Girl

2 Capítulo 2


Naquela tarde Ami vestiu um vestido azul da cor do céu, que por sinal era também a cor de seus cabelos, passou um perfume e se sentou no sofá de seu apartamento. Aguardava o interfone soar para abrir para Makoto.

Foi por volta das 16:00 que Makoto chegou, vestia uma jaqueta pesada e o boné que pegou com Minako, um estilo tomboy que ficava muito bem nela.

— Boa tarde, Ami.

— Boa tarde, Mako-chan. — Deu passagem a Makoto e depois fechou a porta. — Fique à vontade.

Makoto segurava uma sacola, provavelmente trouxera uma sobremesa que a própria preparara, enquanto olhava ao redor como se procurasse por algo. Ami entendeu o que era só quando sua amiga estava bem próxima de si.

— Isso é perfume?

— S-sim. Al-gum proble-ma? — Ami ficou nervosa com Makoto inclinada nela, fungando o nariz e se aproximando mais.

— Ora, você me diz pra ficar à vontade e ainda tá toda arrumada... parece que me conheceu ontem. — Makoto se afastou e Ami passou a mirar os olhos no chão, com suas bochechas ainda coradas.

— M-me desculpe por estar sendo formal. Não preciso te dizer pra ficar à vontade... Porque você já faz parte daqui!

Makoto piscou seus olhos verdes, confusa. Ami agia mesmo como se estivessem conversando pela primeira vez. Nem nos seminários do tempo do ensino médio ela gaguejava tanto assim, pelo contrário, tinha total controle na apresentação que dava inveja a Makoto. Mas agora parecia que estava recebendo o papa na sua casa.

— Ami, não é pra tanto, anda, levanta essa cabeça que eu vou guardar essa torta e pegar as bebidas.

Makoto abriu uma garrafa de cerveja e deu um gole tão fundo que terminou numa lufada, enxugou os lábios com o antebraço e se jogou no sofá de Ami. — Bora ver um filme de 4 horas!!! — Brandou, erguendo os braços.

Seus pés repousaram sobre a mesinha, os coturnos de cano médio que vestia estavam jogados logo ao lado e lançou o boné no outro sofá. Ami pensou que a gentil Makoto ficava realmente à vontade quando estavam a sós. Será que era assim com as outras?

— Sabe, Ami, só você conhece esse lado espalhafatoso meu. — Notou que a amiga lhe observava.

Os olhos azuis de Ami se abriram. — Mesmo?

— Claro! Você é minha melhor amiga! Me conhece desde o ensino médio. Que filme vamos ver hoje?

Ami demorou alguns segundos para responder, porque se deu conta que Makoto era Makoto somente com ela. Onde estava com a cabeça quando resolveu se arrumar toda para recebê-la? Makoto praticamente ia todos os dias na sua casa, eram muito íntimas por serem amigas há bastante tempo, e não seriam mais íntimas com aquela dica de paquera que viu na internet, na verdade, se distanciariam por estar sendo formal demais. Por isso, resolveu se sentar ao lado de Makoto, deixando suas sapatilhas de lado e colocando os pés sobre a mesinha.

Makoto sorriu, achou a amiga muito fofa.

— O Espelho de Tarkovsky.

— Filme estrangeiro! Uhu! Mete o play, então!

Ami pegou a garrafa que Makoto a ofereceu. — Você não precisa fazer isso...

— O quê? — Não entendeu.

— Ver filmes longos ou contemplativos, nem ler os livros que eu leio.

Makoto deu risadinhas e da forma mais natural, deslizou sua mão na coxa de Ami, que sentiu seus pelos eriçarem com o contato. — Tá tudo bem, você sabe que eu não sou nenhuma Minako ou Usagi, eu realmente gosto de dividir meus hobbies com você. — Voltou a bebericar na garrafa, enquanto pensava que falara bonito.

— Tem certeza, Mako-chan?

Ami notou que Makoto ficou incomodada ao ver as suas sobrancelhas enviesadas, embora ainda estivesse bebendo. Provavelmente aquele gole terminaria numa lufada também.

— Morro de medo. — Disse ela assim que recuperou o fôlego.

— Do quê?

— De você me deixar, Ami! — Makoto começou a chorar. — Você tá numa faculdade de renome, fazendo medicina... deve ter um monte de garotos bonitos e inteligentes por lá! Tá até andando toda bonita pra receber um reles mortal, só pode tá apaixonada!! E eu... não quis entrar numa faculdade e agora minha mãe me odeia!

O choro de Makoto ganhava intensidade e Ami a observava perplexa. Makoto era definitivamente preciosa, a relação que havia entre elas não se explicava na internet e nem nos cálculos absurdos que já resolvera na vida. Uma garota que frequentava um dojô e tinha Bruce Lee como seu ídolo, ficaria facilmente entediada com Tarkovsky.

Ainda assim, pensava nos outros enquanto enfrentava um momento turbulento com sua mãe. Foi expulsa de casa e passou a morar com Minako por haver um quarto extra no apartamento dela.

Ami pegou nas mãos de Makoto.

— Mako-chan, eu nunca vou te largar.

Makoto deu um gemido ao encarar o olhar determinado de Ami, ela esperneou seu nome e a abraçou bem apertado. — Ami, me perdoa!!! Eu devo tá bêbada!!

Ami fazia carinho na sua cabeça, riu com o que disse. — Que tal assistirmos O Retorno do Dragão?