Girassóis
1 Com você e os girassóis
Notas iniciais
Com você e os girassóis
Abrindo seus olhos, o senhor pôde ver um lindo céu resplandecente. Havia algumas nuvens, mas a coloração azulada prevalecia. Levantando um pouco a cabeça, viu que se encontrava deitado num campo de girassóis. Conseguiu, com certa dificuldade, levantar-se. Pôs-se a procurar os óculos que havia perdido e os quais necessitava, mas logo percebeu que conseguia enxergar perfeitamente sem os mesmos. Era possível capitar cada detalhe daquelas flores com os olhos nus. Aproveitando-se disso, observou melhor a paisagem a sua volta. Só via girassóis, até o horizonte, só girassóis. Exceto por uma direção em especifico, onde pôde constar uma figura. No entanto, mesmo enxergando sem os óculos, devido à distância era impossível deduzir do que se tratava. Visto que não havia outra decisão melhor para tomar, decidiu caminhar naquela direção.
Conforme ia chegando mais perto, mais nítida a figura ia ficando. Era um banco, um banco feito de carvalho, com até cobertura. A vegetação fazia questão de se entrelaçar pela madeira. Mas não era só isso. Afiando ainda mais o olhar, notou que havia uma pessoa sentada naquele banco. Chegando a menos de dez passos da estrutura, foi capaz de reconhecer a pessoa. A princípio, exibiu um semblante de surpresa, mas logo recobrou a calma e ternura, e com um leve sorriso nos lábios, chegou até a pessoa. Era uma mulher. Linda. Possuía cabelos loiros formando uma única trança depositada para frente do corpo. No rosto, uma feição suave, e um par de olhos azuis profundos. Vestia um vestido branco que passava um pouco dos joelhos. Aparentava estar na casa dos 30 anos de idade. De início, estava distraída com um livro em suas mãos, mas percebendo a presença daquele senhor em sua frente, logo sorriu ao olhar para seu rosto, e disse:
— Yo, há quanto tempo.
— Sim, já faz muito tempo – Respondeu o senhor.
— Não seja tímido, sente-se – E ofereceu um lugar ao seu lado.
— Obrigado, eu precisava mesmo disso – Disse enquanto se sentava.
— Vejo que os anos realmente tiveram efeito em você.
— Sim, com certeza. Normalmente eu não conseguiria dar a caminhada que eu dei para chegar até. Pra falar a verdade, acho que não teria nem conseguido me levantar.
— Entendo. Ainda bem que aqui lógicas triviais como essa são ignoradas.
— Realmente – Suspirou e puxou o ar com força para sentir o aroma dos girassóis – Fazia tempo que eu não visitava um lugar assim. Isso me lembra daquele verão.
— Aquele da tempestade?
— Sim, esse mesmo. Estavam sendo dias tão bonitos na fazenda do seu tio Ben, mas em um deles fomos pegos por uma tempestade, e quase não conseguimos voltar para o rancho.
— Sim, a nossa sorte foi encontrar uma pequena cobertura semelhante a essa para nos abrigar. Acho que foi com esse intuito que ela foi construída.
— De fato, faz sentido.
Uma brisa começava a passar por aquele campo, e os girassóis balançavam acompanhando o movimento. Nesse momento, o senhor reparou no livro nas mãos da mulher.
— Você esteve com isso até agora? – Perguntou apontando para o livro.
— Ah, isso? Sim, eu estive. Eu estava abraçada a ele quando tudo aconteceu. Quando me dei conta, ainda continuava comigo. Já perdi a conta das inúmeras vezes que eu o li. Mas a história sempre parece se renovar. Nunca perde a graça.
— É mesmo? Ainda bem.
— Apenas lamento não ter conseguido lê-lo para Dave. Seria o primeiro livro dele. Mas sei que depois você o fez, então fico mais tranquila.
Nesse momento, o senhor ganhou um semblante mais sério.
— Havia muitas outras coisas que você gostaria de ter feito com ele, não é?
— Sim, não posso mentir.
O senhor, agora, apresentava um semblante triste, mas o cobria com as mãos.
— Durante todos esses anos eu me perguntei se consegui ou não dar a Dave o amor de um pai. Se consegui fazê-lo feliz, mesmo sem a presença da mãe por perto.
A mulher colocou a mão sobre a coxa do senhor.
— Eu garanto, estive observando você durante todo esse tempo. Eu assisti vocês dois, e posso garantir que você fez o melhor que pôde.
— Mesmo assim – Agora caíam lagrimas do rosto do senhor – Quem garante que você não faria melhor?
— Não podemos pensar quem faria melhor, Tom. Quem estava lá era você, quem se dedicou, esforçou, e batalhou foi você. Diga, você se lembra de como Dave estava pouco antes de você vir para cá?
— E-eu só me lembro.... Só me lembro de o ouvir chorar... Aquela foi a primeira vez que o ouvi chorar desde que você se foi.
— Isso mesmo. Mesmo após você ter sido internado, mesmo após várias visitas, ele nunca chorava. Ele só veio a chorar quando seu coração parou de bater, Tom. Seu coração já não batia mais quando você o ouviu chorar, Tom. Foi nesse momento que ele percebeu que havia perdido você de vez. Foi nesse momento que ele colocou para fora tudo o que sentia por você. Tom, seu filho lhe amava.
Com essas palavras, Tom não aguentou, começou a soluçar enquanto as lágrimas caiam com maior intensidade.
— Que... Bom... É muito bom... É muito bom saber disso...
— Sim. Você fez um ótimo trabalho, Tom – Disse a mulher, sorrindo ternamente.
— Ainda assim – A intensidade das lágrimas não diminuía – Eu queria muito que aquele caminhão não tivesse acertado a gente. Eu e Dave teríamos sido tão mais felizes com você ao nosso lado, Catheryne.
— Eu também, Tom. Eu também... – Uma lágrima inevitavelmente desceu pelo rosto daquela mulher.
— Você era jovem. Havia tanta coisa que eu queria lhe mostrar. Tantos momentos que eu queria passar junto com você e Dave...
Segurando carinhosamente as mãos de Tom, Catheryne puxou-as para perto de si, e solicitando-lhe a atenção, disse:
— Meu amor, eu entendo sua dor e angústia. Durante muito tempo compartilhei do mesmo sentimento. Mas com ajuda e reflexão, eu aprendi a aceitar. Aceitar a vida como ela é, o quanto ela é, e por que ela é. Graças a isso, eu pude estar presente nos momentos importantes que decorreram posteriormente, com Dave e com você. A formatura dele, o primeiro emprego, seu casamento. Tudo, eu estava lá, e estava feliz por ele e por você. Dar uma chance a vida foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Aos poucos, as lágrimas de Tom iam cessando.
— Desculpe Catheryne... Por mostrar esse meu lado patético... Eu jurei viver minha vida por você... Desculpe por ter demorado tanto – Tom disse e em seguida abraçou Catheryne com força.
— Não, Tom, você não tem com o que se desculpar. Você cumpriu seu juramento. Você me fez feliz... – Catheryne recebia aquele abraço enquanto mais lágrimas desciam de seu rosto.
Ficaram por um tempo abraçados. Algumas lágrimas ainda rolavam por seus rostos. Até Catheryne se afastar para dizer:
— Eu fiquei muito feliz por tudo que você viveu. Agora, eu lhe peço mais uma vez. Dê mais uma chance a vida. Uma nova jornada lhe aguarda.
— Está certo. Eu sempre dizia a Dave para dar uma chance às coisas. Não posso me contradizer agora – Falou Tom sorrindo.
— Sim – Observou o campo – Já é hora. Quero te mostrar algo. Viria junto comigo?
Tom secava as últimas lágrimas.
— Esperei muito para te reencontrar. Com você, eu vou a qualquer lugar.
Catheryne sorriu para Tom, e este, retribuiu.
E então, de mãos dadas, foram caminhando lentamente pelo campo de girassóis. Sem pressa, sem hesitação. Calmamente. E conforme iam se distanciando, seus corpos iam ganhando um brilho dourado, e deles pequenas partículas iam se desprendendo. Além disso, aquele velho Tom ganhava um aspecto jovial, e voltou a ter a mesma aparência de quando se despediu de Catheryne. Logo, as partículas tomavam a forma de pétalas. Pétalas de girassol. Que com o vento, seguiam aquele balanço em direção ao céu azul da vida.
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