Gimme More
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Capitulo cinco -
Dormi muito pouco aquela madrugada; uma ou duas horas de sono no máximo. Um sono perturbado por um "e se" muito grande e assombroso em que minha família estava inteira. Uma mãe, um pai e cinco irmãos... Vocês devem achar que eu sinto falta da minha mãe, mas não é isso. No fundo, acho que nunca tive uma mãe. Sinto falta de um pai. Compreendo o fato de Abelle estar morta; aceito isso, mas não tolero ter um pai vivo e mais distante de mim do que a pessoa que a morte me tirou.
O prédio da Máfia tinha diversos quartos para a maioria das pessoas mais importantes nela. Eu e as meninas tínhamos nossos próprios quartos com nossas roupas, acessórios e maquiagens. Tudo. Mas era ali que eu sentia o verdadeiro sentido da palavra "lar" ou mesmo "casa". Levantei ainda atordoada e fui tomar um banho frio para acordar e levar os pensamentos ingênuos e repulsivos que perturbavam minha cabeça. Analisei meu corpo já vestido no espelho. Disfarcei as olheiras com maquiagem e saí com as meninas; entramos no carro de Bianca e fomos para o nosso infernal segundo dia de aula.
[...]
Meus olhos pesavam, mas não deixei nenhum detalhe da aula passar. Era inglês avançado, mas lembrava um pouco a filosofia. Basicamente interpretação de textos, frases marcantes de escritores sábios e mortos há anos ou séculos.
–Turma, antes de encerrarmos esta aula vocês receberão folhas com diversas frases de diversos autores famosos ou não; quero que as interpretem com suas duplas como vocês bem sabem. Thalia, o seu parceiro chegará assim que o sinal bater. — toda a turma saiu dois minutos mais cedo, mas eu teria de ficar e descobrir quem faria o trabalho comigo, quem seria o individuo que precisaria da minha ajuda em uma matéria onde só se precisava pensar.
Um minuto se passou em um silencio quase tenso entre mim e o professor. Levantei de onde estava e caminhei até a mesa do professor.
–Está se sentindo bem, menina? — sua voz e seu rosto me expressavam preocupação.
–Sim senhor. Foi apenas uma noite mal dormida, nada preocupante.
Estava de costas para a porta, mas soube por passos sonoros que alguém tinha chegado antes do sinal. Não sei dizer o porquê, mas me senti tensa com a chegada do estranho. Vi o semblante de o professor sorridente cumprimentar o aluno as minhas costas.
–Seu parceiro e aluno, Thalia. Luke Castellan. — entendi a tensão do meu corpo. Virei devagar para Luke. Ele tinha um sorriso vitorioso no rosto, como se já esperasse me encontrar como sua "professora". Eu estava sem reação, mas já havia descoberto o motivo daquela carona, pelo menos parte do motivo.
Saí da sala sem me importar em dar satisfação ao professor; era óbvio que o homem queria conversar sobre nossa dupla sobre como eu deveria abordar assuntos com Luke e fazê-lo pensar, mas saí mesmo assim. Os corredores tinham alguns alunos, mas ainda não estavam cheios. Senti uma mão segurar meu pulso com força e como estava na escola não podia revidar como tive vontade.
–O que você quer? — perguntei rispidamente ao loiro que ainda segurava meu pulso. O sorriso vitorioso não sumia do rosto e não nego que me encantava. Não suportei não ter pensado naquela hipótese antes.
–Quando começa nossas "aulas"? — perguntou como qualquer safado pergunta quando vai ser o encontro ou algo pior.
–Não sei ok? Você já sabia que eu iria te ajudar. — eu afirmava, não precisava que ele confirmasse esse fato, mas ele assentiu mesmo assim — Foi por isso que me deu uma carona? Saber onde ficava minha casa? Não acredito na desculpa de se desculpar por me derrubar no chão.
–Sim e não. — soltei meu pulso e voltei a andar, não estava com tempo ou paciência para respostas enigmáticas. Voltei a ser segurada, dessa vez pelo outro pulso e ele quase grudou seu corpo ao meu. — Não quer saber a resposta?
–Se for me dizer, diga logo. Tenho mais o que fazer além de ouvir sua voz e não estou com a mínima paciência para te desvendar agora.
–Então eu vou a sua casa hoje à tarde para estudar e te conto minha resposta, pode ser assim?
Luke estava prendendo meu pulso sobre seu peito e me dei conta, mesmo sem olhar para os lados, que já havia alguns olhos voltados para nós. Ignorei isso e me concentrei nas batidas firmes do seu coração. Relaxei o braço, desistindo de usar a força para me soltar e Luke relaxou o aperto.
–Te vejo as 16h00min. Não se atrase. — dei as costas ao mesmo sorriso encantador e vitorioso e fui para meu armário. Encostei meu corpo na superfície de metal e forcei a memória para ver os fatos importantes que lembrava Luke... Nada me ocorreu. Não era possível que o menino mexesse tanto comigo agora, mas não existisse nas minhas lembranças. Eu teria que invadir o sistema da escola e achar qualquer informação possível sobre ele.
–Lia!
–Que é? — perguntei ainda meio fora do ar. A figura raivosa de cabelos laranja na minha frente parecia querer me dar um tiro.
–Como o que é? Você não deveria estar tão aérea. — Rachel me repreendeu — Perguntei se já conheceu o seu aluno e se temos algum programa para a noite.
Sacudi a cabeça para organizar os pensamentos confusos e ajeitei os fios do meu cabelo.
–Sobre hoje à noite não sei, mas acho que não. Conheci meu aluno e prevejo muita dor de cabeça para mim.
–Por quê?
–Ele tem um sorriso ainda mais brincalhão do que o dos gêmeos.
–Ai meu deus! Sério?
Ficamos discutindo sobre novos possíveis trabalhos, mas sempre com cautela e não dizendo palavras chaves; nós tínhamos uma espécie de código para situações assim. O rumo da conversa se desviava a cada minuto e agora beirava o assunto família.
–Juro pra você, Tha. Eu vou deixar meu pai na miséria! — a ruiva se controlou para não gritar, sendo assim o rosnado baixo saiu ainda mais feroz.
–Eu sei, Rach. Logo nossos pais vão ter uma pequena amostra de como o mundinho pode ser cruel com eles também — acalmei-a e olhei para os lados — Onde é que as outras se meteram? Parece até que nos abandonaram.
–A Clarisse foi à aula extracurricular de mecânica; Bia sumiu e a Annie estava conversando com tal de Jackson, acho que é um aluno dela ou coisa do tipo. Sabe, eu...
Não ouvi a continuação das palavras de Rachel. Primeiro, por que ela fala de mais, segundo, porque, mais uma vez, acabei parando no chão. Minha visão bem treinada focou dois indivíduos do sexo masculino em uma espécie de briga, mas meu cérebro aéreo não interpretou nada! Luke foi empurrado e antes de cair no chão, me puxou junto com ele. Óbvio que dessa vez todos olhavam para nós; contrariando a manhã de ontem, dessa vez era eu por cima. Meus cabelos faziam uma cortina de privacidade em nossos rostos, o que ajudou a aliviar o peso dos olhares.
–Por que a gente só se encontra assim? – o sussurro me escapou enquanto ainda estávamos os dois em choque.
–Se me lembro bem – a voz rouca me deixou o impulso de estremecer, mas me contive — nós nos vimos assim – ele inverteu as posições ficando sobre mim. Toda a privacidade antes oferecida pelo meu cabelo sumiu. Mas isso não significa que me importei com os olhares.
–Mas o que isso significa? — era a voz do diretor; os minutos da estranha e confusa hipnose tinham acabado.
[...]
A sala do diretor era muito bem decorada: as paredes cor de creme, os móveis modernos em formatos circulares, deixados de forma perfeita em uma sala reformada especificamente para esse tipo de luxo, eram de cor marrom. O grande vaso de planta em um canto próxima a janela de vidro era iluminado pela forte luz solar. Os livros bem alinhados na estante de madeira quebravam um pouco a modernidade e abriam um espaço para a clássica e notável autoridade que se espera de um diretor.
Sentada em um sofá de couro, na secretaria localizada do lado de fora da diretoria, eu observava o vai e vem dos dedos das funcionárias nos teclados. Aguardava pacientemente Luke relatar o acidente ocorrido e explicar que eu não havia sofrido nenhum tipo de assedio. Puxei as pernas para cima do sofá e fiquei analisando minhas opções; não tinha duvidas de que se quisesse qualquer informação sobre o Castellan, era essa à hora de conseguir. Meus olhos percorreram mais uma vez a secretaria luxuosa e localizaram uma porta dizendo “acesso restrito". Era ali que deveriam estar o dinheiro de mensalidades e os registros de alunos... Os registros escritos, já que eu não tinha duvidas existir uma cópia no computador do diretor.
A porta se abriu, mas meus pensamentos não paravam para poder ver o individuo de cabelos cor de areia sair. Eu teria que ser muito rápida e astuta...
–Thalia? — a voz grave me tirou dos devaneios — Venha.
Entrei no amplo escritório já descrito e me sentei totalmente à vontade. O velho de cabelos grisalhos tinha olhos castanhos firmes e fazia bem à frente linha dura. Ele se sentou a minha frente, do outro lado da mesa.
–Filha, você não sofreu nenhum atentado, certo? — o modo afetivo com o que me chamou não indicava afeição comigo, mas sim a preocupação de uma queixa feita pela minha família a esta instituição por não ter havido ninguém para me socorrer dos braços de um garoto. Forcei-me a continuar uma menina doce e impassível — Seu pai não perdoaria esta instituição...
–Não ocorreu nada além de um acidente, senhor. Castellan apenas tropeçou e acabou me levando ao chão junto dele. Nada mais.
Vi o alivio se passar pelo seu rosto, mas a sombra do medo teimou em permanecer.
–Seu pai...
–Não saberá de nada no que depender de mim sobre o ocorrido...
–Mas já sabe.
–O QUE? — não consegui conter o grito; o velho se encolheu no susto e medo.
–Todos os funcionários foram encarregados de cuidar da sua segurança; seu pai sempre ordenou que se mantivesse uma comunicação ampla sobre seu comportamento e o que acontecia ao seu redor. Notas, machucados, faltas... Tudo.
Senti meus membros ficarem tensos, principalmente meus ombros. Não conseguia disfarçar o ódio que estava sentindo daquele valho caduco e ausente. Como é que Zeus ainda tinha a coragem de espionar minha vida, quando nem se importava? Eu era apenas um ponto favorável para seu nome nas capas de revistas como o "pai mais dedicado do mundo"? Eu queria extravasar essa raiva, mas não havia alternativa para esse desejo que não levasse a morte de alguém.
–Tem algo mais que eu precise saber? Alguma ordem estúpida do meu pai ou...
–Seu pai mandou avisar que um de seus irmãos virá buscá-la e que não deve sair daqui a até que cheguem.
Ótimo! Bando de desgraçados intrometidos... Odeio ser parte de uma família tão falsa quanto a minha, não suportava o mundo em que vivia. Levei a ponta dos dedos às raízes dos cabelos espalhando os fios e abaixando o rosto em um claro sinal de nervosismo.
–Pode me deixar sozinha por dez minutos? — perguntei com a voz baixa — Preciso me acalmar e não quero ser injusta com o senhor. — minha voz tremeu de raiva, mas soou baixa. Não vi, mas ouvi o barulho da porta; eu estava sozinha... Velho tolo. Peguei o cabo do celular na minha bolsa Marc Jacobs e corri para o computador do diretor. Para garantir a minha segurança, coloquei uma daquelas luvas de plástico que médicos e dentistas usam (eu sempre tinha dessas na bolsa); algo importante no mundo ilegal é que você nunca deve deixar sua marca ou será pego. Diversos alunos foram mencionados, mas eu procurava a letra C de Castellan... Passei os documentos, informações e outras menções para o celular.
Suspirei aliviada fechando tudo. Para garantir total segurança, me livraria das luvas em outro lugar. Voltei para o outro lado da mesa, me sentando encolhida na cadeira; eu sentia o corpo tremer em ódio por Zeus. A porta abriu.
–Lia? — a voz era rude natural, mas eu conseguia sentir uma nota de afeição nela. Levantei e peguei minha bolsa, passei reto pela porta ignorando os olhares profundos e penetrantes de Ares.
Meu irmão era incrivelmente forte; o corpo bem malhado, a cara de mal mais bem feita possível e os olhos de um castanho tão profundo que era possível observar sua alma: grandes chamas dançando para lá e para cá descreviam meu mano. Ele vestia o uniforme do trabalho, mas era apenas porque deveria ter saído do seu oficio a mando do pai.
Ares vinha caminhando a dois passos de distancia de mim como um bom guarda costas; não precisei olhar para trás para saber que suas mãos estavam nas costas e seus olhos variavam entre mim e os poucos estudantes que ainda estavam na escola. Caminhei até o carro alugado (ele na verdade possuía um bom carro, mas preferia uma moto do tamanho de um filhote de elefante, com labaredas sobre o tanque de gasolina e assento de couro) e me sentei no banco do carona.
–Papai, está em um estado grave entre a raiva e a preocupação com você, sabia? — o divertimento estava contido desde o sorriso a cada palavra proferida.
–E por que ele haveria de estar sentindo isso? — fui ríspida. Paramos em um farol e observei os pedestres passando; uma menininha saltitava alegremente fazendo seu vestidinho lilás subir um pouco mais do que deveria, ela sorria para o pai que lhe sorria de volta. Era uma cena bonita demais para ser verdade para mim. Ares percebeu meu suposto interesse nos pedestres. O sinal abriu.
–Você não deveria ser tão dura com ele, Thalia. — senti a seriedade na voz de Ares; isso não costumava ser frequente quando se tratava de um assunto como esse.
–E você não deveria me dizer se devo ou não ser dura com um completo estranho.
Assunto encerrado. O caminho foi tenso preenchido apenas pelo silêncio. Assim que cheguei corri para meu quarto, peguei o MacBook e passei as informações do Iphone 5. Estava na metade da transferência quando ouvi os gritos do lado de fora do meu quarto. Corri para fora e vi uma Hera estapeando e gritando com Teresa... É hoje que eu mato essa família!
Empurrei a perua que colidiu com a parede. Se existe algo que eu não tolero é que tentem machucar pessoas puras, de bom coração como Teresa.
–QUEM VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE É? — os berros dela estavam começando a chamar a atenção de todos os outros indivíduos que estavam em casa.
–Eu vou dizer só uma vez, Hera, e acho bom você entender. Não encoste na Teresa ou eu mato você e se eu ver você agredindo qualquer funcionário ou funcionária daqui, verbal ou fisicamente, pode ter certeza de que eu te apresento a porta da rua em direção ao inferno. — as palavras ditas lentamente e baixas não impediram ninguém de ouvi-las e muito menos o choque. A mulher a minha frente tremia em fúria, mas consegui notar o medo. Virei-me para Teresa. Ela mantinha a mão sobre a face, escondendo o lugar onde recebera um tapa. Segurei seu pulso e a puxei pela casa até a cozinha.
–Não deveria ter feito o que fez menina.
Teresa era ainda uma mulher muito bonita. Tinha os cabelos caramelos puxados para o dourado e pele clara e, agora, a vermelhidão em sua bochecha. Ela deveria ter 40 e poucos anos, mas ainda tinha um ar jovial, mesmo com poucos cabelos grisalhos e tinha comigo um grande carinho de mãe.
Caminhei até o congelador e fiz um pequeno saquinho com gelo. Entreguei a ela.
–Devia e fiz.
–Você é melhor do que aquela mulher...
–Ninguém é melhor do que ninguém nesta casa, querida. — coloquei uma mecha de cabelo para trás da sua orelha em um pequeno carinho — Aqui todos fingem ser algo que não são, todos tem segredos e todos mentem.
Com os olhos arregalados ela perguntou:
–E o que fingem ser?
–Felizes.
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