Gimme More
53 Capítulo 43
Notas iniciais
Capítulo quarenta e três –
—Que vida difícil a sua – Perseu sorria descaradamente da minha desgraça depois que eu expliquei superficialmente a manhã que eu tivera – Ai! Não precisava disso! – ele disse depois de levar um belo tapa na orelha – Você poderia ter causado um acidente de transito!
—É claro que não. Você é um mafioso e um dos quesitos é saber dirigir bem. Um tapinha de nada como esse não causaria um acidente – desdenhei.
Estávamos andando pela cidade sem qualquer destino fazia mais de trinta minutos, apenas para despistar os imbecis que ainda nos seguiam. 40 minutos depois e chegamos à sede da Máfia.
Marcos apenas ergueu a sobrancelha para mim, embora soubesse perfeitamente bem o que acontecera naquela manhã de sábado horrorosa. Luke estava ao seu lado e me olhava com tal intensidade que agradeci, mais uma vez, pelos óculos escuros. Não saberia como reagir sem eles.
—As meninas já estão lá embaixo? – perguntei ao meu pai. Andávamos, Marcos e eu, lado a lado, os dois aspirantes a Elite vinham atrás em sinal de respeito.
—Já. Ninguém te culpa pelo atraso, é claro. De qualquer forma, o vôo dele atrasou e ainda não houve sinal do nosso mais novo convidado.
—Você pediu a permanência dele aqui? – esbocei um sorriso. Eu lembrava muito bem daquele rosto e daquele corpo. Gostava muito daquela personalidade estrangeira.
—É claro – Marcos riu – Sei que está pensando nas travessuras que viveram juntos naquela viagem. – descíamos as escadas rindo e descontraindo do inferno da manhã – Foram espetaculares os resultados. Não que esperássemos menos de você, minha querida.
Passamos os dois próximos corredores em silêncio, mas antes de entrar no salão que dava para um dos Túneis segurei a mão de Marcos. Ali já era o primeiro sinal da minha fragilidade e decadência emocional. Meu controle havia sumido.
—Podemos treinar mais tarde? – sem os óculos meus olhos brilhavam; conseguia sentir isso. Vi a mudança na postura de rei, uma postura mínima, para os dois atrás que observavam a tudo, ele ainda era o impiedoso e implacável mafioso, mas eu via e sentia a preocupação paterna em cada pedaço de pele, em cada piscar de seus olhos.
—Quando você quiser.
Assenti um pouco mais tranquila. As meninas me abraçaram com sorrisos enormes e me animaram com conversas banais. Todas sabiam que eu precisava de atenção, mas uma atenção positiva e animada. Não era segredo que Zeus me esgotava.
Sete minutos e meio depois, o moreno sedutor saiu dos Túneis com sua escolta. Scott estava, se possível, mais sexy do que lembrava. Marcos foi cumprimentá-lo e logo estava apresentando as princesas que faltavam. Percebi de cara o interesse dele em Bianca.
-Princesa! – ela abriu os braços e eu permiti que me abraçasse – Posso esperar repetir a dose de emoção que tivemos na Austrália, não? – Luke parecia ter o corpo rígido com aquela demonstração pequena de afeto e reconhecimento.
—É claro. Agora você vai poder brincar com cinco princesas ao invés de uma só – o sorriso dele era muito pervertido, mas não o desiludi. Deixei que sonhasse um pouco mais.
Depois da recepção de Scott segui para meu quarto sendo escoltada por Connor a pedido direto de Marcos. Eu percebia que Luke queria falar comigo a sós, mas eu não me sentia pronta ainda e meu pai sabia disso. Castellan não retrucaria, afinal, ele ainda era analisado de perto, ainda não passava de um aspirante a Elite embora já fosse considerado um mafioso. Connor mesmo em silêncio era uma companhia admirável.
—Seus homens não lhe dão sossego, não Thals?Quem manda ser tão gostosa – ele sorriu encostando a porta do meu quarto. Sorri de volta; sabia muito bem como contornar aquela “alfinetada”.
—Fiquei sabendo que você roubou a virgindade naquela insuportável Zoe Doce-Amarga – ele ficou branco feito um osso – Não bastou sequestrá-la, Connor?
—Nem adianta perguntar como você sabe, não? – eu consegui rir.
—Ainda visita a menina?
—Deus! Ela é fera na cama – ele suspirou encantado – E pensar que foi tão tímida na primeira vez... – ele não fazia ideia da cara que fazia e eu nem sei como descrever. Era a cara de Travies quando falava em Katie. Não disse nada a ele, mas eu ria da sua cara de bobo.
—E... – eu prolonguei bem essa letrinha e ele ficou mudo de novo – também fiquei sabendo que tem pegado Nico.
Dizer que ele estava branco era pouco. Por um instante o rapaz ficou azul: eu via todas as veias do seu corpo. Ele se recompôs rápido.
—Você realmente sabe de tudo. – sorriu e coçou a cabeça, embaraçado – O menino sabe bem o que faz, isso é um fato.
—É claro que é – sorri de volta. Deus! Fui uma excelente professora; podia ter pensado em cobrar um bom cachê... – Vai ficar com o boy ou...
—Bom, nós deixamos claro que é apenas sexo sem compromisso, mas vamos manter esse jogo por mais um bom tempo. Gosto dessa experiência e Nico também.
Sentei-me junto à escrivaninha.
—O caso das irmãs, as filhas de Atlas, como tem andado? – assumi uma postura profissional e o mafioso sentiu e se adequou a minha alteração.
—Temos ouvido, acho que talvez a senhorita também, que ele relata que as meninas estão em uma viagem de caráter estudantil, não fala mais que isso: destino, o que estudam, quando voltam. Mantemos o cara bem pressionado, muito dinheiro já tem entrado, mas ainda falta bastante...
—A irmã, como é mesmo o nome dela? – questionei a mim mesma – Calypson. Como ela tem estado? Ou você não acompanhou a situação da menina? – sorri sugestivamente e vi o rapaz corar. Ele pegou bem a indireta.
—Ela continua virgem! – eu gargalhei – Fiquei sabendo que uma pode visitar o quarto da outra durante o dia. Elas são muito bem tratadas, posso garantir que sim. Elas têm televisão e muitos DVDs bons! Mas nada de celular ou computador; nenhum acesso a internet.
Organizamos juntos mais alguns assuntos mafiosos e para entreter mais meus pensamentos, pedi a Connor que trouxesse Mahati até mim. A menina indiana ainda aparentava estar sofrendo psicologicamente; não era para menos. Ela sorriu de forma gentil e por uma hora e meia ficou a me ensinar a gramática hinduísta. Pedi a um empregado que nos trouxesse um lanche e então conduzi a jovenzinha pelos corredores da Máfia.
—Aonde vamos? – ela tentou esconder o nervosismo.
—Não quero que sinta medo. Mas palavras nem sempre confortam – por isso passei o braço sobre seus ombros e desacelerei o passo para reconfortá-la – Você é minha convidada.
—Você manda nisso tudo?
—Mais ou menos. Pense em uma monarquia. Meu pai é o rei e eu sou a herdeira.
—Parece muita responsabilidade para alguém tão jovem. – era muito fácil esquecer que ela era apenas um ano mais nova que eu.
—Posso pedir mais tarde para alguém lhe explicar bem as coisas por aqui, principalmente aquelas a que me diz respeito – chegamos ao fim de um corredor e um homem abriu as portas para nós, cumprimentando-nos com um sorriso. A sala do outro lado era do tamanho, talvez maior, de um anfiteatro. Monitores cobriam as paredes e fileiras e mais fileiras com computadores e outros apetrechos eletrônicos. Havia, brincando, 250 pessoas a serviço ali. Mapas passavam e mudavam, uns dando zoom e outros reduzindo o mesmo. Mahati olhava para tudo aquilo sem entender.
—Nós vamos achar sua irmã – sussurrei – Então daremos um jeito de vocês se encontrarem.
Ela ficou emocionada demais para falar.
[...]
Passei o resto da manhã e o início da tarde num treino pesado. Pense naqueles filmes ou animes onde os mocinhos passam por treinos longos e intensivos; Marcos não me dava chance de descanso, pois sabia que não era isso o que eu queria. Seus ataques eram fortes como se eu fosse seu inimigo; não me poupava por ser uma mulher, por ser mais nova, por ser sua filha. Eu era seu igual. E de qualquer forma, se ele pegasse leve comigo eu jamais aprenderia, jamais saberia metade do que já sei hoje.
No passar das horas meu corpo pingava suor, derramava pelos poros o que não me atrevia a derramar pelos olhos. Ofegava tanto que meus pulmões doíam. Estava a ponto de cair e desmaiar de exaustão. Mas estava feliz. Era isso o que eu queria. Marcos me ajudara a descarregar meus sentimentos, o excesso deles, não saiu do meu lado até que eu estivesse segura em meu quarto. Tomei um banho rápido e caí na cama; a última coisa notada por meus olhos foi meu pai fechando as cortinas.
É engraçado a forma como eu assistia meu sonho como uma telespectadora. Mas não estava só. Lá estava Abelle sorrindo com muito amor e me convidando silenciosamente a assistir meu passado.
Estava na escola. Quinto ano. O vestido do uniforme era de um tom azul marinho com detalhes em branco, as meias ¾ cobriam minhas pernas magras e oxfords nos meus pés. A tiara de pérolas em meus cabelos era um charme completamente a parte; e, sim, ver aquilo me assustou profundamente por me lembrar das palavras de Will. E de fato ele estava lá, ao fundo, olhando para a menina que fui. Era o horário da saída e Hefesto tinha ido me buscar. Meu irmão levava minha mochila e segurava minha mão.
Uma olhada para trás e o vi. Seus cabelos perfeitamente arrumados e seu jeito de galã. Will me olhava com intensidade, por longos segundos, então desviava o olhar.
—Parece que você nasceu para ser muito amada, meu bem – minha mãe sorria alisando meus cabelos enquanto eu sentia meu coração se apertar.
—Talvez. Mas não nasci para corresponder.
—Tem certeza? – ela me olhava com dúvida.
Ainda naquela lembrança senti outro olhar sobre minhas costas; virei-me outra vez. Os cabelos ainda eram louros, agora bagunçados, mas não consegui focar bem em seus olhos intensos. Sabia que era Luke, mas o eu presente e não a menina. Foquei meus olhos na figura ao seu lado, na menina que jogava as tranças cor de chocolate para impressioná-lo. Meu coração se apertou mais quando a vi pegar na mão dele.
—Como se sente? – era a voz de Abelle. Eu sentia tanta vontade de chorar. Por que ver aqueles três estava me afetando tanto? Raios! Só faltava eu estar me transformando em uma estúpida e emotiva garota norte-americana. Isso seria o fim!
—Eu não sei – minha voz falhou. De repente senti raiva, uma raiva descomunal da mulher que tentava me consolar – Por que você está aqui? – perguntei de forma ríspida e vi dar um passo para trás chocada com minha fúria.
—Thalia, vim te ajudar...
—Eu não quero ajuda de alguém que amou tão cegamente um homem que se esqueceu dos filhos.
Abelle começou a chorar e eu me senti indo pelo mesmo caminho. A paixão de Will, as mãos de Silena e Luke, minha mãe... Aquilo era muito para mim. Queria acordar! Não queria vê-los!
—Thalia, por favor, me deixe...
—Onde você estava quando era tortura pela minha madrasta? Onde você estava quando a Máfia me acolheu ou quando Zeus tem um dos muitos ataques de raiva? Onde você estava...? Eu precisava de você. Precisava do seu carinho, da sua atenção. Não preciso mais. E se acha que vou permitir que me desestabilize ainda mais está enganada.
Ela chorava copiosamente. E foi assim que eu acordei, com o rosto úmido e uma mão me acariciando as bochechas.
—Luke? – chamei baixinho abrindo os olhos devagar. Seus olhos estavam aquosos e seu rosto pálido na escuridão do meu quarto. Por um impulso levei minha mão a sua e permiti que ele entrelaçasse nossos dedos.
—Eu daria o meu sangue para não ter que vê-la chorar – sussurrou.
-Você pode fechar os olhos – não consegui sorrir.
—Desculpe – ele também não conseguiu sorrir – Me deixe reformular a frase – ainda sussurrava, me arrepiando até a raiz dos cabelos – Eu daria o meu sangue para que nenhuma lágrima jamais caísse dos seus olhos.
Foi inevitável: mais lágrimas caíram depois de suas palavras. Luke agilmente se deitou ao meu lado e me abraçou. Estar ali entre seus braços e ouvindo seu coração bater, me fez perceber o óbvio: Luke era tudo o que eu precisava desde o café da manhã. Querendo ou não querendo, eu precisava.
—Fica comigo? – pedi baixinho aninhando meu rosto em seu peito.
—Eu ainda tenho tarefas para fazer – lamentou ele – Não vai ser legal se a princesa herdeira interceder por mim. Não devo ter favoritismo.
Dessa vez consegui sorrir.
—Você é um aspirante a Elite, Castellan. Se está onde está é porque um membro da antiga Elite o favoreceu. Foi assim com todos vocês.
—Então as princesas escolheram seus mafiosos. Você me escolheu? – ele relaxara, alisava minhas costas e olhava em meus olhos com intensidade; já não havia mais sinais de lágrimas em seus olhos.
—Aí é que está a graça, Castellan. – deslizei o dedo por seu rosto admirando seus traços – Eu não escolhi você. – a surpresa em seus olhos arregalados era óbvia – Soube muito tarde do seu ingresso a Máfia. O próprio rei escolheu você. Isso nunca tinha acontecido antes, ele nunca se metera nas avaliações. Mas o fez por você, Luke. Ainda acha que não tem privilégios aqui? Acha mesmo que entrar no meu quarto é tão fácil?
—Bom, eu... – ficou alguns segundos em silêncio. Consegui enxergar a compreensão transpassar seus olhos: Marcos não era como Zeus. Marcos permitira deliberadamente a entrada de Luke; meu pai sabia que enquanto eu estivesse dormindo Luke apareceria e me esperaria acordar, mesmo assim permitiu. Permitiu que um rapaz entrasse no quarto da sua filha. Por que, se não confiasse nele? Marcos sabia que Luke me fazia um bem enorme. Zeus só se importava com uma imagem vazia.
—Eu vou pedir de novo – sussurrei, voltando a me sentir sufocada pela melancolia – Por favor, fica comigo?
Seus olhos cintilavam fortemente. Eu podia me perder neles tão facilmente... Estava sendo sugada por aquela cor. Senti-o se aproximar mais, de mansinho me puxando para ainda mais perto. Seus lábios chegaram mais perto e os senti em meu nariz.
—Sempre.
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