GioGiostuck

17 Get Lucky 6


Dave Schuldiner passou uma semana sem sair da enfermaria. Havia armado uma barraca de acampamento com alguns mantimentos no meio do local, porém mais próximo da cama de Jade do que das outras. Porém, apenas entrou nela uma vez. Passava a maior parte do tempo em uma cama que estava ao lado da garota, sempre alerta. Durante este tempo, não comeu ou bebeu.

Passava também algum tempo sentado na mesma cama em que ela estava, acariciando-a com as mãos. Quando fazia isso, a garota esboçava leves sorrisos, e isso o levava a crer que estava agindo corretamente.

O semblante da garota melhorava a cada dia. Ela ainda não havia acordado, mas parecia que ela sonhava cada vez melhor. Dave não conseguia vê-la, mas sentia que estava melhorando.

Jade acordou na manhã do sétimo dia depois da luta. Durante esse tempo, não houve nenhuma manifestação de algum parente dela, ou amigo próximo. Aparentemente, ela não tinha ninguém.

Dave estava sentado na cama ao lado dela quando sentiu que ela havia acordado. Logo levantou-se e se aproximou. Ela havia aberto os olhos, que estavam muito vivos, embora seu estado ainda não estivesse completamente recuperado. Ela olhou pro lado e o viu, e tentou falar algo.

– V-você...

– Como se sente, menina? – respondeu Dave.

– Bem melhor, eu acho... Você era o anjo?

– Anjo?

– Bem... é que quando eu dormia, sentia uma forte presença me acolhendo, cuidando de mim... Era você?

– B-bem, então...

– Você ficou aqui esse tempo todo?

– ...é, eu fiquei.

Houve silêncio.

– Obrigada... Meu nome é Jade.

– Dave. Dave Schuldiner.

– Me desculpe por aquilo, Dave. Eu realmente não queria bater em você...

– Tudo bem, o pior já passou. O importante é que você está bem.

– Você ficou muito machucado?

– Um pouco, mas já passou também. Você se lembra de algo.

– Não muito bem... só do começo, aí perdi o controle... e depois quando eu vi—

Ela parou de falar e se lembrou do que havia visto. Algo que ninguém nunca deveria ver.

Os olhos de um Schuldiner.

Ela não falou nada, mas Dave quebrou o silêncio.

– Você os viu. Eu sei.

– ...

– O que achou? – disse, rindo.

– S-são bonitos...

Dave riu mais.

– Do que você tá rindo? – ela ficou envergonhada, e então notou que ele estava usando um lenço nos olhos. – Por que você tá usando isso?

– Bem, eu tiro, se você quiser. – disse, e logo depois, desamarrou a venda, e contemplou aqueles olhos grandes e lindos com seus próprios.

– É bonito... de um jeito estranho, mas é.

– Os seus também, menina.

– Por que você não os mostra?

– Bem, é complicado. Meus olhos representam quem eu sou. É pra eu me olhar no espelho e nunca me esquecer o porquê de estar vivo. E só você os viu. Sinta-se importante. – Ele deu um sorrisinho.

– Você é legal, Dave – disse a garota – nunca tive contato com outros homens, ou outras pessoas...

– Você não tem família? Pai, irmão?

– Meu pai, mas—

Ela foi interrompida pela abertura da porta. Dave teve o instinto de virar para ver quem era, mas o impediu, pois lembrou que estava sem óculos. Eram Giovana e Junior.

– Ela acordou? – perguntou ele.

– Sim, é o que parece – respondeu Dave.

– Eae, gata, meu nome é Roberto, mas pode me chamar de Junior, ou “meu amor”.

A garota não entendeu direito o que ele disse, mas respondeu assim mesmo.

– Oi...

– Oi Jade! Como se sente? – perguntou Giovana. Jade se lembrou bem do seu rosto.

– Bem melhor, obrigada.

Naquela hora, ouviu-se passos vindos de dentro da enfermaria. Logo apareceu o cirurgião-chefe da Enfermaria Geral do Belle-Mèse (esta monitorava as filiais, sendo uma delas a do prédio do segundo ano), o Dr. Luís Madeira. Era um homem muito respeitado no cenário médico da república, e foi fortemente criticado quando passou de um alto cargo em um hospital central para um cargo em uma escola. Poucos sabiam a devida razão disso: Luís tinha grandes débitos com a mãe de Dave. Débitos que ele era satisfeito em ter. Quando ela morreu, Rafael pediu que ele tomasse conta da enfermaria. Ele havia supervisionado pessoalmente o caso da garota.

– Ótimo, você acordou – disse ele, enquanto anotava algo em uma ficha médica – Jade Loiuse Harris, não é?

Ela não respondeu, mas fez que sim com a cabeça.

– Oh, não é de falar muito, não é mesmo? Tudo bem. Seu estado melhorou bastante no decorrer da semana. Só preciso fazer alguns testes com você, e se tudo der certo, você sai ainda hoje.

– Isso é bom. – disse Dave.

– Senhor Schuldiner, o senhor sairá também?

– Sim, doutor. Estou morrendo de fome. Não como há sete dias.

Ao terminar de falar, Dave notou um barulho vindo de fora. Mas não era só de fora. Vinha de todos os lados.

– Nossa, esses meteoros pioram a cada dia. Espero que isso passe logo.

– Meteoros? – perguntou.

– Ah, sim. Mas a barreira está trabalhando bem.

Dave não terminou de ouví-lo e correu pra fora da enfermaria. Abriu os olhos e olhou pra cima. A cena foi deplorável.

Não havia mais céu azul. Não se tinha nem ideia de que horas eram, se era dia ou noite. O céu estava vermelho. Centenas e centenas de meteoros estavam explodindo contra uma barreira invisível na mesosfera. Dave sabia o que estava acontecendo. Ele devia parar aquilo.

Atrás dele apareceram Giovana e Junior.

– Vocês dois, arrumem o dojô. Levem quantos computadores puderem e expulsem todo mundo de lá, em nome do vice-diretor. Eu vou atrás de algumas coisas. Apareço lá em algumas horas.

– Finalmente? – perguntou Giovana.

– Finalmente.