Gimme More

48 Capítulo 38


Capítulo trinta e oito –

Luke parecia tão imponente, tão majestoso, tão mafioso... Eu não conseguia olhar para mais ninguém. Desde que saíra da escola eu estava monitorando seus passos, sua missão. Marcos estava certo: Luke era brilhante, genial. Era questão de muito pouco tempo até que ele se tornasse parte da Elite Mafiosa e precisávamos mesmo de sangue mais jovem; a Elite mais antiga até então consistia nos Titãs, como eram chamados os “irmãos” de Marcos, aqueles que eram para meu pai o que minhas amigas representavam para mim. Já a mais recente nos incluía e os gêmeos. Adrian e Ramiro estavam muito perto da realeza, mas não chegava a tanto.

Chris fora uma surpresa muito grande para mim: nunca prestei muita atenção nele; sempre sossegado, na dele, embora tivesse um abismo por Clarisse. Subestimá-lo fora um erro muito grande da minha parte, felizmente, um erro positivo. Nico era esperado; tinha apenas uma sobrancelha arqueada para mim e para sua irmã, era uma surpresa para ele, mas nem tanto. Afinal, Bianca o levara para caçar gatos, já era uma dica. Quanto a Perseu eu não sabia bem o que pensar. Afinal, ele se dava bem com o pai, não? Talvez nem tanto.

Estava percebendo o quanto eu me deixara ser inocente. Ou talvez eles fossem tão bons quanto eu em guardar segredos e sentimentos.

Marcos era generoso: ele próprio mostraria a sede e nós cinco acompanharíamos. Foi quase difícil para eu dar as costas a Luke e seguir andando. Quase. Marcos comentava em cada curva, em cada porta o que nossos especialistas faziam e deixava sempre no fim de cada frase um gostinho de “quero mais”; pelo menos, eu sentia isso. Meu apetite por aquele mundo era insaciável. Chegamos à sala de treinamento, onde Quíron palestrava para outros iniciados, Nakamura e outro indivíduo demonstravam os golpes com maestria.

–Aqui, nesse ponto, nos separamos – Marcos fala, a voz fria e dura como gelo; eu sentia escondido sobre a camada frígida sua diversão – Foram cinco missões. Foram cinco grupos. Sigam sua princesa até a área onde serão especializados.

E saiu sorrindo para mim. Rachel chamou seu grupo e assim foi se dividindo até que apenas Luke e seu grupo sobrassem em frente a mim. Estendi a mão com lentidão e sorri esperando por ele. Luke compreendeu: depositou o aparelho em minha mão. Senti meu sorriso crescer.

–Suponho que tenho sido uma missão fácil para vocês – disse ainda olhando aquele tesouro em minhas mãos.

–Requereu esforço e dedicação – pronunciou-se o mais velho daquele grupo.

–Sem dúvida – ri – Mas isso não impediu vocês. – inclinei a cabeça e me forcei a encarar os outros – A missão de vocês foi a mais difícil e a mais arriscada.

–E foi você quem a escolheu, não foi? – Luke perguntou com aquele sorriso sedutor. Deus! Eu poderia me deixar derreter ali mesmo. Ele estava muito sexy e muito inocente ao mesmo tempo. Lidava com minha presença de maneira respeitosa, mas não queria e nem conseguia esconder que tinha alguma intimidade comigo.

–Foi – sorri de volta, mas desviei os olhos – Polifemo não lida apenas com o contrabando de armas na Bolívia. Eu tinha um interesse muito maior do que engenharias. Venham. Vou mostrar a sala de informática primeiro.

Fui comentando para o Toupeira o que ele poderia fazer, como e em que se especializar e que havia vários mestres a espera para transmitir conhecimento. “Você a conhece?” consegui ouvir a voz sussurrada de um dos camaleões; simplesmente sorri. Depois os três camaleões foram deixados na sala dos gêmeos; os Stoll não lidavam apenas com roubos, eram peritos em passar despercebidos e isso era apenas o começo para aqueles três.

–E quanto a mim, princesa? – ele sussurrou em meu ouvido. Estava a um passo de distância e mesmo assim eu senti que era um quilometro inteiro. Sentia sua submissão, sua admiração, sentia seu desejo – O que pretende fazer comigo?

–Não sei ao certo – confessei virando para ele – Em que área gostaria de atuar?

Ele pensou por um momento. Aparentemente ele não considerara isso: devia achar que eu iria impor alguma área e que ele teria que anuir.

–Em que área você atua? – ele revidou dando um passo para mais perto de mim. Andei para trás até encostar-me à parede, cruzei os braços e ergui uma sobrancelha.

–Sou a princesa, lembra? Eu mando em todos, isso significa que tenho conhecimento de cada uma dessas áreas. Cada uma e todas as ramificações – ele pareceu surpreso – Entendo mais de umas do que outras, mas posso lidar com qualquer uma delas. Agora, responda – deixei a voz macia e sedutora – O que quer aqui na Máfia?

Ele voltou a se aproximar, próximo o bastante para eu sentir seu hálito em meu rosto. Era incomodamente sedutor. Pelo menos não havia gente no corredor.

–Eu quero tudo, Lia. Sempre quis tudo. E não vou me contentar com pouco. – sua voz rouca colidiu com meus lábios. Senti minha mente apitar: Perigo. Perigo. Perigo. Ele estava perto demais...! Coloquei a mão em seu peito e o empurrei para longe; longe o suficiente para olhar em seus olhos famintos.

–Então, nesse caso – respirei fundo e sorri – Por onde quer começar?

[...]

Faltavam alguns minutos para a uma da manhã. Estávamos de volta à sala de treinamento. Naquele horário apenas uma pessoa praticava. Ela tinha um corpo magro e delicado, lançava facas com agilidade no alvo a seis metros de distância.

–Katie – chamei; minha prima voltou os olhos para mim – Firme mais o pulso. Vai ter mais força e mais precisão desse jeito.

Ela anuiu e respirou fundo antes de tentar de novo.

–Assim? – sorriu ela vendo a faca no pontinho vermelho no centro do alvo. Sorri de volta.

–Então até sua prima faz parte disso – Luke comentou; andava ao meu lado como se fosse um cachorrinho.

–Entrou recentemente.

–E você não tem medo de o segredo deixar de ser segredo? Digo, agora tem muito mais conhecidos seus aqui dentro.

–O medo torna a pessoa cautelosa, cuidadosa. Eu imponho mais medo neles do que eles em mim. De qualquer forma, é um erro acreditar que nunca serei pega.

–Mas isso...

Ele pareceu chocado. Tive que rir.

–Ah Luke, você não percebe? As pessoas sempre esperam que adolescentes cometam loucuras, que sejam almas aventureiras e sem limites. Por isso eu e as meninas sempre escapamos dessas saias justas. Nunca seremos pegas. Não realmente. Não enquanto fomos inocentes e adoráveis.

Ele ficou em silêncio. Caminhávamos em direção a próxima arena, os saltos não faziam mais barulho sobre o tatame.

–Você é incrível – seu sussurro era prazeroso aos meus ouvidos.

Paramos no centro do tatame, um de frente para o outro. Seus olhos tinham um brilho tão intenso, havia tanto orgulho em suas feições, tanta admiração, tanto respeito... Era inacreditável, era quase desconfortável ser alvo de tudo aquilo. Mas era um desconforto bom. Sentia meu coração bater forte em alívio, em ansiedade. Não tinha percebido o quanto eu queria contar sobre meu mundo a Luke. Não tinha entendido ainda o tipo de poder que ele tinha sobre mim, mas sua presença era calmante e aflitiva. Uma antítese prazerosamente dolorosa.

–Vamos. Mostre-me o que sabe fazer – ele arqueou a sobrancelha, confuso, em dúvida – Quero que me derrube, Castellan. Preciso saber como andam suas habilidades.

–Eu não poderia machucá-la.

–Então não consegue me colocar contra o chão? – desdenhei; vi o desafio em seu olhar, a chama inflando, a vontade de se provar capaz... Eu tinha esse mesmo fogo nos olhos nos meus primeiros anos. Feliz coincidência.

Ele veio rápido, mas não o suficiente. Inclinei o corpo para o lado e com uma mão segurei firme seu braço e com a outra dei impulso, joguei-o no chão com força e vi Katie perder a concentração com o barulho do corpo caindo com força sobre o tatame. Ele ofegava, mas sorria. Levantei uma perna passando-a sobre seu corpo e abaixei-me até encostar os joelhos no chão. Era uma posição sexy demais para uma aula daquelas, eu via isso em seus olhos.

–Vai ter que fazer melhor que isso. – ele segurava minha cintura como que implorando para que eu não saísse de cima dele. Deslizei minhas mãos por sua barriga subindo até seu peito. Pude ouvi-lo rosnar baixinho e sabia ter um aspecto selvagem.

–Você não está tornando as coisas fáceis. – ele gemeu deslizando sua mão para baixo seguindo a saia até encontrar o pedaço da minha coxa exposta. Ele me puxava devagar como se aos poucos eu fosse cedendo até estarmos deitados. Isso não aconteceu.

–Seu inimigo nunca vai tornar as coisas fáceis. Você tem que lidar com isso – sussurrei de volta – Não pode hesitar jamais – ergui o tronco e então estava novamente de pé tirando a jaqueta e jogando-a longe; estranhamente, tinha ficado quente demais. – Consegue atacar alguém que conhecia?

–Eu não poderia atacá-la.

Ele se levantou.

–Poderia sim – sorri de maneira confiante – Só que de um jeito diferente. Podemos continuar isso depois.

Dei as costas para Luke e comecei a me afastar quando o senti vindo em minha direção. Inclinei o corpo para trás e Luke passou a minha frente. Empurrei-o logo atrás do joelho direito, forçando o mesmo a colidir com o chão, enquanto segurava o braço direito atrás de suas costas, imobilizando-o. Eu ria e ele também.

–Você pode continuar tentando a madrugada inteira se quiser – sussurrei em seu ouvido e mordisquei sua orelha em seguida; ele suspirou – Eu não me importaria em te segurar de novo.

Ri em seu ouvido, mas baixinho, tornando a situação ainda mais excitante do que já era. Soltei seu braço e acariciei seu ombro. Ele ergueu-se devagar e virou-se para mim. O azul aço de seus olhos parecia mais intenso, mais escuro. Ele segurou minha cintura e me puxou para mais perto em movimentos vagarosos. Ele não tinha mais a intenção de me surpreender. Deixei minhas mãos em seus braços fortes e admirei seu rosto se aproximar do meu. Não sabia se olhava em seus olhos ou se olhava seus lábios e ele parecia ter a mesma dúvida...

–Thalia – meu nome foi chamado em voz alta, clara e fria.

Marcos. Por que tão inconveniente?

–Eu não tenho qualquer intenção de soltá-la – Luke sussurrou, mas havia afastado seu rosto do meu.

–Então não solte – sussurrei de volta – Aconteceu algo? – Perguntei a Marcos sem o menor constrangimento.

Ele sorria. Um sorriso frio e desalmado e segurava o dispositivo roubado de Polifemo... Eu sabia o que significava.

[...]

A questão era séria. Era o que eu queria, o que eu temia, o que eu ansiava encontrar. Estava ansiosa demais e queria desesperadamente agir, mas guardei isso para mim; não era o momento e precisava ser planejado. Marcos apenas nos revelou a informação em seu escritório. Luke cumpriu a palavra: sua mão continuou na minha o percurso todo e os olhos atentos de Marcos pegaram aquele detalhe. Aos outras também estavam lá e levaram seus aprendizes, os garotos da escola. De acordo com Marcos, aquela seria uma excelente missão de estréia para eles.

Havia aula no dia seguinte. Quinta-feira, aula o dia inteiro. Às duas da manhã eu seguia para meu quarto com Luke ainda em meu encalço. Não sabia como as meninas iam lidar com seus garotos, mas eu queria manter o meu por perto. Como na primeira vez em que entrara no meu quarto na mansão de Zeus, Luke ficou pasmo com a mordomia que eu tinha. Tirei o excesso de roupas e ele também antes de deitarmos na cama fofinha. Minha pele ainda se arrepiava em contato com a dele. Luke levou sua mão ao meu pescoço e desceu os carinhos e arrepios por meu ombro onde brincou de abaixar a alça do sutiã e deslizar os dedos na pele exposta.

–Sabe, princesa – ele disse em voz baixa e rouca de sono – Você é muito mais do que eu esperava.

–Isso é ruim?

Ele me puxou para mais perto e colou os lábios no meu ombro, no ponto onde a alça antes estivera. Estremeci em seus braços. Acariciava seus cabelos e arranhava suavemente seu pescoço esperando que ele respondesse.

–Isso é espetacular. – então suavemente puxou as cobertas sobre nós.

E adormecemos de mãos dadas. E despertamos de mãos dadas. O sorriso dele era mais brilhante que o sol nascente, era mais revigorante, era adorável. Fiquei encantada com a felicidade em suas feições. Fazia tantos anos que eu não via alguém daquele jeito: realmente feliz.

Quando nos levantamos percebemos um montinho de roupa sobre a poltrona mais próxima. Alguém trouxera o uniforme de Luke; ele ficou incomodado com isso, mas não demonstrou por mais de um segundo.

Fomos divididos em três carros: o meu, o de Annabeth e o de Bianca. Bia levava o irmão e Rachel, Annie levava Percy, Clarisse e Chris. O que deixava a mim com Luke como companhia. Eu sabia que seria um escândalo quando chegássemos à escola. E foi. Mal saímos do carro e os olhares convergiam com intensidade. Não era apenas para Luke e eu, Annie e Perseu pareciam desconfortáveis com aquilo; ele mais do que ela.

– Quero ver quando eles assumirem que estão ficando – riu Luke ao meu lado.

–Não vão tirar os olhos deles – ri de volta.

–Pensei que tinha deixado as coisas claras, vadia – era Kelli. Sobressaltei-me e senti Luke aproximar mais seu corpo do meu.

–Kelli – cumprimentei com meio sorriso.

–Luke – ela quase ronronou – Nós precisamos conversar sozinhos – a última palavra foi dita exclusivamente para mim.

–Eu sei bem o que você quer, Kelli, e não vai ter – ele disse a voz fria, o rosto rígido – Nosso namoro foi um erro. Nada mais.

–É injusto o que está fazendo comigo! Você cometeu alguns errinhos e eu também, mas podemos superar isso juntos!

Eles estavam começando a atrair olhares e eu me sentia mais e mais motivada a sumir dali; eu estava literalmente entre os dois! Eu procurava discretamente pelas mafiosas ou por qualquer um que me tirasse dali.

–Não existe nada para superar.

–Isso é por culpa dela, não é? – ela estava irada, mas graças a Deus não estava gritando.

–Não, é culpa sua e é culpa minha – Luke de repente rodeou meu corpo em um abraço protetor que chamou muita atenção – Deixe-a fora disso, Kelli.

–Não se ela for um empecilho na nossa relação.

–Não existe um “nós”! – Luke estava exasperado, mas eu estava mais. Por que raios eu ainda estava ali? Por que ele me segurava daquela forma na frente dela?

–Ela só é um troféu para você assim como eu fui. Quem será a próxima?

–Isso é ciúme, Kelli – ele sorriu quase em deboche, pois eu vislumbrei um brilho de pena naquela matiz – Thalia é importante para mim, não importa o que diga ou o que faça, eu quero ela. Eu só quero ela.

Naquele instante em que Kelli se corroia em dor, Luke baixou os olhos para os meus e pude ver cada palavra naquele brilho intenso. De alguma forma estranha eu sabia que Luke não estivera com nenhuma outra garota desde aquela noite na boate, aquela há tanto tempo atrás e que me dera minha nota mais baixa naquela escola, desde aquela noite eu sabia que ele entrara em abstinência e de certa forma eu havia feito o mesmo, se não levarmos em conta minha promessa a Bianca sobre aquele momento com Nico. Eu só quero ela. Meu coração se contorceu no meu peito, se encolhendo até não poder mais...

... O sinal tocou.

–Eu quero você, Lia – ele sussurrou para mim afastando o cabelo do meu rosto – Sou incapaz de dizer o quanto, princesa. – então o sorriso dele foi tão malicioso que senti minha pele vibrar em excitação – Aposto que logo encontraremos um tempinho para brincarmos juntos.

Aquela última frase deixava tudo com cara de “é apenas mais uma ficada muito gostosa”, mas eu sentia que era muito mais que isso. Eu quero você, Lia. Era sim. Eu só não sabia a dimensão daquilo.

Notas finais
*3* Hehehehehehehe, alguém está se apaixonando...