Girl

4 Meu tio conta uma piada sem graça


Notas iniciais
~insira aquele meme "Já faz 84 anos" aqui~

Assim que entrei no meu quarto, depois de deixar o Leandro lidando com a minha mãe, fiz uma lista mental de tudo que precisaria. Ah, esqueci de dizer. Tínhamos vindo para a minha casa no meio da madrugada para pegar minhas coisas. Claro que minha mãe ficou extremamente brava e só não me matou porque tinha trazido o garoto/sátiro comigo.

Se ele conseguisse convencer minha mãe, eu acreditaria nele.

Peguei uma mochila e uma bolsa de lado. Seguindo a lógica, nessa época do ano estaria fazendo um calor insuportável em Long Island. Mesmo que eu estivesse fingindo não estar com frio no sul do Brasil em pleno inverno só pra poder usar meu vestido preto curto, eu sentia a temperatura, principalmente lá fora.

Agora, prestem atenção. Aqui vai a lista de tudo que levei de casa. Sim, esqueci várias coisas, mas assim que elas forem se mostrando necessárias vocês podem anotar nos seus blocos de notas na página “coisas para pegar caso um sátiro apareça”.

Coloquei várias camisetas simples, shorts, pijamas, um tênis extra e uma sandália. Depois corri entre o quarto e o banheiro coletando escova de dentes e de cabelo, fones de ouvido, carregador, maquiagem (nunca se sabe), absorvente (muito importante se você for uma menina. Se for um menino eu não sei) e meus documentos.

De última hora também coloquei um livro e um caderno na bolsa de mão, já que a mochila estava cheia. Mais tarde, Leandro diria que fui exagerada e peguei coisas demais, mas tudo foi muito útil, se querem saber.

Arranquei um post-it azul do bloquinho, escrevi “no banho”, colei na porta e entrei no banheiro. Joguei o vestido de festa em qualquer lugar e liguei o chuveiro. Amo água quente no frio. Na verdade, amo o frio.

Uns cinco minutos depois, sem maquiagem e parecendo mais um mendigo sem comer há cinco dias que uma mocinha, saí do banheiro. Tinha levado uma regata preta e uma calça jeans para o banheiro, o que se revelou uma ótima escolha, já que quando voltei para o quarto Leo estava deitado na minha cama, folheando meu caderno de desenho.

Me lancei sobre o caderno e o fechei, guardando no criado-mudo ao lado da cama.

—Não toque nisso. O que fez pra minha mãe te deixar entrar no meu quarto? – falei. Abri o guarda-roupa e peguei um casaco bem quente e uma blusinha mais fina.

Se com Artur minha mãe já ficava louca se saíssemos da sala, imagina um estranho.

—Tenho duas notícias. Ela não sabe que seu pai é um deus grego e você está indo para um internato no Canadá.

Terminei de vestir as blusas e me virei para ele, que tinha um sorrisinho de desculpas. Revirei os olhos e joguei a mochila pra ele, peguei a bolsa e apontei a porta.

—Menina, o que você pôs aqui, bebês?

—Roupas. Vamos logo.

Ele foi na frente. Antes de sair do quarto, abri o guarda-roupas de novo e peguei um vestido azul. Eu assumo, esse eu não usei até hoje, mas serviu para fazer inveja em várias pessoas.

Quando Leo conseguiu me fazer parar de abraçar minha mãe, fomos para a casa dele. O que aconteceu depois foi ele me mostrando um quarto para passar a noite, depois conheci o tal do André que antes tinha saído para comprar Toddynho e perdido toda a diversão. Devo ressaltar que nunca achei uma caixinha de Toddynho na geladeira, mas vi ele guardando uma garrafa suspeita no armário.

Na manhã seguinte, fui acordada por Leo, que abriu a cortina e atrapalhou meu sono da beleza.

Troquei de roupa e fui até a sala.

—Hum... Então. Só temos grana suficiente pra pagar o voo até a Filadélfia — disse André.

André era tudo o que se espera de um sátiro, cavanhaque preto, da mesma com do cabelo, que era comprimido e volumoso o suficiente para esconder seus chifres de bode se ele arrumasse certo. Ah, e ele se recusava a usar calças. Foi bem constrangedor no começo.

—Por mim tudo bem, eu não tenho dinheiro nem pra ir até Curitiba — dei de ombros.

—Tudo bem nada. A não ser que aquele monstro tenha sido uma enorme exceção, o que duvido, assim que você puser os pés em solo americano, os monstros vão estar atrás da gente.

—Querido, eu moro no Brasil, aqui a gente escapa de assaltantes, políticos corruptos e piadas ruins. O que são alguns seres mitológicos? – dei de ombros.

Como qualquer pessoa normal faria, compramos as passagens online para um voo ás dez da manhã. Isso nos deu duas horas para comer antes de sair.

Eu nunca tinha entrado num avião antes, se não fosse por Leandro me empurrando na direção certa eu teria perdido o voo.

—Passaporte? – pediu um cara de uniforme branco e vermelho.

—Não tenho passaporte – falei.

Leo me olhou de cara feia e pegou a identidade da minha mão.

—Aqui – ele entregou junto com o passaporte dele.

O homem pareceu levemente confuso, até que olhou os papeis e os devolveu. Foi minha vez de ficar confusa. Segurei o documento na mão e o virei, olhando dos dois lados, como se esperasse algum truque.

—Que? – encarei meu querido amigo sátiro.

—Usei a névoa, lidaremos com seu visto depois.

Se você quer saber o que fiz durante o voo, eu dormi e vi séries. Mas aconteceu uma coisa assim que embarcamos que seria legal contar.

Leo e eu fomos procurar nossos lugares, naquele dia não havia muitas pessoas a fim de ir para os Estados Unidos, pelo menos metade dos assentos estava vazia. Minha poltrona ficava na janela e a de Leandro do lado da minha. Os últimos passageiros estavam entrando.

Levantei para ir ao banheiro, algo normal. Normal não foi o puxão que Leandro deu no meu braço, o garoto parecia querer arrancá-lo fora.

—O que foi, guri? — perguntei.

—Ah, merda — ele murmurou, olhando pro meu cabelo.

A primeira coisa que pensei foi que tinha um bicho preso nos fios. Aí está um problema que só quem tem o cabelo cacheado conhece, se um inseto resolve passear pela sua cabeça, é difícil tirar ele de lá. E ainda faz uma bagunça nos cachos, que ficam uma zona.

—É uma barata? Tira logo e com cuidado pra não puxar meu cabelo — inclinei a cabeça e comecei a tatear os fios.

—Merda, merda, merda — Leo repetia sem fazer o menor esforço para tirar.

Senti uma mão tocar de leve meu outro braço. Me virei para ver e dei de cara com uma aeromoça, vestida como o cara do passaporte, de branco e vermelho, mas ela usava uma saia.

—O senhor dos céus avisa que permitirá essa única viagem, porém depois que aterrissarmos, ele não a quer em seus domínios — ela sorriu, como se dissesse aquilo todo dia. — E Dioniso dá as boas- vindas ao Acampamento Meio-Sangue.

Pisquei, confusa, e percebi que a pele da mulher era de um azul bem claro. Seus olhos eram brancos, tipo totalmente brancos. Pensei em gritar "corre que é a Lilith" mas lembrei que esse era outro universo alternativo. Essa próxima frase vai ser estranha mesmo. Ela parecia sólida, mas quando me deu as costas e andou na direção da cabine — em saltos muito altos — pude jurar que sua forma tremulou. Fiquei olhando pra ela que nem idiota por alguns segundos.

Olhei pra cima e vi um tridente verde tremulando antes de sumir aos poucos.

—Aah, agora faz sentido – falei e fui para o banheiro.

Notas finais
Comentem, favoritem e mandem para todos os amiguinhos.