Girls and Blood — Reimagined Twilight
29 Twenty Eight
O silêncio durou menos de um segundo.
Carine olhou para Edythe.
— A que distância?
Earnest já estava se mexendo; sua mão tocou um teclado oculto na parede e, com um rangido, persianas de metal começaram a selar a parede de vidro. Fiquei boquiaberta.
— A uns cinco quilômetros depois do rio. Está rondando para se reunir ao homem.
— Qual é o plano?
— Vamos despistá-la, depois Archie e Jessamine a levarão para o sul.
— E depois?
A voz de Edythe ficou gelada.
— Assim que Bella estiver longe, vamos caçá-la.
— Acho que ela não nos deixou alternativa — concordou Carine, a expressão sombria.
Edythe se virou para Eleanor.
— Leve-a para cima e troquem as roupas.
— É claro.
Enquanto falava, ela surgiu ao meu lado, se abaixando para me pegar no colo. Subimos a escada antes que eu pudesse registrar o que estava acontecendo.
— O que estamos fazendo? — perguntei quando ela me colocava no chão em um quarto escuro em algum lugar no segundo andar.
— Tentando confundir o cheiro. Não vai funcionar por muito tempo, mas pode dar certa vantagem. — A voz dela soou abafada enquanto ela puxava a blusa pela cabeça.
Arranquei o suéter e entreguei para ela, que me deu o dela. Tentei enfiar as mãos nos buracos certos, depois tirei a calça jeans. Nós trocamos. A calça dela ficou um pouco comprida, mas deu em mim. Ela me empurrou para o corredor. Eleanor parecia menor com as minhas roupas. Archie apareceu de repente, uma bolsa de couro pendurada no braço. Cada um deles pegou um cotovelo meu, e me carregaram voando escada abaixo.
Parecia que tudo tinha sido resolvido. Edythe e Eleanor estavam prontas para partir, Eleanor com uma mochila grande no ombro. Carine entregou alguma coisa pequena a Earnest. Ela se virou para Archie e entregou para ele a mesma coisa, um pequeno celular prateado.
— Earnest e Royal levarão sua picape, Bella — disse ela enquanto passava.
Eu assenti, olhando com cautela para Royal. Ele fitava Carine com uma expressão ressentida.
— Archie, Jess, peguem o Mercedes. Vão precisar do vidro com película no sul.
Eles também assentiram.
— Vamos levar o Jeep.
Carine parou ao lado de Edythe. Percebi que era o grupo de caça e senti vontade de vomitar. Como chegou a esse ponto? Por que eles ouviram minha ideia? Era tão obviamente errada.
— Archie, eles vão morder a isca?
Todos olharam para Archie enquanto ele fechava os olhos e ficava incrivelmente imóvel. Alguns segundos depois, seus olhos se abriram.
— Ela vai perseguir você. O homem seguirá o Tracker. Vamos conseguir partir depois disso. — Ele falou com segurança.
— Vamos — disse Carine, indo para a cozinha.
Mas Edythe voltou até mim. Ela me olhou de cima, com os olhos dourados enormes e profundos e cheios de um milhão de palavras que ela não tinha tempo de dizer e levou as mãos ao meu rosto. Eu me inclinei para ela, com as mãos já no cabelo dela. Pelo mais curto dos segundos, os lábios dela, gelados e duros, tocaram os meus.
E acabou. Ela empurrou meus ombros. Os olhos ficaram vazios, mortos, na hora que ela deu as costas para mim.
E eles partiram.
Ficamos ali, sem ninguém me olhar enquanto eu olhava o lugar onde eles estavam antes. Parecia que tinham arrancado a pele do meu rosto. Meus olhos estavam ardendo.
O momento de silêncio se arrastou. Os olhos de Archie estavam fechados de novo. O telefone de Earnest vibrou em sua mão, e Archie assentiu uma vez. Earnest levou o celular ao ouvido.
— Agora — disse Earnest.
Royal saiu pela porta da frente sem olhar na minha direção, mas Earnest tocou meu rosto ao passar.
— Tenha cuidado. — Seu sussurro perdurou enquanto eles saíam. Ouvi o Tracker se afastar e depois desaparecer.
Jessamine e Archie esperavam. O celular de Archie parecia estar em sua orelha antes mesmo de tocar.
— Edythe disse que o homem está na trilha de Earnest. Vou pegar o carro. — Ele desapareceu nas sombras, na direção na qual Edythe partira.
Jessamine e eu nos olhamos. Ela se postou entre mim e a entrada.
— Você está enganada, sabe — disse ela.
— Hã?
— Posso sentir o que está sentindo agora. E você vale tudo isso.
A sensação de estar sendo esfolada lentamente não diminuiu.
— Se alguma coisa acontecer a eles, terá sido em vão.
Ela deu um sorriso gentil.
— Está enganada — repetiu ela.
Archie passou pela porta da frente e veio na minha direção com um braço estendido.
— Posso? — perguntou ele.
— É o primeiro a pedir permissão — murmurei.
Archie me pegou no colo como Earnest tinha feito e, com Jessamine nos protegendo, saiu correndo pela porta, deixando as luzes acesas para trás.
Quando acordei, estava confusa. Demorei mais tempo do que devia para lembrar onde estava.
O quarto era neutro demais para pertencer a um lugar que não fosse um hotel. Os abajures estavam presos às mesas de cabeceira e as cortinas eram feitas do mesmo tecido da colcha.
Tentei me lembrar de como tinha chegado ali, mas de início nada me ocorreu.
Lembrei-me do carro preto, o vidro das janelas mais escuro do que os de uma limusine. O motor era quase silencioso, embora disparássemos pelas estradas negras com o dobro da velocidade permitida.
E me lembrei de Archie sentado comigo em vez de na frente com Jessamine. Lembrei-me de perceber de repente que ele estava ali como meu guarda-costas, que o banco da frente não era perto o suficiente, ao que parecia.
Devia ter feito o perigo parecer mais real, mas tudo parecia a um milhão de quilômetros. O perigo que eu corria não era o perigo com o qual me preocupava.
Fiz Archie montar uma vigília estranha de fluxo de consciência futura durante toda a noite. Não havia detalhes pequenos demais para mim. Ele me contou passo a passo como Edythe, Carine e Eleanor se deslocariam pela floresta, e apesar de eu não conhecer nenhum dos locais que ele mencionou, fiquei hipnotizada pelas palavras.
Depois, ele voltava e descrevia a mesma sequência de outro jeito, conforme algumas decisões alteravam o futuro. Isso aconteceu várias vezes, e era impossível acompanhar, mas não me importei. Enquanto o futuro não colocasse Edythe e Victoria no mesmo lugar, eu conseguiria continuar respirando.
Às vezes, ele mudava para Earnest para mim. Earnest e Royal estavam no Tracker, seguindo para o leste. O que queria dizer que o homem loiro ainda estava atrás deles.
Archie teve mais dificuldade para ver Charlie.
— Os humanos são mais difíceis do que os vampiros — disse ele.
E lembrei que Edythe tinha me falado alguma coisa sobre isso uma vez. Parecia anos antes, mas foram apenas alguns dias. Eu me lembrava de ficar desorientada por não conseguir entender o tempo. Eu me lembrava do sol surgindo acima de um pico baixo em algum lugar da Califórnia. A luz machucou meus olhos, mas tentei não fechá-los. Quando eu os fechava as imagens que piscavam por trás das minhas pálpebras como fotografias eram demais. Eu preferia que meus olhos queimassem a vê-las de novo. A expressão arrasada de Charlie... os dentes à mostra de Edythe... o olhar furioso de Royal... os olhos vermelhos de Victoria me encarando... o olhar mortal no rosto de Edythe quando ela deu as costas para mim...
Mantive os olhos abertos, e o sol se moveu pelo céu. Eu me lembrei da cabeça ter ficado pesada e leve ao mesmo tempo conforme passávamos por uma montanha, e o sol, atrás de nós agora, se refletia nos telhados da minha cidade. Não me sobravam emoções para que eu sentisse surpresa de termos feito a viagem de três dias em um. Olhei sem expressão para a cidade que se espalhava à nossa frente, percebendo lentamente que era para significar alguma coisa para mim. O raquítico chaparral, as palmeiras, os campos de golfe, as manchas turquesa que eram as piscinas, tudo isso era para parecer familiar. Eu devia sentir que estava voltando para casa.
As sombras dos postes de luz formavam na estrada marcas mais agudas do que eu me lembrava. Tão pouca escuridão. Não havia lugar para se esconder naquelas sombras.
— Qual é o caminho para o aeroporto? — perguntou Jessamine, na primeira vez que falou desde que entramos no carro.
— Fique na I-10 — respondi, automaticamente. — Vamos passar já por lá.
Demorei mais alguns segundos para absorver as implicações da pergunta dela. Meu cérebro estava enevoado de exaustão.
— Vamos pegar algum avião? — perguntei a Archie.
Eu não conseguia pensar no plano. Mas aquilo não parecia certo.
— Não, mas é melhor ficar perto, só por garantia.
Lembrei-me de começar o retorno para o Aeroporto Internacional Sky Harbor... mas não de terminá-lo. Acho que deve ter sido nessa hora que meu cérebro falhou.
Mas, agora que recuperara as lembranças, eu tinha uma vaga impressão de ter saído do carro, o sol atrás do horizonte, meu braço em torno do ombro de Archie, o dele me arrastando enquanto eu cambaleava pelas sombras quentes e secas.
Eu não tinha lembrança deste quarto.
Olhei o relógio digital na mesa de cabeceira. Os números vermelhos afirmavam que eram três horas, mas eu não tinha como saber se era noite ou dia. Nenhum fiapo de luz escapava ao redor das grossas cortinas, mas o quarto estava iluminado pela luz dos abajures.
Levantei-me com o corpo rígido e cambaleei até a janela, puxando as cortinas. Estava escuro lá fora. Três da manhã, então. Meu quarto dava para uma parte deserta da rodovia e para o novo estacionamento de mensalistas do aeroporto. Senti-me um pouquinho melhor ao conseguir situar tempo e lugar.
Olhei para baixo. Eu ainda estava com a camisa e a calça comprida demais de Eleanor. Olhei o quarto e fiquei feliz por encontrar minha bolsa de viagem em cima da cômoda baixa.
Uma leve batida na porta me fez pular.
— Posso entrar? — perguntou Archie.
Respirei fundo.
— Claro.
Ele entrou e me olhou.
— Você parece precisar dormir mais.
Eu balancei a cabeça.
Ele foi em silêncio até a janela e fechou as cortinas.
— Vamos precisar ficar aqui dentro — disse ele.
— Tudo bem. — Minha voz rouca falhou.
— Com sede? — perguntou ele.
Dei de ombros.
— Estou bem. E você?
Ele sorriu.
— Nada que não possa administrar. Pedi comida para você, está na sala da frente. Edythe me lembrou de que você precisa comer com muito mais frequência do que nós.
Imediatamente, fiquei mais alerta.
— Ela ligou?
— Não. — Ele observou minha expressão desmoronar. — Foi antes de partirmos. Ela me deu muitas instruções. Venha comer alguma coisa.
Ele saiu do quarto antes que eu pudesse protestar que não estava com fome. Pude ouvir um zumbido baixo de vozes vindo da TV. Jessamine estava sentada à mesa no canto, os olhos na TV, mas sem o menor sinal de interesse. Archie foi até ela e passou a mão pelo cabelo cor de mel dela.
— Qual é a notícia mais recente? — perguntei.
— Earnest e Royal estão de volta a Forks. O loiro parou de caçá-los.
Abri a boca, mas Archie foi mais rápido.
— Eles estão vigiando seu pai. O loiro não vai passar por eles.
— O que o loiro está fazendo?
— Andando pela cidade, procurando você, pelo que consigo perceber. Ele passou um tempo na escola.
Meus olhos se esbugalharam.
— Ele machucou alguém?
Archie fez que não.
— Eles parecem bem comprometidos à caçada que começaram.
— E Edythe?
— Frustrada, ao que parece. Eles se viraram na direção da rastreadora, mas ela já estava fugindo. Está indo para o norte. Eles estão atrás dela.
Fiquei ali parada, sem saber o que fazer.
Edythe estava caçando Victoria. É claro que ela estava com Carine e Eleanor, mas Edythe era a mais rápida...
— Coma alguma coisa, Bella. Edythe fica muito difícil quando acha que suas instruções não são seguidas ao pé da letra.
Havia uma bandeja na mesa de centro, com algumas tampas de aço inoxidável em cima dos pratos nela. Não consegui pensar em nada além de seguir a ordem de Archie. Sentei no chão ao lado da mesa e tirei a tampa do primeiro prato. Não olhei para a comida, só peguei e comecei a comer. Eu devia estar com fome. Não paramos para comer durante o percurso.
Eles ficaram em silêncio e imóveis enquanto eu comia.
Olhei para a TV, mas não consegui entender o que estava acontecendo. Era um noticiário? Era um comercial? Eu não sabia. Comi até os pratos ficarem vazios. Não senti o gosto de nada.
Quando não havia mais nada para comer, olhei para a parede.
Só conseguia ver Edythe na floresta, mais rápida do que um guepardo, mais rápida do que uma bala. Era óbvio que ela alcançaria a rastreadora primeiro. As palavras de Laurent ecoavam na minha cabeça. Não podem derrotá-la. Ela é absolutamente letal.
De repente, Jessamine estava de pé ao meu lado, mais perto do que de costume.
— Bella — disse ela numa voz tranquilizadora. — Você não tem motivos para se preocupar. Está completamente segura aqui.
— Sei disso.
— Então por que está com medo? — Ela pareceu confusa. Podia sentir minhas emoções, mas não conseguia entender os motivos por trás delas.
— Você ouviu o que Laurent disse. Victoria é letal e obsecada. E se alguma coisa der errado e elas foram separadas? Se alguma coisa acontecer, se Carine ou Eleanor... ou Edythe... — Minha voz falhou. — Se aquele loiro maluco machucar Earnest... Como vou viver sabendo que a culpa é minha? Nenhum de vocês devia estar arriscando a vida por...
— Pare, Bella, pare — interrompeu ela, as palavras jorrando tão rapidamente que era difícil entendê-las. — Você está se preocupando com as coisas erradas, Bella. Confie em mim, nenhum de nós está em risco. Você está sob uma tensão muito grande; não a aumente com preocupações imaginárias. Ouça o que eu digo! — ordenou ela, porque eu desviei os olhos. — Nossa família é forte. Nosso único medo é perder você.
— Mas por que vocês...
Archie se aproximou e passou o braço pela cintura de Jessamine.
— Faz quase um século que Edythe está sozinha. Agora, ela encontrou você. Você não consegue ver as mudanças que nós, que estamos com ela há tanto tempo, vemos. Acha que algum de nós vai querer olhar nos olhos dela pelos próximos cem anos se ela perder você?
Minha culpa começou a ceder. Mas, apesar de a calma que se espalhava por mim parecer totalmente natural, como se viesse de dentro, eu sabia que não era assim.
— Você sabe que eu faria isso de qualquer modo — acrescentou Archie. — Mesmo que Edythe não tivesse pedido.
— Por quê?
Ele sorriu.
— É difícil explicar sem parecer meio esquizofrênico... O tempo não significa para mim a mesma coisa que para você. Nem para Jess e nem para mais ninguém. — Jessamine riu e beliscou a orelha dele. — Então, isso não vai fazer sentido para você. Mas, para mim, é como se já fôssemos amigos há bastante tempo, Bella. No segundo que você se tornou parte da vida de Edythe, foi como se já tivéssemos passado centenas de horas juntos. Nós rimos das reações exageradas de Edythe juntos, irritamos Royal até ele sair de casa juntos, ficamos acordados a noite toda conversando com Carine juntos...
Fiquei olhando fixamente, e ele deu de ombros.
— É assim que eu vivencio o mundo.
— Nós somos amigos? — perguntei com a voz impressionada.
— Melhores amigos — disse ele. — Um dia. Foi legal minha irmã favorita se apaixonar por minha melhor amiga, você não acha? Acho que devo uma a ela.
— Hã — foi tudo que consegui dizer.
Archie riu.
Jessamine revirou os olhos.
— Muito obrigada, Archie. Eu tinha acabado de fazê-la ficar calma.
— Não, estou bem — jurei.
Archie podia estar mentindo para fazer com que eu me sentisse melhor, mas, fosse como fosse, funcionou. Não era ruim Archie também querer me ajudar. Se ele não estivesse fazendo só por Edythe.
— E o que fazemos agora? — perguntei.
— Esperamos que alguma coisa mude. Foi um dia muito longo.
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