Girl Crush
3 Here We Go Again
Notas iniciais
Novo dia. Ao olhar pro prédio do Studio senti um mal estar, um tipo de mal estar específico de quando eu estava nervosa. Fiquei um tempo parada alí na frente olhando tudo. Eu tinha sentido isso no meu primeiro dia lá. Mas dessa vez sentia isso porque sabia que veria León novamente. Enquanto descia as escadinhas e passava pela porta de entrada eu repetia na minha cabeça que o episódio de ontem havia sido um delírio meu. Porém ao entrar na sala de instrumentos tive a certeza que não era. León já estava lá, afinando um violão e conversando com o professor Beto. Já tinha uma boa parte dos alunos na sala então eu passei despercebida. Depois da aula começar, tentei ao máximo não fazer contato visual com León. As vezes não resistia dar uma apreciada na beleza do meu amado.
Apesar de ter dificuldade pra me enturmar, ainda na primeira semana eu consegui fazer amizade com um menino baixinho que atende por Napo. Mas eu não me sentia confortável pra me abrir com ele ainda, pois era muito recente. A única pessoa com quem eu podia falar dessa situação era Francesca. Na hora to intervalo decidi ficar sozinha pra poder conversar com minha amiga por mensagens. Nessa hora o Restó Bar ainda não estava aberto então ela poderia me responder numa boa. Eu já havia conversado com ela sobre o retorno de León no dia anterior, mas eu não conseguia pensar em outra coisa. Que dó da Fran por aguentar meu chororô de sempre.
Em frente ao Studio, numa mesma calçada, havia uma espécie de praça, mas que praticamente funcionava como um pátio da escola de artes, pois a grande maioria das pessoas que ocupavam o lugar eram os alunos. Me sentei num tipo de arquibancada de tijolinhos enquanto mandava mensagens para minha italianinha e fazia uma boquinha. Aliás, um delicioso bolo de banana com calda caramelizada e pedaços da fruta, feito pela minha querida mamãe.
— Então quer dizer que você levou o baixo a sério mesmo hein! — León surgiu do meu lado como um passe de mágica. Estava tão distraída que não o vi chegar e dei um pulinho de susto.
— Ô garoto que susto! — falei com a mão no peito pois meu coração estava acelerado. Talvez não só pelo susto mas também por ser o dito cujo falando comigo. Ele riu. Eu respirei fundo.
— Você tá tocando bem, Naty. Pelo que pude ver esses dois dias. Lembro da época que você duvidava que ia conseguir.
— Eu ainda tenho muito pra aprender. O Studio vai me ajudar a tirar o melhor de mim. — falei baixinho sem conseguir olhar o rosto do garoto. Ainda estava nervosa.
— Sabia que tô com vontade de começar uma banda? Já tem um tempo que tenho pensado nisso e agora que estou aqui, cercado de gente cheia de talentos, pra tudo que é instrumento, acho que vou conseguir! Já até fiz amizade com um baterista foda no dia que fiz minha audição!
— Ah que legal.... é... boa sorte com isso. — finalmente consegui olhar em seus olhos. Ele sorria sem mostrar os dentes.
— Ô Vargas! — ouvi uma voz masculina gritar. Era um garoto que eu já tinha visto em algumas aulas mas que eu ainda não me lembrava o nome.
— Rapaz, eu tava falando de você agora mesmo! — León gritou de volta para o garoto. — Sobe aqui! — ele o chamou com as mãos e o outro atendeu e se sentou no "degrau" de baixo. Nós estavamos no mais alto. — Aí Naty, esse aqui é o baterista que te falei!
— Oi! Prazer, André! — o rapaz estendeu a mão em minha direção para um cumprimento e logo deu um beijinho na minha mão.
— Prazer, Natália. — eu falei sorrindo. Achei fofo.
— Essa aqui eu conheço a 84 anos já! — León falou bagunçando meu cabelo. — A gente estudou junto desde o fundamental. As vezes na mesma sala, as vezes em salas diferentes...
— Pois é né, é difícil me livrar de você. — interrompi sua fala e revirei os olhos.
— Essa garota me odeia cara!
— Motivos eu tenho de sobra né.
— Tem nada. Maior chata. Chorona.
— E você? Maior chato. Ingrato. Arrogante. Orgulhoso. Ignorante...
— Ah qual é? Sou nada disso não.
— Não o tempo todo, mas COMIGO é sim! — dei ênfase no "comigo" e a cada resposta mais eu aumentava o tom de voz. — Você que parece me odiar!
— Ih gente acho que eu to sobrando aqui hein. Vou alí comprar alguma coisa pra comer, beleza? — André interrompeu a discussão.
— Pô eu vou com você! — León respondeu se levantando.
André se despediu amigavelmente e saiu na frente. León por sua vez, ainda de pé um degrau a baixo do que eu estava sentada, me surpreendeu com um abraço. Mais uma vez meus "divertidamentes" entraram em colapso e eu não sabia se correspondia o abraço ou não por alguns segundos. Lentamente fui colocando meus braços em volta dele e correspondendo o abraço.
— Desculpa qualquer coisa aí. — León falou desfazendo o abraço e rapidamente descendo da arquibancada.
Eu nem respondi nada. Desculpa qualquer coisa aí??? Desculpa qualquer coisa e sair andando??? Mas que diabos esse garoto tem na cabeça? É isso que eu recebo depois de tanta merda que eu aguentei dele? Isso nem dá pra ser levado a sério como um pedido de desculpas! Ele sequer assumiu que errou comigo! Desculpas vazias não servem de nada! Mas que ódio! Porque sempre parece que ele nunca diz oque queria dizer e ainda por cima parece que não ouve oque eu digo?
Fiquei um bom tempo olhando em volta e com as perninhas balançando de nervoso. Eu deveria dar mais uma chance ao León? Será que ele sabe que foi um merda e está disposto a mudar? Será que essa tosquice de desculpa é pelo fato dele ser orgulhoso e não saber se desculpar? Eu estaria sendo extremamente trouxa em mais uma vez deixar ele voltar pra minha vida porque um simples abraço me desestabiliza por inteiro? Sempre foi assim. Ele me machucava. Eu queria me afastar. Ele me aparecia como se nada tivesse acontecido, conversando, ou me abraçando, ou até cantando. E eu sedia. E lá vamos nós de novo!
Ao longo das semanas fui me aproximando mais de Napo. Mas seguia sem contar pra ele do meu amor por León. Eu tinha vergonha. León e eu aos poucos voltamos a nos falar como nos tempos de escola. Conversa vai conversa vem, ele me chamou pra ser parte da banda que ele formaria com seu amigo baterista, André. Eu achei que ele tava me zoando. Mas depois de muito duvidar ele me convenceu que era verdade. Mas pedi um tempo pra pensar. Eu apresentei Napo para os meninos e eles se deram bem, logo o chamaram para ser o tecladista da banda. Os três rapazes além de tudo cantavam muito bem e cursavam as aulas de canto do Studio. Eu era a única que apesar de ter vontade, não me sentia nem um pouco confortável pra isso.
Eu pensei muito na proposta do León. Estar numa banda com o cara que eu sou apaixonada parecia um sonho. Mas ao mesmo tempo era um risco pra minha sanidade mental. Eu passaria ainda mais tempo com ele e seria ainda mais difícil de tentar supera-lo e ainda mais fácil dele fazer merda de novo. Antes de entrar pro Studio eu achei que tudo ia passar. Eu jurei, ah coitada de mim, que ele não ia voltar a ser parte da minha vida. Que ele não ia me usar mais. Isso me fez lembrar da letra de uma música. Uma música que eu sempre ouvia nesses momentos em que eu achava que ia dar um basta em tudo mas não conseguia.
"Você nunca sabe oque quer
E você nunca diz oque quer dizer
Mas eu começo a ficar louca
Toda vez que você olha pra mim
Você só ouve metade do que eu digo
E você sempre aparece tarde demais
E eu sei que eu deveria dizer adeus mas não adianta
Não pode ser com ou sem você
Como você entrou aqui debaixo da minha pele?
Jurei que eu nunca deixaria você voltar
(...)
Por mais que eu tente eu sei que não posso escapar
Alguma coisa em você é tão viciante
Nós estamos caindo juntos
Você acha que a esta altura eu sei
Pois aqui vamos nós de novo"
Here We Go Again da Demi Lovato. Eu estava vivendo tudo isso de novo com o retorno do León. Parece que nunca vai ter fim. Se é pra ele ficar... ele não poderia gostar de mim de volta? Se eu entrar pra banda será que alguma coisa vai mudar?
xXx
E não mudou, pobre Natália do passado. Mas pelo menos com a banda vai tudo bem. Não me arrependo de ter aceitado a proposta pois amo oque faço. E se não fosse pelo León eu talvez não encontrasse outra oportunidade. Talvez sim. Mas foi melhor não contar com a sorte. Porém a missão dropar León Vargas falhou miseravelmente.
Lembrar dessas coisas me fez ter vontade de escutar Here We Go Again. Coloquei pra tocar no celular e mais uma vez fui atrás do bendito caderninho e fui procurar se tinha algo dessa música lá. E tinha. A letra toda. Pela data no canto das páginas, creio que foi escrita alí na época do segundo ano do ensino médio. Então eu botei a música no início novamente e comecei a cantar acompanhando a letra.
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