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2 Capítulo 1: Gêmeos
Cabelos castanhos levemente ondulados e muito compridos balançavam conforme a cabeça que os segurava se agitava no ritmo da musica que tocava nos fones.
Não era uma música calma, estava mais para uma musica cheia de acordes e solos, uma música perfeita para acompanhar balançando a cabeça no ritmo.
Os lábios rosados se mexiam pronunciando a letra da música numa cantoria muda, as bochechas salpicadas por algumas sardas se mexiam conforme a musica ditava e seus olhos azuis brilhavam com a animação e bom humor que a musica trazia para ela.
Daniela Michaellys não parecia em nada uma princesa, sua roupa se baseava num coturno preto opaco cheio de detalhes de metal, um short de vinil preto e que ia até o meio das suas coxas uma camiseta branca de sua banda favorita tão comprida que cobria o short. Não usava maquiagem, pois não tinha paciência para ficar pintando sua cara, apenas seus lábios tinham uma corzinha a mais concedida pelo gloss.
A garota estava distraída no banco do Jatinho particular de sua família ouvindo suas músicas tão animadamente que não ligava para nada a sua volta, como por exemplo, quem estava do outro lado, sentado no outro grande banco ao lado da janela e tecnicamente ao lado dela, sendo separados pelo grande corredor apenas.
Cabelos da mesma cor dos de Daniela, cortados curtos o suficiente para não precisarem ser penteados, deixando um espetado irregular, mas que parecia ter sido feito propositalmente.
A cabeça estava inclinada levemente para frente e seus olhos azuis iam de um lado para o outro conforme seguiam as linhas do livro em sua mão. Suas bochechas possuíam mais sardas que as da irmã e eram um pouco mais rosadas. Sua boca estava inclinada para o lado num meio sorriso demonstrando o quanto a leitura estava sendo apreciada.
Daniel Michaellys era um príncipe, adorava literatura antiga, se vestia impecavelmente, por exemplo, agora ele estava com um sapatenis cinza escuro uma calça preta social, uma camisa branca, um colete preto risca de giz. Se não fosse pelo cabelo desalinhado, seria o perfeito exemplo de um mauricinho.
Mas talvez eu devesse relembrar-lhes que as aparências enganam, e as aparências desses dois príncipes enganam muito.
-Dan, o que você está lendo? – a garota perguntou enquanto tirava os fones de ouvindo, olhando desinteressada para o irmão, como se deixasse claro que queria apenas iniciar uma conversa para passar o tempo.
-Um livro sobre diplomacia – ele deu de ombros e marcou a página do livro antes de fechá-lo – o que tanto ouvia?
-As músicas que você mais odeia das bandas que você não suporta – ela contou entediada, mas deu uma risada sarcástica.
-Seus gostos são muito estranhos, não sabia que essas músicas afetam sua capacidade intelectual?
-E quem disse que eu quero ser um gênio? – ela arqueou uma sobrancelha – você é um gênio e veja como é sem graça – ela inclinou a cabeça um pouco para o lado mantendo sua feição de entediada.
-Acontece que gênios têm mais direitos, como por exemplo: escolher a escola onde vamos estudar, ter chances reais de ser rei e ter a confiança e orgulho de todos – ele se gabou.
-Não ligo para a escola que estudarei, não dou a mínima para a coroa, alias invejo o Gabriel, o Lucas e o Roberto que não podem mais ser reis – ela comentou indiferente com uma voz monótona – e pode ficar com o orgulho e confiança, eu não ligo.
-Você não liga para nada Daniele – Daniel afirmou um tanto enojado – não sei como podemos ser irmãos.
-Não podemos escolher a família, por isso escolhemos os amigos, não que eu tenha algum – ela estava pensativa olhando para o nada, mas logo deu de ombros – quer jogar algo? – apontou com a cabeça para a tela de LCD 15 polegadas que havia no banco da frente.
-Certo – Daniel lançou um último olhar indignado para a falta de interessa de sua irmã para as coisas a sua volta – uma partida de xadrez.
Os irmãos abriram o jogo ao mesmo tempo, e escolheram suas peças. Daniel, como sempre, escolheu as brancas, ele sempre gostava de ser quem começava, afinal para ele, quem começar o jogo é quem tem mais chances de ganhar, uma vez que tem, de certa forma, uma jogada a mais. E ele adorava estar em vantagem. Daniela não reclamou de ficar com as pretas, alias, ela sempre gostou de ser a segunda a jogar, uma vez que assim é vai fácil de ver o jogo do adversário e com uma jogada a menos fica mais evidente a tática do oponente que a sua.
-Última vez que jogamos você ganhou – Daniel comentou com rancor, sua irmã não tirava nenhuma nota maior que 8 e só não repetia por faltas porque era uma princesa. Uma pessoa assim não poderia ganhar dele, quem nunca falta nem tem uma nota abaixo de 10 – dessa vez quem vai ganhar serei eu.
-Certo – ela concordou indiferente olhando para a tela pensativa, mas logo fez seu movimento.
-Sempre espertinha, acha mesmo que seu cavalo vai durar muito tempo? – Daniel comentou arrogante analisando o tabuleiro.
-Não sei, eu gosto de jogar com o cavalo, então espero que ele dure – ela deu de ombros. Daniel sabia que ela estava se fazendo de tonta, mas o problema de Daniele é que não dava para realmente saber o que ela estava pensando. E isso sempre irritou Daniel. Afinal a única pessoa que ele não conseguia ler ou manipular era ela.
Quando os dois jogavam algo sempre demorava mais que o necessário, Daniele fazia jogadas rápidas e aparentemente desinteressadas, mas que sempre surpreendiam o garoto. Ele, por sua vez, gastava todo o tempo que tinha para fazer uma jogada pensando na que mais surpreenderia a irmã, mas não importava o quão audaciosa e perigosa fosse a jogada dele Daniele permanecia com seu jeito inexpressivo e levemente entediado de sempre. Era mais que frustrante, isso era a coisa que mais irritava Daniel no mundo.
A garota há muito aprendeu que estar sempre alheia a tudo lhe dá além de o poder da invisibilidade perante a sociedade, a habilidade de não ser analisada, uma vez que não permite ninguém ver o que está sentindo. Ela adorava isso, a maneira como fazia ninguém a entender e irritava a todos, era tão divertido para a garota que nem mesmo com o irmão, a única pessoa que ela considerava algo próximo a um amigo, ela deixava esse seu jeito. Mas ela tinha de admitir, estava sendo difícil permanecer entediada com seu irmão forçando tanto a barra. Afinal ela era humana e não gostava nada de perder.
A partida esquentava a cada movimento, cada peça comida, cada vez que o aviso de check aparecia em seus visores, mas embora cada um já tenha deixado o outro em check umas duas vezes, o jogo parecia tão equilibrado que logo só sobrariam os reis para que jogassem uma morte súbita. Mas nenhum queria chegar nesse ponto.
Daniela se concentrava tanto que a expressão de indiferença entediada mudou para indiferença concentrada. Nenhum dos dois se daria ao luxo de dar uma abertura ao outro, se tinha uma coisa que provava que eles eram irmãos era o fato de serem muito, mas muito competitivos.
-Check-mate – Daniela anunciou voltando ao seu tom entediado olhando para a tela com um brilho vitorioso nos olhos – você realmente não deveria ter comido minha rainha.
-Eu sei – Daniel murmurou mal-humorado, ela, mais uma vez ganhara dele. Isso sempre o irritava, Daniela não se esforçava para nada, não ligava para nada, parecia nem ligar para si mesma, mas mesmo assim o superava. Se não fosse pelas notas e o reconhecimento que ele tinha e ela não, a raiva que sentia da garota seria maior – só não acredito como você me enganou.
-Bem, foi fácil, eu te fiz acreditar que o cavalo era a peça que eu mais usava e que todas minhas jogadas levariam a algum dos cavalos, daí eu posicionei a torre e o bispo de modo que quando eu te distraísse com a rainha você fizesse a jogada que abriria as portas para meu cavalo dar o check-mate – ela contou distraída – mas foi um bom jogo – sorriu para o irmão para animá-lo, pegou o fone de ouvido e voltou a ouvir suas músicas.
Daniel desligou o jogo com raiva e voltou a sua leitura. Aquela explicação sonsa, o sorrisinho ‘animador’... Sua irmã parecia medir as ações especialmente para irritá-lo. Mas ele não podia ignorar o fato de ela ser mais manipuladora do que demonstrava, se seu pai soubesse como ela era inteligente isso com toda certeza a colocaria no páreo para a coroa. Já estava sendo difícil competir com os mais velhos, com Daniela na jogada isso seria mais complicado ainda. Suas chances diminuiriam tanto que ele teria de abandonar a idéia de ser rei.
Claro que, a irmã não se ligava para ser rainha e isso lhe dava uma boa dianteira, esse ano ele só precisa deixá-la o mais apagada o possível, seus pais não poderiam lembrar que Daniela existia. E enquanto ela vivesse em seu mundo apenas assistindo o que acontecia sem ligar, melhor para ela.
Uma mulher passou pelas cortinas, ela tinha cabelos loiros e curtos, olhos negros, lábios brancos e bochechas avermelhadas. Era uma mulher alta e com curvas que despontariam a inveja até das mais confiantes.
-Com licença – ela pediu sorrindo para os dois – Princesa Daniela, o que a senhorita deseja como jantar?
Daniela olhou entediada para a mulher – macarrão ao molho vermelho e água com gás – pediu monotonamente.
-Sim – a mulher fez uma pequena reverencia e se virou para Daniel – e quanto ao senhor, Príncipe Daniel?
-O mesmo – ele nem olhou para a mulher, estava com o olhar fixo no livro, nem havia ouvido o pedido da irmã, mas como ambos gostavam das mesmas coisas no quesito comida, não tinha do que se preocupar.
A mulher logo chegou com os pratos, colocou a bandeja de cada um nos suportes e desejou-lhes bom apetite, porém quando estava saindo Daniel a chamou – Sim? – perguntou sorrindo polidamente.
-Quando vamos chegar? – ele perguntou abrindo a garrafa de água.
-Chegaremos às seis da manhã, vocês serão levados pelo General Augusto até a escola, onde serão acomodados e às sete horas poderão começar suas atividades escolares – Daniela engasgou com a comida quando ouviu isso, mas logo bebeu água até passar e voltou a comer como se nada tivesse acontecido – a senhorita está bem?
-Sim – ela respondeu monotonamente levando o garfo para a boca.
-Certo, vou sair agora, qualquer coisa é só chamar – a mulher falou, Daniel concordou com um ‘certo’ educado e Daniela apenas piscou demoradamente para mostrar que entendeu. Ela sorriu para os dois jovens e saiu.
-Hoje será um dia interessante, não é mesmo?
-Receio – ela fez uma pequena pausa para comer uma pequena garfada — mas não teremos realmente muito que esperar, estamos indo para a escola, afinal.
-Não é apenas uma escola, é uma das melhores escolas do reino, sem contar que é um colégio interno.
-Vou morar na escola — ela parou como se para pensar em algo mas logo continuou sem emoção — não vejo muita graça nisso.
A maneira pausada, e entediada com um quê de ironia subentendido, para qualquer pessoa isso passaria despercebido, mas Daniel conhecia muito bem a irmã para saber que até mesmo um segundo a mais na fala, mesmo com a mesma entonação poderia significar uma mudança de ânimo na garota e nesse caso significava que ela estava irritada. E como ele gostava disso, saber que irritava a garota. Era a vingança perfeita. Afinal o único assunto que irritava Daniela era escola.
-Acontece, que eu terei muito mais tempo para ganhar a confiança e carisma dos professores — ele se gabou — e isso sempre é algo útil.
-Você vai puxar o saco dos professores, não vejo novidade nenhuma.
-Você deveria pensar mais a frente, Daniela — ele comentou. A garota apenas colocou a bandeja na cadeira da frente e colocou os fones de ouvido ignorando-o — ter a confiança dos professores e seu favoritismo sempre é muito, mas muito útil — continuou mais feliz que antes, para Daniele ignorá-lo era porque ou ela estava bem irritada ou por que ela achou que o assunto acabou.
-É — ela concordou lentamente de um modo que deixava claro que ela não ouviu o que ele falara, ou pelo menos fingiu que não ouviu.
-Mas é claro que você não se interessa, os professores nunca gostaram de você e você nunca ligou para a escola – ele continuou apreciando cada vez mais o momento.
-É.
-Mas não fique assim, talvez nessa escola os professores gostem dos alunos que não ligam para eles.
Daniela tira os fones e o encara – esse ano acho que vou me esforçar mais na escola.
Se Daniel estivesse bebendo algo com certeza engasgaria, ela não podia estar falando sério e exatamente por que ela iria falar isso tão de repente do jeito monótono dela sem nem mesmo ligar para o que estava falando – por quê? – a voz dele saiu levemente tremida e receosa.
-Papai disse que se eu não me esforçasse mais ele me daria o mesmo destino que o Roberto – ela olhou para o alto – e eu acho que isso é um problema.
Não. Ela começar a ligar para escola é um problema. Ela ser deserdada é a solução. A solução de um sexto dos problemas do irmão. A solução que ele mais precisava no momento, mas não, ser deserdada ERA um problema para ela. E isso era perigoso. Muito perigoso.
Mas ao mesmo tempo era algo importante, sua irmã finalmente admitiu interesse pela coroa. O que fazia o garoto se perguntar apenas uma coisa – o que eu fiz para você confiar em mim?
-Nada – ela respirou fundo – você é meu irmão gêmeo, isto basta.
Ele sorriu para a irmã, sim eles eram irmãos gêmeos deviam confiar um no outro – já está ficando tarde. Acho que devíamos dormir.
-Sim.
Ele se livrou da bandeja e deitou seu banco até ficar numa inclinação de cento e oitenta graus perfeita apagou a luz que usava para o iluminar e virou a cabeça para a irmã.
Ela deitou a cadeira e aumentou o volume da sua musica – noite – falou fechando os olhos para esperar o sono.
-Noite- ele respondeu fazendo o mesmo, não demorou muito para que ambos dormissem, ao mesmo tempo.
Os sonhos dos dois não foram nem de longe conturbados, ambos relaxaram e dormiram um sono solto recheado de sonhos que os agradavam e faziam querer dormir cada vez mais, para que aquele mundo perfeito jamais acabasse. È tão incrível como algumas vezes os sonhos mostram de forma distorcida e exacerbada os desejos mais profundos das pessoas.
Uma hora ou outra somos obrigados a acordar e a encarar a dura realidade que nunca irá nos agradar. A hora de acordar chegou quando o piloto anunciou de maneira bem alta que já estavam aterrissando. Isso foi o suficiente para acordar Daniel, que se encarregou de acordar a irmã.
-Estamos aterrissando – informou cutucando a garota.
-Bom.
Ela se levantou e guardou o celular cuja bateria acabara no meio da noite na sua bolsa de mão. Sentiu o balanço do avião ao tocar o chão. Não demorou para que ele parasse e a mulher de antes viesse os avisar que poderiam sair.
Daniela suspirou demoradamente e começou a andar, Daniel cedeu a passagem para ela, afinal, as damas primeiro. E mesmo sendo sua irmã, ele ainda era um cavalheiro.
A garota chegou à porta do avião e desceu as escadas com cautela para não cair e ser o motivo de chacota da imprensa por semanas, parado à alguns metros estava um homem que no momento ela não reconheceu, mas ao andar até o homem percebeu logo quem era.
Cabelos negros salpicados por fios cinzas e brancos penteados para trás, feições duras e sérias, um homem muito alto, de ombros largos, pele morena, olhos negros e uma imponência que passava segurança. Uma segurança ampliada pela sua farda de General do exercito.
-General Willys – Daniela deu seu primeiro sorriso verdadeiro desde que saíram da capital e abraçou o homem – você irá nos escoltar, imagino – logo voltou ao seu tom tedioso habitual dando espaço para o irmão cumprimentar o homem que, muitas vezes, ficara encarregado de protegê-los.
-General – Daniel sorriu e apertou a mão do homem.
-Crianças, vamos, o caminho daqui até a escola é longo – o homem falou com sua voz pomposa e ressonante.
Os três caminharam em silencio até onde dois carros esporte pretos os esperavam, entraram no primeiro, Daniela em uma janela, Daniel do seu lado e o General na outra janela. No segundo carro viram sua bagagem ser colocada lá por alguns soldados.
O general fala o endereço para o motorista e o carro logo começa a andar, saíram do aeroporto e passaram pelo centro da cidade.
Algo muito interessante, tantos prédios da mais alta tecnologia, carros, trens, bondes, metros, ônibus, casas de aparência confortável, lojas com produtos de qualidade e as pessoas que andavam por lá pareciam pessoas normais, habituadas com a imagem de concreto de uma grande cidade.
Porém conforme iam se afastando do centro, as casas iam diminuindo de tamanho, passaram por lindos subúrbios e quanto mais andavam as casas iam empobrecendo, na periferia haviam bairros que mais parecidos vindos de outro mundo, casas de madeira, sem acabamento, ruas disformes e algumas sem asfalto, as pessoas, embora acostumados pareciam milhões de vezes mais infelizes que as do centro. Dinheiro pode não trazer felicidade, mas ajuda.
Entraram na rodovia principal, a paisagem mudou novamente, sendo substituída por campos cheios de grama numa vastidão verde sem muitas construções.
Não foram necessário andar muitos metros, talvez uns seiscentos ou setecentos, logo o carro fez uma curva fechada e parou à frente dos grandes portões de ferro do Colégio Integral do Centro-Sul.
O motorista abaixou o vidro da janela para falar com o porteiro – vim trazer os mais novos alunos dessa instituição – disse seriamente e abaixou rapidamente o vidro por onde Daniela observava tudo para mostrar quem eram os estudantes.
-Podem passar – o porteiro informou e logo o portão se abriu cedendo passagem para os carros.
A janela novamente se fechou e Daniela pode ver os jardins bem cuidados da escola pelo vidro escurecido do carro, mas mesmo assim reparou no esmero que as árvores e plantas eram cuidadas e como os delicados caminhos de pedra branca eram reluzentes, demonstrando o cuidado que a escola tinha por manter tudo sempre na mais perfeita ordem.
A garota não pode deixar de soltar um longo assovio ao pararem na frente da escola. O prédio era muito maior do que ela imaginara, não chegava aos pés do palácio em que morou na capital, mas com toda certeza era a maior mansão que ela já vira.
Havia dois prédios ligados por um pátio aberto e um fechado. Provavelmente um eram os dormitórios e o outro a parte escolar.
Daniel não parecia surpreso, vira tantas fotos da escola que esperava algo assim. O carro logo parou na frente de um dos prédios, onde uma mulher de meia idade os esperava.
Ela devia ser quase uma cabeça mais baixa que Daniele, mas mesmo assim passava um respeito que a deixava bem mais alta que o real. Tinha um corpo roliço e feições cheias, porém severas, não parecia ser do tipo de diretora que os alunos gostassem de ver toda hora, muito menos do tipo de pessoa que passava sermões brandos.
-Bom dia – sua voz soava severa, mas seu sorriso de boas vindas amenizou tudo e suas bochechas rosadas davam-lhe um ar mais amigável do que a primeira impressão passou.
Os dois príncipes e o general saíram do carro e cumprimentaram a mulher com apertos de mão educados.
-Gostei muito dos jardins e da aparência da escola – Daniel elogiou dando um de seus melhores sorrisos.
-Fico contente que tenham apreciado – a mulher pareceu se inflar de orgulho, afinal não era todo dia que um Príncipe elogiava sua escola – vou pedir para alguém levar a bagagem de vocês para seus novos aposentos enquanto apresento-lhes a escola.
Com apenas um aceno de mão quatro mulheres apareceram e logo foram para o carro onde estavam as malas. A organização do lugar era impressionante.
-Vamos – a diretora fez um gesto com a cabeça para a seguirem e eles entraram na escola.
O chão era feito de um mármore reluzente, as paredes possuíam um tom pastel de amarelo, e a iluminação também possuía uma nuance amarelada para dar um ar mais requintado ao local, todas as portas eram de madeira nobre envernizada.
No primeiro andar havia o Salão Principal, a Cafeteria o Salão de Refeições e a passagem para os pátios. As escadas eram de madeira lustrosa e bem resistente, e as salas de aula estavam distribuídas pelos três andares acima.
-Nossa – os gêmeos murmuravam ao ver que a escola parecia ser tudo, menos uma escola tamanha a beleza e organização do lugar.
-Vocês estudarão no segundo andar, o horário das aulas estará no quadro de avisos que há no seu quarto – a mulher informou – junto dos horários estará um mapa completo da escola.
-Certo — Daniel concordou dando um passo a frente da irmã.
-Como eu havia mencionado antes, esta escola era na realidade um dos palácios de férias do antigo Reino de Raffik, por isso tentamos manter o requinte de um palácio para agradar a todos os alunos de nossa Instituição.
-Interessante – Daniel sorriu, enquanto iam para a sala dela no final do corredor do segundo andar.
-Minha sala é esta e do lado dela é a enfermaria, quaisquer problemas essas duas portas estarão sempre abertas – ela sorriu ao indicar as duas portas de madeira mais escura nas quais havia duas plaquinhas indicando o que era cada uma – os inspetores circulam a escola integralmente então qualquer duvida nãos e acanhem em falar com eles.
-Certo – Daniel novamente falara empolgado, enquanto a garota apenas acenava com a cabeça olhando distraída para todos os cantos da escola.
-Agora, que tal irmos conhecer os dormitórios?
-Seria bom, logo as aulas desses dois vão começar, certo? – o general finalmente se pronunciou pinçando para os dois príncipes.
-Eles não deveriam descansar? A viagem foi longa – a diretora comentou.
-Não, é um dever de todos os príncipes estarem prontos para cumprir com suas responsabilidades, cansados ou não – ele contou dando tapinhas carinhosos nas costas dos adolescentes – e pense assim isso ainda é melhor que o treinamento militar.
A senhora deu uma longa risada – não posso discordar disso – continuaram andando.
Daniel lançou um olhar presunçoso para a irmã, que apenas deu de ombros e continuaram a seguir os adultos.
-Admita, você gostou dessa escola – Daniel cochichou provocante.
-Sim.
Ao passarem pelo pátio externo viram os bancos de pedra, os caminhos bem arranjados os canteiros floridos e a grande fonte no centro.
O prédio dos dormitórios era idêntico ao das salas, com a mesma decoração e corredores cheios de portas e salas.
-O dormitório masculino fica no segundo andar e o feminino no terceiro, o primeiro andar fica a área de lazer, biblioteca e laboratórios de informática, biologia e exatas.
-Interessante – Daniela murmurou.
-Princesa Daniela, seu quarto é o 39 e príncipe Daniel o seu é o 29, nenhum de vocês possui colegas de quarto.
-Certo – ambos concordaram.
-Acho que deixaremos vocês por aqui – o general comentou sorrindo e a diretora concordou.
-Lembrem-se que sua primeira aula começa daqui a dez minutos.
Os dois acenaram com a cabeça e foram subir as escadas, passavam por vários estudantes que os encaravam descrentes sem conseguirem acreditar que dois príncipes estavam mesmo por lá.
-Te vejo em alguns minutos – Daniela falou quando chegaram ao segundo andar.
-Não se atrase – ele retrucou e foi procurar seu dormitório.
Daniela não demorou a chegar ao seu andar, pode ver o que o movimento por lá era bem mais intenso, as garotas ficavam andando de um quarto para o outro enquanto penteavam os cabelos ou calçavam os sapatos.
Tentou caminhar o mais silenciosa que pode, mas não pode evitar que alguém trombasse com ela.
-Ah me descul... – a garota loira, alta de feições doces e olhos castanhos desligados começou a falar, mas logo parou ao encarar Daniela.
-Se você não falar em voz alta quem eu sou eu ficaria muito grata – a princesa pediu e a loira concordou com a cabeça.
-Qual é o seu quarto?
-Trinta e nove – a morena respondeu entediada ao ver que seu quarto era o último do corredor.
-Minha vizinha então, vem, vou te ajudar a passar.
Andaram desviando das garotas sem chamar atenção até pararem na frente das duas últimas portas daquele corredor, o lugar menos movimentado dali.
-Obrigada – Daniela agradeceu polidamente e foi para seu quarto.
-Ei! Er... Princesa – a garota chamou-a abaixando a voz quando pronunciou princesa – está em que ano?
-Segundo – Daniela deu de ombros – e me chame de Daniela, aqui eu sou apenas uma estudante – dizendo isso ela entrou no seu novo quarto.
-Então me chame de Alyssa — a loira falou parando na frente da porta do quarto de Daniela – bem vinda a nossa escola, sou a monitora chefe do terceiro-ano, qualquer coisa é só me pedir.
-Certo, obrigada – Daniela agradeceu e esperou Alyssa sair do beiral da sua porta para fechá-la.
Olhou para o quarto que consistia de uma pequena mesa para os estudos, um sofá à frente da lareira, a entrada para o quarto. Por lá havia um guarda-roupa de madeira, uma cama de dossel com colchas claras e uma porta que levava ao banheiro. Era um ótimo quarto.
Abriu o armário e pegou um dos cinco uniformes que estava pendurados entre suas roupas.
Não enrolou para colocar a camisa branca de mangas largar e punho preso, amarrar o delicado lenço de seda no pescoço e prendê-lo com o colete verde xadrez. Vestiu a saia verde de igual xadrez que ia até a metade de suas coxas e por final colocou a meia cinza que ia até onde a saia terminava. Seu maior problema foi em calçar o sapato de boneca preto, uma vez que não estava acostumado com esse tipo de sapato.
Olhou para o espelho que havia na porta do armário e não gostou do que viu, aquela roupa não era, com toda certeza uma roupa que ela usaria por livre e espontânea vontade. Abriu outra porta e pegou seus livros e caderno.
Pensou que seria interessante cobrir seus cabelos com um boné, mas depois lembrou-se de não ter visto ninguém, nem mesmo os meninos usando tal acessório. Deu de ombros e saiu do quarto.
Todas as garotas estavam agora com tanta pressa para terminarem de se arrumar em tempo que passar por elas sem chamar atenção foi uma tarefa simples.
Como se houvessem combinado, ao passar pelo segundo andar, Daniel se encontrou com ela, completamente arrumado e pronto para seu primeiro dia de aula.
O lenço, a camisa e o colete eram muito parecidos com o que a irmã usava, no lugar da sai o uniforme dos meninos era uma calça verde xadrez corte social e um sapato social preto.
A maneira como ele segurava sua maleta marrom o deixava parecendo o mais perfeito aluno que uma escola poderia desejar.
Correram pelo pátio para ganhar tempo e continuaram sua caminhada até a sala de História, sua primeira aula do dia.
-Bom dia – Daniel cumprimentou o professor que assistia os alunos entrarem enquanto esperava o sinal tocar para fechar a porta.
-Ora, então você realmente vieram – ele comentou olhando-os de cima a baixo – o garoto lembra muito o Rei Gabriel, mas você, garota é a cara de Franchieska – ele sorriu – vocês prometem – afirmou – que tal esperarem até todos entrarem para podermos fazer as apresentações – embora o tom de sugestão o homem deixou claro que era uma ordem e que eles deveriam ficar esperando todos entrarem do lado de fora.
Aluísio Romão, o professor de história mais adorado da história da escola, começou a dar aulas com vinte e dois anos sem nem mesmo ter terminado a faculdade e foi tão bem recebido que continuou no ofício.
Hoje com trinta e sete anos, cabelos raspados por causa de uma aposta, sobrancelhas largas e loiras, olhos azuis, queixo saliente e um grande nariz ele mantém seu status de detentor da aula mais legal da escola. O que era algo muito interessante para um cara de um metro e sessenta e cinco que não impunha respeito nem em uma mosca se fosse contar com sua aparência.
O sinal bateu com seu tinido irritante, mas que todos os alunos no fundo adoravam, uma vez que ele sempre marcava quanto tempo faltava para as aulas acabarem.
-Agora sim, você podem entrar – o professor sorriu de canto e fez um sinal para os dois entrarem na sala.
-Você primeiro – Daniel comenta rindo, quando sua irmã passou na sua frente e entrou na sala sentindo-se mais entediada do que nunca.
Notas finais
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