Gimme More

57 Capítulo 47


Notas iniciais
Muito drama, porque sem drama não seria Gimme More ;)

Capítulo quarenta e sete –

Estava ainda me vestindo, colocando o uniforme, quando ouvi os gritos. Segui até a penteadeira com um sorriso que ia crescendo à medida que as vozes se elevavam; a cada camada de maquiagem crescia bem mais, o que facilitou bastante na hora de passar as pinceladas de blush.

Peguei a mochila e saí com dificuldade em ocultar a satisfação. No corredor, as vozes estavam mais elevadas, as palavras mais claras. Deus! Por favor, Abelle me ajude! Precisava manter a pose, a normalidade, agir da forma mais natural possível e depois, bem depois e apenas se me desse vontade, eu poderia insinuar algo a Apolo... Não. Melhor nem considerar isso, embora nesse instante pareça interessante, bem melhor curtir sua desgraça em silêncio.

—... Medidas que não...

—Como ousa pensar que eu faria algo assim? Eu nunca...

—Abelle! Aquela infeliz mulher! – gritava Zeus – Vocês estão fartos de saber o que penso sobre artes e...

—EU GOSTO! – finalmente, um Apolo farto de longos anos, gritou – Você devia dar mais atenção ao que nós queremos, nossos gostos e não impor a sua vontade o tempo todo.

—Veja só você – a voz de meu pai era desdenhosa – Está agindo como um adolescente, está quase falando como sua irmã.

—Ela está certa! Ela tem toda a razão por gritar com você!

—Thalia ter uma atitude como essa, de se inscrever para essas faculdades... Essas... Essas infantilidades! Posso fazer uma força para entender, mas vindo de você um homem feito e com...

—Qual é o problema de gostar de música e compor poesia? Pai, eu só...

—PODE IR ESQUECENDO A IDEIA DE ENTRAR NESSA TAL DE JULIARD! – Zeus elevou a voz a um berro – NÃO IMPORTA SE PASSOU OU NÃO.

Eu estava no alto da escada, sem vê-los, mas curtindo o espetáculo. Já estava sentada no degrau pensando seriamente em... Tomei um susto quando senti braços a minha volta, quase um abraço, mas desajeitado. Lá estava Hefesto, sentado ao meu lado e com uma expressão indecifrável. Seus olhos podiam ser castanhos, no entanto, a intensidade deles naquele instante fazia dele um Grace legítimo, sem precisar de estranhos e grandes olhos azuis.

—Curtindo a tragédia de Apolo? – ele esboçou um sorriso e o meu foi razoavelmente grande. Hefesto podia e talvez fosse o homem mais inteligente no meio dos meus irmãos. E como explicar que eu adorara aquele jogo de palavras? Tragédia e Apolo. Fazia referências à arte e descreviam bem a situação naquela manhã.

—Sabe, é gostoso, embora egoísta – comentei rapidamente – não ser eu a levar uma bronca.

—Você se sente como Apolo, não é? – meu irmão perguntou – Gosta muito de artes e com certeza teria condições de levar isso como profissão.

—Gosto, mas acho que teria o mesmo problema que Apolo: não saberia escolher uma única área para atuar.

Ficamos alguns segundos em silêncio até que ele soltasse a frase mais inesperada aos meus ouvidos:

—Vejo a mamãe sempre que olho para você, Thalia. – fiquei pasma; senti-me empalidecer, graças às pinceladas de blush, meu irmão não notaria nada – Ou talvez eu veja em você o que eu queria que Abelle tivesse sido.

—Não entendo – sussurrei.

—Ela sempre cantava para nós antes de dormir. Estava sempre dançando. Ela sempre nos incentivou em tudo o que queríamos fazer. Abelle nunca nos deu um limite. Foi ela quem me incentivou na arte de construir. Foi ela quem deu força para Ares seguir as artes marciais. Foi ela que deixou a arte de apreciar bebidas em Dionísio, embora quando pequeno ele preferisse suco de uva. – aquilo me fez sorrir – Abelle gostava de ver Hermes correndo para entregar coisas aos irmãos, gostava de ver como ele era bom em negociar brinquedos; aquilo era uma arte para ela. Apolo, eu ainda me lembro de vê-lo sentado ao lado dela em frente ao piano, repetindo os acordes, ele era pequeno, mas tinha muito talento. E você – Hefesto estava muito nostálgico e isso me contagiava – com certeza já viu as fotos, e acho que é isso o que te estimula a dançar.

Hefesto não estava errado. Ele se referia a uma foto em particular: Abelle num traje completo de bailarina, em sapatilhas de ponta, na ponta dos pés. Eu, a menininha de um, quase dois anos, estava lá, sentada no chão, a saia tule cor de rosa, olhava para a mãe com admiração; isso era claro para qualquer um que admirasse a fotografia. Aquela foto fora tirada no galpão, numa época em que ele era bem mais que um refúgio.

—Festo... Isso ainda não faz sentido. – minhas palavras eram baixas. Meu irmão segurou minha mão; sua mão era muito calejada, a pele áspera de alguém que vive pelo trabalho manual.

—Sei que não sou um irmão muito presente, Lia, mas acha mesmo que nunca vi você em ação? – o orgulho nos olhos dele era assombroso... Era quase, quase, o mesmo brilho que eu via nos meus subordinados, naqueles que tinham prazer em me chamar de princesa – Você sempre distraía Zeus para que Hermes levasse instrumentos e partituras para Apolo. Você era pequena, nem deve se lembrar, mas foi você que deu a primeira garrafa de vinho para Dionísio, e nem quero pensar em como você a conseguiu, e que ficava com ele desenhando as garrafas e anotando as que ele dizia serem melhores... Você fazia o mesmo que Abelle. Você nos incentivava a fazer aquilo que amávamos, nossa arte. Só que você sempre fez muito mais que Abelle. Você sempre assumiu a culpa e brigou com o papai pelos nossos direitos. – ele apertou meus dedos – Não é que eu não te admire, mas... Mas isso era obrigação dela. – eu não sabia mais para onde olhar; seus olhos brilhavam demais em raiva pela falha da mãe, em orgulho pela irmãzinha – Você pode achar que não, contudo você, bem mais do que Hera e Abelle juntas, foi nossa maior e melhor figura materna.

Meus olhos lacrimejaram. Apolo ainda discutia com Zeus no andar de baixo, mas eu já não distinguia as palavras. Como eu podia reagir a todo aquele sentimentalismo do meu irmão mais velho?

—Não sei o que dizer –minha voz soou embargada – Sempre pensei ser um peso pra você, Festo, nunca pensei que...

—Um peso? Ah Lia! Nós não somos emotivos e não acho que sejamos bons irmãos... Não merecemos você.

Você merece mais. Merece muito mais dessa família.

—Quando crianças, acho que todos éramos mais felizes... Mas ela não era. Nunca foi forte o bastante por nós e eu – disse ele – não consegui ser forte por vocês. Você assumiu a posição de mais velha sem nem perceber e exerceu o cargo muito melhor do que eu. – depois de segundos em reflexão, continuou – Perdão, por te fazer amadurecer tão precocemente.

Deitei a cabeça em seu ombro, fechei os olhos e fui sincera:

—Não preciso perdoá-lo. Você talvez seja o que menos me magoou nessa casa...

—Menos; então a magoei.

—Como se eu nunca tivesse magoado vocês. – respirei fundo e recompus a postura, sorrindo quase com malícia – Isso é bom – disse apontando com o queixo para o andar de baixo onde a voz de Apolo estava cobrindo a de Zeus – Assim nosso irmãozinho aprende a crescer e se impor.

Hefesto riu.

—Concordo – estávamos já de pé, eu, pronta para descer e interromper aquela cena maravilhosa quando Hefesto me segurou pelo braço – E aquele rapaz, Lia?

—Que rapaz? – mas eu já tinha uma noção do assunto.

—Castellan, acho eu que seja esse o nome. Você já deixou bem claro que não é inocente e que não acredita em nenhuma forma de amor, mas...

Ele estava sem graça, sem saber quais palavras usar. Era adorável.

—Você se importa comigo, Festo? De verdade e não apenas pelas aparências de uma família perfeita.

—Claro! – sua voz soou baixa, sua expressão confusa, quase ofendida pela pergunta.

—Não sei o que sinto por Luke, não sei como definir isso. Sei que os sentimentos dele por mim são fortes; os meus por ele, também são. E isso pode parecer ridículo vindo da sua irmãzinha de 16 anos, mas... Mas Luke significa muito para mim. Todas aquelas palavras que eu já disse naqueles jantares fracassados não foram mentiras. – suspirei e fiz meu pedido – Se você se importa comigo, de verdade, não me prive disso. Não aja como um babaca ciumento. Ele tem sido melhor do que todos vocês.

Hefesto ficou minutos em silêncio. Dessa vez, não desviei meus olhos dos seus. Estava lá em frente a ele sem nenhuma armadura, sem nenhuma arma ou máscaras. Aquela era Thalia. Era uma menina. Menina carente de uma família, carente de um irmão mais velho.

—Da próxima vez que ele vier aqui em casa – sua voz era firme – ele será muito bem recebido.

Meu sorriso era realmente pequeno, mas infinitamente grato. Minha felicidade foi refletida naqueles olhos castanhos, nos olhos herdados de Abelle.

Evidentemente, naquela manhã não tomei café em casa. Não sei se ficou tão evidente para vocês, mas a desgraça de Apolo era a sina dos filhos de Abelle: artes. Eu tinha alguns vídeos gravados e juntei-os com o currículo de Apolo, aquele estranho do barzinho de luxo apenas se encarregara de enviar aquilo para diversas faculdades renomadas de artes e, claro, aquilo tudo tinha que chegar aos ouvidos de Zeus.

Estava mais que satisfeita. Era bem feito para os dois e uma boa forma de Apolo Grace crescer. E claro, passei boa parte da manhã, nas aulas e no intervalo, redigindo minha manhã, as palavras de Hefesto e tudo o que ele me fizera sentir. Agora mais do que nunca eu estava motivada a dar continuidade as minhas pequenas atrocidades.

—Thalia – Clarisse chamou na saída; os mafiosos todos ao nosso lado ouvindo com atenção – O que vai fazer hoje? – ela com toda a certeza e disfarçadamente perguntava qual era o meu próximo passo.

—Minha especialidade, Clari – sorri com muita essência mafiosa contagiando meus amigos – Vou fazer arte.

[...]

A Máfia estava animada, quase uma zona. Eu estava profundamente satisfeita, um sentimento gostoso que nascia no peito e se espalhava por todo o meu corpo e subia como álcool para minha cabeça.

A maioria das moças resgatadas já havia decidido seus destinos, duas ou três optando por permanecer na Máfia. Mahati, ainda aguardava que encontrássemos sua irmã, mas praticamente já era uma integrante ativa do submundo. A menina bonita de 15 anos dava aulas de hindu, não apenas para mim, mas para pelo menos 20 ou 30 mafiosos, incluindo alguns homens. Ela sem dúvida tinha uma “cabeça boa” por não desprezar nem temer a presença de todo e qualquer homem; mesmo assim eu tinha o cuidado de nunca deixar nenhuma das meninas sozinhas com nenhum homem. Mahati parecia ter mais confiança em Luke, então geralmente um de nós dois se encarregava da mocinha. Aquela tarde era a vez dele.

... Mas a alegria não durou muito.

Rapidamente segui para o escritório de Marcos, entrando sem bater nem pedir licença. Adrian que estava lá dentro com apenas um olhar em minha direção notou que era algo grave, até porque eu ainda era uma Grace, e tinha modos.

Joguei duas pastas sobre a mesa e enquanto meu pai as analisava eu desabava sobre a cadeira. Meu corpo inteiro tremia. Marcos soltou um palavrão; afastava os cabelos loiros do rosto quando eu ergui meus olhos. Ele perguntava, mudamente, o que eu queria fazer, mas como convencê-lo se eu já sabia que me seria negado?

—Eu quero ir até lá.

—Não. Não tem a menor condição...

—Marcos! Eu preciso fazer alguma coisa! Não posso ficar aqui parada e...

—E como explicaríamos seu sumiço? Talvez se Luke acompanhá-la...

—Não, de jeito nenhum. Luke tem que ficar aqui junto com Mahati.

—Thalia, você está nervosa, não está raciocinando direito. Se pelo menos Luke acompanhá-la temos uma desculpa para sua família: o casal “fugiu” por um fim de semana. Mas se ele ficar e...

—Sei. Eu já pensei nisso. Não posso levar Luke comigo mesmo que ele queira. Mahati precisa de um de nós por perto.

—Também não podemos inventar um novo sequestro. Zeus muito provavelmente impediria sua viagem com a escola que acontece em, o que? Em uma semana? Menos?

—Menos.

—Thalia, esta viagem é muito inviável. Você vai chegar exausta e...

—Com a consciência limpa! Por favor, papai... Não vou conseguir ficar aqui enquanto eu posso fazer algo. Não posso suportar a ideia de promessas vazias.

A angústia era clara e gritante. Meus olhos lacrimejaram. As defesas de Marcos também caíram. O que eu pedia era perigosíssimo, mas... Ele passou a mão pelo rosto, esfregando os olhos e as têmporas como se precisasse acordar.

—O que vamos dizer ao mundo, meu amor? Não temos uma desculpa ou qualquer motivo para dar a sua família, a sua escola...

Família... Uma ideia me ocorreu.

—Talvez... – o murmúrio foi quase inaudível.

Comecei a explicar minha ideia e Marcos, com muita relutância, aceitou que eu viajasse. O problema era que faltava convencer a outra família e o indivíduo que me ajudaria. Com Luke, eu só falaria segundos antes de entrar no avião, assim ele não tinha tempo de agir como um babaca e aparecer escondido no banheiro do meu jato ou algo do gênero.

Voltei para casa, correndo para meu quarto apressadamente e não notando que meu semblante desesperado abalara os presentes. Nesse descuido, acabara não fechando a porta enquanto eu me direcionava ao closet. Ouvi som de passos firmes em minha direção.

—Thalia! Por Deus! O que aconteceu? Você parece...

—Festo? Ai, ainda bem! – suspirei e me joguei em seus braços respirando seu cheiro característico de perfume masculino e metal – Feche a porta e eu te conto – quando ele voltou, o semblante ainda carregado, perguntei – Alguém mais me viu subir?

—Acredito que não.

Indiquei que ele se sentasse numa das lindas poltronas do meu closet, enquanto eu rodava pegando uma mochila e algumas mudas de roupa. O essencial – armas, perfume mafioso, luvas, munição, pequenas adagas – já estava devidamente embalado. Ia explicando o que eu queria dele com o coração aos saltos.

Os minutos eram contados e os segundos significariam uma ou mais vidas.

—Por favor, não diga que não. Por favor, não diga que não...

—Thalia, isso... Isso é... Isso é absurdo! – ele sussurrou – Como você me pede que minta para o pai...

—Festo, você não entendeu o que eu te pedi.

—Entendi perfeitamente! Como você pode achar que mentiria quando isso envolve...

A decepção era clara em meus olhos, em meu rosto, tanto que meu irmão calou a boca. Realmente, é difícil encontrar pessoas dispostas a ajudar. O quanto me doía não ser maior de idade para sair sem dar satisfação a ninguém... Se eu pudesse sair, então eu podia salvar mais pessoas...

—Pensei que você entenderia. Principalmente depois dessa manhã e daquele discurso todo – disse – Foi mentira, não foi? Tudo o que me disse, o que pensa de mim, não foi? – não sei descrever bem a expressão de Hefesto, mas eu me sentia ferver, as bochechas vermelhas de raiva como Zeus em um de seus acessos, os olhos cintilando.

—Claro que não. Mas isso não é...

—Uma amiga precisa de mim, precisa de ajuda, e eu preciso de ajuda porque ainda sou menor e ainda vivo aqui nesse inferno. – joguei a cabeça para trás numa gargalhada maligna e sádica; meu irmão se assustou – A desgraça me persegue, porque não é possível!

—Thalia, eu...

—Não. Não quero ouvir mais nada de você. Tenha a decência de sair do meu quarto. – Hefesto demorou a se levantar, mas antes que ele sumisse da minha visão alertei – Se você realmente se importa comigo e se o que me disse de manhã for verdade, ignore o que ouviu de mim. Pelo menos vou poder enfrentar a fúria do nosso precioso papai sem uma delação.

Assim que a porta bateu suavemente, fiz todo aquele ciclo para pegar as chaves e peguei o diário escondido no baú debaixo da minha cama, joguei-o na mochila e voltei todo o percurso. Peguei as chaves do carro e ao sair tranquei meu quarto. Passei sem olhar para os lados, mas senti os olhos de Hefesto sobre mim. Estava chateada demais por me deixar cair naquele discurso bonito. Ele era um Grace, afinal. O mais velho. O que sempre seria mais próximo e o mais ouvido por Zeus.

Ingênua! Nunca vai aprender? Nessa casa você está sozinha!

Notas finais
Fico me perguntando, será que esses Grace ainda tem chance de serem melhores? Ou será que nunca vão mudar? o.O