Girl Crush

7 Um marco em nossa amizade


De noite, de bobeira em casa, estava olhando algumas fotos minhas com Napo e me peguei pensando em como nos demos bem rápido quando nos conhecemos na nossa primeira semana de aula no Studio 21. Em uma das aulas teóricas, o professor passou um trabalho em dupla em sala e nós meio que sobramos, então fizemos juntos. Ele foi um doce comigo desde o início. Ele sempre foi minha melhor companhia no Studio. Mas houve um dia em especial, que foi um marco muito importante na nossa amizade.

xXx

Acordei cedo numa manhã de férias de meio de ano pois tinha um compromisso com meu amigo baixinho. Era quarta feira e o tempo estava levemente frio, muito agradável ao meu gosto. Primeiramente tomei meu café da manhã. Depois fui me arrumar. O tempo estava bom para usar um moletom daqueles mais fininhos. Vesti um preto que por todo ele haviam vários pequenos planetinhas, estrelas e luas em contorno branco. Daqueles com gorro e bolso na frente, todo fechado, sem ziper. Botei uma calça jeans e como de costume, meu sujo all star de cano médio preto, companheiro de batalha. Me despedi de meus pais e fui a pé ao encontro de Napo.

Havíamos marcado de nos encontrar na praça em frente ao Studio. Pois ali perto, Napo encontrou um apartamento disponível para alugar e me pediu para ir junto com ele dar uma olhada. Assim como eu, Napo ainda morava com os pais, mas ele estava prestes a mudar isso. Além da grana que ganhávamos com a banda, Napo ganhava um dinheirinho por administrar as redes sociais, site e canal no youtube do Studio 21. Ele postava notícias sobre a escola, avisos sobre inscrições e shows, editava fotos e vídeos das apresentações, etc. Não era tanto dinheiro assim no final das contas, afinal nossa banda foi formada a apenas alguns meses, por isso ele precisava dos dois trabalhos pra só assim conseguir morar sozinho. Justamente por isso ele precisava de um lugar não muito caro e que fosse perto do Studio, para que não precisasse gastar com transporte.

Ao chegar no local combinado, o loirinho já estava lá me esperando. Nos cumprimentamos com um abraço e seguimos andando e conversando. Entramos numa rua sem saída que tinha dois pequenos prédios um de frente pro outro. Os prédios tinham apenas quatro andares cada, sendo o térreo apenas comércio e os demais, moradia. Um homem de cabelos negros, blusa polo azul marinho e calça jeans que aparentava ter uns 40 anos, nos recebeu e disse que nos mostraria o apartamento. No fim da rua havia um pequeno estacionamento para os moradores. O homem nos mostrou a entrada. Passando pela porta havia uma escada que só passava uma pessoa atrás da outra. Por serem poucos andares, não tinha elevador, então subimos as escadas até o último andar até chegarmos no possível futuro lar de Napo.

"Aqui está" disse o homem abrindo a porta. Era um apê pequeno, porém não demais. Era ideal. A entrada era já na cozinha, que era americana e dava pra ver a sala. Ao fim da sala uma porta de vidro dando para uma pequena varanda. As paredes eram brancas e o piso também. Apenas uma parede da sala tinha um tom avermelhado como tijolo. Napo olhava tudo com atenção e com carinha de quem estava gostando. À direita, entre a sala e a cozinha, havia um pequeno corredor com duas portas de cada lado, sendo a da direita o banheiro e a da esquerda o quarto. Todos os cômodos eram pequenos, porém novamente, não demais. O banheiro tinha o piso de azulejos preto e branco e as paredes azulejos cinzas. O quarto tinha o piso igual ao da sala e as paredes azuis como o céu. Eu, particularmente, gostei muito.

— Bom, como você está ciente, estamos alugando o apartamento semi mobiliado. — o homem começou a falar mostrando alguns móveis e eletrodomésticos que ali estavam.

— Sim, eu estou ciente. — Napo respondeu enquanto assentia com a cabeça. — Eu gostei muito daqui e dentre os outros lugares tem o melhor custo benefício! — ele ainda olhava em volta sorridente.

Ficamos um tempo ali conversando com o homem que estava a alugar o apartamento. Ele explicou tudo pacientemente e tirou todas as dúvidas de Napo, que por sua vez já estava quase certo de que seria esse o escolhido.

Depois disso, decidimos ir numa sorveteria ali perto e após seguimos até a mesma praça que nos encontramos, que continuava não muito cheia já que o Studio estava fechado. Sentamos na arquibancada enquanto tomávamos nossos sorvetes de banana com pedacinhos da fruta. Napo de repente ficou sério e respirou fundo

— Naty... eu queria muito compartilhar uma coisa com você. Pelas coisas que a gente já conversou esses meses todos que nos conhecemos, você já mostrou ser uma pessoa de... mente aberta, digamos assim. — Napo mexia seu sorvete com a colherzinha de plástico enquanto falava.

— Nossa... é... bom, se você quiser mesmo falar, então pode falar. Você parece tão sério. — eu fiquei preocupada.

— É que pra mim é assunto sério pois... vai ser a primeira vez que vou falar isso pra alguém pessoalmente. — ele olhou pra mim.

— Nossa quanto mistério. Assim tu me deixa preocupada.

— Bom, então eu vou falar logo! — ele deixou o copinho do sorvete de lado e respirou fundo mais uma vez. — O motivo pra eu precisar sair de casa é que eu tenho certeza que a reação da minha família não vai ser boa quando eu contar oque tenho pra contar. Eu preciso da minha independência pra não correr o risco de ficar na rua. E eu mais do que nunca preciso do seu apoio, Naty. — ele segurou uma das minhas mãos. Eu olhava bem pro seu rostinho e pelo seu discurso, já imaginava oque ele ia dizer depois. — Eu sou gay e eu quero me assumir. Eu conversei com muitas pessoas virtualmente até chegar nessa decisão. E eu sei que principalmente pelo meu pai, me assumir vai ser uma problema terrível. Mas eu vou fazer isso agora. Pois eu tenho condições de ir morar sozinho agora. Tenho medo de esperar e esperar e a hora certa nunca chegar! — ele deu uma pausa e esfregou minha mão com seus dedinhos.

— Amigo, eu fico muito feliz que você saiba que pode contar comigo! Você pode mesmo! — eu deixei meu potinho de sorvete de lado e dei um abraço apertado em Napo. Pra mim aquilo não era uma grande notícia, porque não deveria ser. Mas eu sei que o mundo não pensa como nós. E que Napo iria enfrentar muitas dificuldades.

— Muito obrigada pela sua amizade, de verdade, você é maravilhosa, Naty. — o baixinho falou desfazendo o abraço. — Eu sabia que você não ia me decepcionar. Tudo que a gente já conversou, sabe...

— Eu de certa forma tô até emocionada sabia? Porque você confia tanto em mim, pra eu ser a primeira a saber disso. — eu abri um sorriso bobo.

— Eu tenho poucos amigos assim que nem você tem sido pra mim, Naty. E como a gente além de tudo, se vê todos os dias no Studio e ainda por cima estamos numa banda juntos, você é a pessoa mais próxima de mim atualmente. Você tinha que ser a primeira! Agora a senhora tem que ficar ciente de que pode confiar em mim também ok? — ele levantou o dedo mindinho pra gente fazer uma promessa.

— Como eu poderia não confiar? — e entrelaçamos nossos dedinhos.

— Saiba que pra mim isso significa um novo passo na nossa amizade. — ele sorria.

— Mas vem cá... tem muito tempo que você se descobriu? — perguntei curiosa.

— Ih, continua sentada que lá vem história! — Napo começou a contar várias coisas desde seus primeiros questionamentos até o dia em que ele teve a certeza. Eu adorei vê-lo falar abertamente sobre isso comigo, ele parecia tão radiante, eu realmente senti nossa amizade chegando a um outro nível.

— Ver você falando algumas coisas aí... me fez lembrar de uns questionamentos que eu tenho as vezes...

— Ai meu Deus Natália sapatão sempre soubeeee! Sempre te achei com cara de sapatão, amiga!

— Não Napo, calma! — eu ria alto enquanto dava uns tapinhas de leve no meu amigo.

— Tá bom, vai, me explica então. — ele ria.

— Eu já sim... é... questionei minha sexualidade algumas vezes. — falei passando a mão em meu pescoço um pouco sem jeito. — Eu vejo todas essas mulheres incríveis... por exemplo a Lzzy Hale! Nossa, se ela pisa em mim eu agradeço! Eu sinto sim admiração por ela, como artista, amor por ela, como fã, mas não acho que seja só isso, eu me sinto... atraída por ela, assim como senti por outras mulheres, só que nunca me apaixonei, por uma garota assim... do meu cotidiano sabe? Como eu me apaixonei por menininhos da escola. Eu não me sinto bem em falar disso com outras pessoas, também por medo de julgamentos. Então eu realmente não tenho certeza do que é isso.

— Ok então não temos uma Naty sapatão mas temos uma Naty bi. Estamos satisfeitos.

— Como assim Napo se nem eu tenho certeza, como que tu fala assim?

— Amiga é simples, você acabou de falar que também sente ATRAÇÃO por mulheres! Mulheres famosas ainda são mulheres. Não seres de outro planeta!

— Não sei não Napo, eu não me sinto confortável ainda com...

— Tudo bem amiga, aceitar a si próprio as vezes demora um pouquinho também, não vou ser eu que vou te apressar, sendo que eu também demorei. Mas saiba que você pode se abrir comigo sobre isso a qualquer momento, sem julgamento algum! Eu fico muito feliz de ter alguém no meu dia a dia que possamos ter boas conversas sobre esses assuntos. Eu finalmente posso ser eu mesmo! E você pode ser você mesma comigo também! — ele sorria de orelha a orelha enquanto segurava minhas mãos.

Eu me sentia mais leve agora. Esse era um assunto que eu não havia comentado nem com Francesca. Eu ainda não sei bem. Mas sei que o Napo vai estar ali pra me ouvir toda vez que eu me sentir perdida. A confiança é recíproca. E algo me diz que essa amizade não será passageira. Talvez um dia eu até consiga lhe falar sobre meus sentimentos por León... será? Eu tenho tanta vergonha. Nesse caso, nem tem a ver com confiança, é pura vergonha!

— E fique sabendo que você vai me ajudar a escolher as coisas que faltam pra comprar pro meu novo lar doce lar. — o garoto ainda falava sorrindo. Ele estava visivelmente empolgado. O mesmo tirou o celular do bolso e começou a me mostrar prints de coisas que ele já tinha se adiantado e procurado pela internet.

xXx

E nossa amizade realmente não foi passageira. Eu ainda amo meu ratinho! Esse dia foi muito especial pra nós dois e relembra-lo me deixa de coração quentinho.

Senti meu celular vibrar. Era uma mensagem de Napo no grupo onde além de nós, tinha também Francesca.

Napo:
Ludmi foi pra casa do León. estou entediado >:[ bora pro Restó Bar aporrinhar a Francesca?

Naty:
opa, to dentro! tenho só que avisar meus pais e tomar um banho. Cescão espere por nós!

Fran:
podem vir seus insuportáveis! aproveitem que hoje aqui o movimento tá fraco. meio de semana né.

Napo:
então bora cambada!