Gipsofilas

1 As flores machucam - Capítulo Único


Notas iniciais
Dedico a Cat

Ela estava lá, com seu buquê de gipsofilas presos em um pedaço de tecido branco. Aquelas flores, como mosquitinhos, picavam e passeavam sobre seus braços. Flores também podem machucar, ela me disse isso uma vez. Não só por seus espinhos, mas por seu perfume, pelo seu toque, pelas lembranças que as flores carregam, a beleza delas que não abraça a tristeza, elas machucam. Ela não parecia se incomodar com as flores naquela noite.

Ela estava lá, sentada naquela pedra, bem ali na praia do Arpoador, com as ondas batendo lá embaixo. Ela sempre pensa muito antes de fazer algo, mas naquele momento ela não precisava pensar, ela não precisava ser, ela só precisava sentir. Foda-se se aquele vento frio faria mal, por que sua saúde não era muito estável, mas ela só precisava sentir. As consequências poderiam vir depois, mas que a deixassem aproveitar aquele momento. Era algo único estar ali, com o seu vestido azul colado na pedra pela água que chegava até ali, e os coturnos balançando perigosamente pela beirada.

Os olhos, de um castanho quase preto, fitavam o mar, como se ele fosse eterno, como se tudo aquilo fosse eterno. Mas como diria um personagem de orelhas grandes e com relógios que ela conhece muito bem, ás vezes o eterno dura apenas um segundo. Talvez ali fosse o seu país das maravilhas, ela não precisava ir até o subterrâneo, e ele não precisasse ser um país, apenas uma pedra e o oceano, com a silhueta do Rio de Janeiro logo atrás, já eram capazes de fazer maravilhas, era libertador. A liberdade é um sentimento muito bom. O vento que levava seus cabelos castanhos castanhos escuros e turquesa na nuca, o barulho da água batendo nas pedras, aquilo era liberdade, ela se sentia infinita. Mesmo que fosse só por um segundo.

A lua brilhando no céu, ela sempre gostou da lua. A lua está sempre mudando, cheia de fases, assim como ela. Naquele momento, eu poderia jurar que ela estava deitada na lua, segura, a um milhão de quilômetros de distância, um lugar tranquilo e estrelado. Ela poderia saltar dali, e não haveria dor. Ela estava livre.

Ela também gosta de gatos, de bolo de morango e de piano. Talvez ela própria fosse uma melodia. O final de uma ópera dramática e emocionante, daquelas que deixa o público sem saber o que falar por um longo tempo.

É tão mágico, tão adorável. Como no momento em que ela fala sozinha, e faz até mesmo caretas. Ela é distraída, anda pela rua pensando sobre assuntos diversos, e saí um pouco daquele mundo, completamente perdida em si mesma ou em qualquer outra coisa, só conseguindo voltar quando tropeça e caí majestosamente no chão, ou consegue disfarçar e continuar com suas distrações. Adorável.

"Tudo tem uma moral se você conseguir notar", talvez haja uma moral nessa história. Vou lhes contar uma coisa, que já não é mais segredo: As melhores pessoas são loucas. Talvez ela seja louca.

E quando aquele seu precioso segundo tem que acabar, no fim daquele eterno, ela precisa ir, ainda não é a hora de deslizar por aquela pedra e se tornar parte do mar. Ela saí com seus livros e com seu caderno. Levanta-se e parte, voltando ao seu mundo, adeus ao país das maravilhas.

O buquê de gipsofilas ficou lá, os mosquitinhos se aquietaram, e o vento os levou, para fazer um voo, e afoga-os no mar. As flores machucam.

Notas finais
Opiniões, Reviews?
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