Gimme More
65 Capítulo 55
Notas iniciais
Capítulo cinquenta e cinco –
A pequena eu estava pendurada nas cordas que serviam como uma das escadas do playground, tentando chegar até o topo onde estava o menino-mago-dragão. Ele agitava o colar e gritava palavras esquisitas, sem sentido, como se fosse uma língua mágica de verdade ou sei lá. Meu amigo estava logo atrás de mim, mas um menino o agarrara pela calça puxando-o para baixo. Os dois caíram e rolavam na grama parecendo briga de verdade mesmo.
—Eu já te alcanço, princesa – gritou ele – Não se preocupe!
Eu gostei de ouvi-lo me chamar assim.
Continuei subindo e cheguei ao alto do playground, mas não na parte em que estava o pirralho que me roubara. Passei pela ponte de cordas correndo então me lancei sobre o menino. Ele não esperava por isso: caiu no chão com um grito que desencadeou outros do seu time. Rolamos no chão de madeira por um tempinho, fazendo o colar ficar num canto caído e imóvel, até que ele se forçasse sobre mim. A pequena eu deu-lhe um soco lindo de direita que o assustou e fizeram seus olhos se enxerem de lágrimas.
Com isso me afastei e peguei o colar, mas me descuidei dando as costas ao meu inimigo: uma criança irritada que não gostou nem de perder nem de apanhar de uma menina. Gritei. Só não gritei mais alto porque uma de suas mãos me tapou a boca. Ele puxou meu cabelo e quase me enforcou. Voltamos ao chão – a menina agora com medo.
Foi exatamente quando uma lágrima minha caiu que meu melhor amigo apareceu. Ele se jogou contra o menino e bateu nele com vontade. Nós três não estávamos mais brincando, era sério e muito pessoal. Os dois gritavam um com o outro e tudo o que a princesinha fez foi se encolher no canto e assistir impressionada, com os olhinhos tão brilhantes de lágrimas e de carinho, o olhar focado no seu melhor e mais importante amigo.
No fim, o menino descera emburrado dizendo que ia contar para a mãe dele o que o outro fizera. Coisa de criança. Preocupado, o meu cavaleiro e melhor soldado me abraçara ainda no chão e me ajudara a ficar de pé.
—Você se machucou? – sabia que a cabeça dela devia doer devido o puxão de cabelo, mas mesmo assim a pequena Thalia negou, mostrando traços da minha personalidade recente – Conseguiu o colar de volta? – eu ergui-o com um sorriso no rosto.
—Ninguém rouba a princesa guerreira – disse com muita atitude.
—Recuperamos a jóia encantada! – gritou ele para as outras crianças logo abaixo – A princesa está a salvo! – elas vibraram. Meu amigo me abraçou e descemos no escorregador assim, abraçados, “como eu já tinha feito com Apolo algumas vezes” a menor pensou. Assim que ficamos de pé as crianças se reuniram formando uma roda ao nosso redor.
—Agora só falta o beijo!
—O cavaleiro tem que beijar a princesa!
—Só assim ela vai estar protegida do mal.
—Tem que beijar ela!
—Beija, beija, beija!
O sonho fora interrompido: acordei com uma porta abrindo ou fechando, ou com alguém batendo. Era tudo a mesma coisa. Fiquei irritada por um tempo, por não ter visto como a lembrança acabava.
Eu estava com o corpo parcialmente sobre o de Luke: a cabeça em seu ombro, meus seios pressionados em seu peito e escondidos dos demais. Sentia sua mão deslizar por minhas costas, por meu ombro e braço. Instintivamente, me esfreguei nele aspirando seu cheiro: um perfume amadeirado somado a um cheirinho de sexo.
Luke me abraçou de volta. Era tão instintivo me aconchegar em seus braços, naquele calor. Tão bom ouvir seu coração bater no mesmo ritmo do meu. Eu levei um tempo para conseguir abrir os olhos, mas assim que o fiz, a primeira coisa que foquei foram as manchas roxas em seu peito. Isso me fez sorrir.
—Que lindas marquinhas – disse com a voz de sono, fechando os olhos de novo.
—Engraçadinha você.
—Mas elas são lindas – insisti tocando seu peito, acariciando sua pele quente e sensível pelos chupões – Elas dizem muita coisa.
—É?
—É... Dizem que você se divertiu muito de noite – ele riu e eu beijei seu peitoral – Elas dizem que você é meu.
Pude sentir sua respiração ficar mais profunda, seu coração perdendo o compasso depois dessas palavras de um jeito tão gostoso...
Ainda estávamos parcialmente cobertos, o edredom até o meio das minhas costas, nos envolvendo num calor agradável. A janela estava fechada, assim como as cortinas, nos deixando num escurinho gostoso. Eu só tinha o corpo de Luke e a parede para fixar o olhar; o restante do quarto ficava as minhas costas.
—Finalmente acordaram? – era a voz de Chris. Luke ergueu seu tronco e eu virei apenas a cabeça; não era como se eu quisesse expor meus seios assim do nada. Castellan também parecia pensar o mesmo já que ainda mantinha seu corpo colado ao meu conforme fui erguendo meu torso.
—O quarto já está vazio? – não restava ninguém ali além de nós três.
—Já? É quase uma da tarde, Luke – riu o moreno. Encostei as costas na parede puxando o edredom até ter o peito coberto – Vocês perderam o passeio. Silena saiu cedo para se arrumar e eu fiquei com dó de acordar Clarisse – ele ficou meio sem jeito; achei fofo – mas perguntei se ela queria continuar dormindo ou ir se trocar. Ela deve estar no quarto tomando banho; levantou quase agora.
—Desnecessário dizer que perdemos o café da manhã – lamentou Luke. Chris parecia desconfortável. Olhou de Luke para mim, em dúvida, como não soubesse se falava ou não. Claro que nós dois notamos – Desembucha, Rodrigues.
—Não sei se é um assunto relevante. Talvez seja só desconfortável... – ele meio que desconversou.
—Não vai saber se não tentar – disse com a voz calma. Ficou bem claro para mim que ele esperava uma ordem de uma princesa mafiosa, mas eu não senti a necessidade de me impor daquela forma: afinal, Chris já era mais do que apenas um Mafioso, do que o namorado de uma amiga. Ele já era um amigo meu.
—Não entendi direito como aconteceu: Kelli viu vocês aí, dormindo como anjinhos, como um casal. Acho que ela veio com Silena para pegar alguma coisa ou Silena contou e ela quis ver com os próprios olhos. Não sei. Só me surpreendi quando acordei e dei de cara com ela em lágrimas quase enforcando a Thalia.
O clima pareceu ficar pesado. Que droga! Por que aquela garota simplesmente não desistia de vez? Por que Solace também não desistia? Era muito óbvio que eles dois tinham/tiveram um caso, então por que simplesmente não continuavam e nos deixavam em paz?
—Não seria a primeira vez que eu acordaria sendo espancada – sorri com amargura pensando em Zeus, tentando aliviar um pouco o clima.
Não consegui olhar para ninguém, entretanto vislumbrei Chris entrando no banheiro.
—Qual o problema de vocês meninas? – soltou Luke, vendo minha cara de interrogação continuou – Silena fez questão de trazer Kelli aqui só para que ela se machucasse ou machucasse você ou os dois. Por que meninas são tão cruéis?
Eu fiquei uns segundinhos em choque, mas não consegui não rir. Ele tinha soado muito fofo. Ou era eu que já estava irremediavelmente apaixonada.
—Por que os meninos são tão babacas e só vivem em função de sexo? – retruquei ainda sorrindo. Inclinei-me sobre sua mala e ao invés de pegar meu vestido/fantasia peguei uma camiseta dele – Me empresta? – disse com a voz quase manhosa.
Ele não respondeu. Ajudou-me a vestir, mas não me deixou levantar de imediato. Ele olhou profundamente em meus olhos, procurando algum desconforto na história relatada por Chris e não encontrou nada. Então, seus olhos passearam por meu corpo, primeiro procurando sinais de que Kelli me agredira – o que nós dois sabíamos que não chegara a acontecer – depois apenas para me admirar mesmo. Apreciar o fato de que sua camiseta estava tocando no meu corpo quase completamente nu.
—O que vamos fazer? – ele sussurrou – Eu ainda preciso marcar você – seu sorriso era muito tentador.
—Mais tarde – empurrei-o delicadamente – Ainda não sei; talvez andar pelo hotel, pela praia, comprar lembrancinhas – levantei-me e peguei minhas coisas já seguindo em direção a porta.
—Não existe nada mais sexy do que uma mulher de calcinha e camiseta – não consegui esconder meu sorriso.
—Thalia, eu preciso perguntar – Chris apareceu só de toalha; parecia meio pasmo, meio curioso – Vocês já tinham feito algo assim antes? Você e Clarisse...
Sorri.
—Querido... – meu tom de voz parecia pingar malícia – Nós transamos muito antes de vocês entrarem nas nossas vidas. – ele abriu a boca em choque e Luke engoliu em seco. Fazer o que? Éramos muito precoces.
[...]
Eu segui em direção ao diário. Relatei a noite de festa e a madrugada de sexo e encerrei a escrita com o sonho, colocando todos os detalhes de que me lembrava. Só então, quando aliviada depois daquela confissão silenciosa, segui para o chuveiro para uma ducha rápida, daquelas para tirar o cheirinho de sexo. Quando retornei encontrei uma “invasora” no meu quarto, já penteando seus lindos cabelos ondulados.
—Nós devíamos colocar biquínis? – perguntei – Nem sei o que vamos fazer.
—Acho interessante colocar – ela mostrou que já estava com a peça de banho – mesmo o clima não estando dos melhores.
Olhando pela janela, o céu estava nublado e olhando para baixo ficava nítido que chovera durante a noite – outro motivo de termos dormido demais.
—Então, Lia – ela sorriu maliciosamente – eu vi as marcas no Castellan.
—Tenho direito de marcar o que é meu, não? – dei uma piscadinha fazendo-a rir.
—E você ficou sem nenhuma?
—Estávamos muito cansados, mas Luke prometeu me marcar também.
—Ah! Quase uma declaração de amor – ela ironizou; rimos as duas.
Saímos de shortinho e camiseta e encontramos os meninos no corredor, a meio caminho da nossa porta. Não consegui conter o sorriso vendo algumas manchinhas no pescoço de Luke, imaginando as outras que a camiseta escondera.
Decidimos no elevador que íamos dar uma volta pela cidade e procurar um lugar para comer. Encontramos um lugar incrível e com vista espetacular. Clarisse e eu pedimos primeiro a sobremesa – salada de frutas – como se fosse o café da manhã mesmo. Estávamos discutindo o que fazer durante aquela tarde quando me senti observada; a pressão do olhar nas minhas costas era dolorosa, uma série de tiros teria doído menos, mas quando me voltei na direção não vi nada mesmo com a minha visão treinada de mafiosa.
—Lia? – Clarisse me chamou – Tudo bem?
Encarei o nada por mais alguns segundos. Eu nunca ignorava meus instintos.
—Tudo, eu só... – balancei meus cachos e sorri – Não foi nada.
Encontramos um guia e conseguimos transporte pela ilha. Basicamente passamos aquela tarde fria andando pela cidade e aprendo sua história e geografia, tirando diversas fotos lindas para guardar de recordação, esporadicamente parando para comprar sorvetes/milk-shake e conseguindo encerrar o passeio molhados depois de um banho rápido no mar.
Voltamos aos limites do hotel faltando uma meia hora para o por do sol, mais ou menos, Luke e eu ficamos num dos lindos jardins rindo depois de uma divertida conversa com os gêmeos; o casalzinho fora para uma das piscinas. Parecia que tudo estava certo, que conseguiríamos sobreviver aquele dia. Claro que algo aconteceu.
Kelli e Will sentaram-se na nossa frente quase natural de mais, como se não tivessem nada tramado e fossemos todos velhos amigos, podiam estar bêbados também. Eu consegui entrar no jogo bem rápido, mas Luke ficou tenso por um bom tempo até que eu conseguisse tranquilizá-lo discretamente. Nessa, eles contaram o que acontecera no passeio daquela tarde, uma visita a uma das muitas grutas e que uma menina do segundo ano quase se afogara. Will então propusera um jogo: verdade ou desafio, só que sem o desafio, o objetivo era contar a melhor história. Não vi problema em brincar, já estava me entediando mesmo. Mas claro que percebi a intenção de fazer com que confessássemos determinadas situações.
—Já mataram aula? – a pergunta veio de Kelli.
Eu ri com desdém.
—Quem nunca? – retruquei. Os meninos concordaram com a minha resposta, então passamos para a próxima.
—Qual foi a pior coisa que já fizeram para os seus pais? – a pergunta veio de Luke.
—Sei lá – disse Will – Quebrar um vaso que era herança de família – riu passando a mãos nos cabelos – Devia ter uns seis/sete anos.
—Eu explodi o microondas – disse Kelli; pelo olhar eu percebi que foi isso, que fora essa a causa da deformação da mãe.
—Nada mal – surpreendi-me, isso fazia dela alguém mais interessante aos meus olhos, muito mais se tivesse sido proposital.
—Acho que foi drogar a minha mãe – disse Luke de forma pensativa, quase nostálgica – Dei vários calmantes então saí de casa. Eu tinha oito anos.
... Desculpe! Mamãe não queria me deixar sair de casa...
A imagem do menininho dos meus sonhos sumiu tão rápido quanto apareceu.
—Sua vez – Will mal piscava olhando para mim – A pior que coisa que já fez para seus pais.
—Nascer – sorri com muito humor negro – Só uma série de pequenas coisas até agora, nada muito grande.
—Pela sua cara, não são pequenas coisas – constatou a menina.
—São pequenas para mim – frisei – Não para ele. De qualquer forma, qual a graça de fazer algo ruim a alguém? Muito melhor é assistir a pessoa cavar o próprio buraco.
—Primeira experiência sexual – disse Will bem mais animado – Eu fui num puteiro com 13/14 anos... Não! Teve outra coisa antes: meu primeiro boquete, com uma prima minha; ela engoliu tudo de primeira – sorriu com a lembrança.
—Não foi tão explícito assim. Foi com 12 – disse Luke – Uma galera se reuniu para brincar de gato mia na casa de um colega. Todo mundo já jogou, não? Um quarto grande e as luzes apagadas. Todos correndo silenciosamente, se escondendo do pegador. Eu fiquei num armário e uma menina entrou também, nos agachamos e ela se apoiou na minha coxa, perto demais da virilha. Foi a primeira vez que eu senti desejo.
—Ok, minha vez – disse Kelli – Com 14 anos, viajei para o Brasil. E uns amigos me levaram num baile funk – eu comecei a rir, tinha muitos amigos brasileiros e sabia o quão inacreditável era um baile funk – Já imaginou, né? Então, eu nunca tinha visto uma galera tão quente, tão ousada... Dancei muito e beijei muito também. Não foi o primeiro beijo, mas foi o primeiro beijo com pegada, sabem? Mão na bunda, beliscão no seio. Eu quase perdi a virgindade ali.
—Brasileiros são muito quentes – eu ri e Kelli concordou; os dois nos olhavam com certo ciúme, era muito satisfatório – A primeira experiência... – disse pensativa – Não sei se foi bem a primeira, mas com certeza entra no pódio. Bom, noite das meninas, festa do pijama. Primeira grande orgia – eu sorria com a lembrança, com os olhares pasmos dos rapazes – Eu tinha 11 anos.
—Chris tinha que ter ouvido isso. – sorriu um Luke impressionado.
—Menina, mas você é precoce!
Ri.
—Experiente. – retruquei dando uma piscadinha para Solace, que claramente se lembrava da nossa transa a três – E agora?
—Primeiro beijo, só pra combinar – deu de ombros a garota, seus olhos brilhavam muito – Vai, a última para irmos jantar!
—Se eu não lembro minha primeira experiência sexual quem dirá o primeiro beijo – ri. Olhei a hora no celular; o jantar já estava sendo servido.
—Acho que o meu foi com a mesma prima do boquete. Vimos os pais dela dando um beijo na sala e fomos experimentar no quarto dela. – Will se apoiou nos joelhos – 11 anos, eu acho. Talvez 12.
—O meu foi com 12 – disse Kelli – Marquei com um carinha de ir ao cinema só com a intenção de beijar mesmo. Mas o filme tava tão ruim, tão ruim que a gente se beijou o filme inteiro. Acho que ele foi o meu primeiro namoradinho.
—Vai, Luke.
Incentivou a beleza negra com os olhos fixos em mim. Por algum motivo Castellan me parecia triste, incrivelmente distante numa lembrança tão boa quanto ruim.
—Meu primeiro beijo foi inesperado e inocente – contou olhando para o chão – Eu tinha uma amiga, ela era mais nova... Nós não nos víamos muito, mas sempre nos encontrávamos num parquinho, nesses playgrounds – você veio! a voz de uma criança, um menino — Nesse dia ela parecia uma boneca de porcelana, uma dessas que parecem princesas. Não era o tipo de roupa que os pais colocam em crianças para ir ao parque – minhas roupas eram adoráveis, mas não foram feitas para brincar num parquinho— Nós brincamos com as outras crianças de faz de conta. Na brincadeira, ela era a princesa e eu seu cavaleiro – Ela é a princesa guerreira de um reino distante. Eu sou o cavaleiro dela – Não lembro direito, algumas coisas são apenas um borrão, mas algum garotinho batia nela e eu bati nele. Então vieram os gritos dos demais dizendo que no final da história tinha que ter um beijo – tem que beijar ela! Beija, beija, beija!
Eu mal podia acreditar! Eu só via o meu sonho, o final do sonho, das minhas lembranças tomando vida na voz de Luke.
—Eu segurei a mão dela e perguntei se eu podia beijá-la, se ela não ficaria brava comigo. – senti o sorriso na voz dele, mas eu sabia que ele olhava o nada, assim como eu – Ainda me lembro de vê-la corada, com vergonha e mesmo assim ela disse que sim. Foi só um selinho. Éramos apenas crianças. Eu só tinha oito anos e ela era a minha melhor amiga.
—Essa foi a melhor história – disse Kelli – Vou subir, estou morrendo de fome. Foi um prazer não nos matarmos pra variar.
Apesar do tom de voz ser descontraído eu sentia que ela estava sentida, sentido que real e finalmente perdera Luke. Foi quando me toquei: era esse o objetivo daquela farsa de trégua. Kelli conhecia a história e o quanto ela afetava Luke. Ela queria me machucar... Nisso percebera que eu estava diretamente envolvida.
Quando consegui erguer os olhos vi Castellan se afastando na direção contrária ao hotel. Minha respiração estava irregular, meu coração descompassado. Cada um daqueles sonhos nostálgicos finalmente ganhava uma dose de cor mais intensa, mais real e meu melhor amigo ganhava um rosto. O rosto bonito e infantil de Luke Castellan, seus lindos olhos azuis.
Levantei e caminhei em direção a Luke. Não corri e ele também não parou. Era quase uma inversão de papéis. Ele parou num quiosque com pouca movimentação, sentando-se num banco de pedra de frente para o por do sol. Sentei-me ao seu lado. Alguns minutos se passaram em silêncio, enquanto víamos as luzes começarem a serem acessas enquanto o sol ia sumindo lentamente no horizonte. Nossos dedos se entrelaçaram e isso foi como um incentivo para ele que voltou a falar:
—Aqueles momentos em que brincávamos juntos, aquela parte da minha infância, foi a época mais feliz da minha vida. Eu sempre tive muitos amigos, era fácil brincar com gente nova, mas você era especial. Sempre foi – ele fez uma pausa engolindo em seco – Eu... Eu fiz uma promessa naquele dia. Depois que nos beijamos, eu prometi que quando tivéssemos idade e soubéssemos o que estávamos fazendo, nós seriamos namorados. Até lá, nossa amizade ainda era o melhor que podíamos ter.
“A próxima vez em que nos vimos foi no dia em que droguei minha mãe pela primeira vez. Eu já tinha a ouvido falar de um remédio para dormir. Eu cheguei tarde. Lembro de abraçá-la e de beijar sua bochecha. Naquele dia eu já estava cansado das crises da minha mãe e você sempre me contou como sua madrasta era horrível, te machucava e ninguém acreditava em você. Perguntei se aceitaria fugir comigo e você disse que sim.”
—Você viria comigo?
—Claro! Você é meu amigo, não é? – dessa vez eu mexi a mão, minha mãozinha sobre a dele, virei meus joelhos para olhá-lo nos olhos – Você vai cuidar de mim, não vai? Não vai me deixar sozinha como minha família deixou?
—Não vou deixá-la! Nunca!
—Eu fiz uma nova promessa naquele dia. Não te deixaria. Jamais te deixaria. Em todos os sentidos.
Isso me fez lembrar o aniversário de Grover. Me deixa sozinha, Castellan. Ele não fora. Eu não vou deixá-la. Ele cumprira mesmo a sua palavra, mesmo com toda a minha grosseria...
—Nós tínhamos combinado tudo – ele continuou olhando para o céu ainda colorido, já muito escuro – Quem chegasse primeiro no parquinho tinha que disfarçar, brincar até que o outro chegasse, só então iríamos sumir daquele lugar juntos.
Outra lembrança me atingiu. Aquele momento com o qual eu iniciara minha história: a menina correndo feliz sendo pega no colo pelo pai. Agora entendia a minha felicidade. Eu esperava por Luke, por meu amigo e sua promessa de nunca me deixar. E Zeus me levara embora. Novamente meu pai estragara minha vida, minha chance de ser feliz.
—Mas você não foi – a dor na voz de Luke era palpável – Todos os dias eu ia naquele parquinho. Comecei a faltar na escola só para passar o dia te esperando, esperando pelo momento em que nós dois fugiríamos juntos. Você nunca mais voltou. Nem seus irmãos que já estavam grandinhos demais. Eu prometera não deixá-la, mas você nunca prometeu estar comigo. Aquele erro infeliz doeu muito. Foi a segunda traição na minha vida, mas foi a que mais me doeu.
Eu sabia que a primeira fora o descaso e o abandono do pai.
Ao fundo, alguém pedia uma cerveja.
—Eu passei a te odiar. Odiava tudo que te envolvesse. Odiava o parquinho, odiava meninas, odiava cabelos castanhos, gente rica... Conforme crescia sentia vontade de me vingar. Não sabia ainda o que fazer, mas sabia que tinha que estar perto. Descobri onde você estudava e consegui uma bolsa. Até aí já tinham se passado uns quatro anos. Finalmente estávamos num mesmo ambiente e... E eu fraquejei. Não queria fazer mais nada, mas também não conseguia fazer mais do que olhar para você. Eu não sabia como me aproximar... E quando você finalmente olhou para mim, você não me viu. Mais uma vez meu coração ficou em pedaços: você não me reconhecia.
Aquilo era familiar, um outro sonho... Era o horário da saída e Hefesto tinha ido me buscar. Meu irmão levava minha mochila e segurava minha mão. Senti outro olhar sobre minhas costas; virei-me outra vez. Os cabelos ainda eram louros, agora bagunçados, mas não consegui focar bem em seus olhos intensos...
—A raiva voltou. Eu queria que você sentisse o que eu sentia. Queria que minha ausência te machucasse tanto quanto a sua machucava a mim. Mas ao mesmo tempo outra parte de mim só queria ver você feliz, só queria cumprir a promessa. Então eu precisava arrumar algo em que descontar minha raiva. Eu não era bobo percebia a forma com Solace te encarava. Eu o odiei. Passamos então e disputar tudo e por mais alguns anos, isso bastou; só estar no mesmo ambiente que a minha melhor amiga protegendo ela mesmo que de longe.
Meus olhos estavam embaçando. Luke despejava todas aquelas palavras sem conseguir olhar para mim.
—Então finalmente chegou o último ano. Eu não podia estar mais nervoso, mais receoso quanto o que aquele ano me reservava. Eu sabia que precisava tomar uma atitude. Te ver de longe não bastava mais. Precisava voltar a me aproximar. E como eu faria isso? Você já não era mais uma criança disposta a ceder seu tempo a um menino maltrapilho; era a elite do colégio em todos os sentidos.
“No primeiro dia de aula eu vi Will se aproximar. Eu o odiei. Odiei por ter coragem de chegar em você. Agradeci a todos os anjos e a todos os demônios por seu irmão interromper. Mas eu também te odiei por falar com ele. Você se afastou e parecia conversar com Kelli, com quem eu já havia ficado no verão, mas o meu sangue fervia. Estava desesperado e não pensava direito. Eu corri na sua direção com a intenção primitiva de te machucar, talvez com um ‘encontrão acidental’ e desisti na última hora, quando seus olhos focaram em mim. Mas já era tarde demais. Caímos os dois no chão. Meu corpo sobre o seu, pressionando o seu. Conseguia sentir as formas do seu corpo de mulher, não mais de uma menina e isso foi um choque. Eu lembrava de estarmos numa posição similar no parquinho, eu fizera cócegas em você até perder o fôlego.”
—Para, para, por favor! – pedia entre os risos. Quando finalmente parou estavam próximos de mais: os corpos colados, braços e pernas entrelaçados, os rostos a milímetros. As bochechas ruborizadas e os olhos cintilando relatavam a inocência da ocasião.
Minha mão tremia. Talvez por isso eu senti seus dedos apertarem os meus.
—Mas seus olhos ainda eram os mesmos. Intensos, brilhantes, elétricos. Eu não consegui conter o sorriso. Era minha melhor amiga. Finalmente. – a voz de Luke parecia falhar; não mais do que meu coração com toda aquela confissão – Então você me reconheceu. Mas não me reconheceu como seu amigo, me reconheceu pelas fofocas do colégio, pelo meu envolvimento com Kelli... Seus olhos brilhavam com raiva. Raiva de mim. Levantei te levando comigo, mas não consegui deixar de te olhar. Não sabia mais quem você era. Eu via uma mistura da garotinha que conheci com uma mulher sexy e até maldosa com o disfarce perfeito... Tinha que fazer algo.
“Pedi ao professor de literatura ajuda de outro aluno com a matéria passada; já sabia como ele trabalhava, então não tinha erros: disse que eu não estava sabendo lidar com aquilo tudo e que o pessoal da minha sala não era bom o suficiente. Não era mentira, nossa sala sempre foi a ‘pior’. Ele me citou uma lista dos melhores alunos para que eu escolhesse com quem seria melhor trabalhar e seu nome foi um dos primeiros. Finalmente eu poderia ter um contato maior, descobrir se minha amiga ainda existia.
“Estava tudo se acertando, eu estava conseguindo me manter calmo e positivo até que você apareceu no intervalo combinando de se encontrar com Solace. Pensei que fosse o fim do meu dia, mas ficou pior: encontrei vocês se beijando na saída. O tipo de beijo que você só dá quando está excitado. E você me viu lá. Continuou seu joguinho com Solace, mas parecia querer incomodar a mim. Um tiro teria doído menos. O ódio voltou. Queria que você sentisse a dor que eu sentia, mas para isso tinha que me controlar, ser frio. Te ofereci carona naquele dia, lembra? Eu acho que nunca vou esquecer sua resposta: ‘Você com certeza não prestava atenção em mim antes de hoje cedo. Por que se importa agora?’ Se você soubesse que eu passara minha vida quase inteira em função de estar perto... Na porta da sua casa, você foi sincera comigo, mas o que disse me machucou muito; não sei se você se lembra – Luke fungou – me machucou o suficiente para eu decidir machucá-la.
Não sei o que sinto por você, talvez seja nada, só um vazio.
Eu lembrava. Fechei meus olhos reprimindo as lágrimas e apertando meus dedos contra os dele.
—Decidi fazer com você o que fez comigo. Queria me aproximar, ser um amigo e então simplesmente te abandonar, esquecer que você existia. E eu coloquei isso em prática no dia seguinte.
Aquilo foi demais para mim. Comecei a puxar minha mão de volta, porém Luke segurou-a e se aproximou mais finalmente virando para mim, olhando em meus olhos. Ele estava a beira das lágrimas, como eu.
Os trabalhos em dupla! E logo depois caímos no chão; ele viu a compreensão em meus olhos.
—Você estava tão linda e tão perto, de alguma forma voltara a ser a menina que eu via no parquinho. Fraquejei aí. Eu via os lábios vermelhos que eu já tinha beijado e senti vontade de te beijar de novo.
—Mas não desistiu – não foi uma pergunta; a voz deixando claro o quanto eu estava sensível.
—Não. – ia puxar minha mão de volta, mas Luke se aproximou mais; poucos centímetros nos separavam – Thalia... Eu desisti ainda naquela mesma tarde. Só depois que eu vi seu pai. A forma como ele falava com você... Eu tinha me esquecido dos seus problemas, tinha esquecido que era muito mais difícil fugir estando cercada de gente. Eu te culpava por não ter fugido comigo, por ter me deixado. Percebi que talvez a culpa de não ter me encontrado não era sua – afastou os cabelos e piscou para segurar as lágrimas – Como eu podia te culpar por esquecer? Você era pequena.
Uma lágrima caiu. Não pude culpá-la por cair. Castellan levou a outra mão ao meu rosto e limpou-a com todo o carinho. Deixou sua mão um longo tempo ali, os dois em silêncio.
—Você lembra, não é? – sua voz quase não saiu, estava muito embargada.
Eu assenti.
—Você... – ele tentou de novo, estava muito nervoso – Você está chateada comigo? Ou me odeia...?
Neguei discreta e rapidamente. Era muita coisa para assimilar, mas um fato estava claro o suficiente. Não confiava na minha voz, mas tinha que fazê-la sair.
—Obrigada – sussurrei de olhos fechados apertando sua mão.
—Pelo que? – disse confuso.
—Por não desistir de mim.
Seus olhos brilhavam. Um brilho superior as lágrimas. Ele parecia se sentir mais leve, mais confortável, mais confiante...
O rosto dele estava perto, a milímetros. Havia vozes no fundo, mas não me importava o que diziam. Aproximamo-nos mais, sentindo nossos hálitos se misturarem. Fechei os olhos... E seus lábios pousaram delicadamente nos meus.
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