Giants os Gigantes de Armadura
1 A caçada
Quando eu era criança, minha mãe costumava contar histórias sobre a floresta dos Giants, felinos gigantes que são treinados por seus domadores para se tornarem armas de guerra, na floresta também vivem os Lux, espíritos da floresta, minha mãe nunca soube descrever sua aparência pois sequer havia conhecido alguém que já os tinha visto, e se eu os visse e possuísse provas, eu teria honra, pois eles não permitem que as pessoas os vejam. Eu era muito novo quando ela decidiu me contar sobre a floresta.
— Quando a lua surge, os Giants se reúnem no lago de luz, onde fazem preces aos espíritos da floresta, para protegê-los de quaisquer perigos que possa afetar a paz e a harmonia, os espíritos nos protegem do perigo, quando ver um se ajoelhe e agradeça por ele existir. — Ela beijou meu rosto e com um leve sorriso se despediu. — Durma bem Alium.
— Pode me contar essa história de novo amanhã mãe? — Aquela era uma pequena parte de uma longa história que ela me contava todos os dias antes de dormir.
— Claro! Agora durma. — Eu queria muito conhecer a floresta quando era criança, mas quando cresci, passei a sentir medo, pois eu sabia que eu teria que viver nestas histórias.
...
Alguns anos depois acompanhado de meus pais, fiquei encarando a floresta que eu estava prestes a entrar para iniciar a caçada, alguns dias antes meu irmão mais novo havia conseguido um dos grandes e espero conseguir também. Quando crescemos e nos tornamos aptos a lutar contra um Giants temos que entrar na floresta, enfrentá-lo e se não morrermos conectamos nossa alma a ele, mas não é tão simples quanto parece, existem leis em nosso reino.
Não é permitido entrar na floresta se não for para se conectar, pois os Giants se alimentam dos perdedores, literalmente, comem. Nunca senti tanto medo, em saber que poderia não voltar para casa, que poderia não ver meus irmãos, sei que sou fraco, mas eu queria orgulhar minha família, mostrar que sou capaz, meu irmão é mais novo que eu, não posso ficar para trás.
— Filho...Você consegue! — Meu pai acariciou meu cabelo e com um leve sorriso, me encorajou.
— Me prometa que vai voltar Alium! — Mamãe me disse com o olhar, que eu não conseguiria, senti seu abraço tremer ao tocar meu corpo, senti como se fosse uma despedida.
Eles não eram meus pais biológicos, eu sempre soube, eu não parecia em nada com eles, os cabelos ruivos e olhos castanhos da minha mãe, o cabelo encaracolado de cor clara do meu pai, tenho o cabelo escuro, às vezes sentia curiosidade de saber quem eram meus pais de verdade, eles nunca me falaram sobre eles.
— Me prometa que vai voltar! — Mamãe estava com medo.
— Eu prometo mãe! Eu vou voltar. — Eu não tinha certeza alguma, mas eu queria.
— Use isto, eu fiz pra você. — Era uma jaqueta, negra como quando estamos de olhos fechados, comprida até os joelhos e parecia couro.
— Obrigado mãe. — Eu não disse nenhuma palavra de despedida, ela começaria a chorar se eu dissesse, fiz todo o possível e não olhei para trás, ouvi um gemido, ela chorava e se aquela fosse a última vez que eu a veria, não era chorando que eu queria ver minha mãe.
As árvores eram imensas, carvalhos para todos os lados, não demorou muito para que eu não pudesse vê-los. Cinco horas depois em meio a tantas árvores e mata, não ouvia um ruído de pássaros, pequenos animais ou mesmo os Giants.
Fiquei com fome, mas as árvores não possuíam frutos e não encontrava animais, minha barriga roncando, apenas me fazia lembrar daquele delicioso peixe empanado com batatas da mamãe, a fome ia ter que esperar...Um pouco a frente havia um pequeno lago, apenas iluminado pela luz da lua, ajoelhei para beber a água com as mãos, e ouvi o som de galhos se partindo, a cada segundo o som se aproximava cada vez mais alto, ao meu lado caíra uma raposa vermelha, não, não era uma raposa e sim uma Roux, ela era enorme, da minha altura, seu pelo alaranjado brilhava ao refletir o brilho da lua. As Roux eram guardiãs da floresta escura, uma das únicas criaturas que os Giants não atacavam, dóceis, e poucas pessoas já viram sua forma humana.
— Está ferida? Precisa de ajuda? — Sentia medo, aquela era a primeira vez que vi uma Roux tão próxima, suas orelhas estavam caídas e gemia de dor. E tinha um corte na pata.
— Não, obrigada. — Sua voz era suave e feminina, parecia de uma jovem garota. Se levantou com as patas dianteiras, aproximando o seu focinho do meu rosto e disse.
— Você não vai conseguir! — Caminhou para a direção oposta, eu não havia entendido o que ela estava querendo dizer, sequer a conhecia.
— Espera! – gritei. — Pelo menos me diga o seu nome. Se eu voltar, quero contar para minha mãe que eu conheci você.
— Adhara. — E correu em meio a floresta.
Eu não poderia esquecer daquele nome, também não havia nada em que eu pudesse anotar, pensava em minha mãe, em como ela ficaria orgulhosa quando eu contasse que conheci uma Roux, talvez ela faria um daqueles grandes pães para comemorar.
Atravessei o lago que não cobria o meu corpo, apenas chegava a altura do peito, era tão límpido que com a luz da lua era possível ver o fundo de pedrinhas coloridas, além de inúmeros peixes pequenos que me rodeavam, eu já estava no centro do lago quando borboletas começaram a se aglomerar, havia algo estranho, elas pareciam estar em sincronismo, mas estavam longe para que eu pudesse ver, mergulhei de olhos abertos, mas de nada adiantava, pois eu não conseguia ver o que acontecia, alguns segundos depois as pedrinhas coloridas no fundo do lago começaram a cintilar, e com o espanto me ergui.
Não eram borboletas, e sim os espíritos da floresta, tinham um corpinho magricela, olhos grandes e orelhas pontudas, seus cabelos emaranhados, parecia que nunca lavavam e suas vestes pareciam fios de Bombyx Mori.
Os espíritos me encararam por alguns instantes e voaram floresta adentro, estavam assustados por eu tê-los visto, mas algo não havia ido embora, um Giants do outro lado do lago, seus olhos amarelos e pelo negro estirado o fazia ser ameaçador, devia ter mais de dois metros, mesmo assim, parecia ser um filhote, mas era o maior felino que eu havia visto, se eu saísse do lago eu teria que lutar com ele, mas eu não podia, pois não podemos fazer uma ligação com Giants negros, então fiquei ali esperando ele ir embora "Os Felinos negros são amaldiçoados, nunca se aproxime de um!" eu nunca soube porque eu não poderia me aproximar de um Giants negro, de o porquê eles eram amaldiçoados.
Não sei ao certo durante quanto tempo ele ficou me encarando, não tirava os olhos de mim, parecia que eu era a sua caça e que eu não passava de um petisco...ele se moveu, pensava que iria embora, mas apenas se deitou e fechou os olhos, a lua estava coberta por nuvens e eu não o via naquela escuridão, as pedrinhas se apagaram com a lua se escondendo e o frio aumentava a cada minuto que eu ficava na água, tentei ficar em total silêncio caminhando até a margem do lago, quando senti a terra, suspirei aliviado.
— Como você está? — Uma voz doce surgiu, não sabia de onde vinha. — Parece nervoso, como se chama? — Aquilo estava vindo da minha cabeça. Em frente ao meu rosto, olhos amarelos de pupilas enormes me encararam, e com apenas uma frase estremeci de tanto medo. — Você está com medo de mim? — Medo? Era pouco para descrever o que eu sentia, corri para o centro do lago novamente, e ele não se moveu de onde estava.
As horas passavam e o frio aumentava, as vezes eu tentava atravessar a margem, mas ele me encurralava, eu não sabia por quanto tempo ficaria ali e minhas pernas doíam a cada minuto em pé.
— Você não vai ficar a noite toda ai, vai? — Sua voz doce e a maneira que falava comigo não parecia que me faria algum mal, mas era melhor eu não arriscar e preferi me manter parado no centro do lago...a lua surgiu novamente e as pedrinhas reluzentes iluminaram o lago fazendo o Giants surgir da escuridão. — Estou ficando cansada, vou até você já que não vai sair. — Eu havia pensado que era macho, mas não, na sua voz havia delicadeza, mas o tom era quase imperceptível saber se era macho ou fêmea, mas isso não era o mais importante, ela entrou na água, acreditava que estava com medo de entrar, ou que não podia, achei que eu estava seguro ali dentro.
— Você entrou...
— Sim! Já estava ficando cansada de te esperar sair. — Desta vez eu não corri, ela era maior e mais veloz, "Me prometa que vai voltar Alium!", eu tinha que voltar, mostrar a todos que aquela não seria a última vez que me veriam, abaixei devagar, sem tirar meus olhos dela, e peguei a maior pedra que estava ao meu alcance, eu não possuía mais nada além daquilo para me defender, ela se aproximou e não fez nenhum gesto de que me atacaria, cada vez mais próxima, levantei a mão para jogar aquela pedra, mas parei, a forma com que me olhava, seus olhos refletindo a luz do fundo do lago e parecendo um arco-íris de vinte cores não eram olhos de um caçador, soltei a pedra no chão e esperei ela chegar até mim, talvez eu estivesse enganado, talvez morreria ali mesmo e esse seria o meu último suspiro.
Ela se aproximou cheirando meu cabelo, eu queria tocá-la mas não sabia se deveria, mas decidi fazê-lo, acariciando seu nariz, ela ronronou.
— Eu não vou te machucar! Eu nunca havia visto um humano tão próximo de mim. Me chamo Geneviève.
— Você não vai me machucar? — Aprendi desde criança que os Giants negros são amaldiçoados e não podemos fazer ligação com eles, mas aprendi uma outra coisa naquele dia, eles não eram perigosos.
— Eu nunca falei com um humano antes. — Ela parecia estar mais interessada na minha presença, do que me imaginando como seu lanchinho. — Você assustou os espíritos, deveria tê-los cumprimentado. — Ela deu algumas voltas, me olhando curiosa, realmente não deveria ter visto um humano de tão perto antes. Seu rabo era comprido e extremamente peloso, e a cada vez que a lua se escondia entre as nuvens, não conseguia vê-la, mas eu sabia, que ela estava me vendo.
—Você é amaldiçoada? — Desde quando entrei naquela floresta, me despedindo dos meus pais, imaginava que quais queres Giants que eu encontrasse, tentaria me atacar, e deveria estar preparado para lutar, mas algo não estava acontecendo como me diziam, talvez porque ela era um Giants negro.
— Amaldiçoada...Porque eu seria amaldiçoada? — O tom de sua voz, parecia não entender o porquê da minha pergunta, e me fez ficar confuso sobre o porquê de seres humanos não poderem se aproximar destes Giants ou fazer a ligação da alma.
— Eu preciso ir embora. — Ela não parecia que iria me machucar e virei as costas caminhando para o outro lado do lago.
— Boa viagem! — Sua voz fez eu me sentir seguro de que conseguiria, e de que ela não me faria nenhum mal.
A floresta conectava 3 regiões de Zendaya, era tão grande que apenas conseguiria sair se me ligasse a um Giants, ou simplesmente se perderia e morreria de fome. Já estava amanhecendo, quando notei que o Giants que encontrei no lago estava me seguindo, ao olhar para trás ela tentou se esconder atrás de algumas árvores, mas era impossível, seu tamanho não permitia. Fingi não notar sua presença e continuei a andar, em alguns momentos pensava que encontraria árvores com frutos, mas não havia nada, nada além de árvores e...silêncio, tão silencioso que olhei para trás por alguns instantes enquanto caminhava procurando a Giants.
— Ahhh! — gritei ao escorregar de um barranco, tenho certeza que devo ter girado naquela descida íngreme durante uns quarenta segundos, as pedras na queda me concederam alguns pequenos cortes no rosto e rasgos na jaqueta que minha mãe havia feito, cansado de procurar, mas não esperava que fosse daquela forma...Estava caído no chão e rodeado de Giants, eram menores que o negro que eu havia visto, mas, ainda assim, assustadores.
...
Talvez aquela seria a última vez que eu sentiria meus batimentos, pois a sensação era de que meu coração sairia pela boca, se eu encontrasse um, e apenas um, teria alguma chance, mas era um grupo deles, todos rajados e de olhos verdes. Me levantei do chão e não havia para onde ir, todos os caminhos possíveis estavam bloqueados, começaram a se afastar, mas eu tinha certeza que não era por minha causa, olhei a minha volta e um deles, que pude diferenciá-lo dos outros por um corte em seu rosto estava se aproximando, e sem pensar muito no que fazer peguei o galho mais próximo no chão, deveria ter no máximo 40 centímetros de comprimento, eu sabia que aquilo não iria espantá-lo, mas era o que eu tinha no momento.
Vagaroso se aproximava, me olhava fixamente, suas pupilas estavam dilatadas, e andava como se estivesse prestes a atacar sua presa, mas era aquele momento que eu descobriria se, eu morreria, ou voltaria para casa.
Não demorou muito e ele saltou para cima de mim, sua boca abriu com a intenção de me morder na primeira oportunidade, cai de costas, e tentando me proteger estiquei o braço com o galho, o Giants pegou-o triturando com seus dentes afiados. Agora eu não tinha mais galhos, no chão havia apenas pedregulhos pequenos.
— Quer ajuda? Senão você vai morrer. — A voz da Giants negra surgiu em meus pensamentos, olhei em volta mas não a encontrava, iria pedir ajuda, mas eu tenho certeza que meu irmão não teve. Me aproximei dele mesmo com todo o medo que eu estava sentindo, tentei golpeá-lo inúmeras vezes com socos, mas não conseguia acertar, pois ele era mais veloz, com apenas um golpe me derrubou, caído no chão tentei me levantar e antes que eu pudesse senti suas garras perfurarem minhas costas.
— Ahhhhhh! — Senti minha pele rasgar, e arder incessantemente enquanto as unhas escorregavam por ela, meus olhos fechavam lentamente e como uma mancha escura vi a Giants negra se aproximando em meio a floresta.
...
Fiquei inconsciente pelo resto do dia, e recobrei a consciência sentindo uma dor quase insuportável.
— Como você está? — A Giants estava deitada me encarando.
— Estou bem! — Eu nunca soube mentir, pois a cada letra que eu falava era um gemido de dor. — O que aconteceu?
— Te salvei!
— Muito obrigado. — Desde quando eu havia entrado na floresta, senti medo de perder a vida, e quase perdi, mas me senti seguro com ela.
Me levantei se aproximando da Giants e ela se ergueu também se aproximando, sua altura a fazia olhar pra baixo para me ver.
— Eu consigo me ver. — Era estranho ter a voz de alguém dentro dos meus pensamentos, mas o que era ainda mais estranho era que além de ela conseguir se ver, eu também estava me vendo, estávamos vendo pelos olhos um do outro, e num instante eu soube...que nossas almas estavam ligadas.
Fale com o autor