Gimme More

45 Capítulo 36


Notas iniciais
Olá Mafiosas... Prontas para outro surto de Zeus?

Capítulo trinta e seis –

Entrei em casa como se pisasse em nuvens fofinhas, o que era estranho demais para os meus padrões, parecia haver um tornado em meu estômago e tudo o que eu pensava era no carinho e na determinação de Luke. Ele não me deixaria ir. E eu acreditei naquelas palavras.

–Thalia.

Meu nome foi pronunciado com raiva, cólera. Eu sabia que Zeus estaria me esperando, mas não sabia que teríamos platéia. Hera estava lá com uma mão sobre o ombro de meu pai enquanto meus irmãos estavam sentados, os pratos já feitos, a comida minuciosamente decorada como se estivéssemos em um maldito e refinado restaurante.

–Zeus.

Cumprimentei em tom seco. Eu não sabia o que esperar, pois minha mente enevoada voltava em frases tão curtinhas...

–Você se tornou um problema maior do que o esperado, mocinha, preciso por um fim nisso já.

–Até porque é assim que você lida com tudo, não? Ignora o que não lhe agrada e o que te incomoda você despacha.

–É exatamente essa sua arrogância que deve cessar imediatamente.

–Já parou para pensar que foram as influências nesta casa que me deram esses maus modos?

–Thalia...!

–Eu sei meu nome. Não precisa repeti-lo com tanto desprezo.

Ele tremia. Com o canto dos olhos vislumbrei Hermes e Hefesto mexerem-se inquietos com o rumo daquela discussão. Eu não queria passar por aquela discussão, ansiava pelo momento em que meu corpo cansado cairia em minha cama e minha mão ditaria o caminho da caneta sobre as folhas do diário. Zeus fechou o punho e o soltou, mas esqueceu-se de respirar, pois seu rosto continuava com manchas vermelhas.

–Já vi internatos adequados na Suíça e outras opções mais exóticas como Índia e Japão, se colaborar comigo posso até permitir que escolha seu destino...

–Não sabia que me odiava tanto. – murmurei chateada, mesmo a maior parte do meu ser sendo uma legítima Princesa da Máfia, uma fração quase minúscula ainda se iludia e esperava o carinho do pai biológico; talvez fosse impossível matar essa parte tola e ingênua – Como tem coragem...?

–Não faça drama! – ele próprio mudou de posição; eu sabia que aquela minha pequena demonstração de emoção, de dor, havia afetado-o, Hera também sabia disso e apertou mais o ombro dele. Era ela que estava controlando-o e, ou ele não percebia, ou não se importava. A megera devia estar devidamente satisfeita com o meu quase certo despacho.

–Drama? Fiquei repetindo a mesma coisa na sua orelha por anos, e nesse ano em especial, e mesmo assim você me ignora, me despreza, repudia...

–Chega de dizer bobagens, menina – demonstrou estar todo desconcertado quando falou. Eu era muito filha de Abelle, mas havia verdades naquelas palavras e Zeus sabia. Ele ainda lembrava.

–Bobagens! Bobagens? – meus olhos encheram-se de lágrimas; eu sabia que Luke cumpriria a palavra e não me permitira partir, mas eu também tinha que lutar: aquela luta era mais minha do que dele – Quantas vezes eu te disse que não suporto sua distância, sua ausência? Foram mais de 12 anos esperando um beijo de boa noite ou um sorriso de bom dia, prometendo me recompensar por sua ausência, e o que você faz? Decide me mandar para um internato em outro continente! Que tipo de demônio você é?

–Thalia, não fale assim com o papai...

–Não se faça de bonzinho! Você espera isso dele a mais tempo do que eu! Não finja que estou errada, Hermes! – recompus parte da minha postura habitual, deixando as lágrimas ainda em meus olhos para dar maior credibilidade e emoção ao meu discurso – Eu não vou sair dessa cidade, Zeus, não importa o que você diga ou que faça. Sou muito parecida com Abelle, mas levo muito de você dentro de mim. E não pense que são coisas boas.

As palavras duras e cruéis de Nico, porém verdadeiras, gritavam em meus ouvidos. Lá estava eu cobrando de Zeus algo que ele não podia ou não sabia ou simplesmente não queria dar. Nico estava certo, eu realmente não sabia amar, mas estava tentando, não? Afinal, eu amava minhas amigas e amava Marcos e minha posição na Máfia e... Ofeguei, não podia ter pensamentos tão ridículos assim. De qualquer forma, Zeus nem tentava!

–Sente-se – disse ele rigidamente tentando controlar suas próprias emoções – Vai cear conosco como uma pessoa normal e respeitável enquanto decido sua situação...

–Não tenho fome.

–Não force mais minha paciência com você, Thalia!

–Não force a minha! – rosnei de volta – Já lhe disse que não vou fingir estar numa família perfeitamente feliz e que me recuso a participar um minuto que seja a mais nessa farsa! Não vou...

–VOCÊ É MINHA FILHA E VAI FAZER O QUE EU MANDAR! – gritou levantando-se tão subitamente que Hera tropeçou e a cadeira caiu – Se não comer conosco, então não comerá nada! – ele pronunciou devagar e bem alto embora não gritasse. Aquilo foi um choque para todos: Hera tentava esconder o sorriso de vitória, meus irmãos estavam pasmos no sentido ruim e tentaram falar em minha defesa, mas Zeus ergueu a mão para silenciá-los – Por mim pode morrer de fome!

Dei-lhe as costas sentindo-me angustiada, dei poucos passos em direção as escadas, mas parei ainda de costas, decidida a manter a pose, a dignidade...

–Não espere respeito de mim, Zeus. Não espere nada. – virei apenas o pescoço para olhá-lo com raiva; meus olhos faiscavam livres de lágrimas e carregados de desprezo – Espero que se lembre que ainda posso chorar para a mídia – deixei a ameaça no ar e eu percebi apenas pelas manchas roxas em seu pescoço que ele entendera e entendera bem.

Pensei seriamente em bater a porta com violência, mas desisti. Seria bancar a imatura que minha madrasta pensava que eu era; não daria esse gostinho, sabia que podia aguentar. Não estava incomodada com Zeus, não ainda. Rodei o quarto procurando minhas chaves para então ter o diário em mãos. Sentei-me a escrivaninha e relatei com minúcia o dia agradável que passara com Luke onde minha família desnaturada havia ficado oculta no mais profundo pensamento. Tomei um banho rápido e coloquei meu pijama, prendia o cabelo quando me decidi por descer aos túneis, naquela minha perfeita base de escuta. Queria saber o que estava acontecendo.

Abri a porta devagar e olhei pelos dois lados do corredor, escutei vozes que subiam pela direita, então segui rapidamente pela esquerda descendo as escadas discretas; parei. Hefesto sussurrava algo junto Apolo. Não pude ouvi-lo; segui meu caminho. Do lado de fora já, instintivamente abracei-me protegendo os braços do vento frio. Sentei-me da cadeira confortável de rodinhas, coloquei os fones e ajustei os monitores, os botões alternando os zooms das câmeras. Não sabia no que focar primeiro, havia três câmeras bastante chamativas, focos de diferentes conversas.

Enquadrei Zeus.

Ele estava na sala de refeições ainda. Hera estava sentada á seu lado. Inexplicavelmente não me incomodei. Ele esfregou os olhos com agressividade, com uma força excessiva.

– Thalia vai me deixar louco!

–Isso é porque você permite. – ela dizia em tom frio – Sempre soube disso. A nojentinha faz o que quiser de você e você aceita, permite que ela tenha a última palavra...

–E o que quer que eu faça?

–Você é o pai! Haja como um!

–Não cobre isso de mim – ele lançou um olhar perigoso a Hera, mas a vaca não se balou – Ela não é sua filha e...

–E é sua? Eu já lhe disse minha condição para permanecer ao seu lado. Você aceitou então não se faça de coitadinho.

–Hera... – ele suspirou – Não sei se estou fazendo o certo.

–E desde quando você se importa com o certo e o errado?

Zeus jogou os braços para cima.

–Ela é minha filha!

–Não finja que isso te incomoda agora – o desprezo dela me surpreendeu; nunca a imaginei tratando meu pai desse jeito: Zeus estava literalmente na coleira.

–Ela tem o talento da mãe com as pessoas, é muito carismática e bonita – Hera estremeceu – Tem o mesmo dom para o fingimento, ela pode me arruinar socialmente...

Eu gargalhei. Ele estava com medo da filhinha... Meu Deus! Aquilo era impagável!

–Ela não pode! Aprenda a colocar limites. Fez um trabalho razoável esta noite, mas ainda permitiu que ela lhe ameaçasse. Vou tornar a dizer: você já conhece meus termos para permanecer aqui.

–Mas você já é a única mulher em minha vida, meu amor! – ele tentou tocá-la, porém ela desviou-se.

–Thalia é a única mulher na sua vida realmente ligada a você e ela te odeia, te despreza. Quero todas e quaisquer outras mulheres longe de você e isso inclui a nojenta da sua filha. Não me importa o como, isso é problema seu. – ela rosnou – Eu não vou ser enganada de novo.

–Então seus termos incluem matar minha filha de fome? – ele perguntou ironicamente, apoiando a testa na mão.

–Se preciso ligue para a escola e invente uma história de que ela está fazendo um regime especial e que não deve comer nada.

–Assim acabarei fazendo-a me odiar mais...

–Como se ela já não odiasse! Eu não vou tolerar mais isso, Zeus. Para mim chega! Sou eu ou ela; você é livre para escolher.

Não quis ver mais. Mudei o monitor para direção onde havia visto meus irmãos conversando, entretanto eles já haviam ido. Como o foco das empregadas estava também normal, tudo silencioso, coloquei para ver as gravações.

Apolo e Hefesto pareciam discutir; ambos gesticulavam muito e pelo canto da câmera eu me via passar. Repeti a imagem três vezes regulando o som até achar uma altura decente sem que chiasse ou algo interferisse.

–... Papai não pode fazer isso! É um absurdo deixá-la sem comer – Apolo estava revoltado – Lia não fez nada de mais!

–Sim, ele foi longe demais desta vez – Hefesto parecia mais calmo, contudo estava igualmente angustiado, preocupado comigo.

–Cada vez que os vejo discutir sinto que Thalia tem mais razão. Nosso pai é um babaca! Só moro aqui em nome das aparências.

– Se contenha. Ouviu as ameaças dele!

–Então vamos ficar todos parados enquanto ele mata nossa irmã!?

–Não! Mas temos que pensar racionalmente. Acalme-se! Amanhã conversamos todos juntos com papai. Ele não pode manter essa opinião absurda por muito tempo.

Desliguei os monitores. Não tinha fome, nem vontade de comer, nem sede, nem nada. Não estava nem irritada para escrever mais no diário. Resolvi armazenar todos os vídeos ou pedaços que achava “importantes” em minha vida, situações marcantes. Simplesmente fui dando-lhes nomes e arquivando-os em ordem cronológica; não que estivesse bagunçado, mas era algo para fazer.

[...]

Zeus não facilitou mesmo minha vida. Na manhã seguinte lá estava os brutamontes para me acompanhar até a escola. Meu carro já estava na garagem, mas evidentemente eu iria com aqueles trastes. Eu era a máscara da frieza, indiferença. Na escola o diretor me chamou e explicou que a cantina não ofereceria a mim nenhuma alimentação devido um pedido médico e que Zeus “não conseguira me alertar naquela manhã” foi quando eu soube quem ele escolhera.

Aguentei quatro dias sem se quer resmungar. Não comentei nada com as meninas, ou com Luke, ou com Marcos. Ao contrário daquela conversa que eu vira meus irmãos não fizeram nada. E Zeus continuava a me colocar na coleira da mesma forma que Hera fazia com ele. A maior diferença era que eu estava impondo minha vontade: não olhava nos olhos de ninguém, chegava em casa muda e saía calada, trancava-me no quarto e não fazia um ruído. Era como um fantasma naquela casa.

Evidentemente concentrei-me no meu trabalho mafioso. O transporte de substâncias ilícitas pelo mar estava muito facilitado naquele ano e a fonte que nos liberava estava bem encoberta; não que eu não soubesse. Todos os sinais vinham das bases de Poseidon, mas o individuo que manipulava... Ainda estava encoberto. Não ficaria por muito tempo. Na manhã do quinto dia eu já me via mais pálida que o normal, havia acabado de completar uma transação referente à manutenção de uma escola no México e fui pentear meus cabelos em frente ao espelho da penteadeira. As meias 5/8, tênis All Star e o casaco do colégio somados a pinceladas de blush me deixavam com um ar de menina saudável. Pelo menos água era fácil de contrabandear.

Passava pela sala quando a voz de Zeus me parou; não olhei para ele.

–Acredito que vá tomar café da manhã com sua família... – ele não continuou, parou sabendo que não precisava de uma continuação. Meu papai acreditava que eu estava apenas esperando sua permissão para sentar e devorar quantos pães eu quisesse. Mas eu era forte. Havia sido criada para resistir a grandes provas. Continuei andando até onde os seguranças me esperavam na porta. – Thalia! – ele exclamou exaltado – Você não pode continuar com isso...

Eu já não ouvia mais.

[...]

O carro mal havia desaparecido do meu campo de visão quando meu braço foi rudemente puxado.

–O que houve princesa? – Kelli praticamente rosnou – Achou que não reclamaria do tempo que passa com meu namorado?

–Até onde sei vocês terminaram. – nem me dei o trabalho de fingir que não sabia do que ela falava.

–Mas vamos voltar.

–Então volte com ele e me deixe em paz. – puxei o braço de volta e o esforço me deixou tonta. Respirava com dificuldade e ela pensou que aquilo era devido a sua intimidação; como se uma vadia de esquina conseguisse intimidar-me.

Kelli deu um sorriso mostrando seus caninos num sorriso doente.

–Finalmente entendendo quem é que manda, não? Existe uma hierarquia de respeito aos mais velhos e já passou da hora de você segui-la.

Ela foi embora se juntando a Tammi e outras vadias; riram juntas sabe Deus do que. Continuei sentindo-me ligeiramente tonta e precisei apoiar-me na parede para recuperar o equilíbrio...

–Lia? – a voz suave, melódica de Annabeth soava quase distante. Meus olhos já estavam fechados e eu deslizava suavemente de encontro ao chão. Seu braço me envolveu e apenas senti-a sentada ao meu lado apoiando-me enquanto eu recuperava lentamente minhas forças – O que houve?

–Não deu nem para chamar aquilo de discussão. Sério! Quem aquela arrombada pensa que é? – resmunguei abrindo os olhos.

–Não Thals. Por que está tão pálida? Porque parece que vai desmaiar ao menor dos arranhões...

–Ao que parece, puxões também – voltei a apoiar minha cabeça em seu ombro; faltavam ainda dez minutos para o sinal tocar, mas o corredor onde nos encontrávamos não estava tão cheio assim, então contei o surto de Zeus. Annie não fez perguntas, deixou que eu falasse enquanto me abraçava e me acalmava.

–Podíamos ter ajudado – ela tentou conter a indignação enquanto falava da cantina, devidamente expliquei o que Hera motivara meu pai a fazer. – Mas você nem vai tentar...?

–Em casa meus irmãos foram ameaçados, nem sei bem como, os empregados estão nervosos, mas também foram avisados, Zeus colou todos em alerta, não vai permitir que eu me alimente sozinha.

O sinal tocou e nos demoramos a levantar. Ela ainda me observava com atenção compreendendo e aceitando tudo o que eu não havia dito: não comer era, a partir do momento em Zeus se expressara, uma questão orgulho. Se eu não comia nada era apenas para provar ao meu pai que eu estava disposta a morrer se fosse esse o preço de me manter distante dele. E Annie compreendeu.

Preferi ficar, no intervalo, sozinha lendo pela terceira vez Orgulho e Preconceito e ignorando o cheiro de comida que me embrulhava o estomago e me deixava com vontade de vomitar; tive que me concentrar em cada palavra do que lia, ler cada frase duas vezes ou mais para entender. Na saída meus carcereiros me aguardavam.

[...]

Quando fechei a porta e joguei a chave sobre a mesinha esperava estar sozinha em casa; mesmo sendo horário de almoço meus homens costumavam passar fora. Estava errada.

–Me dê o seu celular – a voz foi ríspida.

–Por quê? – não expressei nada. Estava completamente impassível e Zeus quase em cólera.

–Estou cansado de ter que lhe dar explicações...

–Você nunca as dá.

–Dê-me logo o celular! – entreguei relutante – Estou fazendo isso para impor-lhe limite. Já chega dessa sua rebeldia. Você agora vai se sentar e comer junto a mim e a sua madrasta.

–Pensei que era para você me deixar morrer de fome.

–Você é minha filha...

–Sempre o mesmo argumento. – bufei em frieza – Mas isso nunca te impediu de escolher ela, não? – Hera olhava-me com ódio, estava sentada no sofá com o perfeito porte de dama – Afinal, a condição para ela voltar para seus braços não é que se livre de mim?

–Como você...? – ele nunca terminou a pergunta.

–Fedelha! Agora fica se esgueirando pelos cantos ouvindo a conversa alheia? – ela rosnou já estando de pé; finalmente se mostrava como o demônio que era.

–Como se eu precisasse – voltei-me para Zeus – Ela já entregou o jogo, nem tente negar. É repulsivo o modo como você trata seus filhos, como me trata. Eu não vou comer nada com você e se necessário for eu morro!

–Acho melhor...

–Pouco me importa o que você acha.

–Está vendo? Ela está fazendo de novo! E você permite! – exclamou Hera, o rosto vermelho de raiva.

–Do que você está falando? – perguntei com raiva, mas eu sabia e Zeus também.

–Hera, não tente me dizer...

–Isso mesmo! – elevei a voz – Coloque a vadia no lugar dela. É bom que ela entenda que você é o meu responsável.

–Você deveria aprender isso também.

–Ah, mas eu sei disso perfeitamente. E é por essa razão que desejo fazer logo 18. Assim me livro de toda essa família nojenta.

–Vagabunda! Acha que agir como essas celebridadezinhas vai conseguir ser alguma coisa? – Hera desdenhou – É igualzinha a sua mãe. Abominável, metida, caluniadora...

–E mesmo assim Abelle e Thalia continuam sendo as únicas ligadas ao poderoso Zeus – coloquei de forma enfática – A aclamada esposa morta e a perfeita e intocável filha linda. E Hera? Quem é essa? – a crueldade em minha voz me surpreendeu – A substituta...

–Já chega Thalia!

–Aquela que nunca irá substituir Abelle...

–Thalia! – Zeus estava nervoso, mas eu nem piscava mantendo os olhos fixos em Hera.

–Aquela que nunca, jamais em nenhuma circunstância apagará Thalia Grace da vida do paizinho dela...

–Por Deus...!

–Você não é nada. Nunca foi. E nunca será.

Só não foi pior porque Zeus impediu: eu não tinha muitas forças, mas Hera estava bem saudável. A nojenta avançou para cima de mim com as unhas em um rosnado assustador. Ela teria atingido meu rosto, porém papai pegou-a pela cintura... Uma única unha, enorme e carmim, me atingiu; encontrou minha mão, o dedo indicador, e arrancou uma ínfima gota de sangue.

Não foi preciso mais nada. A tontura me atingiu com força, pontos negros invadiram meus olhos e cerca de 80% da minha visão sumiu, minhas pernas cederam... E surpreendentemente não encontrei o chão. Um braço em minhas costas, uma mão em minha cintura e o súbito silêncio na casa. Minha respiração estava acelerada e meus sentidos bagunçados, mesmo assim reconheci o carinho naquele aperto, quando ele puxou-me gentilmente até que eu tivesse minha cabeça apoiada em seu ombro; estava quase completamente dependente do corpo dele.

–Como você entrou aqui?

–Não importa – a voz de Luke era firme e fria, quase mafiosa; estremeci – Eu não vou permitir que o senhor a machuque mais.

–Quem pensa que é? Essa é minha casa, moleque! – a voz de Zeus era irritadiça e estava ficando tão distante...

–Não importa quem eu sou, quem você é ou onde estamos. Não vou permitir que ninguém a machuque, compreende?

–Vou denunciá-lo por invasão...

–E eu por maus-tratos. Privar a própria filha de se alimentar... Como ousa? Como ousa tratar Thalia desse jeito?

Minhas pernas cederam mais. Luke tirou-me do chão e senti seu coração agitado. Passei o braço ao redor de seu pescoço por instinto e sem de fato enxergar o que fazia, deslizei a unha sobre seu pescoço descendo pelo ombro enquanto ofegava, os olhos já fechados e aquela sensação de mal-estar...

–Minha filha... – Zeus chamou parecendo ainda mais distante e preocupado.

Apertei com toda a força que ainda tinha o pescoço do rapaz e então...

–Lia... – o sussurro angustiado de Luke foi a última coisa que ouvi.

Notas finais
Só que fiquei chocada com Zeus na coleira? o.O