Glass Humans
10 Pólvora
Notas iniciais
Andrew recolheu os talheres, pratos e resíduos deixados em cima de uma das mesas e levou tudo para a cozinha, onde uma outra pessoa era responsável de lavar o que devia ser reutilizado e jogar fora o resto. Ele retornou para o caixa e ficou à espera que mais tarefas surgissem. Já fazia algum tempo que esta havia se tornado a sua rotina e a sua chefe parecia contente com o seu trabalho:
—Vai haver uma festa esse fim de semana. -Disse Charlote aproximando-se. -Você quer ir?
—Não sei se festas são bem a minha coisa... -Respondeu ele meio cético em relação à proposta.
—Você já foi à alguma?
—Não...
—Então como você pode ter tanta certeza? -Riu ela.
—Para começo de conversa, que tipo de coisas você faz numa festa?
—Consumir substâncias ilícitas, dançar, conhecer pessoas, conversar, esse tipo de coisas.
—Eu posso “consumir substâncias ilícitas” sozinho e não é como se eu soubesse dançar...ou falar com pessoas...
—Calma, você está achando que vai haver alguma espécie de dança sincronizada ao ritmo da música e quem não souber os passos é expulso da festa e humilhado publicamente?
—Não, eu não fui tão longe assim...
—Ninguém vai estar sóbrio e as luzes fazem com que você não consiga ver muito, eu digo dançar, mas é mais balançar os seus braços e pernas sem muito ritmo, estão todos prestando atenção nas próprias vidas, mesmo se você tiver um ataque de epilepsia, é provável que ninguém repare.
—Calma, isso não seria um pouco perigoso então? E de qualquer forma, qual é a graça em balançar os meus braços e pernas?
—Dançar é muito mais do que palavras podem descrever.
—Você parece realmente entusiasmada.
—Claro que sim! Eu talvez não te force a vir comigo, mas eu tenho quase certeza que vai ser uma experiência bastante divertida.
—Mesmo se eu quisesse, eu não sei se os meus pais deixariam...
—Ei, vocês dois, parem de conversar! Tem um casal à espera de ser atendido. -Disse Wanda aproximando-se do caixa.
—Desculpa, já estou indo lá. -Respondeu Andrew.
A quantidade de clientes do restaurante hoje havia sido um pouco maior do que o habitual, o que deixou Andrew também mais cansado do que o habitual. Mas ao chegar ao fim do dia, o orgulho que ele sentia de si mesmo acalmava o seu coração. Como de costume, as portas do restaurante fecharam e os dois caminharam para fora. A mãe de Andrew dessa vez já o esperava no estacionamento:
—Até amanhã! -Disse Charlote indo buscar a sua bicicleta. -Não esqueça de falar com os teus pais sobre a festa!
—Até amanhã. -Respondeu Andrew ainda ponderando a decisão.
Charlote era alguém que fazia as pessoas sentirem-se confortáveis à sua volta e Andrew não era uma exceção. Ele tinha interesse em descobrir qual era a magia das coisas que a faziam sorrir. Mas ele conhecia os seus pais, especialmente o seu pai e como ele nunca voltava atrás nas suas decisões. Andrew tinha certeza que se tentasse discutir a possibilidade de ir à essa festa, tudo o que teria de resposta seria um curto e grosso “Não”. Com a sua mente cheia de pensamentos, naquela noite, ele teve dificuldades em dormir mesmo após a sua caminhada habitual. E um novo dia nasceu.
—Bom dia! -Disse Charlote já na sua posição habitual.
—Bom dia. -Respondeu Andrew bocejando enquanto entrava no restaurante ainda vazio. -Como você consegue estar tão animada de manhã?
—Muito café! -Sorriu ela.
Sem muita pressa, todos os funcionários ali presentes começaram a arrumar as mesas e preparar o restaurante para a abertura. Muitas pessoas iam ali tomar café da manhã e após tantas vezes, um certo laço de amizade formava-se entre os clientes e quem ali trabalhava:
—Então...você vai à festa? -Aproximou-se Charlote deixando as suas intenções bem claras.
—Ainda não sei, onde é a festa de qualquer forma?
Charlote sorriu percebendo o interesse de Andrew:
—Mais ou menos uns três quilômetros daqui. Eu posso te mandar a localização se você quiser...
—Isso é um pouco longe, não sei se dava para ir a pé.
—Eu acho que tenho espaço para você no carro onde vou.
—Você vai com quem?
—Com uns amigos.
—Eu nunca vi essas pessoas antes na minha vida, isso não seria estranho?
—Não se preocupe, eles também nunca te viram antes.
—Não foi isso que eu quis dizer...
—Não há problema, todos os meus amigos são as melhores pessoas do mundo, eles não se importariam em te levar.
—Eu ainda não sei de qualquer forma, isso tudo é apenas uma hipótese. -Recuou Andrew.
—Sim, sim, uma hipótese. -Riu Charlote. -Mas você já falou com os teus pais?
Andrew desviou o olhar:
—Ainda não...
—Calma...você está pensando em ir sem dizer nada a eles?
—Talvez...meu pai vai dizer que não se eu perguntar de qualquer forma.
—Andrew, de onde surgiu tanta rebeldia? Eu esperava mais de você...
—Foi você que me convidou para a festa! Porque você está tentando pôr a culpa em mim agora?
—Eu só te convidei...você tinha a opção de recusar...
—Você é um monstro...
Charlote riu:
—Calma, calma, mas sendo assim, eu vou te passar o meu número para depois podermos combinar a hora que vamos passar na tua casa.
—Eu ainda não tenho certeza se vou!
—Sim, sim, aqui, esse é o meu número. -Respondeu Charlote não dando muita atenção ao que Andrew dizia.
—Você está me ignorando... -Disse Andrew começando a anotar o número.
—VIU! Porque você está anotando o número se não vai à festa?
—Porquê...isso é apenas... -Respondeu ele corando. -Precaução! Isso é tudo considerando a possibilidade em que eu vá...
—Sim, sim, com certeza.
Wanda começou a caminhar em direção ao caixa com um olhar intimidador:
—Vocês realmente gostam de falar, não é mesmo?
—Eu estava quieta...foi culpa do Andrew... -Respondeu Charlote desviando o olhar.
—Desculpa...O QUE? Foi ela que começou a conversa!
—Charlote, vá ajudar o Raphael na cozinha.
—Sim, sim, chefe!
—Você fica aqui comigo, Andrew, acho que chegou a hora de te ensinar a anotar pedidos de clientes.
—Sim, chefe... -Respondeu Andrew intimidado pela presença de Wanda e pela possibilidade de interação social.
E de alguma forma, algo que Andrew nunca tinha imaginado estava prestes a acontecer. A sua mente estava repleta de ansiedade, expectativas, medos, nervosismo e animação. Ele tinha que planejar tudo perfeitamente para que nada desse errado, se seus pais descobrissem isso, ele sofreria punições que nem era capaz de imaginar. O dia finalmente chegou e ele não podia estar mais inquieto.
Problemas que ele nunca achou que teria que superar apareceram na sua vida. E enquanto pensava em tudo desde as roupas que escolheria, o perfume que mais faria sentido para a ocasião até como iria cumprimentar os amigos de Charlote ou se os seus pais iriam entrar no seu quarto durante o tempo em que estava fora. Mas os ponteiros do relógio continuavam implacáveis como sempre e antes que ele percebesse, faltava apenas uma hora.
Ele penteou o seu cabelo, vestiu uma calça jeans, uma camiseta branca, uma jaqueta jeans e sentou-se na sua cama. Dois segundos depois, ele levantou-se e começou a andar pelo quarto novamente para confirmar que não tinha esquecido nada. Vivendo uma das horas mais longas da sua vida, ele aproximou-se da janela e começou a descer o telhado sem fazer muito barulho. Quando de repente, ele ouviu um barulho extremamente familiar: alguém batendo na porta do seu quarto.
O seu coração imediatamente começou a bater duas ou três vezes mais rápido que antes. Da forma mais rápida e silenciosa possível, ele voltou para dentro do seu quarto, fechou a janela e tentou responder num tom normal:
—Sim?
Havia um bilhão de pensamentos circulando a sua mente naquele momento e ele nem sabia se era capaz de manter uma conversa normal:
—Era só para avisar que amanhã vamos sair para almoçar então tente não acordar muito tarde. -Disse a sua mãe. -Boa noite.
—Sim...tudo bem...boa noite...
Ao ter certeza de ter ouvido a porta do quarto dos seus pais fechar, ele respirou fundo. O seu coração continuava a bater freneticamente, mas agora ele estava um pouco atrasado devido a este imprevisto. Ele dirigiu-se à janela do seu quarto e repetiu o mesmo processo de antes. Andrew havia pedido que Charlote e os seus amigos esperassem um pouco longe da sua casa para ter certeza que os seus pais não veriam nada. E na posição combinada, lá eles estavam:
—Você está três minutos atrasado! -Disse Charlote colocando a sua cabeça para fora do carro através da janela do copiloto.
Andrew aproximou-se da porta traseira esquerda do carro e tentou abri-la com as suas mãos suadas:
—Boa noite. -Disse ele um tanto desengonçado. -Desculpa...eu tive um pequeno imprevisto...
—O motorista é Diego, o rapaz sentado à tua esquerda é Daniel e a menina entre vocês dois é Claire. -Disse Charlote sentada ao lado do condutor fazendo as apresentações. -E o novo integrante do nosso grupo é Andrew!
—Meu nome é Clara, já agora, prazer em te conhecer, Andrew. -Comentou a jovem sentada ao lado de Andrew.
—Sim, Claire é o nome dela apenas para amigos íntimos. -Intervém Charlote.
—Só ela me chama de Claire... -Sussurra Clara para Andrew.
—Com o grupo reunido e as introduções feitas, acho que está na hora de irmos, não é mesmo? -Sorri Charlote.
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