Give Me Love - Cancelada!
21 Saudades.
Notas iniciais
Violetta’s POV
O final de semana finalmente havia chegado ao fim, para a minha alegria. Sabe, as primeiras horas nele foram bem satisfatórias, mas no decorrer dos dias, tudo parecia que ia piorando cada vez mais. Primeiro foi a puta da Larissa, que viu eu e o Leon nos beijando; depois foi a minha terrível noite com o Leon; e para completar, o nosso querido coordenador, obrigou as duplas que foram juntas na ida, serem as mesmas da volta. Ou seja, passei 3 horas tentando não olhar para Leon e conter minha vontade de agarrá-lo, beijá-lo, abraçá-lo e falar que eu o amava. Mas como tudo não são flores, eu precisei colocar meus headfones no último volume e esconder as lágrimas com os óculos escuros.
Quando chegamos ao Colégio, minha mãe estava nos esperando juntamente com Tio Matias. Os dois pareciam muito felizes por finalmente estar nos revendo. Eu também estava com muitas saudades deles, mas a tristeza que morava em meu peito era maior que tudo e que todos.
– Minha pequena, que saudades de você! – Minha mãe gritou praticamente me sufocando em um abraço. Aspirei ao seu perfume e finalmente me senti em casa, como se todos os meus problemas pudessem evaporar por um instante.
– Viluzinha, estávamos morrendo de saudades! – Tio Matias me puxou para um abraço apertado assim que largou de Leon. Fiz uma nota mental para depois conversar com ele sobre esses apelidos no diminutivo, sério, eu odeio todos eles. Mas hoje eu não tinha forças para brigar com ninguém, eu só queria tomar um banho, secar o meu cabelo com um secador digno e depois cair na minha cama, dormindo até o meio dia do dia seguinte.
– Também estava com saudades, de todos vocês – Forcei o melhor sorriso que eu consegui. Vi Francesca e Marco se beijando perto dos pais, o que me fez sentir um vazio extremamente longo dentro de mim, uma falta que corria o meu interior cada vez mais. Quando será que eu teria paz na minha vida? Primeiro foi a separação dos meus pais, depois foi a minha ex melhor amiga que eu achava que era confiável, depois a morte precoce do meu pai que ainda machucava muito, depois eu me apaixonando pelo meu “meio-irmão” e todas as desgraças se sucedendo no meu caminho. É, eu estava perdida.
Fran, Marco e Alex vieram se despedir de nós. No outro dia não iria ter aula, pois precisávamos recuperar nossas energias, então eu dormiria o máximo que eu pudesse, até porque encarar Leon depois de todos os fatos ocorridos seria difícil. Nossa família entrou no carro para podermos ir para casa e Leon ficava me olhando toda hora, o que já estava me dando nos nervos. Eu peguei o meu celular para tentar me distrair e notei que ele fez o mesmo, o que despertou uma curiosidade imensa sobre os seus pensamentos naquele momento.
Foi quando surgiu uma mensagem dele no WhatsApp. Suspirei longamente e a li:
“Pode não ser suficiente para você, mas eu estou totalmente arrependido de todas as coisas que eu fiz esse final de semana. Sobre a bebida e também por ter forçado a barra contigo. Eu pensava que esses três dias seriam especiais para nós dois, pois estaríamos longe dos olhares dos nossos pais, mas eu me enganei, parecia que todos os meus pesadelos estavam presentes em um único instante. Só quero que você saiba que eu te amo! Violetta, eu não vou desistir de nós dois, mesmo que eu precise ir ao inferno, você ainda vai ser minha. Eu tenho certeza disso.”
Olhei em seus olhos assim que terminei de ler a mensagem e vi que uma lágrima sorrateira havia escorrido pelo seu rosto. Mordi o meu lábio inferior enquanto ainda o encarava, tentando criar coragem para responder ele. Como nada de bom e coerente veio a minha mente, apenas escrevi a única palavra que fazia sentido para mim ultimamente, “tempo”. Ele pareceu se convencer, pois leu, suspirou, bloqueou o celular e encostou a cabeça no vidro, sem nenhuma palavra ou olhar. Melhor assim.
*
Havia acabado de tomar o meu tão sonhado banho morno. Tudo bem que o acampamento era bem moderno, mas nada se compara a nossa casa, não é mesmo? Enfim, vesti um short curtinho e um moletom, tentando ficar o mais confortável possível, pois queria dormir o máximo que eu pudesse. Fui até uma gaveta procurar minha escova de cabelo e acabei achando um álbum só meu e do meu pai. Aquilo doeu no fundo da minha alma, como se uma faca estivesse cortando o que restava do meu coração despedaçado.
– Porque você não está aqui comigo? – Sussurrei para mim mesma enquanto olhava fixamente a capa do álbum, onde tinha a nossa primeira foto, na maternidade.
Sentei-me na cama juntamente com o álbum em minhas mãos, coloquei a música favorita dele, Sozinho de Caetano Veloso, e me perdi nas mais maravilhosas lembranças que nos percorreu em toda a nossa vida. As primeiras fotos eram os meus pais juntos enquanto minha mãe estava grávida, depois ela na maternidade e os meus primeiros dias de vida. Logo depois vieram as fotos dos aniversários, Dia dos Pais, todas as viagens e fotos do cotidiano que se misturavam com as lágrimas que insistiam em sair dos meus olhos chocolates, em uma fuga de diminuir aquele sentimento que aflorava do meu corpo e deixava o meu coração tão pequenino.
Eu sempre acreditei em Deus, mas às vezes eu me perguntava o porquê que Ele havia feito àquilo comigo. A morte do meu pai foi sem dúvida nenhuma a dor mais forte que eu já senti, mas que eu precisava passar por aquilo, para no fim ter alguma lição. Infelizmente, essa lição ainda não havia chegado, mas eu a esperaria com toda a força de vontade do mundo.
O álbum havia chegado ao fim na mesma hora que Caetano Veloso cantou a última palavra da música, deixando um silêncio de soluços tenebrosos naquele cômodo. Ouvi passos no corredor e automaticamente tentei enxugar os indícios que eu estava chorando, uma tentativa um tanto falha.
– Pequena? – Minha mãe falou quando parou em frente à porta do meu quarto. Ela fixou o olhar em meu rosto e depois no objeto em minhas mãos – Aconteceu alguma coisa?
– Nada, mãe – Menti descaradamente, como estava fazendo com a minha mãe nos últimos meses – Eu só achei um álbum meu e do meu pai e a saudade foi mais forte. Só isso.
– Ah minha filha, venha cá – Ela sussurrou e me puxou para um abraço. Eu amava minha mãe e adorava mais ainda aquela preocupação que ela tinha comigo. Mas, naquele momento, eu tentei imaginar que era o meu velho que eu estava abraçando. Como eu sentia saudades dos abraços de “boa noite”, dos carões por causa do boletim vermelho ou da cara feia quando ele via que um namorado meu havia me magoado. Ele era, ou melhor, ele é o melhor pai de todo o mundo.
– Eu só queria ter ele aqui comigo, só isso... Eu só queria poder me despedir mais uma vez, da um último beijo e falar um último “Eu te amo” – Disse aquelas palavras misturadas com os soluços que o meu corpo emitia. Eu estava fragilizada por tudo o que aconteceu naqueles últimos dias e lembrar a morte do meu pai foi pior.
– Filha, tem certeza de que é só a saudade do seu pai? – Meu coração gelou ao ouvir aquela frase da minha mãe. Será que ela havia percebido algo? Meu Deus, se ela ou Tio Matias descobrissem sobre nós dois, ou melhor, o que nós éramos, estávamos literalmente fodidos.
– Claro que é mãe – Enxuguei as lágrimas rapidamente e forcei um esboço de sorriso – Você acha que tem algo a mais, por acaso?
Minha mãe passou uns 10 segundos me encarando com aquele “olhar assassino” e durante esse curto intervalo de tempo, mas que para mim pareceu uma eternidade, eu não consegui soltar a respiração. Por fim, ela fechou os olhos, suspirou e depois deu um sorriso de lado, tocando o meu rosto em seguida.
– Nada meu anjo, só pensamentos aqui – Ela fez um carinho e me deu um beijo na esta – Fique bem.
E saiu do meu quarto.
Meu coração estava avisando que minha mãe havia percebido o clima esquisito que estava entre mim e Leon, mas eu não poderia falar nada, para não levantar suspeitas. Levantei-me em seguida, dei um beijo na foto do meu pai e guardei o álbum no mesmo lugar, deixando-me comigo apenas as lembranças. Mas por um lado, aquilo era bom, porque sem a saudade, o amor desaparece.
Fale com o autor