Glass Masterpiece
2 Capítulo 2
No caminho par casa lembrei-me das palavras de Mr.Clarks. "Sei perfeitamente o quanto precisas deste emprego". Na nossa pequena vila era muito difícil encontrar emprego. Todos os postos haviam sido ocupados e os jovens eram obrigados a mudarem-se para a cidade. Algo que eu não posso fazer, já que isso significa deixar os meus pais e o meu irmão sozinhos.
O meu pai era o único que trabalhava, e o que ganhava não era suficiente. Assim, decidi que ajudaria com o que Mr.Clarks me pagaria na livraria . Chegamos ao final do mês sem nada, mas não nos queixamos. Pior seria se eu não trabalhasse. Os nossos problemas financeiros também são a razão pela qual não fui para a universidade.
Tenho 18 anos. Acabei a escola há 3 meses. E Robin aceitou-me na sua loja um mês após tal.
Estamos agora em Setembro. Por esta altura gera-se uma azáfama na cidade, uma vez que todas as crianças regressam à escola. E os pais andam de um lado para o outro na rua principal para comprar tudo, uma semana antes. As crianças correm atrás deles com compridas listas que alcançam o chão, tentando fazer chegar aos ouvidos dos seus atarefados parentes, as coisas desnecessárias que desejam.
Com um sorriso carinhoso, viro para o trilho onde se situa o meu lar, na entrada de uma floresta. É uma casa que nos ficou da minha bisavó, o que diz muito acerca do seu aspecto: paredes com rachas, que ameaçam desabar a qualquer momento, janelas que deixam o frio penetrar, porta com uma fechadura insegura. No entanto, é acolhedora e cheia de alegria.
Com passos inseguros e apressados, dirijo-me para a porta, atravessando a escuridão. O facto de apenas árvores e arbustos rodearem a casa nunca me agradou. Demasiado mistério e suspense para mi. Contudo, é esta a casa que temos, é nesta que vamos viver.
Enquanto introduzia a chave na fechadura, um movimento entre os arbustos captou a minha atenção. Congelei. Foquei o meu olhar no sítio, esforçando-me para reparar em algo entre o negro da noite. Quando percebi que não conseguiria ver nada, decidi encaminhar-me para o arbusto misterioso. Devagar, com a respiração pesada e pernas trémulas, aproximei-me e afastei os ramos. Os meus olhos assustados pousaram num pedacinho reluzente. Era um pedaço de vidro. Peguei nele com as mãos a tremer, para o poder analisar. Foi então que me apercebi do sangue que pintava a ponta do objecto. Num movimento brusco, atirei o vidro para o chão e corri para casa, encostando-me à porta, depois de a trancar. Mal os meus batimentos cardíacos estabilizaram e a respiração regularizou, juntei-me à minha família na sala de estar.
"Francesca, querida. Chegaste!" saudou a minha mãe
"Mana" o meu irmão abraçou-me pela cintura. Consegui libertar-me do seu forte abraço e informei:
"Hoje estou um pouco cansada, vou para o meu quarto. Ah. E não vou descer para o jantar. Peço desculpa."
"Está tudo bem?" questionou a minha mãe, com a dúvida e preocupação evidentes na sua voz.
"Sim está, não te preocupes" disse massajando o ombro "estou apenas cansada."
Com isto, percorri o corredor até alcançar o meu quarto. Não era muito espaçoso. Cabia apenas a minha cama e uma mesinha de cabeceira. As paredes eram brancas acinzentadas e apanhavam humidade facilmente.
Sentei-me na cama, encostando as costas à parede.
Não era hábito eu deixar a minha família. Normalmente, sentava-me no chão a brincar com o Luizinho, enquanto os meus pais conversavam e juntos via-mos televisão, que por vezes precisava de umas pancadas para funcionar decentemente. Nós somos unidos, muito unidos. Temos de ultrapassar as dificuldades juntos. Damos muito valor às tardes que passamos a saborear a companhia uns dos outros. E os risos que partilhamos ajudam a esquecer o lado negro da nossa vida. Rir é, portanto, algo que fazemos com frequência. Uma espécie de cura para a tristeza.
Sorri perante esta conclusão e a minha mente viajou, de volta, até ao pedacinho cintilante salpicado de sangue que encontrei no jardim. No entanto, eu obriguei-a a concentrar-se em descobrir uma maneira para continuar a ler o livro que Robin me proibiu de tocar. Havia algo sobre aquela que me traia como um íman. Finalmente, contentei-me com a decisão de que ficaria na livraria até mais tarde na altura em que chegarem livros novos, para os organizar, e deste modo teria a oportunidade de encontrar a obra e continuar a minha leitura. contente com o meu plano, deixei-me cair no sono, ansiosa por saber o que o dia de amanhã me traria.
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