Give Your Heart A Break
3 Day of girls
Notas iniciais
Quando saímos do shopping já tinha escurecido. O fiz dar voltas por várias lojas, que não tinham nada a ver com ele, e carregar algumas sacolas de compras para mim. Foi demasiadamente divertido, a cada dois passos ele soltava três piadas, não seria normal se não fosse dessa maneira, afinal ele fazia parte de um programa de comédia. As brincadeiras rolavam soltas, e a maioria delas foi por minha parte pelo fato dele estar carregando sacos de uma cor rosa, que eram bem chamativos por sinal. Conversamos sobre coisas superficiais do tipo que cor ele pintaria a unha se fosse uma garota, e também sobre histórias de como quando éramos pequenos e não largávamos dos ursinhos de pelúcia ou de até que idade tomamos mamadeira. Ambos sabíamos que tudo isso repercutiria de alguma forma na mídia, mas não era como se realmente estivéssemos nos importando com isso. Quem não deve não teme, não é assim que o ditado diz? Sem preocupações com aparências por hora.
No caminho de volta ficamos um tempo em um silêncio confortável, onde só a musica do rádio se fazia soar. Como já tinha anoitecido as ruas estavam bem menos movimentadas, mas ainda tinha uma considerável quantidade de carros, o suficiente para causar uma pequena lentidão.
—Hey, quer que eu te deixe em casa?
—Olha, se você não se importar eu adoraria. Estou com uma grande coisa dentro de mim, algo que não me deixa andar, sabe do que eu estou falando?
—Oh, é claro que sei. Isso se chama p-r-e-g-u-i-ç-a. – rio divertida, fazendo uma curva oposta a rua da minha casa.
—Ou quem sabe é só vontade de sentir o cheiro do seu cabelo por mais tempo – ele prende o riso, vestindo novamente sua máscara dramática e falsamente sedutora.
—Você está mesmo caçoando de mim hoje, não é? Se você acha que sou tão passiva assim, estás enganado. Vai ter vingança. – descolo uma das mãos do volante para dispensar um tapa em seu ombro enquanto ele ri descrente.
Não demorou muito para que eu estacionasse na frente da casa do Sterling. Todas as luzes estavam desligadas, o que me fez pensar se ele morava sozinho. Mais um item a adicionar na lista de coisas que eu ainda não sabia sobre o meu mais novo amigo. Antes de sair ele disse algo como um tchau cheio de modéstia, ironicamente, dizendo o quanto deve ter sido bom passar o dia ao lado dele e um monte de baboseiras falsamente presunçosas. Eu ri, mas assim que liguei o carro e acelerei notei o quão vazio e gigante ele ficou com a saída de um certo loiro. Cheguei em casa não muito animada, internamente eu sabia que a diversão do meu dia tinha acabado por ali. Talvez se eu apenas comesse alguma coisa e fosse assistir algumas séries o meu dia ainda pudesse fechar com alguma parcela de entretenimento.
Mais alguns episódios de CSI e eu adormeço sem nem tirar a roupa. Ultimamente eu tenho somente reparado na letargia quando estou de fato na cama, por que só acordei umas nove horas da manhã, mesmo tendo dormido relativamente cedo. Levantei da cama ainda meio atordoada, e desliguei a televisão, que tinha ficado a noite inteira ligada, pelo fato de eu ter caído no sono sem perceber. Tomei um banho, colocando uma roupa qualquer para tomar café. Minha mente já traçava planos para um dia de domingo, mas nada realmente me animava. Já estava pensando em voltar para o meu tão querido leito quando meu telefone começou a tocar. A voz animada e a proposta me deixaram animada por alguns segundos. Era a Hannah convidando-me para um dia de meninas. Compras, fofocas e piadas feministas. Já fazia algum tempo que não saía com elas, então realmente considerei a opção. Acabo decidindo por ir me arrumar, sabendo que eu não acharia mais coisas para fazer.
Passei na casa de Hannah para pegar as garotas que já estavam lá, e partimos para o salão. Atravessamos horas e horas conversando sobre os garotos que não tinham nem uma noção de estilo, musica e sapatos. Apesar de parecer fútil, as brincadeiras que elas faziam eram tão engraçadas e renderam boas risadas. O Halloween foi um dos assuntos que mais falamos, já que estava chegando e todas nós queríamos uma festa arrebatadora para ir. Só depois de muito tempo enrolando decidimos ir para o shopping e mesmo eu sabendo que já tinha feito a festa ontem com Sterling, decidi comprar mais algumas roupas. Digo, a culpa não é minha que algumas peças chamem tanto a minha atenção.
Paramos em uma lanchonete e eu estava imersa em pensamentos enquanto tomava um milk-shake de chocolate quando a Hannah cutucou o meu ombro e apontou para a TV. Estava passando um programa que falava sobre os famosos, e para a minha surpresa tinha uma montagem de foto, comigo de um lado e o Sterling do outro. O som estava muito baixo, mas ainda conseguia escutar algumas palavras. Logo após uns segundos, apareceu um vídeo de nós dois no shopping, ontem. Parecia bem mais íntimo do que foi realmente, pelo ângulo que foi gravado. Estávamos na fila para pagar as minhas coisas quando ele pegou um ursinho amarelo, que estava numa prateleira próxima, e começou a brincar próximo ao meu rosto, rindo fofamente. Eu acompanhava com uma risada meio escandalosa. De longe parecia mesmo um momento romântico, mas só eu ouvi as piadas maldosas que ele estava fazendo naquele minuto. E elas não eram nem de longe romanescas. Mais alguns segundos e a tela muda para a apresentadora que desatou a fazer comentários sem nexo e a lançar falsos rumores, para o delírio dos fofoqueiros. Eu podia até ver a minha expressão agora.
—Hum, que isso hem Demi? Pegando o garoto e nem contou para as amigas. – Hannah sorriu de canto, batendo seu ombro no meu.
Demorei um pouco para processar as palavras por que estava ocupada de mais jogando o espanto para longe da minha mente.
—O que? Calma, isso não é verdade! – e por algum motivo eu sentia que estava corando.
—Como assim? Ali parecia realmente verídico. – a Kim completou risonha.
—E admita que ele é um pedaço bem grande de mal caminho – acrescentou a Lauren piscando na minha direção.
—A gente só saiu juntos, qual é o problema? Ele é meu amigo.
Depois de algum encarando inocentemente cada uma das meninas, elas desistiram de implicar e dispensaram palavras amigáveis, mas ainda estava estampada em seus rostos a vontade de rir.
—Tudo bem, a gente te deixa em paz, mas guarde o que eu digo minha querida Dems, isso vai dar pano para muita história. Refiro-me a vocês dois. – disse Hannah.
Isso me fez revirar os olhos em descrença, mas ela parecia estar falando sério. Levei-as para casa algumas horas depois isso, e assim que atravessei o meu portão quis regressar ao começo dia. Normalmente é bom voltar e ter o silêncio aconchegante do seu lar, mas ultimamente tem sido um martírio para mim. Algo dentro de mim desejava que houvesse o barulho de uma companhia, ou sua bagunça. Ligo todas as luzes assim que entro, convencendo a mim mesma que isso deixava o ambiente mais vivo. Largo a bolsa e as chaves no sofá, indo para o quarto e me jogando de roupa e tudo na cama. Apesar de ter me divertido, senti o dia todo falta de uma coisa que eu não sabia o que era. Foi como se eu estivesse fazendo uma coisa, mas esquecendo de outra. Aquela impressão de ter deixado alguma coisa passar. Não dei por falta de nenhum objeto o dia todo e mesmo assim aquela sensação continuava.
Lutei comigo mesma por alguns segundos, encorajando-me a deixar a preguiça de lado e levantar logo para trocar de roupa. Quando por fim me apoiei em meus cotovelos, o celular vibrou e logo em seguida começou a tocar. Atendi, estava fazendo um barulho muito grande do outro lado da linha, algo como musica alta e conversas misturadas a risos. Não olhei o número, mesmo assim o timbre da voz me ajudou a reconhecer a pessoa.
“Demi?”
“Sterling? Oi.”
“Hey girl, tudo bom?”
Sorri, piscando lentamente. Parecia fazer um ano que não nós nos falávamos. Pelo menos para mim. A constatação nem me fez perceber que aquele lance bizarro que eu senti o dia todo tinha sumido. Ele tinha a voz calma e estava falando um pouco baixo.
”Claro, e você? Que barulheira, onde você está?”
Antes que eu obtivesse a resposta, uma voz feminina gritou o nome do Sterling, irritantemente. Por alguns segundos o celular dele pareceu estar rolando, fazendo um barulho incômodo que me fez afastar o meu telefone do ouvido. Ouvi risadas e a voz dele pareceu voltar sem fôlego para falar comigo. Levantei uma das sobrancelhas, fechando a mão que repousava na cama em punho. Ele ria também.
“Estou numa festa. Eu te liguei por que eu queria saber se você queria vir.”
Meneei a cabeça, sentido uma impaciência sem sentido crescendo em mim. Respirei fundo antes de responder como se eu estivesse tranqüila.
“Na verdade eu não posso. Estou muito cansada, passei o dia fora hoje. Mas obrigada pelo convite.”
“Ah, tudo bem então.”
“Aproveite a festa por mim” – deixo soar uma risada irônica, que ele provavelmente não percebeu.
“Eu irei. Boa noite Dems”.
Seu timbre lançou indícios de desanimação por um momento, mas logo em seguida a voz dele pareceu estar longe, como se tivesse afastado o celular ao desligar. Pude o ouvir gritando o nome de uma garota a seguir. Trinco os dentes e jogo o telefone no outro lado da cama, afundando a cabeça em um dos travesseiros brancos. Fechos os olhos com desnecessária força, soltando um suspiro frustrado. Evito me xingar ao constatar que eu ainda continuava sentindo falta dele.
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