Gift Of Love
8 Laranja
Notas iniciais
Respirei fundo o ar noturno me apoiando na sacada. Fechei meus olhos, eu não sabia direito o que estava sentindo provavelmente era uma mistura de euforia, medo e mais um milhão de sentimentos. Respirei fundo novamente soltando inconscientemente um sorriso sincero, aquilo era tão estranho, abri meus olhos e encarei o conjunto de apartamentos gêmeos provavelmente iguais a de Anna a minha frente, meu sorriso diminuiu uma sensação estranha tomou meu corpo, agora me sentia tenso, o medo estava tomando meu corpo aos poucos, seria aquilo uma crise de ansiedade como ouvi alguns estudantes de psicologia falando hoje na biblioteca? Abaixei minha cabeça firmando meus braços na sacada para logo levantar ela novamente e olhar para o lado, era possível ver algumas árvores agora laranjas por causa da estação que estávamos, elas pertenciam ao parque que Anna caminhava para chegar na faculdade, provavelmente estava a umas duas quadras? De repente decidi que o ar lá deveria ser mais puro e sem pensar duas vezes andei determinado pelo apartamento de Anna chegando até a porta principal e saindo de lá, assim abandonando a jovem garota em meio a seus sonhos adoráveis.
Sai do prédio sem ser notado pelo porteiro que cumprimentou Anna-Ester na manhã anterior, isso estranhamente me acalmou. Significava que talvez o incidente com Anna tivesse sido apenas uma coincidência ou uma impressão, mas a lembrança do peso de seus braços sendo apoiado em meus ombros novamente me assombraram.
Acelerei o passo observando a calçada bonita levemente iluminada pelas luzes que vinham dos postes, agora eu conseguia visualizar perfeitamente as árvores; banquinhos pintados de branco, os postes antigos cheio de detalhes pintados de um verde esmeralda agradável, ou até mesmo do leve declínio do terreno que dava acesso a um lago agradável no meio do parque.
Mas antes que eu conseguisse visualizar mais características do parque bonito parei de andar e olhei para uma rua, ela era tão pequena que se assemelhava quase a um beco, a iluminação do lugar era precária, quase sendo inexistente mas mesmo assim sem pensar duas vezes mudei meu caminho indo em sua direção.
Não era uma rua muito grande na verdade após sair da rua principal não demorou muito para me deparar com uma grande parede de tijolinhos mostrando que aquele era o final da rua, mas bastou olhar para o lado para ver que a rua continuava lá levando para um amontoado de residências, cada um dos blocos praticamente grudados um nos outros tinham dois andares, mas uma coisa me chamou atenção me fazendo andar pela frente de dois conjuntos de residências até chegar em um volume estranhamente cheiroso no meio da calçada. Olhei para o conjunto de residências daquele trecho e ambos os andares estavam desocupados – O que é no mínimo muito estranho na época de faculdade onde era quase impossível achar um lugar para morar – Sem dar muita importância para isso me sentei no meio-fio da calçada retirando o fino tecido de cima do que descobri logo depois ser um belo frango assado. Sem pensar duas vezes descontei minha frustração nele, normalmente minha espécie não consegue comer comida humana, e em teoria não necessitamos nós alimentar, mas quando o alimento vem dessa forma não existe problemas. Continuei descontando minha frustração no belo frango, quando senti um vento frio bater em minha pele, eu não precisava necessariamente olhar para saber que era outro ser da minha espécie normalmente nos víamos a áurea um do outro muito antes de realmente ver o espírito.
— Aham – o espírito recém chegado fez um barulho com a garganta para chamar minha atenção – O senhor por acaso não viu uma oferenda? Tive um chamado de invocação hoje de noite mas não consigo achar de jeito nenhum.– o espírito perguntou educado.
Olhei assustado para ele me dando conta que provavelmente a refeição que eu tinha acabado de fazer pertencia a o mesmo.
Antes que eu respondesse ele se sentou do outro lado do meio-fio.
— Essa rua é tão solitária, como alguém consegue morar aqui? – falou baixo mais para si próprio do que para mim.
— Senhor... – Chamei o fantasma com semblante bem humorado do meu lado. – Então, eu acho que sem querer comi sua oferenda.
O fantasma me olhou assustado como se minhas palavras fossem um ultraje, o que na realidade era.
Mas antes que o fantasma castanho avermelhado falasse algo indiquei a garrafa de vinho dentro da cesta:
— Mas a garrafa de vinho ainda está pela metade.
Isso pareceu aliviar as expressões arredondadas de seu rosto.
— Só um momento, vou limpar minhas mãos e já sirvo uma taça para você.
Peguei o primeiro papel que achei na minha frente, usando para limpar meu rosto e mãos enquanto o fantasma voltou a tagarelar:
— Engraçado, não achei meu guia de assombração quando fui invocado, normalmente eles aparecem do nada. Aquelas coisinhas são realmente rápidas.
— Pior que eu não tenho experiência com outras assombrações – falei pegando outro papel – foi a primeira vez que alguém me invocou.
O fantasma um pouco rechonchudo em minha frente olhou para mim e fazendo uma voz fininha começou a tentar apertar minhas bochechas me chamando de “bebe”, mas parou quando focou seus olhos em minhas mãos:
— Você acabou de usar minha guia de assombração como guardanapo? – falou desacreditado olhando para mim.
—Desculpa. Eu acabei não notando que era uma anotação – falei sorrindo envergonhado, enquanto esticava o papel em minhas mãos.
— Cara, eu deveria te dar uma surra. Mas o seu rosto...– parou de falar para analisar meus traços– É bonito demais para estragar.
— Encostos conseguem brigar?– falei de repente um pouco confuso e com toda certeza curioso.
Marcus olhou confuso para mim, é falou:
— Pior que eu nunca ouvi falar de ninguém que tenha brigado no nosso estado.
Me levantei e Marcus me acompanhou no movimento.
— Uma hora dessas a gente poderia tentar – falei despreocupado.
— É uma boa ideia – Marcus concordou.
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