Notas iniciais
Ah, nada alegra mais o meu documento do que drama de adolescentes. Boa leitura!

—Você tem que ser mais agressiva! -Sussurra Charlote. -Se você não dizer o que pensa ele nunca vai entender!

—Mas parece muito egoísta... -Responde Clara.

—Eu acho que você devia tentar, relacionamentos são feitos à base de tentativo e erro.

O professor, observando a completa falta de atenção daquelas alunas pela sua aula, decide interrompê-las:

—Charlote, já que você parece tão interessada em falar, porque não me diz a resposta da próxima pergunta?

Charlote sorri numa tentativa de esconder o desespero que sentia. O seu olhar volta-se para Clara. Mesmo sem palavras, a sua amiga entende o que precisa fazer e aponta no livro a pergunta que Charlote tinha de responder. Metade do problema estava resolvido, agora só faltava a resposta:

—18! -Responde Charlote confiantemente.

—Não.

—27!

—Não.

—38...?

—Não... a resposta era (x-2)2 ou x2 – 4x + 4. -Diz o professor.

—Ah, eu estava perto... -Sorri Charlote. -Sinto que se tivesse mais uma tentativa teria acertado.

Vários alunos da turma não conseguem conter o riso, mas o olhar do professor mantém-se sério e vazio, mostrando semelhança com um peixe morto, como alguém que se arrepende de ter escolhido essa profissão, mas também entende que é tarde demais para voltar atrás. Ele suspira e volta ao que estava fazendo antes. Alguns minutos mais tarde, a aula chega ao fim e Daniel aproxima-se:

—O que vocês tinham de tão importante para falar durante a aula?

—Coisas de mulher! -Responde Charlote.

—Espero que as tuas “coisas de mulher” te ajudem a passar de ano, porque esse professor definitivamente não vai.

—Matemática é inútil de qualquer forma. Isso é só uma coisa que o governo coloca na escola para aumentar o nível de dificuldade, reprovar alunos e consequentemente não sobrecarregar o mercado de trabalho.

—Eu gostaria que você tivesse tanta inteligência para a escola quanto tem para teorias da conspiração e piadas. -Comenta Clara.

Os três caminham para fora da sala enquanto conversam:

—Piadas à parte, o meu futuro está em jogo aqui! Se eu não conseguir entrar para uma boa universidade, vou ter que viver uma vida medíocre como comediante e modelo. -Suspira Charlote. -Ah, se apenas existisse alguém com boas notas que fosse capaz de me ajudar...

—Não olhe para mim. -Responde Clara. -A última vez que eu tentei te ensinar algo, de alguma forma nós gastamos cinco horas andando pela cidade à procura de uma boa corrente para a tua bicicleta.

—Aquele dia foi bastante divertido...

—Talvez, mas não estudamos nada. -Continuou Clara.

—Eu até gostaria de ajudar, mas não tenho muito tempo livre por causa dos treinos de futebol e também não tenho notas tão boas assim. -Disse Daniel. -Mas e aquele rapaz que esteve conosco naquela festa? Acho que o nome dele era Andrew. Ele parecia ter paciência para lidar contigo.

—Ótima ideia, Daniel! -Sorri Charlote. -Vamos ver as notas do ano passado para saber o quão inteligente Andrew é!

Ela segura os seus dois amigos e começa a puxá-los na direção do seu objetivo. Próximo à entrada do prédio principal da escola haviam várias listas com as notas de todos os estudantes dividas por turmas e anos:

—Procurem por um Andrew que seja um ano mais novo. -Aconselha Charlote.

—É esse, não é? -Aponta Clara.

Os três juntam-se e observam aquilo durante alguns segundos:

—Isso é um pouco absurdo... -Comenta Daniel.

—Com essas notas, ele deve ser um dos dez melhores alunos dessa escola. -Diz Clara.

Charlote ri como um vilão de um filme:

—É isso! Eu finalmente serei capaz de dominar o mundo!

Ela tira o seu telefone do seu bolso e imediatamente liga a Andrew. Não muito longe dali, Andrew estava deitado em baixo de uma árvore quando sente o seu telefone tocar, ao ver o nome da pessoa que ligava, o seu coração acelerou:

—Ch-Charlote?

—Sim! Eu mesmo! Única e especial! Onde você está agora?

—Próximo da cantina, naquela área com várias árvores. -Responde Andrew. -Porquê?

Ele espera alguns segundos por uma resposta, mas acaba por perceber que ela já tinha desligado:

—Eu tenho a localização do nosso alvo, preparar investida. -Diz Charlote começando a correr.

—Tente não se atrasar para a próxima aula! -Sugere Clara.

Clara e Daniel observam Charlote correndo até o fim do corredor e em seguida os seus olhares encontram-se:

—Você quer ir andando para a sala? -Pergunta ele.

—Acho que sim, não falta muito tempo.

Ainda sem entender o que estava acontecendo, Andrew continua observando o seu telefone à espera de uma resposta. De um momento para o outro, ele começa a ouvir uma sucessão rápida de passos e ao virar-se vê Charlote correndo na sua direção. Ela demora alguns segundos para alcançá-lo, para durante mais algum tempo para recuperar o seu fôlego e depois retorna à sua típica personalidade:

—Andrew, escutei dizer que você é super inteligente.

—Ah...super inteligente parece um pouco longe demais...mas eu tenho boas notas... -Responde ele ainda confuso.

—Já que você é basicamente a reencarnação de Jesus Cristo da matemática, eu precisava que você me ajudasse a estudar.

A progressão de acontecimentos quando Charlote estava envolvida costumava ser caótica, mas ela estava atingindo novas alturas com esta conversa. Andrew sequer tinha tempo de entender toda a informação que estava ouvindo:

—Eu...ah...

—Sim...? -Sorri Charlote.

—Sim, acho que sim.

—Ótimo! Você tem alguma coisa muito importante para fazer hoje?

—Muito importante eu diria que não, mas-

—Perfeito! -Interrompe-o Charlote. -Então espere por mim na frente do portão quando as aulas acabarem hoje.

O fim do intervalo é anunciado com o soar de um sino e antes de Andrew ter tempo de dizer algo, Charlote começa a correr na direção de onde veio:

—O que acabou de acontecer?

Tão rápida quanto um furacão, ela entrava e saía da sua vida não deixando nada intacto. Andrew já não falava com Charlote há mais de uma semana, já que ele decidiu parar de trabalhar quando as aulas começassem. Ele não sentia que tivesse intimidade o suficiente para ligar-lhe ou mandar-lhe uma mensagem, mas Andrew sentia a sua falta. Ele já tinha planejado o que estudaria hoje e de um momento para o outro, sem nenhum aviso prévio, Charlote aparece e balança a sua vida. Mesmo que aquilo fosse de encontro ao que ele queria, toda aquela situação parecia errada de alguma forma.

Como sugerido, ele ficou sentado ao lado do portão de entrada da escola. Alguns minutos passaram e Charlote apareceu:

—Então, amigo, preparado para viver uma aventura? -Sorriu ela.

—Para onde vamos?

—Para a minha casa! Me segue, vou te mostrar qual é o ónibus que temos de pegar.

O coração de Andrew voltou a disparar pensando no que estava prestes a acontecer. Mesmo que o motivo da sua visita à casa de Charlote fosse puro, a sua mente adolescente pensava nas implicações daquilo. Os dois subiram no transporte público adequado e começaram a viagem. Ainda sem ter os seus pensamentos arrumados, Andrew sentiu que tinha algo para dizer:

—Para ser sincero, essa situação toda me incomoda um pouco.

—Porquê? -Pergunta Charlote.

—Você não me deu espaço nenhum para expressar a minha opinião.

—Você ia hesitar para se expressar, mas eu sei que você ia querer vir.

—Eu acho que esse é o ponto, você está decidindo as coisas por mim, como você sabe que eu ia querer vir contigo?

—Porque você gosta de mim.

A expressão no rosto de Andrew mostrava com nitidez a sua surpresa:

—Você não precisa fazer essa cara, eu acho que era meio óbvio. -Diz Charlote. -Mas não tem nada de errado com isso, várias pessoas gostam de mim. Eu te convidei porque achei que você fosse ficar feliz. Você pode passar tempo comigo e eu consigo estudar, é uma vitória para nós os dois.

Andrew divertia-se em ser puxado por Charlote, mas ele queria uma relação de igualdade. Ele queria ser ouvido e apreciado da mesma forma que ele a ouvia e apreciava-a. Mas naquele momento as coisas tinham ficado claras, Charlote nunca o viu da mesma forma. Ele nunca foi alguém que ela considerava importante ou precioso:

—Você está certa, eu estou sempre hesitando em me expressar. Eu tinha dito a mim mesmo que mudaria, mas nada mudou, eu continuo deixando a minha voz ser sobreposta. Mas você saber como eu me sinto e decidir usar isso para o teu benefício é algo que eu não posso aceitar.

Ele apertou o botão de paragem daquele veículo e levantou-se:

—Você só pensa em si mesma, Charlote.

Andrew desceu do ónibus e começou a tentar entender onde estava. Charlote, sem ter tempo de responder, apenas observou-o através da janela. A distância entre os dois continuou a aumentar enquanto Andrew tentava não se arrepender. Mesmo que aquela tivesse sido a decisão correta, a dor no seu peito não diminuía. Ele nunca imaginou que teria uma discussão com Charlote e nem sabia se voltaria a vê-la. Talvez Andrew tivesse destruído uma das coisas mais importantes na sua vida.

Ela era a pessoa mais carismática que ele conhecia, não seria difícil arranjar outra pessoa que pudesse ajudar-lhe a estudar. Mas e ele? Seria Andrew capaz de achar uma pessoa que pudesse substituir Charlote?

Notas finais
Um pequeno desentendimento...será que isso trará progressos ou distância?