Glitter In The Air

16 Capítulo 16 - Sermão, Nojo e Amêndoas


Eu havia acordado ainda mais irritada que nos dias anteriores hoje. E sabe aquele sentimento péssimo que eu estava sentindo por ter afastado o Jack de mim? Pois então, isso já estava sendo esquecido? O por quê? Simples. Ontem tive que escutar duas horas de sermão da minha mãe por uma possível bagunça que eu possa ter feio com o “coitadinho” do Jack. Pois é, para que seja bem notório o quanto eu sou querida pela minha família, bem, do meu pai eu nem falo, porque, quando ele ficou sabendo que eu não estava conversando mais o Jack, ele quase deu os mesmos pulinhos da mamãe quando a mesma veio me falar da suposta viagem para São Francisco, ai já dá até pra imaginar não é? Lá foram eles discutir sobre esse assunto inútil na sala. Não que eu não tenha gostado, dito que, por isso, a mamãe me deixou em paz com o assunto Jack.

Estava com uma toalha enrolada em meio corpo e xinguei todas as gerações passadas da minha mãe quando abri meu guarda-roupa. Lá estavam outra vez os malditos shorts, saias e blusas decotadas que deveriam ser proibidas de serem usadas em qualquer ocasião em qualquer lugar. Capaz que isso é até uma indireta da minha mãe, do tipo “Ah filha, se nada der certo... Vire puta!”, porque cá pra nós... É essa mensagem que ela está me mandando.

Vesti uma saia de pregas que parecia ser uma das maiores peças existentes ali, junto com uma regata branca, juntamente com um casaco para ver se dava para tampar aquele pedaço de pano que a minha mãe chamava de blusa. Calcei meus inseparáveis all-stars (ao menos de uma coisa boa ela não havia se livrado) e desci para tomar café. O clima na mesa não estava um dos melhores, deviam estar tensos ainda pela discussão ridícula da minha mãe de ontem.

- Bom dia. – disse de modo retórico não esperando resposta. Tomei um copo de suco de laranja e peguei uma maçã no fruteiro para logo ir em direção à porta. Os meus pais? Bem, quando eu cheguei estavam mudos e, quando sai, continuaram calados. Não dei à mínima, pra falar a verdade, eu preferia aquele silencio gostoso de manhã que ficar ouvindo abobrinhas logo de manhã.

Quando cheguei à porta do colégio tive de respirar fundo antes de entrar. Depois da minha troca forçada de guarda-roupa era sempre uma luta interna entrar naquele antro de pessoas falsas e irritantes, sem contar que as pessoas passaram a me olhar de um jeito ainda mais estranho que antes e aquilo me assustava, mas, logo esse medo passava e eu tinha vontade de socar todo mundo quando via uns idiotas olhando para as minhas pernas. Aquilo era tão ridículo, eu nem tinha pernas! Pareciam mais dois palitinhos de dentes e esses idiotas ficavam olhando e ainda fazendo comentariozinhos ridículos que conseguiam ser piores do que aquelas cantadas de pedreiro do tipo “Você é o ovo que faltava na minha marmita”.

Entrei na minha sala de aula e fui para meu costumeiro lugar, tudo parecia normal, normal até de mais... E tudo se intensificou quando eu o vi... Ele estava sentado ao lado da Sharon e a mesma estava pendurada em seu pescoço dizendo coisas em seu ouvido que o fazia rir. Um nó havia se formado na minha garganta... E u não entendia muito bem o por que disso, mas, aquilo estava me incomodando, mais até do que deveria e eu não estava gostando nada disso. Levantei minha cabeça que havia baixado para conseguir digerir aquela cena nojenta e andei outra vez em direção ao meu lugar.

Sentei-me e tratei de ignorar os risinhos e os olhares que Sharon às vezes lançava em minha direção. Ela ria com vontade e exibia sua arcada dentaria que provavelmente já passara por uns mil e cem clareamentos. É, parece que a ordem natural das coisas decidiu me fazer uma visitinha um tanto quanto atrasada.

- Dói, não dói? – ouvi uma voz feminina e me virei para ver de quem se tratava. Não a conhecia, na verdade, eu não conhecia muitas pessoas daqui. Ela tinha cabelos ruivos com cachos que davam inveja à qualquer Sharon da vida, além de olhos castanhos que pareciam duas amêndoas de tão grandes.

- Quem é você e do que está falando? – disse com sobrancelhas franzidas.

- Alexia Portinari, e você sabe muito bem do que eu estou falando. – disse a tal Alexia enquanto se sentava ao meu lado, no lugar que um certo tratante ocupava antes.

- Olha, você deve estar louca. Costuma tomar algum medicamento que acabou esquecendo hoje? – disse e ela apenas riu.

- Bem clássico. Esconder-se por trás da ironia e do sarcasmo. – disse a louca enquanto movia sua cabeça de um lado a outro em modo de negação. Eu já passava a me assustar com aquela garota.

Eu poderia até dizer que a ordem natural das coisas havia voltado (mesmo sem que eu realmente quisesse), mas, com essa louca que agora estava sentada do meu lado e dizendo coisas sem sentido... Não sei não, ein.