto para ouvir qualquer coisa, menos o que Shinya lhe contou.
Esperava que Shinya lhe dissesse que Die o tinha traído com uma daquelas vagabundas com as quais ele costumava andar antigamente. Ou então, que o ruivo tivesse dito alguma coisa insensível e cruel demais. Algo comum das brigas estúpidas de um casal. Qualquer coisa. Mas não aquilo. Qualquer outra coisa. Mas não uma aposta tão fútil e ridícula. E, por um momento, esqueceu-se que era amigo de Die também, desejando do fundo do seu coração que Die sofresse por tudo que havia feito. Por tanta insensibilidade.
Lembrou-se de como havia visto o ruivo na casa de Kaoru. As profundas olheiras, os olhos vermelhos que evidenciavam que esteve chorando boa parte do dia, talvez da noite também. O corpo visivelmente mais magro, os cabelos descuidados.
Aquele definitivamente era um Die que não conhecia. E Kaoru pediu, "gentilmente" pediu, daquela maneira "gentil" que só Kaoru conseguia pedir, que ele fosse falar com Shinya. E claro, ele não pode negar, porque no fundo, também estava preocupado com o amigo.
E então, ele estava na frente de Shinya, sem saber o que dizer para consolá-lo. Admirando-o profundamente. Admirando-o por narrar cada detalhe sem derramar uma lágrima, sem que sua voz tremesse. Admirando-o porque, se fosse ele no lugar, se descobrisse que Toshiya havia feito algo assim com ele, não saberia o que poderia fazer. Não saberia se conseguiria ser tão controlado. E Shinya era tão mais novo do que todos eles...
— Eu... Eu sinceramente, não sei o que dizer para te consolar Shin-chan — disse recebendo um sorriso compreensivo do baterista.
* * *
Era Natal. Não que fosse de seu feitio comemorar aquela data, mas era uma época bonita. As luzes brilhando, pessoas trocando presentes umas com as outras. O chamado espírito natalino contagiava a todos, mesmo que a época em que se manifestava fosse puramente comercial, feita para que se vendêssem quinquilharias e bolos. O importante era a lembrança. Dizendo, de forma singela o quanto as pessoas que estavam ao seu redor eram importantes.
Pensando nisso, Shinya decidiu sair de sua reclusão em casa e comprar um presente para cada um de seus amigos. Eles mereciam. Mesmo quando Kaoru e Toshiya implicavam com ele, sabia que era uma brincadeira, até divertia-se com isso.
Passou a tarde inteira andando por shoppings. Escolhendo cuidadosamente o presente de cada um. Um para Kaoru, um para Toshiya, um para Kyo e por fim, não poderia deixar de presentear Die. Apesar de tudo, ainda eram colegas de trabalho, parceiros de banda. E ele jamais deixaria o Dir en grey por causa de um idiota como Die.
Pensou bem no que poderia dar para o ruivo. Nas milhares de coisas que Die queria, precisava e gostava, dando um leve tapa em sua cabeça ao ter a idéia perfeita. Daria a Die o exato presente que ele merecia.
* * *
Kaoru estranhou ao ver Shinya em sua porta. Sabia que o baterista não tinha nenhum problema em relação a ele, e geralmente adoraria receber uma visita de Shin. Eles conversariam, beberiam um pouco e por fim Shin iria embora pedindo desculpas por incomodar. Mas naquele momento, não sabia se era uma boa idéia.
— Boa noite, Shin — sorriu dando espaço para que o amigo entrasse.
— Boa noite, Kao. Eu vim trazer um presente. — disse, entregando um lindo pacote com papel vermelho e uma fita dourada. — Feliz natal, líder-sama — sorriu gentilmente acompanhando o olhar, inicialmente de surpresa, seguido de um de felicidade, de Kaoru.
— Shin-chan, obrigado! — o guitarrista o abraçou com força verdadeiramente contente. Certamente ele não esperava receber nenhum presente que não fosse de fãs.
Nesse momento Die resolveu aparecer na sala. Seus olhos encontrando os de Shinya. O ruivo sentiu-se a pessoa mais feia do mundo em sua calça de moletom preta e sua blusa de manga comprida vermelha. Sabia que tinha olheiras enormes, que seu cabelo estava feio, maltratado e despenteado. Sabia que tinha emagrecido uns bons quatro quilos. Enquanto isso, Shinya estava lindo em sua calça preta e blusa branca, com seus cabelos loiros mais curtos na frente e com um pedaço mais longo atrás. Seu lindo rosto, tão perfeito quanto sempre se lembraria. E o fato de que Shinya estava vivendo muito bem sem ele por perto o feriu como nunca imaginou que poderia ferir.
Kaoru olhava de um para outro sem ter certeza se era uma boa idéia deixá-los sozinhos. Não sabia o que tinha acontecido. Ninguém sabia o que havia feito Shinya subitamente expulsar Die de seu apartamento. Eles estavam morando juntos há algumas semanas, pareciam recém casados. Estava tudo bem até o baterista deixar as malas do outro na frente da porta de casa e sumir sem dar explicações.
Não havia um motivo aparente. Nem mesmo Die sabia o que tinha acontecido. Por isso tinha praticamente obrigado Kyo a conseguir alguma pista. Mas Kyo simplesmente nunca lhe contou o que conversou com Shinya. Apenas disse, com um olhar que expressava uma raiva genuína, que Die merecia o que estava tendo. E fim. Nada mais de informação. E Kaoru fez de tudo para conseguir o que queria, até incluir Toshiya no meio da história. Mas, aparentemente, Kyo se recusou a contar o que sabia até mesmo para o amante.
O líder do Dir en grey olhou o presente que tinha ganhado, uma linda camiseta. Pelo modelo, pela marca e pelo que conhecia de Shinya. Sabia que era uma camiseta bem cara. Nada que fosse fazer falta para eles, mas um presente bonito e devidamente escolhido para o seu gosto.
— Eu vou experimentar meu presente e já venho mostrar para vocês como ficou. — decidiu por fim, saindo da sala e deixando os dois ex-namorados a sós. Quando fechou a porta de seu quarto, teve certeza de que acontecesse o que acontecesse, era melhor se acostumar de vez com a presença de Die em sua casa. O olhar de Shinya não parecia o mais feliz do mundo ao ver o ruivo. Por isso, ele ligou o som, decidindo por colocar um cd do próprio Dir en grey. Os gritos de Kyo não o deixariam ouvir a conversa que sabia que ia se desenrolar em sua sala.
Shinya ouviu o som familiar de -kigan- vindo do quarto de Kaoru. Sorriu para si mesmo diante da gentileza do líder. Se fosse Toshiya ali, certamente ele estaria com um copo grudado a porta tentando ouvir cada palavra, enquanto Kyo o repreenderia por ser tão infantil.
Kyo e Toshiya eram um casal tão peculiar, tão apaixonado. Mesmo com todos os defeitos de Kyo, Toshiya o amava de tal forma que era visível em cada gesto, cada olhar, cada sorriso que o baixista dirigia para o vocalista. E, embora da sua forma retraída e até um pouco bruta, Kyo respondia aquele amor talvez até com mais intensidade do que Totchi.
Por que ele e Die não poderiam fazer isso mesmo?
Ah sim! Porque Die era um idiota.
— Shin... — o guitarrista começou, tirando o outro de seus devaneios.
— Eu trouxe seu presente de natal também. — a voz controlada e o sorriso de Shinya acalmaram Die.
Será que o baterista tinha mudado de idéia? Será que ele viera pedir desculpas? Será que Shinya ainda o amava? Tudo isso passava pela mente do ruivo. Porque, se Shinya ainda o amasse, ele o perdoaria. Ele o perdoaria por tudo. Por ter abandonado-o sem mais nem menos. Por ter desaparecido por semanas. Por ter desligado o telefone na sua cara. Por ter feito-o chorar como um bebê no colo de Kaoru. Porque ele amava Shinya. Com todas as suas forças. Ele estava perdidamente apaixonado pelo lindo homem à sua frente.
Observou com atenção o baterista tirar um embrulho de uma das sacolas que carregava. Parecia uma caixa, não muito grande. O papel de presente era de um branco que brilhava com o reflexo da luz e tinha uma delicada fita prateada adornando o pacote. Olhou Shinya surpreso. Aquele embrulho parecia ter sido feito com tanto cuidado. Aproximou-se segurando a caixa, deliciando-se com o suave sorriso no rosto do outro homem ao lhe entregar o pacote.
Die sentou no sofá, tirando com cuidado a fita. Enquanto Shinya somente o observava, tentando gravar cada detalhe daquela cena em sua mente. O guitarrista tirou o papel de presente, abrindo a caixa que estava lacrada. Colocou a mão puxando o que pudesse estar ali.
Nada. Nada no mundo poderia choca-lo mais. Nenhum presente poderia ser mais cruel naquele momento, do que o que tinha em mãos.
— Tem um cartão dentro — olhou horrorizado para Shinya, que sorria docemente. E viu nos olhos castanhos do baterista o quanto ele estava se deliciando com aquela cena. O quanto agradava ver as lágrimas que o ruivo tentava inutilmente segurar. Sentindo-se derrotado, Die puxou o cartão. A capa era uma imagem dele e Shinya juntos na Europa. Haviam tirado aquela foto em um parque, o parque onde ele, Daisuke Andou, declarara seu amor por Shinya. A viagem em que ele percebeu que havia sido o maior cego do mundo por não ter visto que o amor da sua vida esteve ao seu lado por tanto tempo.
Reunindo coragem de algum lugar desconhecido, Die abriu o cartão. "Porque se o vidro quebra, a mentira da bela paisagem se destrói".
O ruivo olhava para as palavras a tentar entender. Pôde ver Shinya se afastando em direção ao quarto de Kaoru, de onde só escutava os lamentos da voz gravada de Kyo cantando a triste melodia de -mushi-. Lágrimas escorriam de seus olhos. Não demorou que Shinya voltasse, ainda com aquele sorriso, que agora sabia ser um sorriso de vitória, no rosto.
— O que isso significa, Shinya? — disse encarando tristemente os olhos do outro.
— Há certas apostas que nunca devem ser feitas Daisuke. Diga-me, o que você ganhou? — o olhar que Shinya lhe lançava era do mais puro desprezo. E agora, somente agora, Die entendeu por quê. Ele havia descoberto. De alguma maneira, ele havia descoberto. Mas como? Hideaki? Teria sido Hideaki aquele a lhe contar?
— Shinya, por favor, eu te amo! Eu te amo de verdade. Começou com uma aposta, mas eu me apaixonei por você. Como eu poderia não me apaixonar por você? — e Die já estava segurando nos ombros de Shinya. Sacudindo-o levemente. Tentando fazê-lo entender que, mesmo que tivesse começado da forma errada, o sentimento era verdadeiro.
— Eu perdoaria você se tivesse sido dessa forma — e Die viu a dor nos olhos do baterista ao dizer aquelas palavras — Mas, Die foi você mesmo que disse. Foi você que eu ouvi falando. Falando para o seu amigo que havia vencido. Que ele deveria cumprir a parte dele.
O ruivo o olhava chocado. Suas mãos ainda nos ombros de Shinya. Seus olhos o fitando.
— Eu te amo, Shin. Eu te amo. Quando eu te disse isso pela primeira vez, eu já tinha certeza de que o amava. Por favor... — sua voz saiu fraca. Fraca porque estava vendo as coisas pelo lado de Shinya agora. Porque entendia que o tinha magoado, profundamente.
— Então por que? Por que você não disse isso a ele? — a voz de Shinya tinha um tom tão suave que Die se viu com esperanças de ser perdoado. — Eu teria ficado bravo, mas eu o perdoaria. Mas você cobrou, Die. Você cobrou a aposta! Você trouxe Hideaki para nossa casa, mostrou tudo a ele! Me apresentou como seu namorado! E depois disse, quando estavam a sós "Eu venci! Eu conquistei o garoto!" E isso, Daisuke, isso eu não consigo perdoar.
E Die ouviu as palavras que Shinya não pronunciava, mas que certamente tinha em mente. E soube que não conseguiria fazê-lo voltar atrás. Havia sido um idiota. Um estúpido idiota. Havia falado de Shinya para Hideaki como se fosse uma mercadoria, como se fosse um brinquedo. E realmente, havia cobrado a aposta. Não era para Shinya descobrir. Não era para ele ter ouvido.
Die olhou para o presente de natal que o ex-namorado havia acabado de lhe dar. O globo de neve. O globo de neve da viagem para a Europa. Com o vidro rachado. Uma enorme rachadura, de ponta a ponta. E, se ele virasse de cabeça para baixo, ou sacudisse tentando fazer a neve cair na casinha, como deveria ser, ou o vidro terminaria de quebrar, ou a neve de mentira escaparia. De qualquer forma, nunca mais seria a mesma coisa.
— Feliz natal, Die. — disse saindo do apartamento de Kaoru. Deixando Die para trás. Este, apenas a olhar inconsolável para o globo quebrado. O globo que, mesmo se ambos quisessem mais do que tudo, nunca mais seria o mesmo. Assim como a relação que eles tinham construído ao longo daquele ano.
Quando Shinya abriu a porta de seu apartamento, recebendo o gentil sorriso de quem o esperava lá, finalmente sentiu toda a dor do momento que havia acabado de passar. E foi com alívio que recebeu o abraço carinhoso daquele homem.
Sim, doía naquele momento. Mas ele sabia que o tempo fecharia as feridas. Abraçou Kyo em retorno, deixando que as lágrimas finalmente caíssem de seus olhos. Kyo estaria ao seu lado, como sempre esteve.
E quem sabe, um dia, ele poderia olhar para Die como olhava para Kyo agora. Um antigo amor, que havia se tornado uma bela amizade.
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