Notas iniciais
Aparentemente os capítulos passaram a ser publicados no domingo. De qualquer forma, boa leitura!

Andrew e Charlote saíram pelo mesmo lugar que usaram para entrar com alguma pressa. Ela tirou o seu telefone do seu bolso e iniciou uma ligação:

—Onde vocês estão?

—À esquerda da entrada. -Respondeu Diego. -Numa loja que vende hamburguer e cachorro quente.

—Estamos indo para aí! -Disse Charlote mudando de direção enquanto guiava Andrew.

Os dois finalmente foram capazes de avistar o resto do grupo:

—Essas lojas vão fechar em breve, vocês estão um pouco atrasados. -Comentou Clara.

—Eu perdi a noção do tempo, mas está tudo bem, já estamos aqui! -Sorriu Charlote ofegante.

Após fazerem os seus pedidos, Andrew e Charlote sentaram-se numas mesas próximas com o restante do grupo. Charlote mastigava o seu hamburguer agressivamente enquanto Andrew comia sem muito interesse:

—Como foram as coisas até agora? -Perguntou Diego.

—Não foi horrível, a música podia estar um pouco melhor, mas eu me diverti. -Respondeu Clara.

—Eu já não ia a uma festa há algum tempo então foi engraçado sair um pouco da minha rotina. -Comentou Daniel.

—Fpi sdper djvfrtido! -Respondeu Charlote.

—Não consigo entender nada do que você disse. -Disse Diego. -Termine de comer e depois fale. E você, Andrew?

Essa foi a primeira vez que um dos amigos de Charlote iniciou uma conversa com Andrew:

—Foi...divertido. Demorei um pouco para me acostumar com as luzes.

—Essa é a primeira vez que você vem aqui? -Perguntou Diego.

—Sim.

Charlote engole com pressa, ganhando novamente a sua capacidade de falar:

—Sim! Eu prometi a ele que mostraria como festas podem ser divertidas!

—Imagina ter que lidar com a Charlote durante várias horas na tua primeira festa. Eu ficaria exausto. -Riu Diego.

—Eu... -Hesitou Andrew. -Gostei bastante...

—Ei, Charlote, você deu álcool demais para ele! -Interfere Daniel. -Só assim para ele conseguir te aguentar.

—Eu não estou tão bêbado assim! -Retruca Andrew.

O grupo ri enquanto Charlote continua com as suas brincadeiras:

—Vocês é que não conseguem me acompanhar! Apenas o Andrew entende a minha personalidade incrível! -Diz ela lentamente arrastando-o para longe.

—Charlote, antes de você fugir de novo, eu tenho que te dizer que não vamos ficar muito tempo, já são três, nem todo mundo tem energia infinita como você.

—Tudo bem! -Responde ela com um sorriso enquanto se dirige de volta para a festa.

Mas ao virar o seu rosto na direção contrária do grupo, o sorriso de Charlote é substituído por uma expressão fria. Apesar de essa ser a primeira vez que Andrew vê Charlote daquele jeito, ele sente que aquela expressão tinha muito mais significado do que todos os sorrisos que ele tinha visto até agora:

—Está tudo bem?

—Comigo? Claro que sim. -Respondeu Charlote. -Porque não estaria?

—Você tem razão. Foi uma pergunta estranha.

Os dois adentram a festa novamente e dirigem-se para o bar. Dessa vez, Charlote pede bebidas com um alto teor alcóolico. Eles andam até um lugar mais próximo do palco e começam a dançar. Charlote termina a sua bebida com mais velocidade do que antes e encara um ponto fixo no teto. As luzes da festa iluminam diferentes partes do seu corpo a cada segundo enquanto a música adiciona uma outra camada de profundidade, Charlote naquele momento era uma escultura viva nos olhos de Andrew.

Mas mesmo estando tão cativante como nunca ao olhar, porque ela parecia tão diferente de antes? Era como se Charlote não fosse mais a mesma pessoa. Ela tira um cigarro do seu bolso e acende-o:

—Vamos ao bar para buscar mais alguma coisa e depois vamos dar uma volta.

Antes as suas palavras soavam como pedidos de uma pessoa que tinha em mente o bem comum, mas agora elas pareciam apenas ordens. Andrew, no entanto, não hesitou em segui-las. Não importava o que Charlote era, uma ditadora ou uma aliada da justiça, Andrew sentia que apenas ela podia ensinar-lhe certas coisas. Charlote repetiu o seu pedido no bar e eles começaram a caminhar para fora. Os dois seguiram na direção oposta de onde tinham encontrado os amigos de Charlote alguns minutos atrás:

—Onde estamos indo?

—Sei lá. -Respondeu Charlote. -Com sorte achamos um grupo de pessoas, viramos amigos deles e conseguimos um jeito de voltar mais tarde para casa.

O humor de Charlote era engraçado porque era surreal e sem sentido, mas agora as suas piadas refletiam a realidade com melancolia e ceticismo:

—Você quer um cigarro? — Perguntou ela.

—Sim, obrigado.

Os dois encontraram um banco e sentaram-se. Ela alternava entre beber a sua bebida e fumar o seu cigarro. Andrew sentia a sua cabeça mais leve do que antes, tudo o que ele bebeu junto de Charlote estava começando a acumular no seu corpo:

—A vida é um palco. -Diz Charlote. -Você é a estrela. As luzes apontam na tua direção e você dança. As pessoas aplaudem. Mas o show chega ao fim, as luzes apagam e as cortinas fecham. Você não está mais no holofote, ninguém mais te vê e você não precisa mais dançar.

Charlote fala sozinha, não foca os seus olhos em Andrew, usa metáforas e analogias sem dizer o que é realmente importante, mas mesmo assim, ela esperava uma resposta. Mesmo que não tenha coragem para expor-se o suficiente, ela ainda esperava ajuda. Mesmo que se esforçasse para parecer perfeita, ela ainda queria que outros entendessem que ela tinha defeitos. Mas por ser apenas um pouco de tudo, Charlote sentia que no fundo não era concretamente nada:

—E você, Andrew? O que você acha que a vida é?

—Não sei. -Responde ele sinceramente. -Eu achei que a vida fosse a repetição infinita de ações, mas depois descobri que a vida pode ser sofrimento indescritível e agora sinto que a vida não é nada disso. Eu vivi tantas coisas novas nesses últimos meses que não sei como descrever a vida.

—Entendo. -Responde Charlote terminando a sua bebida. -Eu falo com muitas pessoas todos os dias, mas eu sempre me pergunto: Que diferença essas conversas realmente fazem? Eu não sei nada sobre a tua vida, porque a minha opinião mudaria alguma coisa? E isso se aplica a todo mundo. Eu, você, a tua família, qualquer pessoa que você encontrar.

—As nossas conversas fazem diferença para mim, eu sinto que estou sempre aprendendo coisas novas com você.

Ela para durante alguns segundos, a sinceridade de Andrew atingiu-a desprevenida. Um pequeno sorriso surge no seu rosto, nada exagerado para mostrar aos outros que ela estava feliz, apenas algo para representar a genuína felicidade que ela sentiu:

—Fico feliz que você pense assim, pupilo.

Andrew sente que não falou o suficiente. Ele gostaria de poder entender melhor o que sente e explicar isso para Charlote. Ele gostaria de entendê-la melhor. Ainda haviam muitas dúvidas na sua cabeça. Muitos pontos que não haviam sido conectados. Mas nenhuma abordagem surgiu. A sua mente não conseguiu formular uma pergunta. Andrew perdeu a sua oportunidade de dizer algo.

Charlote apagou o seu cigarro e reparou que o seu telefone estava tocando:

—Onde vocês estão? -Perguntou Diego.

—Do lado de fora. -Respondeu ela.

—Estamos indo embora, você lembra de onde deixamos o carro?

—Sim.

—Tudo bem, vamos estar te esperando aqui.

Ela desliga a chamada sem muito interesse e começa a andar:

—Temos que ir, Andrew. A noite acabou.

Ele seguiu-a ainda calado e os dois permaneceram assim até chegar ao carro. Em silêncio, abriram as portas e entraram. O grupo estava visivelmente cansado, mas o olhar de Charlote era diferente, era um olhar de desinteresse e repúdio. Daniel e Clara bocejaram enquanto desciam do carro e despediam-se do grupo:

—Vou te deixar em casa agora, Andrew. -Comentou Diego.

—Tudo bem. -Respondeu ele.

Ao chegar ao local onde tudo aquilo havia começado, ele começou a caminhar em direção à casa. Por reflexo, ele olhou para trás e viu Charlote se afastando dentro do carro. O olhar dela continuava focado num ponto fixo no espaço, como se observasse algo que apenas ela pudesse ver. Ela não havia se dado ao trabalho de despedir-se de Andrew ou de mesmo olhar na sua direção quando ele foi embora. Mas aquilo parecia de certa forma natural, eles se conheciam há menos de um mês, não havia nada que os fortemente ligasse.

Após subir aquela árvore e entrar pela janela do seu quarto, Andrew deitou-se na sua cama. Mesmo que vários minutos já tivessem passado, a sua mente não conseguia parar de pensar em Charlote. As suas atitudes não eram coerentes, às vezes até parecia que ela estivesse tentando enganar a si mesma. Mas Andrew entendia os erros da sua própria lógica, nenhum ser humano era unidimensional. Todos nós somos compostos por diferentes partes. Ele apenas não entendia como as partes de Charlote podiam ser tão incompatíveis.

Normalmente tememos o desconhecido, mas Andrew nunca se sentiu assim acerca de Charlote. Ele queria vê-la, queria aprecia-la, queria entendê-la, queria ajudá-la, queria fazer parte da sua história. Todos esses eram sentimentos novos e tentar entendê-los não era fácil. Porque especificamente ela? Talvez porque ela fosse gentil, talvez porque ela fosse engraçada ou talvez por ela ter uma boa energia.

Mas nada disso realmente justificava o que ele sentia. A resposta que ele procurava era mais profunda, mais ilógica. Essa noite tinha mudado a sua visão de Charlote. Andrew ainda não entendia completamente, mas ele tinha certeza que Charlote era forte, muito mais forte do que ele era. Ela era capaz de ser uma constante inspiração para as pessoas à sua volta enquanto escondia os seus problemas. E essa era a resposta.

Andrew era fraco, sobreviver ocupava toda a sua energia. Ele nunca tinha visto alguém com tanta vontade de viver quanto Charlote. Era quase inacreditável. Ela era humana, ela sentia tudo da mesma forma como ele sentia, mas ela era capaz de lutar como se nada disso importasse. Ela era capaz de viver no presente com um sorriso no rosto. É impossível isto ser fácil. Andrew não conseguia sequer imaginar como ela realmente se sentia. Mas ele decide seguir o seu exemplo. Ele decide deixar de ser fraco.

Notas finais
Nada melhor do que conversas filosóficas durante a atmosfera surreal do fim de uma festa, certo? E Andrew entende que Charlote é um ser humano muito mais complexo do que ele imaginava, como isso afetará a sua vida?