Giri Choco

1 Capítulo único


O papel não lhe caía muito bem. Era uma mulher fria e sóbria. Não aderia ao romantismo ou às ideias tolas. Por que mesmo se dera ao trabalho? No final de janeiro, Shizuku comentara qualquer coisa sobre a data. Mas a própria Shizuku havia esquecido e perambulava sabe-se lá por onde com a expressão sonhadora de sempre. Por isso, Machi estava sozinha no pequeno cômodo. Fitava o chocolate derretendo em banho-maria, sentindo ela mesma derreter-se um pouco de chateação. Invadira o café na calada de noite, silenciosa como um gato. Trouxera consigo as fôrmas de aranha habilmente roubadas daquela loja de artigos de Halloween. Os ingredientes também eram roubados. A kunoichi afinal sorriu. Os chocolates não têm o mesmo gosto quando feitos de forma honesta.

Feitan também era frio e sóbrio. Encarou a embalagem em silêncio, indiferente às fitas vermelhas. Machi soube que ele sequer provaria as aranhas. Não fazia mal... desde que lhe compensasse no White Day.

O bruto do Phinks engoliu tudo quase sem agradecer. Machi apenas observou com olhos gélidos. Escrevera um gigante “obrigatório” na embalagem dos chocolates, mas o Intensificador fitava-a de soslaio como quem espera ouvir um segredo. Machi tinha muitos. Mas não contaria nenhum àquele idiota.

Franklin foi mais discreto. Acenou com a cabeça em agradecimento, abriu a caixa e retirou dela uma aranha miudinha que quase desaparecia entre seus dedos. Provou sem muito entusiasmo. No fundo, ele esperava receber chocolates do amor. Mas não de Machi.

O imbecil do Shalnark achou que fossem chocolates do amor. Mal avistara a kunoichi e já foi abrindo um sorrisinho zombeteiro. Ela empurrou a caixa contra seu peito e disse por cima do ombro:

— Três vezes mais. Não se esqueça.

Cruzava o corredor quando ouviu o Manipulador exclamar:

— Que legal! Aranhas!

Bonolenov era outro discreto. Recebeu o presente com um sorriso humilde e fez uma mesura. Machi sentou-se ao seu lado por alguns minutos. Não pensava exatamente em o que quer que fosse. Apenas gostava da companhia de Bono. Ele encontrou seu olhar de alguma forma e esperou como quem deseja contar um segredo. Mas se limitou a dizer que os chocolates estavam bons.

O idiota do Nobunaga franziu o cenho quando Machi estendeu-lhe a caixa. Se não entendia o que era ou só estava surpreso com a iniciativa da kunoichi, era impossível dizer. Recebeu o presente, abriu-o e deixou escapar uma risada nasalada.

— Aranhas.

Machi deu de ombros.

— Não se esqueça de me devolver três vezes mais no White Day.

— Ora, ora. Achei que esse tipo de coisa deveria ser feito com o mínimo de carinho. Mas parece que você é mesmo uma interesseira...

— É chocolate obrigatório.

Nobu desviou o rosto para as aranhas. E voltou a fitar Machi. Deu um passo à frente, os dois bem próximos um do outro.

— Devo pagar com chocolates?

— Faça como quiser.

Ela virou-lhe as costas e desapareceu no esconderijo.

Korutopi pareceu feliz com a surpresa. Pegou uma das aranhas na palma da mão e admirou-a com o olho descoberto. Nunca revelara a ninguém, mas gostava de doces. E os chocolates tinham um gosto tão bom! Certamente eram feitos com ingredientes roubados.

Ela estancou, quase deixando a embalagem cair. Quem estava procurando, afinal? Uvogin morrera. Em outros tempos, o gigante daria um urro de alegria ao receber os chocolates. Agora não mais. Machi decidiu entregar a caixa a Shizuku.

Kalluto não conhecia a tradição. Arregalou os olhos para os chocolates, depois para Machi. A pergunta silenciosa era clara.

— São para você, Kalluto.

O menino provou uma das aranhas. Lambeu os lábios. Provou outra. Lambeu os lábios de novo. Agradeceu e se afastou. Queria dividir os doces com Phinks. Tolo!

A última caixa parecia a mais pesada. Machi esgueirou-se por entre as velas, violando a serenidade do cômodo. Kuroro ergueu os olhos do livro. Um sorriso tênue em seu rosto.

— Boa-noite, Machi.

— Boa-noite, Danchou.

— O que trazes?

Ela estendeu a embalagem de fitas vermelhas. Não havia qualquer inscrição.

— Ah! O Valentine’s Day! — exclamou Kuroro, recebendo o presente de bom grado. — Agradeço a gentileza.

O livro agora fora esquecido. Kuroro puxou as fitas de leve e abriu a caixa. Os olhos pareceram brilhar.

— Aranhas... Que deleite!

Machi ergueu o rosto.

— Foram feitas com ingredientes roubados — disse.

— Os chocolates não têm o mesmo gosto quando feitos de forma honesta.

Ele pegou uma das aranhas e apreciou seu cheiro adocicado. Levou-a os lábios, experimentando bem lentamente, os olhos fechando-se em uma sinfonia silenciosa. Sorriu.

— Magníficos.

A kunoichi não respondeu. Observava como quem espera — ou guarda — um segredo. Mas segredos não foram contados.

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