Notas iniciais
Eu achei que tinha agendado o capítulo na semana passada, mas depois percebi que não o tinha feito. Acabei por postar no dia errado, mas dessa vez pelo menos foi adiantado e não atrasado! Diria que estamos fazendo progressos, especialmente porque o capítulo dessa semana está saindo na segunda! Boa leitura!

—Eu entendo que foi um erro e fico muito triste por você, por que eu sei que você é um rapaz muito dedicado, mas realmente não há nada que possa ser feito. -Explicou a professora. -Como você faltou ao exame e não têm nenhuma justificação, você vai ter que repetir aquela disciplina.

—Sim, tudo bem. -Respondeu Andrew.

—Se você se sentir confiante, pode apenas fazer o exame no próximo ano sem assistir as aulas. -Acrescentou ela.

—Ah, isso também é uma possibilidade?

—Sim, você tem apenas que fazer a tua inscrição com alguma antecedência.

—Essa é uma ótima notícia, obrigado por me dizer. -Agradeceu ele.

—Por outro lado, você teve classificações excelentes nos outros exames que fez.

—Obrigado. -Disse Andrew com um pequeno sorriso no seu rosto.

No meio de tudo o que aconteceu de mal recentemente na sua vida, pelo menos os seus esforços deram frutos. A professora era capaz de sentir uma atmosfera estranha à volta de Andrew, mesmo que as suas palavras fossem normais, havia uma acentuada expressão de cansaço no seu rosto:

—Sei que você está triste agora, mas se você continuar se esforçando, eu te garanto que a situação vai melhorar.

Aquilo irritou-o. Mesmo sabendo que as intenções daquela mulher eram as mais puras, o que ela sabia para falar de forma tão otimista? Mas a raiva que pulsava no seu corpo ainda era um sentimento fraco comparado com a tristeza que o acalmava. Ele encarou-a com olhos frios, que nem mesmo ele sabia que possuía, deu uma resposta breve e caminhou para fora da sala. Afinal, a sua mãe esperava-o no carro.

—Então, o que ela disse?

—Eu posso fazer só o exame dessa disciplina ano que vem, não preciso perder um ano. -Respondeu Andrew entrando no carro e fechando a porta.

—Isso é bastante bom! -Sorri Laura. -Talvez você tenha que se esforçar mais no ano que vem, mas não perder um ano é ótimo.

—Sim.

Ela deu partida ao carro e iniciou o trajeto à casa. Em meio ao silêncio da viagem, Laura, percebendo que talvez falar pudesse suavizar a atmosfera, iniciou uma conversa:

—Como...você tem se sentido? —

—Não sei. -Respondeu Andrew sinceramente. -Estou pensando em começar a trabalhar: ocupar uma parte do tempo livre que tenho e ganhar algum dinheiro.

—Parece uma boa ideia. Você já sabe onde?

—Ainda não, tenho que pesquisar na internet.

—Sim, faça isso.

E mais uma vez houve silêncio. Angustiante para ela, que se sentia obrigada a dizer algo. Indiferente para ele, que estava perdido nos seus pensamentos. Como quem tenta acender uma fogueira já apagada, ela voltou a insistir:

—Você sabe que...se precisar de qualquer coisa, eu estou aqui para você, certo?

—Sim, eu sei, mãe.

—Tudo bem.

E dessa vez o silêncio foi definitivo. Eles rapidamente chegaram à casa e seguiram os seus respectivos caminhos. Andrew entrou no seu quarto, trancou a porta, abriu a última gaveta da sua escrivaninha e tirou, escondido de baixo de uns papéis, um maço de cigarros. Ele abriu-o e, percebendo que estava vazio, suspirou:

—É...eu realmente preciso de dinheiro...

Apesar da necessidade, não era como se arranjar um trabalho fosse uma tarefa fácil e Andrew estava ciente disso. Ele nunca havia trabalhado antes, a sua coordenação motora e habilidades físicas no geral eram bem abaixo da média, os seus conhecimentos eram puramente teóricos e a sua capacidade de comunicação era praticamente inexistente. Tendo isso em conta, a pergunta era, o que ele conseguia fazer?

Depois de bastante refletir, ele acabou por retornar à resposta inicial: nada. Em circunstâncias normais, Andrew desistiria dessa ideia e voltaria à sua zona de conforto. Porém, naquele momento, ele era incapaz de sentir-se confortável independente do que fizesse. Andrew sentia que não tinha nada a perder. E por outro lado, se ele não tinha nenhuma habilidade notável então independente de qual trabalho ele escolhesse, o resultado seria igual.

Mas isso não era algo que o assustava, saber que estava destinado a fracassar antes mesmo de tentar, aliviava-o de alguma forma, tirava a responsabilidade das suas costas. Então, sabendo que seria despedido antes mesmo de ter começado a trabalhar, Andrew começou a procurar por trabalhos na internet. Rapidamente ele achou algo relacionado a construção civil não muito longe da sua casa.

A proposta dizia que era preciso alguém para trabalhar sexta, sábado e domingo no término de casas. O horário era das sete às dezesseis, com uma hora de almoço entre o meio-dia e as treze. O pagamento era razoável e o trabalho consistia apenas em descarregar e carregar os materiais de um camião. Andrew analisou aquilo com cautela e decidiu ligar para o número que estava exposto no site.

Mesmo que tivesse a mentalidade certa, ele não conseguia evitar o nervosismo. Antes mesmo que tivesse tempo de preparar o seu discurso, a voz do outro lado respondeu:

—Boa tarde, em que posso ajudar?

—Ah...b-boa tarde. -Gaguejou Andrew. -Estou ligando para falar sobre...o trabalho de descarregar camiões...

—Sim, ainda estamos precisando de pessoal, o senhor poderia me dar o teu nome e número de celular então?

—Meu nome é Andrew e o número de contacto é...esse que eu usei para te ligar.

—Tudo bem, podemos contar com o senhor essa sexta-feira então?

—Sim...

—Obrigado e de resto um bom dia.

Andrew não disse nada e ouviu o som da chamada sendo terminada. Ele respirou fundo ainda nervoso, mas já sentindo que tinha feito progressos. Aproveitando que o seu pai não estava em casa, ele desceu até à cozinha à procura da sua mãe e explicou-lhe a situação. Ela, que conhecia a personalidade de Andrew, sentiu-se bastante orgulhosa do seu filho. Mas por mais frio que isso parecesse, o principal motivo pelo qual Andrew informou a sua mãe era para que ela pudesse levá-lo até o trabalho.

O resto da semana seguiu normalmente com a exceção da ansiedade que ele sentiu e o dia prometido chegou. Ele não dormiu bem na noite anterior por ter pensado demais, mas mesmo assim levantou-se às seis da manhã. Enquanto realizava os seus procedimentos matutinos habituais, a sua mente enchia-se de expectativas em relação ao seu primeiro dia de trabalho.

Andrew desceu as escadas, caminhou até a cozinha e encontrou lá a sua mãe, com uma pequena refeição já preparada. Ele sentou-se à mesa e começou a comer sem muita pressa:

—Os seus olhos parecem cansados, você dormiu bem? -Perguntou ela sentando-se também.

—Mais ou menos.

Os dois terminaram de comer e se dirigiram para o carro:

—Você preparou alguma coisa para almoçar?

—Ah, não, esqueci... -Respondeu Andrew.

Ela colocou a mão dentro da sua bolsa e retirou uma nota de dez:

—Compre alguma coisa com isso.

—Obrigado.

Andrew fechou os seus olhos algumas vez durante o percurso e quase adormeceu:

—Eu tenho que vir te buscar às quatro, certo? -Perguntou ela percebendo que eles estavam próximos da localização.

—Sim.

—Tudo bem então. -Afirmou ela parando o carro. -Boa sorte e bom trabalho.

—Obrigado. -Agradeceu Andrew descendo do carro.

Ele pensou em conferir que horas eram, mas ao tocar todos os seus bolsos percebeu que tinha esquecido o seu celular em casa:

—A mãe sabe a que horas tem que vir me buscar então deve estar tudo bem.

Ele bocejou e seguiu em frente até avistar algumas pessoas. Sem muita pressa e relativamente envergonhado, Andrew aproximou-se delas e se introduziu:

—Bom dia, eu vim aqui por causa de um trabalho.

—Você é o Andrew? -Perguntou um homem mais alto, com braços fortes que trajava uma camiseta branca com um capacete de proteção amarelo.

—Sim.

—Então você está no lugar certo! -Sorriu aquele homem. -Prazer, Andrew, meu nome é Santos. Espero poder contar com você hoje!

Andrew rapidamente conheceu o resto da equipe e foi introduzido ao trabalho. As suas primeiras impressões haviam sido bastante positivas e ele sentia que esse ia ser um bom dia. Eles começaram a descarregar os camiões e Andrew imediatamente percebeu que estava errado. O seu corpo não estava preparado para aquele nível de atividade física, os seus braços e pernas rapidamente começaram a tremer e fraquejar.

Mesmo com o apoio, tanto emocional quanto físico, das pessoas à sua volta, o cansaço rapidamente começou a dominá-lo. Ele fez o melhor que pôde, mas estava bem claro que o seu limite estava próximo. A ocasional pausa não era o suficiente para recuperar a sua energia e o tempo parecia nunca passar. Quando achava que finalmente tivesse chegado a sua hora de desistir, a hora de almoço salvou-o. Andrew nem sequer pensou em comer, apenas em descansar.

Muito ofegante e tonto, ele sentia ânsia de vômito e o seu corpo já não obedecia aos seus comandos. Andrew encostou-se a uma parede e parou para respirar. O seu chefe aproximou-se para conferir o seu estado:

—Você está bem?

—Mais...ou menos...

—Andrew, eu vou ser bem sincero com você, eu sei que você se esforçou muito, mas isso não é para você. -Disse aquele homem. -Eu vou te pagar o dia inteiro, mas vá para casa e descanse.

Ele aceitou o dinheiro, mas estava exausto demais para realmente entender a situação. Andrew permaneceu parado durante vários minutos até finalmente conseguir recuperar a sua concentração e lentamente a realidade começou a afetá-lo. Ainda cansado demais para sentir-se triste, a única coisa que ele tinha em mente era almoçar naquele momento.

Com as suas últimas energias, ele caminhou até um restaurante próximo. Andrew sentou-se numa mesa vazia enquanto observava o cardápio:

—O senhor já sabe o que vai pedir? -Pergunta uma voz feminina próxima.

Talvez por estar tão cansado, Andrew não tinha sido capaz de perceber a sua presença até agora. Ele abaixa o cardápio e vê uma jovem da sua altura, de pele branca e olhos castanho claro que usava uma camisa branca, calças jeans pretas e um avental também preto por cima. O cabelo dela era liso e longo, chegando um pouco a baixo dos seus ombros. Ele era negro nas raízes, mas conforme crescia parecia ter sido salpicado com tons de loiro. Andrew acaba por se deixar levar pela sensação de paz que sente ao observá-la:

—Senhor...?

—Ah, sim... -Retorna ele retornando à realidade. -Eu quero esse menu que vem com batatas fritas, bebida e hambúrguer.

—Tudo bem, mais alguma coisa?

—Não, era só isso mesmo.

—Perfeito, quando estiver pronto eu trago a tua comida.

—Obrigado...

Andrew sente bastante dificuldade em manter-se acordado nos minutos que fica à espera da sua comida. No instante que ela chega, ele começa a comer com pressa. Uma refeição nunca tinha sido tão saborosa na sua vida e quando termina de comer, todo o cansaço no seu corpo intensifica-se. Ele boceja e decide fechar os seus olhos só por uns segundos:

—Olá? Senhor...?

Ele abre-os assustado sem sequer lembrar-se de onde estava e rapidamente analisa os seus arredores:

—Tudo bem...com você...? -Perguntou aquela jovem atendente de mesa com uma expressão preocupada.

Ele lembra-se que tinha acabado de almoçar e acabou por dormir:

—Ah...desculpa... -Disse Andrew constrangido. -Eu já vou embora...

Ele levanta-se e começa a caminhar para fora, mas é interrompido por ela:

—Você ainda não pagou!

Andrew fica envergonhado ao perceber o erro que estava cometendo e retira a quantidade de dinheiro necessário o mais rápido que pode dos seus bolsos:

—Obrigada! -Sorri ela andando em direção ao caixa.

Ele rapidamente dá passos para fora do restaurante ainda incrédulo que tinha realmente adormecido na mesa e esquecido de pagar. Após pensar durante algum tempo, ele entende que tinha um problema pois não sabia quanto tempo havia dormido. Um pouco hesitante, ele retornou para dentro do restaurante e dirigiu-se ao caixa. A mesma atendente de mesa de antes ao vê-lo novamente fez algum esforço para manter uma atitude profissional:

—Desculpa o incômodo... -Disse ele envergonhado. -Mas você poderia me dizer que horas são?

—Claro que sim. -Sorriu ela. -São três e meia.

—Muito obrigado. -Respondeu Andrew mais uma vez saindo do restaurante.

Agora que tinha prestado mais atenção no rosto dela, Andrew sentia que este era-lhe familiar de alguma forma. Mas sem tempo para refletir nisso, ele caminhou de volta para o lugar onde trabalhou e ficou à espera da sua mãe. Tudo o que passava pela sua mente era como faria para explicar-lhe a situação, que apesar de previsível ainda era triste.

Notas finais
Hmnn, que atendente de mesa tão peculiar. Quem será que ela é?